AAA…

…significa aceitar, amplificar e acelerar. Iniciado aqui e intensificado aqui, isso abre um horizonte inexplorado para uma discussão estratégica dentro da NRx. Nenhuma análise do conflito cultural na Internet pode evitar uma referência à trollagem, e nenhuma compreensão da trollagem é está mais completa sem referência a AAA. Isso eleva a discussão da paródia a um novo nível. (Se já não está óbvio, este blog está seriamente impressionado.)

AAA funciona se a complicação estratégica tiver consequências favoráveis. A facção cultural que tiver maior capacidade de tolerância a dificuldade, confusão de identidades, ironia e humor, tenderá a encontrar uma vantagem nisso. Creio que sejamos nós. É inerentemente tóxico para o fanatismo.

Como subtema – mas um que é afiadamente apreciado aqui – isso marca uma evolução crítica nas Guerras de Cthulhu. (Verifique os gráficos no post do TNIO para um reconhecimento disso.) Em vez de argumentar se “Cthulhu nada para a esquerda“, AAA propõem anfetaminizar o monstro independente disso. Se um “holocausto de liberdade” é o que vocês querem, vamos . Leve essa operação até o fim do rio… e vejamos o que encontramos.

ADICIONADO: Comentários do Slate Star Scratchpad.

Original.

Horror Malthusiano

O post é lançado assim porque é sexta-feira à noite, mas funciona. Um post mais atencioso poderia ter sido intitulado simplesmente ‘Malthus’ e envolvido muito trabalho. Isso vai ser necessário em algum ponto. (Eis aqui a 6ª edição de An Essay on the Principle of Population, para qualquer um que queira começar agora.) Uma abordagem mais minuciosamente técnica teria sido marcado como ‘neo-malthusianismo’. Embora simpatize com lamentações sobre um outro prefixo ‘neo-‘, neste caso ele teria sido solidamente justificado. É apenas através da expansão da compreensão malthusiana, de acordo com uma lei de conservação mais geral, que sua relevância atual completa pode ser apreciada. O Malthus clássico ainda faz bem mais trabalho do que lhe é creditado, mas contém um princípio de bem aplicação bem mais penetrante.

O ‘neo-‘, em sua forma mais frívola, é meramente uma marca da moda. Quando empregado de maneira mais séria, ele denota um elemento de inovação. Seu sentido mais significante inclui não apenas novidade, mas também abstração. Algo é levado adiante de tal maneira que seu núcleo conceitual é destilado através da extração de um contexto específico, alcançando uma generalidade mais elevada e uma formalidade mais exata. Malthus antecipa isto parcialmente, em uma frase que aponta para além de qualquer concretude excessivamente restritiva:

malthus00

“O poder da população é tão superior ao poder da terra em produzir subsistência ao homem que a morte prematura deve, de uma forma ou outra, visitar a raça humana.”
– Reverendo Thomas Malthus

A qualificação “de uma forma ou outra” poderia ter sido extraída do horror abstrato, e “morte prematura” só a restringe vagamente. Ainda assim, essa formulação permanece demasiado estreita, uma vez que tende a excluir o resultado disgênico que, desde então, descobrimos ser uma dimensão da expressão malthusiana, pouco menos imponente do que a crise de recursos. Uma descrição neo-malthusiana do “X”, que, de uma forma ou outra, faz uma sombria perversidade de todos os esforços da humanidade para melhorar sua condição, o compreende como um destino matematicamente conservado, plástico ou abstrato, funcionando tão sem remorso através de reduções da mortalidade (‘relaxamentos’ malthusianos) quanto através de aumentos (‘pressões’ malthusianas). Ambos contariam igualmente como “restrições à população” – cada um conversível, através de um cálculo complexo, ao termos do outro. Uma população disgenicamente deteriorada através do relaxamento malthusiano ‘iluminado’ descobre, uma vez mais, como passar fome.

O Iluminismo Sombrio (ensaio) foi claramente catalizado pelo trabalho de Mencius Moldbug, mas deveria ter tido dois pilares histórico-intelectuais anglo-Thomistas ou Thomas céticos (e nenhum deles era Thomas Carlyle). O primeiro era Thomas Hobbes, no qual pelo menos se tocou. O segundo deveria ter sido Thomas Malthus, mas a série foi desviada para dentro da corrente espumante do caso Derbyshire e dos ultrajes da política racial esquerdista. A integridade da concepção foi perdida. Não tivesse sido, poderia ter sido menos tentador ler a corrente-333 como um Anti-Iluminismo, em vez de como um Contra-Iluminismo, no sentido de um alternativa eclipsada à calamidade rousseauista que prevaleceu. Teria certamente anexado o Iluminismo Escocês, mas apenas sob a condição definitiva de que ele fosse acorrentado seguramente ao cadafalso duramente realista do Iluminismo Sombrio (Hobbes e Malthus), desiludido de todo idealismo. Estórias bonitas são para criancinhas (sendo criadas por liberais).

Malthus subtrai todo o utopismo do iluminismo. Ele demonstra que a história é montada – necessariamente – em um jardim de açougueiro. Através de Malthus, Ricardo descobriu a Lei de Ferro dos Salários, desconectando as ideias de avanço econômico e redenção humanitária. Darwin efetuou um revisão comparável (e mais importante) na biologia, também sobre bases malthusianas, dissipando toda a sentimentalidade das noções de ‘progressão’ evolutiva. É a partir de Malthus que sabemos que, quando qualquer coisa parece se mover adiante, é por ser moída contra um fio de corte. É quando Marx tenta colocar Malthus na história, em vez da história em Malthus, que a demência utópica foi ressuscitada dentro da economia. O anti-malthusianismo dos libertários os estigmatiza como tolo sonhadores.

Com a NRx, a questão talvez seja mais instável, mas o Iluminismo Sombrio é inequivocamente malthusiano. Se você encontrar seu olho ficando úmido, arranque-o fora.

Original.

O que é a Alt-Right?

Tópico da semana, parece. O XS esculpirá um espaço no Chaos Patch para links visados no domingo, mas para os tipos impacientes, eis aqui um tira-gosto (1, 2, 3, 4).

Este blog, creio que previsivelmente, toma uma posição de me inclua fora dessa. A Neorreação, da maneira em que eu a entendo, previu a emergência da Alt-Right enquanto resultado inevitável dos excessos da Catedral e não gostou nem remotamente do que viu. Chute um cão o suficiente e você acaba com um cão mal-humorado. Reconhecer o fato não significa que você apoia chutar cães – ou cães mal-humorados. Talvez você fique feliz de ver o chutador de cães ser mordido (eu também). Isso, contudo, é o máximo a que se chega.

Uma definição curta, que me parece incontroversa: A Alt-Right é a direita populista dissidente. Colocada teoricamente, a NRx está, portanto, agrupada com ela, mas como uma coisa bastante diferente. Uma outra conclusão óbvia a partir da definição: a Alt-Right vai quase inevitavelmente ser bem maior do que a NRx é ou jamais deveria visar ser. Se você acha que o poder popular é basicamente ótimo, mas que a Esquerda apenas têm feito errado, a Alt-Right é muito provavelmente o que você está procurando (e a NRx definitivamente não é).

Para a Alt-Right, de maneira geral, o fascismo é (1) basicamente uma grande ideia e (2) um insulto sem sentido, inventado por (((Marxistas Culturais))), a ser ridicularizado. Para a NRx (versão do XS), o fascismo é uma aberração esquerdista em estágio terminal, tornada peculiarmente tóxica por sua praticidade comparativa. Não existe realmente qualquer espaço para um encontro de mentes neste ponto.

Como consequência de seu populismo essencial, a Alt-Right está inclinada ao anti-capitalismo, etno-socialismo, política de ressentimento e estatismo progressivo. Seu interesse na fragmentação geopolítica (ou produção do Patchwork) é algo entre irremediavelmente distraído e positivamente hostil. Além do seu – admitidamente muito divertido – potencial para a catálise do colapso, não há qualquer razão que seja para a ala tecno-comercial da NRx ter a menor simpatia por ela. Espaço para cooperação tática, dentro do quadro estratégico do pan-secessionismo, certamente existe, mas isso poderia ser igualmente dito de completos maoistas com uma disposição para quebrar coisas.

Nada disto deveria ser tomado como uma concorrência por recrutas. A Alt-Right ficará com quase todos eles – vai ser enorme. Da perspectiva da NRx, a Alt-Right deve ser apreciada por nos ajudar a nos limpar. Eles são muito bem-vindos a levarem quem quer que puderem, especialmente se fecharem a porta na saída.

Original.

A Presidência NRx

Linha de Data, Dezembro de 2016. (Uma modesta extrapolação.)

Opinião Neoconservadora Informada: Então, NRx, vocês finalmente conseguiram. Isso é tudo culpa sua. A vitória eleitoral que vocês estavam buscando desde o princípio agora está no saco. O levante popular reacionário foi bem sucedido. Aproveitem seu novo e brilhante Estado Neocameral. Estaremos assistindo dos nossos refúgios canadenses e sorrindo sombriamente enquanto sua utopia racial autoritária dá de cara com uma crise econômica autárquica. E aí a reação pública começará, vinda de uma cidadania curvada em profunda vergonha, mas que redescobrirá suas virtudes americanas. Estarão de volta as revoluções coloridas e nossos alertas negligenciados serão novamente apreciados. Esta foi sua única chance. Comemore-a enquanto pode.

NRx: ??? [*Eles estão drogados?*]

Minha teoria provisória, neste ponto, é que a NRx é comparativamente boa em conversar em catedralês, o que a torna atraente enquanto destino único e fácil para qualquer um que queira rapidamente fabricar uma narrativa sobre como as coisas foram tão completamente para o inferno (apoiada por citações em um dialeto inteligível). Não é uma explicação sendo promovida aqui com uma confiança enorme.

A confiança começa com a observação de que a análise (enlouquecida) de Trump como um Monstro do Frankenstein NRX está se estabelecendo como um enchimento emergencial de concreto Flashlock™ nos modelos mentais do Quarto Estado. Muito surrealismo no futuro próximo está garantido.

Original.

Liberdade (Prelúdio-1b)

Mesmo na ausência de sua circunscrição católica enérgica, poderia ser tentador identificar a NRx como uma ideologia anti-calvinista, dada a centralidade da ocultada herança calvinista para a critica de Moldbug à modernidade. Como Foseti observa (no que continua a ser um ponto alto da exegese neorreacionária):

Acredite ou não, muito embora a definição de Moldbug para a Esquerda seja basicamente a primeira coisa sobre a qual ele escreveu, há uma quantidade razoável de debate sobre este tópico nos círculos “reacionários”. Às vezes se refere a este debate como A Questão Puritana. (Além de puritano, Moldbug também usa os termos: idealismo progressista, ultra-calvinismo, cripto-cristão, universalistas unitários, etc.)

Não faz parte do sumário deste blog facilitar os posicionamentos mais sonolentos – e, às vezes, simplesmente escarnecedores – aos quais o diagnóstico de Moldbug pode parecer estar aberto. Ao passo que nossos amigos católicos podem se considerar estarem seguramente localizados fora da síndrome sob consideração, esta atitude corresponde, estrutural ou sistematicamente, a uma posição minoritária (independente dos números envolvidos). Enquanto secto cismático dissidente, a corrente principal da NRx está cladisticamente envolvida pelo objeto de sua crítica. O ‘calvinismo’ – em sua extensão histórica e teórica – é um horizonte problemático, dentro do qual a NRx está incorporada, antes que ele possa concebivelmente ser interpretado como um objeto desprezado de dispensa.

Mais diretamente relevante para esta sequência que lentamente emerge é a questão da destruição, empregada como uma super-categoria consistente com Gnon que abraça o destino e a providência. Trivialmente, é mantido aqui que o desafio calvinista fundamental ao significado da história e ao status final da agência humana não foi, de maneira alguma, resolvido ao longo do curso de seus sucessivos desenvolvimentos cladísticos, mas apenas evadido, marginalizado e apagado. No nível da clareza filosófica, nenhum ‘progresso’ significante teve lugar. Certas questões, já consideradas prementes, foram meramente abandonadas ou semi-aleatoriamente reformuladas. Tipicamente, uma nebulosa tolerância à discordância cognitiva implícita substituiu uma condição anterior de aguda angústia teológica. A insatisfação modernista com as soluções religiosas anteriormente propostas para certos dilemas metafísicos profundos foi confundida com a dissolução destes dilemas em si. Conforme as invocações da ‘liberdade’ se tornam cada vez mais ensurdecedoras, a influência conceitual recuou de maneira constante. Presume-se (absurdamente) que um coquetel mental intoxicante – e, de maneira mais importante, narcotizador – de volição privada irrestrita e determinismo naturalista tornou obsoleto o dilema histórico entre a onipotência divina e o livre arbítrio humano (ou seu representante filosófico, o tempo e a temporalização). Problemas desconfortáveis que instalam incerteza no âmago da autocompreensão humana são tratados como relíquias culturais embaraçosas, herdadas de ancestrais ignorantes, naquelas raras ocasiões em que eles sequer impingem.

Para este blog, o calvinismo continua sendo uma destruição inexplorada. Apreendido dentro de seus próprios termos, ele é uma ocorrência providencial cujo sentido permanece sequestrado dentro do conselho secreto de Deus.

Como combustível, três passagens, tiradas dos Capítulos 15 e 16, Livro 1, das Institutas da Religião Cristã (1536) de Jõao Calvino, na tradução de Henry Beveridge:

Livro 1. Capítulo 15.

8. Portanto, Deus forneceu à alma do homem o intelecto, através do que ele poderia discernir o bem do mal, o justo do injusto, e poderia saber o que seguir e do que se esquivar, a razão indo adiante com sua lanterna; motivo pelo qual os filósofos, em referência a seu poder de direção, a chamaram de το ἑγεμονικον. A isto ele juntou a vontade, à qual a escolha pertence. O homem se destacava neste nobres dons em sua condição primitiva, quando a razão, a inteligência, a prudência e o Julgamento não apenas eram suficientes para o governo de sua vida terrena, mas também o permitiam se elevar a Deus e à felicidade eterna. Depois disso, a escolha foi adicionada para dirigir os apetites e temperar todas os movimentos orgânicos; a vontade sendo assim perfeitamente submissa à autoridade da razão. Neste estado ereto, o homem possuía liberdade de vontade, através da qual, se ele escolhesse, ele era capaz de obter a vida eterna. Seria aqui inoportuno introduzir a questão relativa à predestinação secreta de Deus, porque não estamos considerando o que poderia ou não acontecer, mas o que a natureza do homem verdadeiramente era. Adão, portanto, poderia ter ficado de pé se ele escolhesse, uma vez que foi apenas por sua própria vontade que ele caiu; mas foi porque sua vontade era maleável em ambas as direções e porque ele não havia recebido a constância de perseverar que ele tão facilmente caiu. Ainda assim, ele tinha uma escolha livre de bem e mal; e não apenas isso, mas, na mente e na vontade, havia a mais alta retidão, e todas as partes orgânicas estavam devidamente enquadradas para a obediência, até que o homem corrompeu suas boas propriedades e destruiu a si mesmo. Daí a grande escuridão dos filósofos que buscaram uma construção completa em uma ruína e um arranjo ajustado na desordem. O princípio a partir do qual eles partiram era que o homem não poderia ser um animal racional a menos que tivesse uma livre escolha de bem e mal. Eles também imaginaram que a distinção entre virtude e vício seria destruída, se o homem, de seu próprio conselho, não arranjasse sua vida. Até o momento, bem, não houvera qualquer mudança no homem. Isto sendo desconhecido para eles, não é surpreendente que eles joguem tudo na confusão. Mas aqueles que, ao passo que professam ser discípulos de Cristo, ainda buscam livre arbítrio no homem, não obstante ele estar perdido e afogado em destruição espiritual, trabalham sob múltiplas ilusões, criando uma mistura heterogênea de doutrina inspirada e opiniões filosóficas e, assim, errando quanto a ambas. Mas será melhor deixar estas coisas para seu próprio lugar (vide Livro 2 cap. 2). No presente, é necessário apenas lembrar que o homem, em sua primeira criação, eram muito diferente de toda sua posteridade que, derivando sua origem dele depois dele ser corrompido, recebeu uma mácula hereditária. A princípio, cada parte de sua alma foi formada para a retidão. Havia solidez de mente e liberdade de vontade para escolher o bem. Se qualquer um objetar que ele foi colocado, como se fosse, em uma posição escorregadia, pois seu poder era fraco, eu respondo que o grau conferido era suficiente para retirar toda desculpa. Pois certamente a Divindade não poderia ser amarrada a esta condição – criar o homem tal que ele não pudesse pecar ou não pecasse. Tal natureza poderia ter sido mais excelente; mas expostular com Deus como se ele estivesse obrigado a conferir esta natureza ao homem é mais do que injusto, ao ver que ele tinha todo o direito de determinar quanto ou quão pouco Ele daria. Por que Ele não o sustentou pela virtude da perseverança está escondido em seu próprio conselho; é o nosso nos mantermos dentro dos limites da sobriedade. O homem havia recebido o poder, se tivesse a vontade, mas ele não teve a vontade que teria lhe dado o poder; pois esta vontade teria sido seguida pela perseverança. Ainda assim, depois de ter recebido tanto, não há desculpa para ele ter espontaneamente trazido a morte sobre si mesmo. Nenhuma necessidade estava coloca sobre Deus de lhe dar mais do que essa vontade intermediária e mesmo transiente, que da queda do homem ele pudesse extrair materiais para sua própria glória.

Capítulo 16.

2. …a Providência de Deus, como ensinado na Escritura, se opõem à fortuna e às causas fortuitas. Por uma opinião errônea que predomina em todas as eras, uma opinião quase universalmente predominante em nosso próprio tempo – a saber, que todas as coisas acontecem fortuitamente, a verdadeira doutrina da Providência não apenas foi obscurecida, mas quase enterrada. Se alguém cai entre salteadores ou bestas vorazes; se uma repentina rajada de vento no mar causa um naufrágio; se alguém é derrubado pela queda de uma casa ou de uma árvore; se outro, ao perambular por caminhos desertos, se encontra com o livramento; ou, depois de ser jogado pelas ondas, chega a um porto e faz uma maravilhosa escapada por um fio da morte – todas estas ocorrências, prósperas tanto quanto adversas, o senso carnal atribuirá à fortuna. Mas quem aprendeu da boca de Cristo que todos os cabelos de sua cabeça estão contados (Mt. 10:30), procurará mais longe pela causa e manterá que todos os eventos que sejam são governados pelo conselho secreto de Deus. Com relação a objetos inanimado novamente devemos manter que, embora cada um possua suas propriedades peculiares, ainda assim todos eles exercem sua força apenas na medida em que são dirigidos pela mão imediata de Deus. Consequentemente, eles são meramente instrumentos, nos quais Deus infunde a energia que ele vê satisfazer e se volta e converte a qualquer propósito a seu prazer.

8. …mantemos que Deus é o arranjador e governador de todas as coisas, – que desde a mais remota eternidade, de acordo com sua própria sabedoria, ele decretou o que ele deveria fazer e agora, através de seu poder, executa o que decretou. Consequentemente, mantemos que, por sua providência, não o céu e a terra e as criaturas inanimadas apenas, mas também os conselhos e vontades dos homens são governadas de modo a se mover exatamente no curso que ele destinou. O que, então, dirá você , nada acontece fortuitamente, nada contingentemente? Eu respondo, foi um ditado verdadeiro de Basílio, o Grande, de que Fortuna e Acaso são termos pagãos; o significado dos quais não deve ocupar as mentes pias. Pois se todo sucesso é a bênção de Deus, e a calamidade e a adversidade são sua maldição, não resta qualquer lugar, nos assuntos humanos, para a fortuna e o acaso. Devemos também ser movidos pelas palavras de Agostinho (Retract. lib. 1 cap. 1), “Em meus escritos contra os Acadêmicos”, diz ele, “eu me arrependo de ter usado tão frequentemente o termo Fortuna; embora eu tencionasse denotar com ele não alguma deusa, mas a questão fortuita de eventos em questões externas, sejam bons ou maus. Daí, também, estas palavras, Talvez, Por acaso, Fortuitamente, que nenhuma religião nos proíbe de usar, embora tudo deve ser referido à Divina Providência. Tampouco eu me omiti de observar isto, quando eu disse: ‘Embora, talvez, aquilo que é vulgarmente chamado de Fortuna também seja regulado por uma ordem oculta, e o que chamamos de Acaso não seja nada além daquilo cuja razão e causa são secretas’. É verdade, eu assim o disse, mas eu me arrependo de ter mencionado a Fortuna ali como o fiz, quando vejo o costume muito ruim que os homens têm de dizer, não da maneira em que deveriam fazer, ‘Se Deus quiser’, mas ‘Se a Fortuna quiser’.” Em suma, Agostinho em todo lugar ensina que se qualquer coisa é deixada para a fortuna, o mundo se move a esmo. E embora ele declare em outros lugares (Quæstionum, lib. 83) que todas as coisas são realizadas em parte pelo livre arbítrio do homem e, em parte, pela Providência de Deus, ele logo depois demonstra de forma clara o suficiente que o ele quis dizer foi que os homens também são governados pela Providência, quando assume como princípio que não pode haver um absurdo maior do que manter que qualquer coisa é feita sem a ordenação de Deus; porque aconteceria a esmo. Razão pela qual ele também exclui a contingência que depende da vontade humana, mantendo, um pouco mais adiante, em termos mais claros, que nenhuma causa deve ser buscada para além da vontade de Deus. Quando ele usa o termo permissão, o significado que ele lhe atribui aparecerá melhor em uma única passagem (De Trinity. lib. 3 cap. 4) em que ele prova que a vontade de Deus é a causa suprema e primária de todas as coisas, porque nada acontece sem sua ordem ou permissão. Ele certamente não imagina Deus sentado ociosamente em uma torre de vigia, quando ele escolhe permitir qualquer coisa. A vontade que ele representa se interpondo é, se eu puder assim expressá-la, ativa (actualis) e, exceto por isso, não poderia ser considerada como uma causa.

ADICIONADO: Em conexão com algumas das discussões que estão ocorrendo na seção de comentários (aqui), este parágrafo do Sermão de Regensburg (2006) do Papa Bento XVI parece digna de reprodução aqui: “A deselenização primeiro emerge em conexão com os postulados da Reforma, no século XVI. Olhando para a tradição da teologia escolástica, os Reformadores pensaram que estavam sendo confrontados com um sistema de fé totalmente condicionado pela filosofia, isto é, uma articulação da fé baseada em um sistema alienígena de pensamento. Como resultado, a fé não mais aparecia como uma Palavra histórica viva, mas como um elemento de um sistema filosófico abrangente. O princípio da sola scriptura, por outro lado, buscava a fé em sua forma pura, primordial, como originalmente encontrada na Palavra bíblica. A metafísica aparecia como uma premissa derivada de uma outra fonte, da qual a fé tinha que ser liberada a fim de se tornar mais uma vez plena de si. Quando Kant afirmou que precisava colocar o pensamento de lado a fim de criar espaço para a fé, ele levou seu programa adiante com um radicalismo que os Reformadores nunca poderiam ter previsto. Desta forma, ele ancorou a fé exclusivamente na razão prática, negando a ela o acesso à realidade como um todo”.

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 1

Parte 1: Neo-reacionários se dirigem para a saída

O Iluminismo não é apenas um estado, mas um evento, e um processo. Enquanto designação de um episódio histórico, concentrado no norte da Europa durante o século XVIII, é um dos principais candidatos ao ‘verdadeiro nome’ da modernidade, capturando sua origem e essência (‘Renascença’ e ‘Revolução Industrial’ são outros). Entre ‘iluminismo’ e ‘iluminismo progressista’, há apenas uma diferença elusiva, porque a iluminação leva tempo – e se alimenta de si mesma, porque o iluminismo é auto-confirmador, suas revelações, ‘auto-evidentes’, e porque um ‘iluminismo sombrio’ retrógrado, ou reacionário, quase equivale a uma contradição intrínseca. Tornar-se iluminado, nesse sentido histórico, é reconhecer e depois perseguir uma luz guia.

Houve eras de escuridão e, então, o iluminismo veio. Claramente, o avanço se demonstrou, oferecendo não apenas melhoria, mas também um modelo. Além disso, ao contrário de uma renascença, não há qualquer necessidade de um iluminismo relembrar o que foi perdido ou de enfatizar as atrações do retorno. O reconhecimento elementar do iluminismo já é história Whig em miniatura.

Uma vez que certas verdades iluminadas tenham sido descobertas auto-evidentes, não pode haver volta, e o conservadorismo é preventivamente condenado – predestinado – ao paradoxo. F. A. Hayek, que se recusava a se descrever como um conservador, celebremente resolveu, em vez disso, pelo termo ‘Velho Whig’, que – como ‘liberal clássico’ (ou o ainda mais melancólico ‘remanescente’) – aceita que o progresso não é o que costumava ser. O que poderia ser um Velho Whig, se não um progressista reacionário? E o que diabos é isso?

Claro, muitas pessoas já pensam que sabem com o que o modernismo reacionário se parece e, em meio ao atual colapso de volta aos anos 1930, sua preocupações só deverão crescer. Basicamente, é para isso que serve a palavra com ‘F’, pelo menos no uso progressista. Uma fuga da democracia, sob essas circunstâncias, se conforma tão perfeitamente às expectativas que elude o reconhecimento específico, aparecendo meramente como um atavismo ou uma confirmação de uma terrível repetição.

Ainda assim, algo está acontecendo e é – pelo menos em parte – alguma outra coisa. Um marco foi a discussão, em abril de 2009, hospedada no Cato Unbound, entre pensadores libertários (incluindo Patri Friedman e Peter Thiel) na qual a desilusão com a direção e as possibilidades da política democrática foi expressa com uma franqueza incomum. Thiel resumiua tendência de maneira brusca: “Eu não acredito mais que a liberdade e a democracia são compatíveis”.

Em agosto de 2011, Michael Lind postou uma réplica democrática no Salon, desenterrando uma sujeira impressionantemente fétida e concluindo:

O pavor da democracia por parte de libertários e liberais clássicos é justificado. O libertarianismo realmente é incompatível com a democracia. A maioria dos libertários deixaram claro qual dos dois eles preferem. A única questão que ainda precisa ser resolvida é por que alguém deveria dar atenção aos libertários.

Lind e os ‘neo-reacionários’ parecem estar em amplo acordo de que a democracia não é apenas (ou sequer) um sistema, mas sim um vetor, com uma direção inequívoca. Democracia e ‘democracia progressista’ são sinônimos e indistinguíveis da expansão do estado. Embora governos de ‘extrema direita’ tenham, em raras ocasiões, momentaneamente detido esse processo, sua reversão está para além dos limites da possibilidade democrática. Uma vez que ganhar eleições é esmagadoramente uma questão de comprar votos e que os órgãos informacionais da sociedade (educação e mídia) não são mais resistentes ao suborno do que o eleitorado, um político frugal é simplesmente um político incompetente, e a variante democrática do darwinismo rapidamente elimina esses desajustados do pool genético. Esta é uma realidade que a esquerda aplaude, a direita do establishment amuadamente aceita e contra a qual a direita libertária tem ineficazmente se lamentado. Cada vez mais, contudo, os libertários deixaram de se importar se alguém está lhes ‘da[ndo] atenção’ – eles têm procurado por algo inteiramente diferente: uma saída.

É uma inevitabilidade estrutural que a voz libertária seja abafada na democracia e, de acordo com Lind, ela deveria o ser. Cada vez mais libertários estão propensos a concordar. ‘Voz’ é a democracia em si, em sua estirpe historicamente dominante e rousseauísta. Ela modela o estado como uma representação da vontade popular, e se fazer ouvir significa mais política. Se votar enquanto auto-expressão massificada de povos politicamente empoderados é um pesadelo que engolfa o mundo, adicionar à confusão não ajuda. Ainda mais do que Igualdade-vs-Liberdade, Voz-vs-Saída é a crescente alternativa, e os libertários estão optando pela fuga muda. Patri Friedman observa: “pensamos que a saída livre é tão importante que a chamamos de o único Direito Humano Universal”.

Para os neo-reacionários incondicionais, a democracia não está meramente condenada, ela condena a si própria. Fugir dela se aproxima de um imperativo absoluto. A corrente subterrânea que propele essa antipolítica é reconhecivelmente hobbesiana, um iluminismo sombrio coerente, despojado desde seu princípio de qualquer entusiasmo rousseauísta pela expressão popular. Predisposto, em todo caso, a perceber as massas politicamente despertas como uma turba irracional vociferante, ele concebe a dinâmica da democratização como fundamentalmente degenerativa: sistematicamente consolidando e exacerbando vícios, ressentimentos e deficiências privadas até que atinjam o nível de criminalidade coletiva e corrupção social abrangente. O político democrático e o eleitor estão unidos por um circuito de incitação recíproca, no qual cada lado leva o outro a extremos cada vez mais desavergonhados de canibalismo que vaia e se pavoneia, até que a única alternativa ao gritar seja ser comido.

Onde o iluminismo progressista vê ideais políticos, o iluminismo sombrio vê apetites. Ele aceita que os governos são feitos de pessoas e que elas vão comer bem. Colocando suas expectativas tão baixo quanto razoavelmente possível, ele busca apenas poupar a civilização do deboche frenético, ruinoso, guloso. De Thomas Hobbes a Hans-Herman Hoppe e além, ele pergunta: Como o poder soberano pode ser impedido – ou pelo menos dissuadido – de devorar a sociedade? Ela consistentemente acha as ‘soluções’ democráticas para este problema risíveis, na melhor das hipóteses.

Hoppe advoga uma ‘sociedade de lei privada’ anarco-capitalista, mas, entre monarquia e democracia, ele não hesita (e seu argumento é estritamente hobbesiano):

Como um monopolista hereditário, um rei considera o território e o povo sob seu jugo como sua propriedade pessoal e se engaja na exploração monopolista desta “propriedade”. Sob a democracia, o monopólio e a exploração monopolista não desaparecem. Antes, o que acontece é isto: em vez de um rei e uma nobreza que consideram o país como sua propriedade privada, um zelador temporário e permutável é colocado como encarregado monopolista do país. O zelador não é dono do país, mas enquanto ele estiver no cargo, permite-se que ele o use para vantagem sua e de seus protegidos. Ele é dono seu uso corrente – usufruto – mas não seu capital social. Isso não elimina a exploração. Pelo contrário, torna a exploração menos calculista e a faz ser executada com pouca ou nenhuma consideração pelo capital social. A exploração se torna míope e o consumo de capital será sistematicamente promovido.

Agentes políticos investidos com autoridade transiente por sistemas democráticos multipartidários têm um incentivo esmagador (e demonstravelmente irresistível) de pilhar a sociedade com as maiores rapidez e abrangência possíveis. Qualquer coisa que eles negligenciem roubar – ou ‘deixem na mesa’ – provavelmente será herdada por sucessores políticos a quem não apenas não são conectados, mas, na verdade, se opõem, e que podem, portanto, esperar que utilizem todos os recursos disponíveis em detrimento de seus adversários. O que quer que seja deixado para trás se torna uma arma na mão do seu inimigo. Melhor, então, destruir tudo que não possa ser roubado. Da perspectiva de um político democrático, qualquer tipo de bem social que não seja nem diretamente apropriável, nem atribuível à (sua própria) política partidária é puro desperdício e não conta de nada, ao passo que o infortúnio social mais grave – contanto que possa ser atribuído a uma administração anterior ou adiado até uma subsequente – figura nos cálculos racionais como uma óbvia bênção. As melhorias tecno-econômicas de longo alcance e a acumulação associada de capital cultural que constituíam o progresso social em seu sentido antigo (Whig) não são o interesse político de ninguém. Uma vez que a democracia floresça, eles enfrentam a ameaça imediata de extinção.

A civilização, enquanto processo, é indistinguível da preferência temporal decrescente (ou preocupação declinante com o presente em comparação ao futuro). A democracia, que tanto em teoria quanto no fato histórico evidente acentua a preferência temporal ao ponto de um frenesi alimentício convulsivo, está, assim, tão próxima de uma negação precisa da civilização quanto qualquer coisa poderia estar, aquém de um colapso social instantâneo em barbarismo assassino ou apocalipse zumbi (ao qual ela eventualmente leva). Conforme o vírus democrático queima por entre a sociedade, hábitos e atitudes laboriosamente acumulados de investimento prospectivo, prudente, humano e industrial são substituídos por um consumismo estéril e orgiástico, incontinência financeira e um circo político de ‘reality show’. O amanhã poderia pertencer ao outro time, então é melhor comer tudo agora.

Winston Churchill, que observou, em estilo neo-reacionário, que “o melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com o eleitor médio”, é melhor conhecido por sugerir “que a democracia é a pior forma de governo exceto todas as outras que foram tentadas”. Embora nunca exatamente conceda que “OK, a democracia é uma merda (na verdade, ela realmente é uma merda), mas qual é a alternativa?”, a implicação é óbvia. O teor geral desta sensibilidade é atraente para os conservadores modernos, porque ressoa com sua aceitação irônica e desiludida da deterioração civilizacional implacável e com a apreensão intelectual associada do capitalismo como um arranjo social padrão pouco apetitoso, mas ineliminável, que permanece após todas as alternativas catastróficas ou meramente impraticáveis terem sido descartadas. A economia de mercado, neste entendimento, não é mais do que uma estratégia espontânea de sobrevivência que se costura em meio às ruínas de um mundo politicamente devastado. As coisas provavelmente só vão ficar piores para sempre. E assim vai.

Então, qual é a alternativa? (Certamente não faz qualquer sentido vasculhar a década de 1930 em busca de uma.) “Você consegue imaginar uma sociedade pós-demotista do século XXI? Uma que se via como se recuperando da democracia, da mesma forma em que o leste europeu se vê como se recuperando do Comunismo?” pergunta o Lord Sith supremo dos neo-reacionários, Mencius Moldbug. “Bem, eu suponho que isso lhe torna um de nós.”

As influência formativas de Moldbug são austro-libertárias, mas isto está acabado. Como ele explica:

…os libertários não conseguem apresentar uma figura realista de um mundo no qual sua batalha é vencida e permanece vencida. Ele acabam procurando maneiras de empurrar um mundo, no qual o caminho natural ladeira abaixo do Estado  é crescer, de volta ladeira acima. Este prospecto é sisifista, e é compreensível porque atrai tão poucos apoiadores.

Seu despertar para a neo-reação vem com o reconhecimento (hobbesiano) de que soberania não pode ser eliminada, enjaulada ou controlada. Utopias anarco-capitalistas não podem nunca condensar a partir da ficção científica, poderes divididos fluidamente se reúnem novamente como um Exterminador despedaçado, e constituições têm exatamente tanta autoridade real quanto um poder interpretativo soberano as permite ter. O estado não vai a lugar nenhum porque – para aqueles que o operam – ele vale demais para se desistir e, enquanto instanciação concentrada da soberania na sociedade, ninguém pode fazê-lo fazer nada. Se o estado não pode ser eliminado, Moldbug argumenta, pelo menos ele pode ser curado da democracia (ou mau governo sistemático e degenerativo), e a maneira de fazer isso é formalizá-lo. Esta é uma abordagem que ele chama de ‘neo-cameralismo’.

Para um neocameralista, um estado é um negócio que é dono de um país. Um estado deveria ser gerido, como qualquer outro grande negócio, dividindo-se a propriedade lógica em ações negociáveis, cada uma das quais rende um fração precisa do lucro do estado. (Um estado bem administrado é muito lucrativo.) Cada ação tem um voto, e os acionistas elegem um conselho que contrata e demite gerentes.
Os clientes deste negócio são seus residentes. Um estado neocameralista gerido lucrativamente, como qualquer negócio, servirá a seus clientes de maneira eficiente e efetiva. Mau governo é igual a mau gerenciamento.

Primeiramente, é essencial esmagar o mito democrático de que um estado ‘pertence’ aos cidadãos. O ponto do neo-cameralismo é comprar as partes interessadas no poder soberano, para não perpetuar mentiras sentimentais sobre o direito das massas ao voto. A menos que a propriedade do estado seja formalmente transferida para as mãos de seus reais governantes, a transição neo-cameral simplesmente não ocorrerá, o poder continuará nas sombras, e a farsa democrática continuará.

Assim, em segundo lugar, a classe dominante deve ser plausivelmente identificada. Deveria ser imediatamente notado, em contra-distinção aos princípios marxistas da análise social, que essa não é a ‘burguesia capitalista’. Logicamente, não pode ser. O poder da classe empresarial já está sempre claramente formalizado, em termos monetários, de modo que a identificação do capital com o poder político é perfeitamente redundante. É necessário perguntar, em vez disso, a quem os capitalistas pagam por favores políticos, quanto estes favores potencialmente valem, e como a autoridade de concedê-los está distribuída. Isto requer, com um mínimo de irritação moral, que toda a paisagem social do suborno político (‘lobby’) seja mapeada de maneira exata e que os privilégios administrativos, legislativos, judiciais, midiáticos e acadêmicos acessados por tais subornos sejam convertidos em ações fungíveis. Na medida em que vale a pena subornar os eleitores, não há qualquer necessidade de excluí-los inteiramente deste cálculo, embora sua porção de soberania seja estimada com o escárnio apropriado. A conclusão deste exercício é o mapeamento de uma entidade governante que é a instância verdadeiramente dominante do regime democrático. Moldbug a chama de a Catedral.

A formalização dos poderes políticos, em terceiro lugar, permite a possibilidade do governo efetivo. Uma vez que o universo da corrupção democrática seja convertido em uma participação acionária (livremente transferível) na gov-corp, os donos do estado podem iniciar a governança corporativa racional, começando com o apontamento de um CEO. Como com qualquer negócio, os interesses do estado estão agora formalizados de maneira precisa como maximização do valor acionário de longo prazo. Não há mais qualquer necessidade de que os residentes (clientes) tenham qualquer interesse em qualquer política que seja. Na verdade, fazê-lo seria exibir tendências semi-criminosas. Se a gov-corp não entrega um valor aceitável por seus impostos (aluguel soberano), eles podem notificar sua função de serviço ao consumidor e, se necessário, levar sua clientela para outro lugar. A gov-corp deveria se concentrar em operar um país eficiente, atraente, vital, limpo e seguro, de um tipo que seja capaz de atrair clientes. Nenhuma voz, saída livre.

…embora a abordagem neocameralista completa nunca tenha sido tentada, seus equivalentes históricos mais próximos desta abordagem são a tradição do século XVIII de absolutismo iluminado, como representado por Frederico, o Grande, e a tradição não-democrática do século XXI, como visto em fragmentos perdidos do Império Britânico, tais como Hong Kong, Singapura e Dubai. Estes estados parecem fornecer uma qualidade bastante alta de serviço a seus cidadãos, sem qualquer democracia significativa que seja. Eles têm níveis mínimos de crime e altos níveis de liberdade pessoal e econômica. Eles tendem a ser bastante prósperos. Eles são fracos apenas em liberdade política, e liberdade política é desimportante por definição quando o governo é estável e efetivo.

Na antiguidade europeia clássica, a democracia era reconhecida como uma fase familiar de desenvolvimento político cíclico, fundamentalmente decadente em natureza e preliminar a uma descida à tirania. Hoje, este entendimento clássico está completamente perdido e foi substituído por uma ideologia democrática global, carecendo inteiramente de auto-reflexão, que é afirmada, não como uma tese social-científica crível ou sequer como uma aspiração popular espontânea, mas sim como uma crença religiosa, de um tipo específico e historicamente identificável:

…uma tradição recebida que eu chamo de Universalismo, que é um secto cristão não-teísta. Alguns outros rótulos atuais para esta mesma tradição, mais ou menos sinônimos, são progressismo, multiculturalismo, liberalismo, humanismo, esquerdismo, politicamente correto e similares. …o Universalismo é o ramo moderno dominante do cristianismo na linha calvinista, tendo evoluído a partir da tradição inglesa dissidente ou puritana, através dos movimentos Unitário, Transcendentalista e Progressista. Seu espinhoso caminho ancestral também inclui alguns raminhos laterais que são importantes o suficientes para nomear, mas cuja ancestralidade cristã é ligeiramente mais bem dissimulada, tais como o laicismo rousseauviano, o utilitarismo benthamita, o judaísmo reformado, o positivismo comteano, o idealismo alemão, o socialismo científico marxista, o existencialismo sartreano, o pós-modernismo heideggeriano, etc, etc, etc. …o Universalismo, em minha opinião, é melhor descrito como um culto dos mistérios do poder. …É tão difícil imaginar o Universalismo sem o Estado quanto a malária sem o mosquito. …O ponto é que esta coisa, como quer que você se importe de chamá-la, tem pelo menos duzentos anos de idade e provavelmente algo como quinhentos. É basicamente a própria Reforma. …E simplesmente despertar para ela e a denunciar como má tem tanta probabilidade de funcionar quanto processar Shub-Niggurath no tribunal de pequenas causas.

Para compreender o aparecimento de nosso predicamento contemporâneo, caracterizado pela expansão implacável e totalizante do estado, pela proliferação de ‘direitos humanos’ positivos espúrios (reivindicações sobre os recursos de outros apoiados por burocracias coercitivas), dinheiro politizado, temerárias ‘guerras pela democracia’ evangélicas e controle abrangente do pensamento, arranjado em defesa do dogma universalista (acompanhado pela degradação da ciência em uma função de relações públicas do governo), é necessário se perguntar como Massachusetts veio a conquistar o mundo, como Moldbug o faz. Com cada ano que passa, o ideal internacional da boa governança se encontra aproximando-se mais intima e rigidamente dos padrões estabelecidos pelos departamentos de Estudos das Reclamações das universidades da Nova Inglaterra. Esta é a divina providência dos ranters e dos levelers, elevada a uma teleologia planetária e consolidada como o reino da Catedral.

A Catedral substituiu com seu evangelho tudo que conhecíamos. Considere apenas as preocupações expressas pelos pais fundadores da América (compilado pelo comentário #1 do ‘Liberty-clinger’ aqui):

Uma democracia não é nada mais do que o domínio da turba, onde 51% das pessoas podem retirar os direitos dos outros 49%. – Thomas Jefferson

A democracia são dois lobos e um cordeiro votando sobre o que comer no almoço. A liberdade é um cordeiro bem armado contestando o voto! – Benjamin Franklin

A democracia nunca dura muito. Ela logo desperdiça, exaure e se assassina. Nunca houve uma democracia, até hoje, que não tenha cometido suicídio. – John Adams

As democracias sempre foram espetáculos de turbulência e contenção; sempre foram descobertas incompatíveis com a segurança pessoal ou os direitos de propriedade; e, em geral, foram tão curtas em suas vidas quanto foram violentas em sua morte. – James Madison

Somos um Governo Republicano, a Real liberdade nunca é encontrada no despotismo ou nos extremos da democracia… foi observado que uma democracia pura, se fosse praticável, seria o governo mais perfeito. A experiência provou que nenhuma posição é mais falsa do que esta. As antigas democracias, na quais as próprias pessoas deliberavam, nunca possuíram uma boa característica de governo. Seu próprio caráter era a tirania… – Alexander Hamilton

Mais sobre votar com seus pés (e do gênio incandescente de Moldbug), a seguir…

Nota adicionada (7 de Março):

Não confie na atribuição da citação de ‘Benjamin Franklin’ acima. De acordo com Barry Popik, o ditado provavelmente foi inventado por James Bovard em 1992. (Bovard observa, em outro lugar: “Há poucos erros mais perigosos no pensamento político do que igualar a democracia à liberdade”.)

Original.

Curto-Circuito II

Quanto trabalho analítico pode ser feito com o modelo de curto-cirtuito de disfunção em sistemas inteligentes complexos, exemplificado pelo modelo de IA com implante cerebral de Alexander. Este blog está apostando: muito.

Engavetando a questão da IA, por ora, como ele pode ser aplicado aos sistemas sociais-civilizacionais? (Este post é um bloco de rascunho sobre alguns territórios atuais sugestivos.)

(1) Macroeconomia. A moeda fiduciária curto-circuita a função monetária ao hackear diretamente o sinal financeiro. Em vez de receber feedback monetário pelo desempenho produtivo, a moeda é reconcebida como uma droga político-econômica, para ser empregada na terapêutica social tecnocrata-gerencial. O conceito de ‘ilusão monetária’ (entre muitos outros) captura esta nova dispensa com um cinismo agudo. Opere diretamente sobre o ‘sentimento econômico’ do público através da manipulação monetária, em vez de tolerar o controle espontâneo do dinheiro pela produção industrial – e arriscando uma depressão. Tudo o que ainda é – comicamente – chamado de ‘capitalismo’ está entupido até os olhos de Prozac Keynesiano.

(2) Drogas. A macroeconomia já é um análogo neuro-farmacêutico tão perfeito que dificilmente faz sentido tratar isto como uma categoria separada.

(3) Sinalização (tudo dela). Hackeie diretamente o sinal, enquanto abandona à atrofia todas aquelas coisas que o sinal originalmente indicava. A Catedral não é, fundamentalmente, uma máquina para fazer isso? Cinda sinais de santidade, e os histerifique, em completo afastamento de qualquer desempenho real que pudesse, em algum momento, ter lhes fundamentado. Esta é a nossa cultura. É uma tecnologia semiótica que, uma vez aprendida, é imediatamente, irresistivelmente, viciante e auto-reforçadora. Toda a escalação do ‘Ultra-Calvinismo’ é inextricável deste processo, conforme os sinais sublimados do bempensar da verdadeira fé lançaram o último lastro de ‘obras’, a fim de se tornarem funções acadêmicas-midiáticas liberadas. A ‘bondade’ agora é pura cosmética.

(4) Fertilidade. Quem precisa de netos, quando podem jogar o imersivo jogo dos avós felizes? (Fique preso nos estágios intermediários do web-pornô, se isso parece mais convincente.) Todos os sinais orientadores darwinianos foram hackeados para o inferno.

(5) Mídia social. Feedback social curto-cicuitado, ‘desempenho’ semiótico simplificado, ‘identidades’ cada vez mais teatrais, vício… está tudo ali.

Uma restauração exigiria algo como uma ‘retificação dos nomes’ confucionista – uma revalidação dos sinais embasada na realidade. Quão popular isto vai ser, quando a alternativa, continuar o curto-circuito semiótico, é pura brisa?

Original.