Horror Abstrato (Nota-1)

No twitter, @SamoBurja propôs o silêncio da galáxia como um tópico horrorista não desenvolvido. Ela está certo.

A ausência de quaisquer sinais de inteligência alienígena foi primeiro observada como um problema por Enrico Fermi, em 1950. Ele achava a escancarada inconsistência entre a aparente probabilidade de vida muito difundida no cosmo e sua óbvia invisibilidade provocadora ao ponto de um paradoxo. “Onde estão eles?”, perguntou ele. (Respostas a esta pergunta, bem representadas nas referências da Wikipédia, constituíram uma corrente significante de especulação cosmológica.)

Entre pensadores recentes, Nick Bostrom tem estado especialmente obstinado em perseguir as implicações do Paradoxo de Fermi. Abordando o problema através de uma ontologia estatística sistemática, ele demonstrou que ele sugere uma ‘coisa’ – um ‘Grande Filtro’ que, em algum estágio, peneira as potenciais civilizações galáticas a quantidades negligenciáveis. Se esta filtragem não ocorre cedo – devido a impedimentos astro-químicos à emergência da vida – ela tem que se aplicar mais tarde. Consistentemente, ele considera quaisquer indicações de vida galáctica abundante como sendo agourentas ao extremo. Uma Grande Filtro Tardio, então, ainda estaria adiante (para nós). O que quer que seja, estaríamos em nossa aproximação a um encontro com ele.

Com cada nova descoberta de exoplaneta, o Grande Filtro se torna mais sombrio. Uma galáxia repleta de vida é uma história de horror. Quanto menos há obstruindo nosso nascimento, tanto mais há esperando para nos matar ou arruinar.

Se pudéssemos vislumbrar claramente a calamidade que nos esperava, ela seria um objeto de terror. Em vez disso, ela é uma ameaça sem forma, ‘Lá Fora’ apenas no sentido abstrato (abrangendo a imensidão negativa de tudo o que não podemos compreender). Ela poderia estar em qualquer lugar, desde nossos genes ou dinâmicas ecológicas até as leis ocultas da evolução tecnológica ou nas imensidões hostis entre as estrelas. Sabemos apenas que, em estrita proporção com a vitalidade do cosmo, a probabilidade de sua existência avança em direção à inevitabilidade e que, para nós, ela significa mal supremo.

Densidade ontológica sem forma identificável é o horror abstrato em si. Conforme o Grande Filtro deriva inexoravelmente, de um desafio que poderíamos, imaginavelmente, já termos superado para um encontro que, de forma cada vez mais fatalista, esperamos, o horrorismo é engrossado pela vindicação estatística-cosmológica. O desconhecido se condensa em uma coisa sem forma e predatória. Através de nossos sensores e cálculos tecno-científicos, a Sombra murmura para nós, e a probabilidade insiste que encontraremos com ela logo.

Original.
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Exterioridade

Em um universo alternativo, em que não houvesse ninguém além de Michael Anissimov e eu brigando pela identidade da Neorreação, eu iria propor uma distinção entre ‘NRx Interna’ e ‘Externa’ como o eixo mais apropriado de fissão. Naturalmente, neste universo real, tal dimensão secciona um rico tecido de nós, tensões e diferenças.

Para a facção interna, uma identidade essencial firmemente consolidada é a ambição central. (Vale a pena notar, contudo, que uma relação ainda não interrogada com o transhumanismo parece não menos problemática, em princípio, do que a relação vastamente mais ferozmente contestada com o libertarianismo demonstrou ser.) A NRx Interna, enquanto micro-cultura, se modela sobre um estado protegido, no qual o pertencimento é sagrado, e as fronteiras, rigorosamente policiadas.

A NRx Externa, definida primariamente pela Saída, se relaciona com aquilo de que escapa. Ela é refúgio e periferia, mais do que um núcleo substituto. Ela jamais espera governar o que quer que seja (acima do nível mais microscópico de realidade social e aí sob nomes bastante diferentes.) O Patchwork é para ela um conjunto de opções e oportunidades de alavancagem, em vez de um menu de lares potenciais. Ela é intrinsecamente nômade, incerta e micro-agitadora. Sua cultura consiste de afastamentos dos quais ela não se arrepende. (Embora nem remotamente globalista, ela é inequivocamente cosmopolita – com o entendimento de que o ‘cosmo’ consiste de chances para cisão.)

A NRx Exterior tende a gostar de libertários, pelos menos daqueles com uma forte persuasão de direita, e o portal que permitiu que ela estivesse fora do libertarianismo é a zona ideológica à qual ela gravita. Deixar o libertarianismo (pela direita) fez dela o que ela é e continua a nutri-la. O ‘entrismo’ – como foi frequentemente observado – não é uma ansiedade significante para a NRx Exterior, mas bem mais um estímulo e, em sua forma mais aguda, uma provocação intelectual bem-vinda. Não são os espertalhões refugiados do PZA que ameaçam a reduzir sua exterioridade e colocá-la de volta em uma armadilha.

O Lado de Fora é o ‘lugar’ da vantagem estratégica. Ser jogado lá fora não é causa para nenhuma lamentação, nem um pouco.

Original.

Segredo Aberto

A NRx tem sido acusada, por seus amigos mais do que por seus inimigos, de falar demais sobre si mesma. Aqui está o XS, fazendo isso novamente, não apenas preso no ‘meta’, mas determinadamente empurrando cada vez mais fundo. Há algumas razões facilmente comunicáveis para isso – um apego à não-linearidade metódica talvez em primeiro lugar entre elas – e depois existem pulsões ou apegos crípticos, inadequados para a publicização imediata. Estes últimos são muitos (até mesmo Legião). É afirmação firme deste blog de que a Neorreação é intrinsecamente arcana.

Não falamos muito sobre Leo Strauss. Mais uma vez, existem algumas razões óbvias para isto, mas também outras.

O artigo recente de Steve Sailer sobre Strauss para a Takimag serve como uma introdução conveniente, porque – apesar do seu toque leve – coloca uma série de questões no lugar. A constelação de vozes é complexa desde o princípio. Há o (agora notório) ‘Neo-Conservadorismo’ de Strauss e seus discípulos, ou manipuladores e o outro conservadorismo de Sailer, cada um trabalhando para administrar, abertamente e em segredo, sua mistura peculiar de declarações públicas e discrição. Lá fora, para além deles – porque mesmo a figuras mais sombrias têm sombras ulteriores – estão formas mais alienígenas e mal perceptíveis.

O artigo de Sailer é tipicamente inteligente, mas também deliberadamente cru. Ele glosa a ideia straussiana de escrita esotérica como “falar por ambos os lados de sua boca” – como se o tradicionalismo hermético fosse redutível a uma estratégia política lúcida, ou simples conspiração – ao Iluminismo, concebido politicamente. No esteira de seu trauma Neo-Con, o conservadorismo tem pouca paciência para “anéis decodificadores secretos”. Ainda assim, apesar de sua aversão aos recentes trabalhos dos sofisticados ‘conservadores’ do círculo interno, Sailer não deixa sua aversão lhe atrair para a estupidez:

Não temos ouvido muito sobre Straussianismo ultimamente devido à infeliz série de eventos no Iraque que vitimaram os melhores planos dos sábios. Mas isso não significa que Strauss estava necessariamente errado sobre os antigos. E isto tem implicações interessantes para como deveríamos ler obras atuais.

Como a aproximação do 20º aniversário da publicação de The Bell Curve nos lembra, as melhores mentes da nossa era têm razões para ser menos do que totalmente francas.

Sailer não é, claro, um neorreacionário. Nem mesmo secretamente. (Seu artigo é primariamente sobre isto.) Ele acredita na esfera pública e busca curá-la com honestidade. Qualquer pessimismo que ele pudesse abrigar, no que diz respeita a esta ambição, fica muito aquém do que o atiraria por sobre a linha. Suas diferenças com os Straussianos são, no fim das contas, meramente táticas. Ambos mantêm a confiança no Partido Externo enquanto veículo para a promoção de políticas, com o potencial de dominar a esfera pública. A questão é apenas quanto ao grau de artimanha que isto exigirá (mínimo para Sailer, substancial para os Straussianos).

Quando adotada dentro da Neorreação, a corrente da BDH tem uma influência bem mais corrosiva sobre as atitudes para com a esfera pública, que é entendida como uma agência social teleologicamente coesa (ou auto-organizadora), inerentemente direcional e (da ‘nossa’ perspectiva) radicalmente hostil. Batizar a esfera pública como ‘a Catedral’ é se afastar do conservadorismo. Não é mais possível imaginá-la como um espaço que poderia ser conquistado – mesmo que sorrateiramente – por forças que diferem significantemente daqueles que ela já encarna. Ela é o que é, e isto é algo historicamente singular, ideologicamente específico e altamente determinado em sua orientação social. Ela nada para a esquerda, essencialmente. A esfera pública não é o campo de batalha, mas o inimigo.

Hail-hydra00

Conforme a NRx busca navegar este território hostil, ela é tentada, de maneira ambígua, por uma Cila e Caríbdis estratégica. Uma isca populista a arrasta em direção a uma reconciliação com a esfera pública, como algo que ela poderia potencialmente dominar, ao passo que uma política hermética contrária a guia em direção à formação de grupos fechados (cujo símbolo paródico é a conta de twitter protegida). Ambas as opções – ‘claramente’ – são uma fuga da complexidade do segredo aberto integral. Ambas prometem um relaxamento da pressão semiótica, através do colapso da comunicação multi-níveis em um simplificado discurso franco, seja ele implantado dentro de uma cultura pública redimida ou circulado cuidadosamente dentro de círculos restritos. O problema da hierarquia seria extraído a partir dos sinais da Neorreação, através da conversão em um objeto público ou privado, em vez de trabalhá-los incessantemente a partir de dentro. O que está a caminho se tornaria (simplesmente) claro.

Tal claridade não pode acontecer. A alternativa não é uma (igualmente simples) obscuridade. A NRx, na medida em que continua a se propagar, avança tornando-se clara e também obscura. Escrita dupla mal arranha a superfície. Ela realiza a hierarquia através de sinais, continuamente, de acordo com a Providência, ou a Ordem Oculta da natureza (a OOon). Assumir que o autor está completamente iniciado neste espectro de significados é um grave erro. É o processo que fala, multiplicitamente e predominantemente em segredo, conforme ele se espalha através de um espaço aberto e publicamente policiado.

Este post está agora determinado a desatar a coleira e pular para dentro da aspereza das notas temáticas. O Segredo Aberto intercepta:

(1) A censura da Catedral, no caso da BDH mais proeminentemente, mas também em todo lugar em que SWJs muito excitados fazem uma luta. Guerra é enganação, o que torna a franqueza uma tática. A honestidade deontológica é inepta. A anonimidade é frequentemente crucial para a sobrevivência. (Exigências de que todos os inimigos da Catedral corajosamente ‘saiam do armário’ são ridiculamente mal concebidas.) A camuflagem deve ser estimada.

(2) Cripto-tecnologias são centrais para quaisquer preocupações NRx que enfatizem a praticidade. (A ideia de que a clássica atenção de Moldbug aos prospectos de ‘cripto-bloqueio’ é uma piada é, em si mesma, irrefletida.) O Urbit – um Segredo Aberto – poderia bem facilmente ser mais NRx do que a NRx, assim como o Bitcoin é mais An-Cap do que o Anarco-Capitalismo.

(3) Os serviços de inteligência foram sub-teorizados e talvez mesmo sub-solicitados pela NRx até hoje. No nível mais baixo – isto é, mais publicamente acessível – de discussão, isto é bem possivelmente uma virtude. Em níveis mais crípticos de empreendimento microssocial e analítico, é quase certamente uma inadequação. Pessoas treinadas para manterem segredos têm que ser interessantes para nós. Questões sutis de subversão surgem.

(4) “Verdadeiramente tu és o Deus que te ocultas, o Deus de Israel, o Salvador.” – Vamos tentar não ser simplórios.

Original.

Alfanomia

O antigo (2007?) mecanismo qabalístico dA Urbanomic – a ‘gematrix’ – está de volta on-line (2) após um petulante desaparecimento. Apenas a numerização AQ é recomendada – as alternativas são randomizações digitais degeneradas. (Concentre-se nas numerizações intactas – os valores digitalmente reduzidos são normalmente rudimentares demais para compreensões significantes.)

Para entender imediatamente uma série de coisas (simultaneamente) digite a Lei da Telema: Do what thou wilt shall be the whole of the Law.

Esta ferramenta e, mais especialmente, o método – ou gematria específica – que ela encarna são a consumação da rigorosa Tradição Oculta Anglófona. Embora seu valor esteja quase certamente perdido nos modernos, ela está uma vez mais livremente disponível para ser usada.

Ela agora é um Segredo Aberto.

ADICIONADO: DARK ENLIGHTENMENT = 333. (Isto precisa estar aqui para referência.)

Original.

Gnon e OOon

O Twitter faz as pessoas contarem caracteres e, assim, numerizarem a língua. Em apenas muitos poucos casos esta atividade microcultural tomba para dentro das extravagâncias mais selvagens do qabalismo exótico, mas ela cutuca a inteligência nesta direção. Mesmo quando a única questão é estritamente booleana – esta mensagem vai se espremer em um tweet ou não? – as palavras adquirem uma significância suplementar a partir de suas propriedades numéricas apenas. Uma frase é momentaneamente numerada, na mais crua das maneiras, que a caixa de tweets registra como uma contagem regressiva até zero e, então, até a acumulação negativa de transbordamento. O Twitter promove, assim, uma prática semiótica rigidamente limitada pela convenção, que ele simultaneamente esconde, instanciando tecnologicamente um análogo preciso de um ritual hermético.

Qabalismo é a ciência da fantasmagoria, o que o torna um companheira natural em qualquer expedição ao horror. Há, além disso, uma inclinação reacionária intrínseca a seu ultra-tradicionalismo e apego ao princípio de revelação hierárquica. Sua história concreta fornece um exemplo insuperável de auto-catálise espontânea (a partir de convenções discrepantes de notação aritmética). Este post, contudo, se restringe a uma discussão muito preliminar de sua pressuposição intelectual mais básica, como se ele tivesse sido desenvolvido a partir de uma filosofia implícita (o que não foi). Ele será persuadido a fazer sentido, na contramão de sua inclinação essencial.

Dentro da tradição abraâmica, a Palavra de Deus antecipa a criação. Na medida em que a escritura registra fielmente esta Palavra, os escritos sagrados correspondem a um nível de realidade mais fundamental do que a natureza e um a que o ‘livro da natureza’ faz referência, enquanto chave para seu significado final. O desenrolar da criação no tempo segue uma narrativa traçada na eternidade, na qual a história e a divina providência são necessariamente idênticas. Não podem haver quaisquer acidentes verdadeiros, ou coincidências.

O Livro da Criação é legível e inteligível. Ele pode ser lido, e conta uma estória. As ruidosas disputas entre a ortodoxia religiosa e as ciências naturais que irromperam nos tempos modernos ameaçam abafar a continuidades mais profundas de presunção, que enquadram a rancorosa contenção entre ‘crença’ e ‘descrença’ como uma disputa doméstica íntima. Isto não é ilustrado em nenhum lugar mais claramente do que na declaração atribuída a Francis Bacon: “Meu único desejo terreno é… estender os limites deploravelmente estreitos do domínio do homem sobre o universo a sua fronteiras prometidos… [a natureza será] atada em servidão, perseguida em suas andanças e colocada na cremalheira e torturada por seus segredos”. Não há dúvida de que a natureza pode falar e ela tem uma estória a contar.

Resistindo a qualquer tentação de tomar lados neste argumento de família, referimo-nos, de maneira neutra, a Gnon (“natureza ou Deus da natureza”), ignorando toda dialética e partindo em outra direção. A distinção a ser traçada não diferencia entre crença e descrença, mas, antes, discrimina entre religião exotérica e esotérica.

Qualquer sistema de crença (e descrença complementar) que apele ao endosso universal é necessariamente exotérico em orientação. Como os caçadores de bruxas ou Francis Bacon, ela declara guerra ao segredo, em nome de um culto público, cujas convicções centrais são dispensadas de maneira comum. O Papa é o Papa, e Einstein é Einstein, porque o acesso à verdade que os eleva acima dos outros homens é – em sua natureza mais íntima – de igual posse de todos. O pináculo da compreensão é alcançado através de uma fórmula pública. Isto é a democracia em seu sentido mais profundo e de crença.

A religião esotérica aceita tudo isto, sobre a religião exotérica. Ela confirma a solidariedade entre autoridades doutrinárias e as crenças das massas, ao passo que exime a si mesma, de maneira privada, do culto público. Sua atenção discreta é dirigida para longe da máscara exotérica de Gnon, para dentro da – ou em direção à – OOon (ou Ordem Oculta da natureza).

A OOon não precisa ser mantida em segredo. Ela é secreta por sua natureza intrínseca e inviolável. Uma excursão qabalística muito primitiva deve ser suficiente para ilustrar isto.

Assuma, de maneira inteiramente hipotética, que uma inteligência sobrenatural ou complexidades obscuras na estrutura topológica do tempo tenham sedimentado profundidades abismais de significância dentro das ocorrências superficiais do mundo. O ‘Livro da Criação’, então, é legível em muitos (muitíssimos) níveis diferentes, com cada detalhe aleatório ou inconsequente dos aspectos relativamente exotéricos fornecendo material para sistemas de informação mais ‘abaixo’. Quanto mais se escava o ‘caos sem significado’ do substrato comunicativo exotérico, mais desobstruído fica seu acesso aos sinais da absoluta Exterioridade. Uma vez que ‘se’ é, para sua carne viva, um produto sinalético, essa empreitada criptográfica é irredutivelmente uma viagem, transmutação e desilusão.

O exemplo mais completamente documentado é a leitura esotérica da Bíblia Hebraica, que só precisa ser comentada aqui em suas características mais gerais. Já que o alfabeto hebreu serve tanto como um sistema fonético quanto como um conjunto de numerais, cada palavra escrita na língua tem um valor numérico preciso. Ela é, de uma só vez, uma palavra exotérica e um número esotérico. Nada impede que usuários ordinários da língua deliberadamente codifiquem (numericamente) conforme escrevem ou mesmo enquanto falam. A chave para o decriptamento numérico não é um segredo, mas sim um recurso cultural comumente compreendido, utilizado por todo indivíduo numerato. Não obstante, os aspectos linguístico e aritmético estão de fato bastante estritamente separados, porque pensar em palavras e números simultaneamente é difícil, porque manter a inteligibilidade paralela continuada em ambos é perto de impossível, porque a tentativa de fazê-lo é (exotericamente) sem sentido e porque a praticidade domina. A esfera esotérica não é proibida, mas simplesmente desnecessária.

Que a Bíblia Hebraica não tenha sido deliberadamente concebida como uma composição numérica-criptográfica intricada por autores humanos é, portanto, um fato empírico ou contingente que pode ser aceito com extrema confiança. Seu canal esotérico poderia, claro, como o senso comum tem que insistir, estar vazio de qualquer coisa além de ruído, mas ele está, não menos certamente, limpo. O que quer que venha através dele, que seja qualquer coisa além de nada, só pode vir do Lado de Fora. É a real diferença entre os níveis exotérico e esotérico que torna a OOon sequer pensável. Apenas aquilo que o exotérico não toca está disponível para que o esotérico se comunique através dele e se monte a partir dele. O Qabalismo tem que ser raro, a fim de que ocorra. Por esta razão, ele não pode buscar persuadir as massas de nada, a não se de sua própria falta de sentido. Em uma era de exoterismo triunfante, isto não é uma coisa fácil de entender (graças a Gnon).

Original.

Nosso Futuro

Temo que eu absolutamente tenha que roubar isto. É de ‘anônimo’ (claro), então eu não posso dar os créditos apropriadamente.

Levanto, saio da cama, me preparo para servir meu senhor Schlomo II.
O ano é 17 A.G., recentemente me mudei para o patch de Schlomo II depois de me prometerem um lote maior de pão do que eu recebia sob Chaim II.
Porra, aí sim, é isso que é progresso, opa, digo, restauração. Porra, aí sim.
O ônibus automático do rei me leva ao palácio para trabalhar
O ônibus pega um túnel subterrâneo para que entremos pela a entrada de serviço no porão
No meu caminho de entrada, noto um grupo de novos recrutas no RH fazendo testes de QI em uma fileira de terminais
Uma das telas começa a piscar em vermelho, o alarme eletrônico soa “PLEB DE QI 130 DETECTADO”
Drones pululam para dentro e pegam o gentio, digo, rapaz que fazia o teste, o arrastam pra longe
Graças a Gnon, você conseguem imaginar viver com tamanhos imbecis?
Fico pronto para começar a trabalhar
Todo trabalho real é feito por robôs superiores
Humanos recebem pagamento para entreter o rei
Acabei de receber um grande promoção do departamento de bajulação
Coloco meu traje de caranguejo
Entro na sala do trono real. Schlomo II sentado em seu trono
Passo o resto do dia dançando no traje de caranguejo para o Rei Schlomo, cantando hinos para Gnon
Quase no fim do turno, o mestre do entretenimento entra e diz ao Rei que é hora do entretenimento final
Isso vai ser bom
O pleb de QI 130 de mais cedo é trazido por drones, colocado ante o rei
Mestre do Entretenimento: “Senhor, este homem é culpado de envenenar nosso mundo com seu DNA de QI baixo”
Rei: “Acusado, você tem algo a dizer em sua defesa?”
O Acusado: “Senhor, eu posso ser burro, mas eu sempre fui leal. No ano 15 B.G., eu comecei um feed NRx no twitter com citações de Moldbug e memes reacionários de gatos”
Toda a sala do trono está em silêncio aguardando a resposta do rei
Dançarinos caranguejo, bajuladores, a família real, parasitas, o pato piadista real, todos em silêncio
Rei: “Ha! Nenhum homem de QI 130 poderia verdadeiramente compreender os textos sagrados da NRx. Você é um mero entrista. Dêem-no de comer a Gnon!”
Uma ovação cresce, toda a sala começar a cantar: “Gnon Gnon Gnon Gnon”
Uma tela se acende do lado oposto da sala, com um rosto indiferente e frio
Um poço de fogo se abre diante da tela
Os drones do rei arrastam o pleb que grita para dentro do poço e ele morre uma morte horrível
Os drones do rosto: “Isto apetece Gnon. Agora, mais dança de caranguejos.”
Merda. Tenho que fazer hora-extra
O turno finalmente acaba e o ônibus-robô me leva de volta pra minha tecno-cabana
Como meu lote de pão enquanto assisto The Radish Report
Que grande época para se estar vivo

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Caixa de Pandora

O Anarchopapist desencadeu uma tempestade no twitter com isto. É um post que tem muitos tópicos indo ao seu encontro e o transpassando. O elogio mais relevante que eu posso fazer a ele é dizer que ele é potencialmente perturbador, em um sentido bem mais do que psicológico. Será interessante ver quão contagioso ele se prova ser. (Como este post demonstra, este blog já está infectado.)

Laliberte pergunta: “há diferença entre o fogo de Prometeu e a caixa de Pandora?”. Dado tudo que é dito sobre o Prometeico e o trabalho ideológico-teórico bastante considerável que ele realiza, não é estranho que o Pandórico mal seja reconhecido como um termo ou um conceito sequer? Falar sobre o fogo é mero deslumbramento raso, em comparação com qualquer exame sério das caixas. Caixas não apenas têm uma forma, mas também um interior e um lado de fora, o que significa – pelo menos implicitamente – uma estrutura transcendental. Elas modelam mundos e sugerem caminho para fora deles.

A caixa de Pandora, claro, é significante sobretudo por seu conteúdo, que é liberado ou sai. A chama prometeica, que é roubada, é contrastada com a praga pandórica, que escapa. Laliberte aproveita a opotunidade para discutir memes (e o ‘hipermeme’). Um ser infeccioso é solto, na forma de um Basilisco Neorreacionário. (No twitter, Michael Anissimov lamenta a irresponsabilidade desta eclosão.)

Pandora (Πανδώρα – a que tudo dá e talvez a onimagnânima) é uma figura dos mais profundos recônditos da Antiguidade Clássica, cujos primeiros ecos detectáveis são encontrados nos textos hesiódicos do século VII A.C. Seu mito funciona – pelo menos superficialmente – como uma teodiceia, comparável, de muitas maneiras, com a estória da Eva bíblica. Ela libera o mal dentro da história através da curiosidade e, assim, tece uma inteligência terrível, de um tipo que antecipa o Basilisco de Roko e a ameaça da IA Hostil. O Experimento da IA na Caixa é tão pandórico que arde.

Entre os horrores do Basilisco está aquele de que falar sobre ele estar dentro – e sobre como mantê-lo ali – já é a maneira em que ele sai. Daí o extraordinário pânico que ele gera, entre aqueles que começam a pegá-lo (no sentido epidemiológico, entre outros). Mesmo pensar sobre ele é sucumbir.

No Less Wrong, vozes baixas atestam uma resiliente veneração de Pandora. Ela é perigosa (e qualquer coisa perigosa, dada apenas inteligência, pode ser uma arma).

Original.