O Iluminismo Sombrio, Parte 4e

Parte 4e: História transcodificada

Democracia é o oposto de liberdade, quase inerente ao processo democrático é que ele tende na direção de menos liberdade, em vez de mais, e a democracia não é algo que pode ser consertado. A democracia está inerentemente quebrada, assim como o socialismo. A única maneira de consertá-la é romper com ela.
Frank Karsten

O historiador (principalmente da ciência) Doug Fosnow pediu que os condados “vermelhos” dos EUA se separassem dos “azuis”, formando uma nova federação. Isso foi recebido com muito ceticismo pela audiência, que notou que a federação “vermelha” não ficaria com praticamente nenhum litoral. Doug realmente pensou que uma secessão dessas tinha alguma probabilidade de ocorrer? Não, ele admitiu alegremente, mas qualquer coisa seria melhor do que a guerra racial que ele acha provável que ocorra, e é dever dos intelectuais propor possibilidade menos horríveis.
John Derbyshire

Assim, em vez de por meio de uma reforma de cima para baixo, sob as atuais condições, sua estratégia deve ser a de uma revolução de baixo para cima. A princípio, a compreensão dessa visão pareceria tornar a tarefa de uma revolução social liberal-libertária impossível, pois isso não implica que ter-se-ia que persuadir uma maioria do pública a votar pela abolição da democracia e por um fim a todos os impostos e legislação? E isso não é pura fantasia, dado que as massas são sempre estúpidas e indolentes, ainda mais dado que a democracia, como explicado acima, promove a degeneração moral e intelectual? Como alguém pode esperar que uma maioria de pessoas cada vez mais degeneradas, acostumadas com o “direito” de votar, jamais renunciasse voluntariamente à oportunidade de saquear a propriedade alheia? Colocado desta maneira, tem-se que admitir que o prospecto de uma revolução social deve, de fato, ser considerado como virtualmente nulo. Em vez disso, é apenas com base em uma reconsideração, ao considerar a secessão como uma parte integral de qualquer estratégia de baixo para cima, que a tarefa de uma revolução liberal-libertária parece menos do que impossível, mesmo que ainda continue sendo intimidadora.
Hans-Herman Hoppe

Concebida de maneira genérica, a modernidade é uma condição social definida por uma tendência integral, resumida como taxas de crescimento econômico sustentadas que excedem os aumentos de população e, assim, marcam uma escapada da história normal, aprisionada dentro da armadilha malthusiana. Quando, no interesse da apreciação desapaixonada, a análise é restrita aos termos deste padrão quantitativo básico, ela suporta uma sub-divisão nos componentes positivo (crescimento) e negativo da tendência: contribuições tecno-industriais (científicas e comerciais) à aceleração do desenvolvimento, por um lado, e as contra-tendências sócio-políticas à captura do produto econômico por parte de interesses especiais de rent-seeking democraticamente empoderados (demosclerose), por outro. O que o liberalismo clássico dá (revolução industrial), o liberalismo maduro leva embora (por meio do cancerígeno estado de intitulações). Na geometria abstrata, isso descreve uma curva em S de fuga auto-limitante. Assim como um drama de liberação, é uma promessa quebrada.

Concebida de maneira particular, como uma singularidade ou coisa real, a modernidade tem características etno-geográficas que complicam e qualificam sua pureza matemática. Ela veio de algum lugar, se impôs de maneira mais ampla e levou os vários povos do mundo a uma extraordinária gama de novas relações. Estas relações eram caracteristicamente ‘modernas’ se envolviam um transbordamento dos limites malthusianos anteriores, permitiam a acumulação de capital e iniciavam novas tendências demográficas, mas elas reuniam grupos concretos em vez de funções econômicas abstratas. Pelo menos em aparência, portanto, a modernidade foi algo feito por pessoas de um certo tipo com – e não incomumente a (ou mesmo contra) – outras pessoas, que eram conspicuamente diferentes delas. No momento em que hesitava no declive de desvanecimento da curva em S, no começo do século XX, a resistência às suas características genéricas (‘alienação capitalista’) havia se tornado quase inteiramente indistinguível da oposição à sua particularidade (‘imperialismo europeu’ e ‘supremacia branca’). Como consequência inevitável, a auto-consciência modernista do núcleo etno-geográfico do sistema deslizou em direção ao pânico racial, em um processo que só foi reprimido pelo surgimento e imolação do Terceiro Reich.

Dada a tendência inerente da modernidade à degeneração ou auto-cancelamento, três prospectos amplos se abrem. Estes não são estritamente exclusivos e não são, portanto, verdadeiras alternativas, mas, para propósitos esquemáticos, é útil apresentá-los como tal.

(1) Modernidade 2.0. A modernização global é revigorada a partir de um novo núcleo etno-geográfico, liberado das estruturas degeneradas de seu predecessor eurocêntrico, mas sem dúvida confrontando tendências de longo prazo de um caráter igualmente mortuário. Este é de longe o cenário mais encorajante e plausível (de uma perspectiva pró-modernista) e, se a China permanecer, mesmo que aproximadamente, em seu curso atual, será certamente realizado. (A Índia, infelizmente, parece ter ido muito longe em sua versão nativa da demosclerose para competir à sério.)

(2) Pós-Modernidade. Equivalendo essencialmente a uma nova idade das trevas, na qual os limites malthusianos se reimpõem brutalmente, este cenário assume que a Modernidade 1.0 globalizou tão radicalmente sua própria morbidez que todo o futuro do mundo colapsa ao seu redor. Se a Catedral ‘vencer’, estas são as consequências.

(3) Renascença Ocidental. Para renascer é primeiro necessário morrer, então, quanto mais forte a ‘reinicialização forçada’, tanto melhor. Crise abrangente e desintegração oferecem as melhores chances (mais realisticamente como um sub-tema da opção #1).

Visto que a concorrência é boa, uma pitada de Renascença Ocidental apimentaria as coisas, mesmo que – como é extremamente provável – a Modernidade 2.0 seja a principal rodovia do mundo para o futuro. Isso depende do Ocidente parar e reverter basicamente tudo que vem fazendo há mais de um século, com exceção apenas de inovações científicas, tecnológicas e empresariais. É aconselhável manter a disciplina retórica dentro de um modo estritamente hipotético, porque a possibilidade de qualquer uma dessas coisas é profundamente colorida pela incredulidade:

(1) Substituição da democracia representativa pelo republicanismo constitucional (ou por mecanismos governamentais anti-políticos ainda mais extremos).

(2) Redução massiva do governo e seu confinamento rigoroso a funções centrais (no máximo).

(3) Restauração da moeda lastreada (moedas de metais preciosos e notas de depósito desses metais) e abolição do banco central.

(4) Desmantelamento da discrição monetária e fiscal do estado, abolindo assim a macroeconomia prática e liberando a economia autônoma (ou ‘catalática’). (Este ponto é redundante, uma vez que ele se segue rigorosamente do 2 & 3 acima, mas é o verdadeiro prêmio e, logo, digno de enfatização.)

Há mais – isto é, menos política – mas já está absolutamente claro que nada disso vai acontecer aquém de um cataclisma existencial da civilização. Pedir que os políticos limitem seus próprios poderes é um não-começo, mas nada a menos nem remotamente leva na direção certa. Este, contudo, não é sequer o problema mais amplo ou profundo.

A democracia poderia começar como um mecanismo procedural defensável para se limitar o poder do governo, mas ela rápida e inexoravelmente se desenvolve em algo bastante diferente: uma cultura de roubo sistemático. Tão logo os políticos tenham aprendido a comprar apoio político com o ‘dinheiro público’ e tenham condicionado os eleitorados a abraçar a pilhagem e o suborno, o processo democrático se reduz à formação das ‘coalizões distributivas’ (de Mancur Olson) – maiorias eleitorais cimentadas juntas pelo interesse comum em um padrão coletivamente vantajoso de roubo. Pior ainda, uma vez que as pessoas não são, na média, muito brilhantes, a escala de depredação disponível para o establishment político de longe excede até mesmo o saqueamento insano que está aberto ao escrutínio público. Pilhar o futuro, através de degradação monetária, acúmulo de dívidas, destruição do crescimento e retardamento tecno-industrial, é especialmente fácil de ocultar e, assim, confiavelmente popular. A democracia é essencialmente trágica porque fornece à população uma arma para se destruir, uma que sempre é avidamente aproveitada e usada. Ninguém jamais diz ‘não’ para coisas de graça. Quase ninguém sequer vê que não existem coisas de graça. A ruína cultural total é a conclusão necessária.

Dentro da fase final da Modernidade 1.0, a história americana se torna a narrativa mestra do mundo. É ali que o grande transmissor cultural abraâmico culmina no neo-puritanismo secularizado da Catedral, conforme estabelece sua Nova Jerusalém em Washington DC. O aparato do propósito messiânico-revolucionário é consolidado no estado evangélico, que está autorizado, por quaisquer meios necessários, a instalar uma nova ordem mundial de fraternidade universal, em nome da igualdade, dos direitos humanos, da justiça social e – sobretudo – da democracia. A confiança moral absoluta da Catedral garante a busca entusiasta de um poder centralizado irrestrito, otimamente ilimitado em sua penetração intensiva e em seu escopo extensivo.

Com uma ironia completamente escondida da própria prole dos queimadores de bruxas, a ascensão dessa corte de sombrios fanáticos morais a alturas previamente inescaláveis de poder global coincide com a decadência da democracia de massas a profundidades previamente inimagináveis de corrupção gulosa. A cada cinco anos, a América rouba-se de si mesma novamente e se revende em troca de apoio político. Essa coisa de democracia é fácil – você simplesmente vota no cara que lhe promete mais coisas. Um idiota conseguiria fazê-lo. Na verdade, ela gosta de idiotas, os trata com aparente gentileza e faz tudo o que pode para fabricar mais deles.

A tendência implacável da democracia à degeneração apresenta um caso implícito a favor da reação. Uma vez que cada um dos principais limiares de ‘progresso’ sócio-político levou a civilização ocidental em direção a uma ruína abrangente, um retraçamento de seus passos sugere uma reversão da sociedade de pilhagem a uma ordem mais antiga de auto-suficiência, indústria e comércio honestos, aprendizado pré-propagandístico e auto-organização cívica. As atrações desta visão reacionária são evidenciadas pela voga de vestuário, símbolos e documentos constitucionais do século XVII entre a minoria substancial (Tea Party) que claramente vê o curso desastroso da história política americana.

O alarme de ‘raça’ já soou na sua cabeça? Seria surpreendente se não tivesse. Cambaleie de volta, em imaginação, até antes de 2008, e o sussurro tenso da consciência já está questionando seus preconceitos contra revolucionários quenianos e professores marxistas negros. Continue em reverso até a era da Grande Sociedade / Direitos Civis e os avisos alcançam um tom histérico. É perfeitamente óbvio, neste ponto, que a história política americana progrediu ao longo de trajetórias gêmeas e entrelaçadas, que correspondem à capacidade e à legitimação do estado. Lançar dúvidas sobre sua escala e escopo é, simultaneamente, disputar a santidade de seu propósito e a necessidade moral-espiritual de que ele comande quaisquer recursos e imponha quaisquer restrições legais que possam ser requeridas para cumpri-lo. Mais especificamente, recuar da magnitude do Leviatã é demonstrar insensibilidade à imensidão – de fato, quase infinitude – de culpa racial herdada e ao único imperativo categórico sobrevivente da modernidade senescente – o governo precisa fazer mais. A possibilidade, de fato quase certeza, de que as consequências patológicas do ativismo governamental crônico tenham há muito suplantado os problemas que ele originalmente visava é uma contenção tão completamente mal-adaptada à época da religião democrática que sua insignificância prática é garantida.

Mesmo na esquerda, seria extraordinário encontrar muitos que genuinamente acreditam, após continuada reflexão, que o moto primário da expansão e centralização do governo tenha sido o desejo ardente de fazer o bem (não que intenções importem). Ainda assim, conforme as trajetórias gêmeas se cruzam, tamanho é o choque elétrico do drama moral, saltando o fosso entre o Gólgota racial e o Leviatã intrusivo, que o ceticismo é suspenso, e o grande mito progressista, instalado. A alternativa a mais governo, fazendo cada vez mais, era ficar lá, negligentemente, enquanto eles linchavam outro negro. Esta proposição contém todo o conteúdo essencial da educação progressista americana.

As trajetórias históricas gêmeas de capacidade e propósito estatal podem ser concebidas como um protocolo de tradução, que permite que qualquer restrição recomendada ao poder do governo seja ‘decodificada’ como obstrução maligna da justiça racial. Este sistema de substituições funciona tão suavemente que fornece todo um vocabulário de ‘code-words‘ ou ‘dog-whistles‘ (bipartidários) – ‘welfare’, ‘liberdade de associação’, ‘direitos dos estados’ – garantindo que qualquer elocução inteligível na Dimensão Política Principal (esquerda-direita) ocupe um registro duplo, semi-saturado de evocações raciais. A regressão reacionária cheira a frutos estranhos.

…e isso é antes de se sair do calamitoso século XX. Não foi a Era dos Direitos Civis, mas a ‘Guerra Civil Americana’ (nos termos dos vencedores) ou ‘Guerra entre os Estados’ (naqueles dos vencidos) que primeiro transcodificou indissoluvelmente a questão prática do Leviatã com a dialética racial (negro/branco), estabelecendo o centro de junção do antagonismo político e retórico subsequente. O passo primário indispensável em compreender esta fatalidade serpenteia ao longo de uma estranha diagonal entre os relatos estatista mainstream e revisionista, porque a conflagração que consumou a nação americana no início dos anos 1860 foi inteiramente, mas não exclusivamente, sobre a emancipação da escravidão e sobre direitos dos estados, sem nenhuma ‘causa’ sendo redutível a outra ou suficiente para suprimir as duradouras ambiguidades da guerra. Embora exista algum número de ‘liberais’ felizes em celebrar a consolidação de um poder governamental centralizado na triunfante União, e, simetricamente, um número (bem menor) de neo-confederados apologistas da instituição da escravidão nos estados do sul, nenhuma dessas posições não conflituosas capturam o legado cultural dinâmico de uma guerra através dos códigos.

A guerra é um nó. Ao dissociar, na prática, a liberdade em emancipação e independência e então arremessar uma contra a outra em meia década de carnificina, azul contra cinza, estabeleceu-se que a liberdade seria quebrada no campo de batalha, qualquer que fosse o resultado do conflito. A vitória da União determinou que o sentido emancipatório da liberdade prevaleceria, não apenas na América, mas ao redor do mundo, e o eventual reino da Catedral foi garantido. Não obstante, o esmagamento da segunda guerra de secessão da América fez piada da primeira. Se a instituição da escravidão deslegitimava uma guerra de independência, o que sobrevivia de 1776? A coerência moral da causa da União exigia que os fundadores fossem reconcebidos como proprietários de escravos brancos patriarcais politicamente ilegítimos e a história americana comburida na educação progressista e nas guerras culturais.

Se a independência é a ideologia dos donos de escravos, a emancipação requer a destruição programática da independência. Dentro de uma história transcodificada, a efetuação da liberdade é indistinguível de sua abolição.

Original.
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O Momento NRx

Este não é ele.

O fenômeno Trump realmente é algo, uma crise da democracia e um despedaçamento da Janela de Overton muito inclusos, mas não é uma coisa intrinsecamente direitista e é radicalmente populista em natureza. Uma exploração reacionária do demotismo não é um episódio neorreacionário. É a Alt-Right que tem o devido crédito da captura do espírito deste desenvolvimento. Não somos nós.

A NRx está situada absolutamente fora da política de massa. Seu momento raia apenas quando a Era das Massas estiver concluída.

Ela estará concluída. A emergência da propriedade soberana (primária), liberada do critério da legitimação democrática é seu sinal. O governo, nestas bases, é neocameral. As tendências históricas profundas que a suportam incluem:

(1) Propriedade apolítica. Nenhuma realidade ou concepção dessa foi historicamente realizada ainda. Pois, enquanto a propriedade for determinada como uma relação social, ela não poder ser. A propriedade absoluta é criptográfica. Ela é mantida, não por consentimento social e, assim, acordo político, mas por chaves. Fnargl é um experimento mental provocador, mas as chaves privadas da CCP são um fato inegociável. Elas definem a relação de propriedade com um rigor que toda a história precedente da filosofia e da economia política foi incapaz de alcançar. Tudo que se segue da transição criptográfica – o Bitcoin mais notavelmente – contribui para o estabelecimento de um sistema de propriedade para além da prestação democrática de contas (e, desta forma, insensível à Voz). A administração neocameral implementa um estado criptográfico, estritamente equivalente a um governo completamente comercializado.

(2) Capital autônomo. A definição da corporação como uma pessoa legal estabelece as bases, dentro da modernidade, para a agência comercial abstraída que logo será realizada em ‘Corporações Autônomas Digitais’ (ou DACs). A escala da transição econômica assim implicada é difícil de superestimar. O consumo de massa enquanto fonte básica de receita para a empresa capitalista é superado em princípio. A convulsão iminente é imensa. O desenvolvimento industrial autopropulsor se torna seu próprio mercado, liberado da dependência de desejos de consumo populares (ou popularizáveis) arbitrários. A administração da demanda, enquanto base da governança macroeconômica, acabou. (Ninguém está remotamente pronto para isto ainda.)

(3) Segurança robótica. O rebaixamento definitivo das massas militares completa a trifeta. A massa armadas enquanto modelo da cidadania revolucionária declina à insensatez, substituída por drones. A Asabiyyah deixa inteiramente de importar, não importa o quanto continue a ser um foco de apego romântico. A industrialização fecha o ciclo e protege a si mesma.

O grande jogo, para as agências humanas (de qualquer escala social) se torna um de cooperação produtiva com formações de propriedade soberana, com a ameaça de violência política de massa varrida da mesa. A Alt-Right não é qualquer tipo de preparação para isto. Sua aventura é bastante diferente, o que não quer dizer que seja desinteressante ou – no curto prazo – inteiramente sem consequências, mas é exaurida por seu demotismo. Ela pertence à era que está morrendo, não à que está nascendo.

A modernidade sócio-política tem sido um argumento sobre distribuições de propriedade, e a Alt-Right agora demonstrou que a Esquerda (auto-consciente) não tem qualquer monopólio sobre isso. Conforme a senescência se aprofunda, a dialética rasga toda a estrutura apodrecida em pedaços. A NRx – quando entende a si mesma – não está argumentando.

Original.

Determinismo Militar

“Esse rifle na parede do casebre do trabalhador ou do apartamento da classe trabalhadora é o símbolo da democracia”, escreveu George Orwell. Este é um argumento familiar – e importante. (ESR ensaia um versão ligeiramente diferente dele aqui.) Um caso poderoso pode ser feito a favor da imprensa enquanto tecnologia catalítica da modernidade, mas é o mosquete que mais inequivocamente obliterou o poder feudal em seu âmago, inaugurando a era da cidadania armada – nacionalismo, exércitos revolucionários e a vontade popular enquanto questão de consideração estratégica séria. A democracia cheira a pólvora.

Isto levanta, por implicação, a sugestão de que o crescente sentimento de crise democrática é um sintoma, cuja causa subjacente é uma transição no cálculo militar, não menos profundo do que aquele que convulsionou o mundo no início da Renascença. Se a infraestrutura do avanço democrática é a centralidade estratégica da população armada – sintetizada na infantaria em massa – seu horizonte será marcado pela desconexão tecnológica entre o poder militar e ‘o povo’. Quais são as características da paisagem política aberta pelo surgimento da guerra robótica?

Robôs são capital. Eles consumam uma tendência que tem vinculado o hard power à capacidade industrial em toda a era moderna. Conforme eles se tornam cada vez mais autônomos, a matriz política-popular na qual eles têm emergido é cada vez mais marginalizada. A lealdade – um profundo marcador de posição para o consentimento dos cidadãos – é formalmente mecanizada como controle criptográfico. A autonomização do capital, que tem assombrado o mundo moderno por séculos, escala para um novo estágio, imediatamente auto-protetivo e, em última análise, soberano. Os mercenários sempre exigiram uma vinculação política auxiliar, porque as pessoas são apenas fracamente contratuais, e a lealdade não pode – no fim das contas – ser comprada. Os robôs não apresentam nenhuma dessas restrições. Eles se conformam a uma ordem de poder tecno-comercial ilimitado.

Se alguém aprova a demolição do Ancien Régime pela pólvora, pouco importa (se é que importa). O caso da guerra robótica iminente não é nem um pouco diferente a este respeito. O domínio estratégico do povo está entrando em seu crepúsculo. Alguma outra coisa acontece a seguir.

Original.

A Palavra com ‘F’

O fascismo está de volta, aparentemente. No mínimo, pode estar se tornando mais interessante se falar sobre ele.

No período imediatamente seguinte à Segunda Guerra Mundia, ambos os blocos triunfantes se moveram rapidamente para definir a palavra ‘fascismo’ de maneira expediente. O objetivo crítico, de cada lado, era enfatizar aquelas características comparativamente minimizadas em sua própria versão doméstica do fenômeno, a fim de sublinhar a impressão de que eles haviam inequivocamente se colocado contra ele. O ‘fascismo’ era, definitivamente, aquela coisa derrotada recentemente e a um custo enorme. Os imensos sacrifícios – e, na verdade, a progressiva reconstrução fascista da sociedade que fora acelerada durante os anos da guerra – eram justificados pela derrota esmagadora de um mal absoluto. A distinção era imperativa. Assim, os soviéticos chamaram atenção, em particular, para o comparativamente abafado anti-capitalismo das potências do Eixo, ao passo que os aliados atlânticos se concentraram nos ornamentos exóticos do arianismo antissemita alemão. É particularmente notável que a definição ocidental predominante de fascismo seja excepcionalmente mal adaptada a sequer a mais básica compreensão do original italiano, e que as narrativas anti-fascistas tanto ocidental quanto soviética sejam compelidas a minimizar o socialismo revolucionário em suas raízes, nas variantes tanto italiana quanto alemã.

Tudo isto é compreensível o suficiente, mas mistifica grosseiramente a realidade do fascismo, que foi simbolizado – universalmente – pela economia de guerra do século XX. Todos os principais competidores da Segunda Guerra – incluindo as grandes potências asiáticas, Japão e China – desenvolveram uma governança fascista em um estado avançado. A característica essencial foi a apreensão estatal do ‘alto comando’ da economia no ‘interesse popular’ delegado (e integrado). Durante o tempo de guerra, tal interesse é revertido à pura sobrevivência e, assim, divulgado com dramática intensidade, o que também é dizer com uma incomum ausência de ceticismo. O fascismo é, portanto, amplamente idêntico a uma normalização dos poderes de guerra do estado moderno, isto é: mobilização social continuada sob uma direção central. Consequentemente, ele envolve, além da centralização da autoridade política em um conselho permanente de guerra, uma histerização tribal da identidade social e uma considerável medida de pragmatismo econômico. O fascismo é o socialismo prático, distinto de seu primo obscuro por sua compreensão bem mais sofisticada de incentivos, ou da natureza humana em sua particularidade motivada individual e tribal. Quando comparado com o comunismo universalista, as vantagens práticas do fascismo são tais que o ‘socialismo realmente existente’ sempre logo vira ele. Nacional-socialismo e socialismo em um país são não coisas sensatamente separáveis. Todo mundo sabe que o significado literal de ‘fascismo’ é agrupamento.

Assim como seus concorrentes europeu continental e soviético, o fascismo americano havia sido completamente consolidado por volta do começo da guerra. O New Deal cimentou seus pilares estruturais no lugar. A socialização da economia através de um banco central, a transformação da Suprema Corte em uma facilitador do sobre-alcance executivo sistemático e a transformação da política de massa através de tecnologias de mídia radio-difusiva compuseram uma ordem política nova e pós-constitucional. É esta formação que está tão flagrantemente entrando em sua fase de demência terminal hoje.

Uma vez que o estado fascista se justifica através da guerra perpétua, ele naturalmente gosta de guerras que não podem acabar. A Guerra Fria parecia uma, mas não era bem isso. A Guerra ao Terror é uma aposta melhor. Em relação a sua interminabilidade, se não sua intensidade moral, as ‘guerras’ à pobreza, às drogas e a outras condições sociais resilientes são mais atraentes ainda. Lutar guerras modernas, e seus produtos secundários, é para o que serve o estado fascista. Vencê-las ocasionalmente, e por acidente, é sempre apenas um infortúnio. A lição parece ter sido inteiramente aprendida.

A recente adaptação para a televisão do profético O Homem do Castelo Alto de Philip K. Dick é uma indicação sugestiva de um despertar ideológico geral. Em contraste dramático com o mito histórico predominante, o fascismo venceu a Segunda Guerra tão decisivamente que seus oponentes foram levados às franjas políticas do paleo-conservadorismo (outrora o conservadorismo mainstream), do libertarianismo (outrora liberalismo mainstream) e do trotskismo (outrora simplesmente ‘comunismo’). A vitória foi tão completa que mesmo objetivos políticos tão descaradamente fascistas como a nacionalização poderiam ser considerados totalmente inocentes da mácula fascista. Não era sequer necessário dizer: “Nacionalização, mas, sabe, não de um jeito fascista”. Seria divertido, se não tivesse arruinado tudo. Talvez ainda seja divertido. É notável que o humor tenha se tornado um bocado mais áspero recentemente.

Uma vez que o fascismo preencheu inteiramente a janela de Overton, ele perdeu contorno e se tornou invisível A palavra persistiu em conversas públicas apenas como um insulto vazio. Sob este disfarce e sob a marca absurdamente enganosa a ele associado, o fascismo americano ascendeu a um estado de dominância hegemônica global. Desde 1989, ele permaneceu essencialmente inconteste, exceto pela birra geopolítica que é o islã radical. Ainda assim, de repente, do campo da esquerda, a candidatura de Trump o lançou em uma crise.

As características fascistas extravagantes da campanha de Trump – e ainda mais de seus exaltados apoiadores na Alt Right – são negáveis apenas por tolos. A escalação anterior de imagens ostensivamente fascistas pela primeira campanha de Obama e por sua subsequente administração não foi menos notável. A convenção estabelecida na sociedade educada de que todos os candidatos presidenciais conservadores são Hitler obscureceu a tendência antes deste ano, em ambos os lados. Muito disto poderia ser reminiscente da tese de Jonah Goldberg de que somos todos fascistas agora, que é quase universalmente descartada de cara, por razões que não estiverem – até recentemente – sob qualquer pressão sociopolítica que seja para se defenderem. É um absurdo óbvio, a classe do controle mental decidiu, e isso deveria ter sido o suficiente para todo mundo. Esses dias estão inequivocamente acabando.
A compreensão geral que permanece incompletamente cristalizada nisto: A democracia tende ao fascismo, devido à sua afinidade fundamental com a mobilização tribal (isto é, seu iliberalismo essencial). A catraca multissecular da democratização ocidental levou, de maneira exata e inexorável, a isto. Se o pior não chegou ainda, ele chegará em breve. Estamos todos próximo de ver isso agora.

Um catalisador especialmente óbvio da radicalização política tem sido a adoção da engenharia demográfica como objetivo político explícito, de assimetria partidária deliberada, com a participação de uma trovoada da retórica aprovada pela elite cultural que não tem sido apenas indiscreta, mas descaradamente triunfalista. Ao descartar medos de ‘genocídio’ branco como malignos e exagerados, não é útil rir em público sobre o contínuo progresso da substituição populacional (à maneira de John Judis e Ruy Teixeira, mais obviamente). Em algum ponto, o exemplo mais celebrado de advocacia do diabo de Berthold Brecht – “Não seria mais fácil… para o governo dissolver o povo e eleger outro?” – trocou de polaridade ideológica, para se tornar uma piada amarga da Alt Right. A nova demografia americana vai realmente ferrar com vocês, caras é divertido para burro, até que – de repente – não é.

Tem havido muitas gargalhadas em 2016, mas não muitos sorrisos. Talvez não demore para que as pessoas percebam o que fizeram.

Original.

Libertarianismo Suicida (Parte D’oh)

Quando se trata da corrida suicida libertária, Bryan Caplan deixa Don Boudreaux no pó. Caplan assume o Princípio da Não Agressão e corre com ele por todo caminho até alcançar um culto de morte auto-dirigido de máxima velocidade. (Auto-dirigido unicamente no sentido ideológico, claro.) Dados os consideráveis méritos deste livro em particular, é uma coisa triste de se ver.

O libertarianismo americano sempre esteve vulnerável à extravagância espiritual neo-puritana. Caplan sistematicamente empurra esta tendência ao seu limite, divorciando seus argumentos de qualquer estimativa realista das consequências e o transformando em uma forma de fanatismo moral deontológico, no qual auto-defesa, retaliação e fronteiras estão estritamente proibidas. Ele vislumbra um mundo de jogos no qual apenas o altruísmo unilateral é permissível ao jogador libertário. Seria engraçado jogar algumas rodadas do dilema do prisioneiro com ele.

Naturalmente, quando se trata do apoio incondicional para as fronteiras abertas, independente das consequências políticas, Caplan se apressa para defender Boudreaux. Prestativamente, ele linka para seu próprio extenso arquivo sobre o tópico, através de um portal para uma série de posts extremamente repetitivos (aqui, aqui e aqui – ler qualquer um será o suficiente).

Talvez Caplan realmente creia em seus próprios argumentos, mas se é assim, ele se deixou louco. Se você duvidar disso por um momento, vai ser apenas por um momento – tente isto:

Se você se importa tanto com imigrantes quanto com nativos, não há nenhuma razão para se opor à imigração. Considere o seguinte exemplo:

Suponha que existem dois países com populações iguais. A qualidade das políticas vai de 0 a 10, 10 sendo a melhor. No país A, os pontos de felicidade (a primeira escolha de políticas das pessoas) estão uniformemente distribuídos de 2 a 6. No país B, os pontos de felicidade estão uniformemente distribuídos de 4 a 8.

O que a concorrência democrática entrega? Quando os países são independentes, o país A fica com uma qualidade política de 4 ( a mediana da distribuição uniforme de 2 a 6), e o país B fica com uma qualidade política de 6 (a mediana da distribuição uniforme de 4 a 8). A política média sob a qual as pessoas vivem: 50%*4+50%*6-5.

Agora suponha que você abra as fronteiras, e todo mundo se mude para o país B (o país mais rico). A mediana de toda a distribuição é 5. Resultado: Os imigrantes vivem sob políticas melhores, os nativos vivem sob políticas piores. A média (5) continua inalterada.

Já está sem palavras? (Estou na metade de um post, então não posso me dar ao luxo de estar.) O argumento: Qualquer tentativa de viver sob um regime que é qualquer coisa além da idiotice política média da humanidade como um todo é uma grave violação dos direitos humanos.

Você não gosta da maneira em que os paquistaneses administram seus assuntos nacionais? Que pena. O libertarianismo (no estilo Caplan) insiste que é seu dever promover a homogeneização das culturas políticas do mundo porque, afinal, se há qualquer coisa boa que seja acontecendo do seu lado, pense o quão feliz ela deixará os paquistaneses quando ela for compartilhada. Ir de cabeça na direção de um mingau mexido de capitalismo liberal profundamente degenerado e islamo-feudalismo é o melhor para todo mundo, tomado em média. Se não está com o gosto certo, é porque você ainda não jogou guerra tribal africana e caça de cabeças polinésia o suficiente para conseguir o impacto moral completo. Ou que tal misturar Singapura e Bangladesh em uma pasta humana? Qualquer coisa a menos é equivalente a genocídio.

Este argumento é tão ruim que a própria ideia de responder a ele me faz vomitar um pouco na minha boca, mas o dever me chama. Uma vez que Caplan alega ser um libertário, vamos começar com um princípio irrepreensível – a concorrência. Se qualquer instituição funciona, é porque a concorrência a mantém na linha. Isto requer uma série de coisas, todas elas incompatíveis como a homogeneização: variação experimental, suporte diferencial à comparação, absorção local das consequências e seleção através da eliminação da falha.

Considere duas companhias. Effective Inc. e Loserbum Corp. Ambas têm culturas corporativas muito diferentes, adequadamente refletidas em seus nomes. Sob condições de mercado, a Loserbum Corp. ou aprende algumas lições da Effective Inc., ou vai à falência. Benefício líquido ou nenhuma grande perda para o mundo em ambos os casos.
Mas lá vem o Caplan, para maldizer os acionistas, a administração e outros empregados da Effective Inc. “Seus monstros! Vocês não se importam mesmo com os caras da Loserbum Corp.? Eles têm o mesmo status moral que vocês, vocês não sabem? Eis aqui o verdadeiro plano radical de livre mercado: Todos os administradores e trabalhadores da Loserbum entram na sua companhia, trabalham ali, introduzem suas estratégias de negócio e práticas de trabalho, até que alcancemos um equilíbrio. Mercados são sobre equilíbrio, sabe? Claro, a Effective Inc. se degenerará de maneira significativa, mas imagine todos os ganhos de utilidade para os pobres Loserbums! Lavou, está novo.”
Mas… mas… países não são empresas. Bem, talvez não exatamente, mas eles são instituições competitivas ou, pelo menos, quanto mais o forem, melhor funcionam. A coisa mais importante é igualmente verdadeira sobre ambos – na medida em que forem capazes de externalizar e reunir sua falha, menos eles aprenderão.
Em um mundo que tem qualquer chance de funcionar, a cultura Loserbum tem uma escolha: aprender ou falir. Caplan introduz uma terceira possibilidade – compartilhar (calcular a média ou homogeneizar). Sua matemática é idiota. A contribuição que Singapura faz ao mundo não tem quase nada a ver com os ganhos de utilidade de sua minúscula população. Em vez disso, é um modelo – Effective Inc. – cuja contribuição para o mundo é mostrar para todos os Loserbums o que eles são. Inunde-a com Loserbums, a destrua, e essa função se vai. Se isso tivesse acontecido antes do final dos anos 1970, a RPC provavelmente ainda seria um buraco infernal neo-maoista. Ela não inundou Singapura com 300 milhões de camponeses pobres, em vez disso, ela aprendeu com o exemplo de Singapura. É assim que o mundo realmente funciona (quando funciona). Exemplos institucionais importam. O mundo de Caplan aniquilaria todos eles, deixando os três quartos de Loserbums razoavelmente na média, grunhindo uns com os outros em um pântano libertário-comunista. Nada funcionaria em lugar nenhum. Não poderia haver nenhuma lição.

Ainda assim, Caplan tem outros argumentos. O melhor, de longe, é que naufragar uma sociedade ao ponto da detestação mútua generalizada é a melhor maneira de reduzir o estado de bem-estar social. Ele segue assim:

Embora imigrantes pobres sejam mais propensos a apoiar um estado de bem-estar social maior do que os nativos, a presença de imigrantes pobres faz os nativos se voltarem contra o estado de bem-estar social. Por que seria assim? Via de regra, as pessoas estão feliz em votar para “tomar conta dos seus”; o estado de bem-estar social é todo sobre isso. Então, quando os pobres são culturalmente muito similares aos ricos, como eles são em lugares como a Dinamarca e a Suécia, o apoio ao estado de bem-estar social tende a ser uniformemente forte.

Conforme os pobres se tornam mais culturalmente distantes dos ricos, contudo, o apoio ao estado de bem-estar social se torna mais fraco e menos uniforme.

Este argumento é tão incrivelmente Mad Max que, na verdade, eu gosto até bastante dele. Queime o mundo e você leva o estado de bem-estar social com ele. Yeaaaaaahhhhh! (Deixarei que vozes mais responsáveis apontem quaisquer possíveis falhas.)

Depois tem o argumento “não nativos são marcadamente menos propensos a votar do que os nativos” (do mesmo post, e todo o resto). Faz você pensar o que uma grande população de anti-capitalistas com direito ao voto mas não votantes engendra. Algo bom, por certo?

O melhor de tudo é a analogia contorcionista de cobertura: “Eleitores nativos abaixo dos 30 são mais hostis aos mercados e à liberdade do que os imigrantes jamais foram. Por que não apenas expulsá-los?” Ah sim, ah sim, podemos? Ou, pelo menos, impedi-los de votar. Sem algum arranjo para a remoção em massa do direito de voto dos eleitores esquerdistas, não há qualquer chance de nada além da decadência continua, e a restrição de idade poderia ser um lugar tão bom quanto qualquer outro para se começar.

Minha posição em uma frase… é que as restrições de imigração são um crime vastamente maior contra os mercados e a liberdade do que qualquer coisa que os eleitores imigrantes têm probabilidade de fazer.

Graças a Gnon, ninguém ouve os libertários.

ADICIONADO: Caplan redobra, com algumas hipóteses de dar água na boca. Se os Estados jamais fizessem esse tipo de escolhas, seria divertido mantê-los por perto, mas todo o ponto é que é claro que eles nunca as fariam. (Não perca a seção de comentários sombriamente infiltrada.)
… e ainda mais hipóteses contra-democráticas atraentes. Na hora em que os libertários deontológicos tiverem acabado com isso, eles terão desenhado uma plataforma política neorreacionária minuciosamente detalhada para nós.

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 3

Parte 3:

O fascículo anterior desta série acabou com nosso herói, Mencius Moldbug, até a cintura (ou pior) no pântano mefítico do politicamente incorreto, aproximando-se do coração sombrio de sua meditação político-religiosa em How Dawkins Got  Pwned. Moldbug pegou Dawkins no meio de uma denúncia sintomaticamente significante e excruciantemente beata dos “sentimentos vitorianos” racistas de Thomas Huxley – um sermão que conclui com a estranha declaração de que ele está citando as palavras de Huxley, apesar de sua pavorosidade auto-evidente e totalmente intolerável, “apenas para ilustrar como o Zeitgeist segue em frente”.

Moldbug dá o bote, perguntando mordazmente: “O que, exatamente, é essa coisa do Zeitgeist?”. É, indiscutivelmente, uma extraordinária captura. Eis aqui um pensador (Dawkins), treinado como biólogo e especialmente fascinado pelos tópicos (disjuntivamente) geminados da evolução naturalista e da religião abraâmica, tropeçando no que ele apreende como uma tendência unidirecional de desenvolvimento espiritual histórico-mundial, que ele então – enfaticamente, mas sem o menor apelo à razão disciplinada ou à evidência – nega que tenha qualquer conexão séria com o avanço da ciência, com a biologia humana ou com a tradição religiosa. O disparate balbuciante que daí se resulta é uma coisa de se admirar, mas, para Moldbug, tudo faz sentido:

Na verdade, o Zeitgeist do Professor Dawkins é… indistinguível do… antigo conceito anglo-calvinista ou puritano de Providência. Talvez esta seja uma falsa correspondência. Mas é uma bem próxima.

Uma outra palavra para Zeitgeist é Progresso. Não é de se surpreender que os Universalistas tendam a acreditar no Progresso – na verdade, em um contexto político, eles frequentemente se denominam progressistas. O universalismo de fato fez um bom bocado de progresso desde [a época da embaraçosa observação de Huxley em] 1913. Mas isto dificilmente refuta a proposição de que o Universalismo é uma tradição parasita. Progresso para o carrapato não é progresso para o cão.

O que, exatamente é essa coisa de Zeitgeist? Vale a pena repetir a questão. Não é espantoso, para começar, que quando um darwinista inglês busca uma arma para golpear outro, o cacete mais conveniente à mão seja uma palavra alemã – associada com uma linhagem abstrusa de filosofia idealista adoradora do estado – fazendo referência explícita a uma concepção de tempo histórico que não tem qualquer conexão discernível com o processo de evolução naturalista? É como se, de maneira dificilmente imaginável, durante uma contenda comparável entre físicos (sobre o tópico da indeterminação quântica), de repente se ouvisse gritar que “Deus não joga dados com o universo”. Na verdade, os dois exemplos estão intimamente emaranhados, uma vez que a fé de Dawkins no Zeitgeist é combinada com uma adesão ao progressismo dogmático da ‘Religião Einsteiniana’ (meticulosamente dissecada, claro, por Moldbug).

O despudor é notável, ou pelo menos seria, se ingenuamente se acreditasse que os protocolos da racionalidade científica ocupavam uma posição soberana em tal disputa, mesmo que apenas em princípio. Na verdade – e aqui a ironia é amplificada à própria beira da psicose uivante – o Old One de Einstein ainda reina. Os critérios de julgamento devem tudo à higiene espiritual neo-puritana e nada que seja à realidade testável. A elocução científica é filtrada para a conformidade com uma agenda social progressista, cuja autoridade parece não ser afetada por sua completa indiferença para com a integridade científica. O que lembra Moldbug de Lysenko, por razões compreensíveis.

“Se os fatos não concordam com a teoria, tanto pior para os fatos” afirmou Hegel. É o Zeitgeist que é Deus, historicamente encarnado no estado, espezinhando meros dados de volta na poeira. A este altura, todo mundo sabe onde isso acaba. Um ideal moral igualitário, endurecido em um axioma universal ou dogma cada vez mais incontestável, completa a ironia histórica suprema da modernidade, ao tornar a ‘tolerância’ o critério de ferro para os limites da tolerância (cultural). Uma vez que seja aceito de maneira universal ou, falando de maneira mais prática, por todas as forças sociais que empunham um poder cultural significante, que a intolerância é intolerável, a autoridade política legitimou toda e qualquer coisa que seja conveniente para si mesma, sem restrição.

Essa é a mágica da dialética, ou da perversidade lógica. Quando apenas a tolerância é tolerável, e todo mundo (que importa) aceita esta fórmula manifestamente absurda como não apenas racionalmente inteligível, mas como o princípio universalmente afirmado da fé democrática moderna, nada resta exceto a política. A tolerância perfeita e a intolerância absoluta se tornaram logicamente indistinguíveis, com qualquer uma sendo igualmente interpretável como a outra, A = não-A, ou o inverso, e, no mundo abertamente orwelliano que daí resulta, apenas o poder tem as chaves da articulação. A tolerância progrediu em tal grau que tem se tornado uma função de policiamento social, fornecendo o pretexto existencial para novas instituições inquisitoriais. (“Devemos lembrar que aqueles que toleram a intolerância abusam da própria tolerância, e um inimigo da tolerância é um inimigo da democracia”, ironiza Moldbug.)

A tolerância espontânea que caracterizava o liberalismo clássico, enraizada em um conjunto modesto de direitos estritamente negativos que restringiam o domínio da política, ou intolerância governamental, se rende, durante a maré democrática, a um direito positivo a ser tolerado, definido de maneira cada vez mais expansiva como intitulação substancial, envolvendo afirmações públicas de dignidade, garantias impostas pelo estado de tratamento igual por parte de todos os agentes (públicos e privados), proteções governamentais contra desfeitas e humilhações não-físicas, subsídios econômicos e – em última análise – representação estatisticamente proporcional dentro de todos os campos de emprego, realização e reconhecimento. Que a culminação escatológica desta tendência seja simplesmente impossível não importa de maneira alguma para a dialética. Pelo contrário, isso energiza o processo político, comburindo qualquer ameaça de
saciação política no combustível do agravo infinito. “I will not cease from Mental Fight, Nor shall my Sword sleep in my hand: Till we have built Jerusalem, In England’s green and pleasant land.”[1] Em algum lugar antes de que Jerusalém fosse alcançada, o pluralismo inarticulado de uma sociedade livre foi transformado no multiculturalismo assertivo de uma democracia totalitária suave.

Os judeus da Amsterdam do século XVII ou os huguenotes da Londres do século XVIII gozaram do direito de serem deixados em paz e enriqueceram suas sociedades anfitriãs em troca. Os grupos de agravo democraticamente empoderados dos tempos modernos posteriores são incitados por líderes políticos a exigirem um (fundamentalmente iliberal) direito de ser ouvido, com consequências sociais que são predominantemente malignas. Para os políticos, contudo, que se identificam e se promovem como a voz dos não ouvidos ou dos ignorados, o auto-interesse em jogo dificilmente poderia ser mais óbvio.

A tolerância, que já pressupôs a negligência, agora a condena e, ao fazê-lo, se torna seu oposto. Fosse este um desenvolvimento partidário, a política partidária de um tipo democrático poderia sustentar a possibilidade de reversão, mas ele não é nada do tipo. “Quando alguém está sofrendo, o governo tem que se mover” declarou o Presidente ‘conservador compassivo’ dos EUA George W. Bush, em um fútil esforço de canalizar a Catedral. Quando a ‘direita’ soa assim, ela não está apenas morta, mas inequivocamente fedendo a decomposição avançada. O ‘Progresso’ venceu, mas isso é ruim? Moldbug aborda a questão de  maneira rigorosa:

Se uma tradição faz com que seus hospedeiros cometam erros de cálculo que comprometem suas metas pessoais, ela exibe um morbidez misesiana. Se ela faz com que seus hospedeiros ajam de maneiras que comprometam os interesses reprodutivos de seus genes, ela exibe uma morbidez darwiniana. Se se subscrever à tradição é individualmente vantajoso ou neutro (desertores são recompensados ou pelo menos não são punidos), mas coletivamente prejudicial, a tradição é parasitária. Se se subscrever é individualmente desvantajoso, mas coletivamente benéfico, a tradição é altruísta. Se é tanto individual quanto coletivamente benigna, ela é simbiótica. Se é tanto individual quanto coletivamente danosa, é maligna. Cada um desses rótulos podem ser aplicados tanto à morbidez misesiana quanto à darwiniana. Um tema que seja arracional, mas não exiba nem morbidez misesiana, nem darwiniana, é trivialmente mórbido.

Considerados de maneira comportamental, os sistemas misesiano e darwiniano são aglomerações de incentivos ‘egoístas’, orientados, respectivamente, à acumulação de propriedade e à propagação de genes. Ao passo que os darwinistas concebem a esfera ‘misesiana’ como um caso especial da motivação geneticamente auto-interessada, a tradição austríaca, enraizada em um anti-naturalismo neokantiano altamente racionalizado, está predisposta a resistir a tal reducionismo. Embora as consequências finais desta disputa sejam consideráveis, sob as atuais condições ela é uma querela de urgência menor, uma vez que ambas as formações estão unidas no ‘ódio’, isto é, em sua tolerância reacionária a estruturas de incentivos que punem os mal adaptados.

‘Ódio’ é uma palavra sobre a qual se deter. Ela testemunha com especial clareza a ortodoxia religiosa da Catedral, e suas peculiaridades merecem uma observação cuidadosa. Talvez sua característica mais notável seja sua perfeita redundância, quando avaliada da perspectiva de qualquer análise das normas legais e culturais que não esteja inflamada pelo entusiamo evangélico neo-puritano. Um ‘crime de ódio’, se for qualquer coisa que seja, é apenas um crime, mais ‘ódio’, e o que o ‘ódio’ adiciona é revelador. Para nos restringirmos, momentaneamente, a exemplos de criminalidade incontroversa, se poderia perguntar: o que é, exatamente, que agrava um assassinato, ou uma agressão, se a motivação for atribuída ao ‘ódio’? Dois fatores parecem especialmente proeminentes, e nenhum tem qualquer conexão óbvia com as normas legais comuns.

Primeiramente, o crime é aumentado por um elemento puramente ideacional, ideológico ou mesmo ‘espiritual’, que atesta não apenas uma violação da conduta civilizada, mas também uma intenção herética. Isto facilita a abstração completa do ódio em relação à criminalidade, após a qual ele toma a forma de ‘discurso de ódio’ ou simplesmente ‘ódio’ (que deve sempre ser contrastado com a ‘paixão’, ‘injúria’ ou ‘ira’ justificada representada pela linguagem crítica, controversa ou meramente abusiva que é dirigida contra grupos, categorias sociais ou indivíduos não protegidos). ‘Ódio’ é uma ofensa contra a própria Catedral, uma recusa de sua orientação espiritual e um ato mental de provocação contra o destino religioso manifesto do mundo.

Em segundo lugar, e de maneira relacionada, o ‘ódio’ é deliberadamente e mesmo estrategicamente assimétrico em relação à polaridade política de equilíbrio das sociedades democráticas avançadas. Entre a implacável marcha do progresso e o resmungo ineficaz do conservadorismo, ele não vacila. Como vimos, apenas a direita pode ‘odiar’. Conforme o sistema imunológico doxológico da supressão de ‘ódio’ é consolidado dentro dos sistemas educacional da elite e midiático, a distribuição altamente seletiva de proteções garante que o ‘discurso’ – especialmente o discurso empoderado – é consistentemente reajustado para a esquerda, o que quer dizer, na direção de um Universalismo cada vez mais abrangentemente radicalizado. A morbidez desta tendência é extrema.

Uma vez que o status de agravo é concedido como compensação política para a incompetência econômica, ele constrói um mecanismo cultural automático que advoga a disfunção. O credo Universalista, com sua identificação reflexiva da igualdade com a injustiça, não consegue conceber nenhuma alternativa à proposição de que, quanto mais baixo a situação ou o status de alguém, mais convincente é a sua revindicação sobre a sociedade, mais pura e mais nobre é a sua causa. A falha temporal é a o sinal da eleição espiritual (marxo-calvinismo) e disputar qualquer parte disso é claramente ‘ódio’.

Isto não força nem mesmo o neo-reacionário de coração mais duro a sugerir, em uma caricatura do estilo cultural alto-vitoriano, que a desvantagem social, como manifesta em violência política, criminalidade, falta de moradia, insolvência e dependência do bem-estar social, é um índice simples da culpabilidade moral. Em grande parte – talvez uma parte esmagadoramente grande – ela reflete o puro infortúnio. Pessoas obscuras, impulsivas, sem saúde e pouco atraentes, criadas caoticamente em famílias abusivas e encalhadas em comunicadas despedaçadas e assoladas pelo crime, têm toda razão de amaldiçoaram os deuses antes de si mesmas. Além disso, um desastre pode atingir qualquer um.

Em relação a estruturas efetivas de incentivos, contudo, nada disto é da menor importância. A realidade comportamental conhece apenas uma lei de ferro: O que quer que seja subsidiado é promovido. Com uma necessidade não mais fraca do que aquela da própria entropia, na medida em que a democracia social busca suavizar as más consequências – para grandes corporações não menos do que para individuos batalhadores e culturas desafortunadas – as coisas ficam piores. Não há maneira de contornar ou ir além desta fórmula, só pensamento positivo e cumplicidade com a degeneração. Claro, esta compreensão reacionária definidora está condenada à inconsequência, uma vez que equivale à conclusão supremamente impalatável de que toda tentativa de melhoria ‘progressiva’ está fadada a se reverter, ‘perversamente’, em uma falha horrível. Nenhuma democracia poderia aceitar isto, o que significa que toda democracia falhará.

A excitada espiral da fuga degeneradora misesiana-darwiniana é nitidamente capturada nas palavras da libertária mais fofa do Beltway, Megan McArdle, escrevendo na embocadura central da Catedral, The Atlantic:

É um pouco irônico que as primeiras tensões sérias causadas pelas mudanças demográficas da Europa estejam aparecendo nos orçamentos de bem-estar social do continente, porque os próprios sistemas de pensão podem bem ter moldado e limitado o crescimento da Europa. O século XX viu a adoção internacional de sistemas de seguridade social que prometiam benefícios definidos, pagos a partir da receita tributária futura – conhecidos pelos especialistas em pensão como sistemas de “paygo” e pelos críticos como esquemas de Ponzi. Estes sistemas tem aliviado grandemente os medos de uma velhice destituída, mas múltiplos estudos mostram que conforme os sistemas seguridade social se tornam mais generosos (e a velhice mais segura), as pessoas têm menos filhos. De acordo com uma estimativa, de 50 as 60 por cento da diferença entre a taxa de natalidade (acima da taxa de reposição) da América e da Europa pode explicada pelos sistemas mais generosos da última. Em outras palavras, o sistema de pensão da Europa pode ter posto em ação o próprio declínio demográfico que ajudou a tornar esse sistema – e alguns governos europeus – insolvente.

Apesar da ridícula sugestão de McArdle de que os Estados Unidos da América, de alguma maneira, se isentaram do caminho mortuário da Europa, o esboço geral do diagnóstico é claro e cada vez mais aceito como senso comum (embora melhor ignorado). De acordo com o credo ascendente, o bem-estar social alcançado através da progenitura e da poupança não é universal e, assim, é moralmente ignorante. Ele deveria ser suplantado, tão ampla e rapidamente quanto possível, por benefícios universais ou ‘direitos positivos’, distribuídos universalmente ao cidadão democrático e, assim, inevitavelmente, roteado através do Estado altruísta. Se, como resultado, devido à irremediável incorreção política da realidade, economias e populações colapsarem em concerto, pelo menos isso não danificará nossas almas. Ó, democracia! Sua idiota moribunda doce como sacarina, você acha que as hordas zumbis se preocuparão com a sua alma?

Moldbug comenta:

O Universalismo, na minha opinião, é melhor descrito como um culto dos mistérios do poder. É um culto do poder porque um estágio crítico em seu ciclo replicador de vida é uma criaturazinha chamada Estado. Quando olhamos para as proteínas de superfície dos grandes Us, notamos que a maioria delas podem ser explicadas por sua necessidade de capturar, reter e manter o Estado e dirigir seus poderes à criação de condições que favoreçam a replicação continuada do Universalismo. É tão difícil imaginar o Universalismo sem o Estado quanto a malaria sem o mosquito.

É um culto dos mistérios porque ele desloca as tradições teístas, substituindo as superstições metafísicas por mistérios filosóficos, tais como humanidade, progresso, igualdade, democracia, justiça, meio ambiente, comunidade, paz, etc.

Nenhum destes conceitos, como definidos na doutrina Universalista ortodoxa, é sequer ligeiramente coerente. Todos podem absorver uma energia mental arbitrária sem produzir nenhum pensamento racional. Nisto, eles são melhor comparados aos
absurdos plotinianos, talmúdicos ou escolásticos.

Como bônus, eis aqui o guia do Urban Future para a sequência principal dos regimes políticos modernos:

Regime(1): Tirania Comunista
Crescimento Típico: ~0%
Voz / Saída: Baixa / Baixa
Clima cultural: Utopismo psicótico
A vida é… dura, mas ‘justa’
Mecanismo de transição: Redescobre os mercados no grau zero econômico

Regime(2): Capitalismo Autoritário
Crescimento Típico: 5-10%
Voz / Saída: Baixa / Alta
Clima cultural: Realismo insensível
A vida é… dura, mas produtiva
Mecanismo de transição: Pressurizado pela Catedral a se democratizar

Regime(3): Social Democracia
Crescimento Típico: 0-3%
Voz / Saída: Alta / Alta
Clima cultural: Desonestidade beata
A vida é… suave e insustentável
Mecanismo de transição: Chutar latas sai da pista

Regime(4): Apocalipse Zumbi
Crescimento Típico: N/A
Voz / Saída: Alta (em sua maioria gritaria inútil) / Alta (com combustível, munição, comida seca, moedas de metais preciosos)
Clima cultural: Sobrevivencialismo
A vida é… de dura a impossível
Mecanismo de transição: Desconhecido

Para todos os regimes, as expectativas de crescimento assumem uma população moderadamente competente, de outra forma, vá direto para (4).

________________________
[1] Nota do Tradutor: Estrofe final do poema “And did those feet in ancient time” de William Blake, na introdução de seu épico Milton (1808). Tradução livre: “Eu não deixarei de Lutar coma Mente, Tampouco minha Espada dormirá em minha mão: Até que tenhamos construído Jerusalém, Na terra ver e agradável da Inglaterra”.

Original.

O Desvendamento

Uma democracia não pode sobreviver como forma permanente de governo. Ela só pode durar até que seus cidadãos descubram que eles podem votar benesses para si mesmos vindas dos cofres públicos. Deste momento em diante, a maioria (que vota) votará nos candidatos que prometam os maiores benefícios vindos do erário público, com o resultado de que uma democracia sempre colapsará por conta de políticas ficais relaxadas, sempre seguidas por uma ditadura. – Macaulay [ou a ‘Calúnia de Tytler‘ (obrigado Matt)]

Do Urban Dictionary, Democracia:

1) Um sistema comum de governo, dirigido pelos caprichos das massas e marcado por uma baixa tolerância a direitos humanos básicos e ao senso comum; primariamente usado para se transicionar, de maneira incremental, de um governo regrado pelo direito comum (República) para um governo regrado pela lei política de uma pequena elite (Oligarquia).

Conforme o declive continua, o entendimento perene do estadismo anti-demótico (e compreensão iniciadora da nova reação) parece estar ficando mainstream. Alex Berezow escreve no blog The Compass do Realclearworld:

Têm sido anos duros para a democracia. Apesar disso, os ocidentais sempre parecem assumir que a forma mais altamente evoluída de governo é democrática. O problema com essa noção é que, em algum ponto, a maioria dos eleitores percebem que podem votar em políticos que lhes prometam mais coisas, independente de se é uma boa política ou financeiramente sustentável, ou não. E, uma vez que isso ocorra, o país está (talvez irreversivelmente) em um caminho para o declínio.

Embora levianamente insubstancial para os padrões de Moldbug (claro), o artigo nunca retira esta premissa inicial e conclui com a sugestão de que o mundo todo poderia, com lucro, aprender da China as artes de inibição da democracia.

[Nota: os dois artigo imediatamente abaixo do de Berezow no site da RCW são ‘Is Cameron’s EU Strategy Unraveling?’ (“A Estratégia de Cameron na EU Está se Desvendando?”) (por Benedict Brogan) e ‘Libya Is Still Unraveling’ (“A Líbia Ainda Está se Desvendando’ (por Max Boot) – apenas notei (conscientemente). Notícias contemporâneas: tudo se desvendando, todo o tempo.]

O ‘mundo pós-democrático’ terá um princípio claro de legitimidade política? O mais elegante, de longe, seria a introdução da comutatividade no slogan da rebelião colonial da Anglosfera: ‘Nenhuma tributação sem representação’.

Nenhuma representação sem tributação restringe a legitimidade àqueles regimes nos quais aqueles que financiam o governo determinam sua estrutura, escopo e política, em proporção direta à sua contribuição. As melhorias que resultariam desta integração dos circuitos de feedback fiscal e eleitoral do Estado são profundas e numerosas demais para se delinear prontamente, mas elas podem ser resumidas em uma única expectativa: uma mudança radical, irreversível e contínua para a direita.

Entre as objeções antecipadas mais óbvias:
(1) Não é prático (Ah sim, apenas horrores são práticos)
(2) É injusto (Para soldados e tiras, talvez, mas os efeitos deletérios da complicação prevalecem sobre os benefícios do nuance moral)
(3) No Ocidente, pelo menos, os plutocratas brâmanes o desfariam na primeira oportunidade (Uma previsão tristemente plausível – talvez nenhum cultura abraâmica seja capaz de sustentar uma ordem social sã e sempre escolherá resolver problemas de policiamento através da expensão do direito ao voto.)

Concedendo todas estas objeções, e mais, o princípio da política fiscal comutativa ainda fornece um serviço muito valioso: ele explica o que deu errado. A hipertrofia representativa destruiu a ordem constitucional moderna, embasada em uma interpretação unilateral da exigência de que o governo seja feito responsável por suas exações. O equilíbrio (comutatividade) poderia muito bem ser inalcançável, mas não é difícil entender o que ele seria.

Original.