‘A Única Coisa que Eu Imporia É a Fragmentação’ – Uma Entrevista com Nick Land

por Marko Bauer e Andrej Tomazin

Em seu livro de 2014 Templexity: Disordered Loops through Shanghai Time você escreve: ‘”O que aconteceu com a América?” é a questão cyberpunk por excelência’. O que realmente aconteceu com a América nos últimos meses?

É meio roubado do William Gibson, então remonta até o meio dos anos 1980. Eu acho que você está totalmente certo de dizer que agora é uma excelente hora para se retornar a ela. Então, o que aconteceu com a América? Se eu fosse dizer em poucas palavras: depois de aproximadamente meio milênio, durante o qual a principal força motriz da história global foi alcançar a integração de estados maiores e mais poderosos, dirigidos por um grupo de ideólogos fortemente universalistas, que basicamente pensam que quanto maior sua agregação e quanto maior o conjunto de regras comuns que pode ser imposto sobre ela, melhor, estamos vendo uma reversão da maré de um escopo verdadeiramente histórico. A tendência básica agora é desintegradora. Então, o que eu vejo acontecendo com a América: se manter unida vai se tornar cada vez mais desafiador.

Sentimos muito, com antecedência, por fazer referência a teóricos franceses, que são, claro, parte de sua formação, mas aos quais parece que você está cada vez mais alérgico.

Isso não exige nenhum pedido de desculpas.

Uma das tendências mais valiosas de sua escrita é/era a desterritorialização da divisão progressista/reacionário. Isto parece especialmente perdido em seu blog Xenosystems, onde você se posiciona à Direita, independente de quão distante no extremo dela isso seja. Isso não é um tipo de reterritorialização?

Eu acho que estamos devendo – sempre – uma grande discussão sobre o que as pessoas querem dizer com Esquerda e Direita. A polaridade Esquerda/Direita é uma peça muito interessante de linguagem, um pequeno e compacto sistema de linguagem, porque todo mundo está usando ele ou com uma imensa falta de clareza sobre o que está realmente sendo invocado com isso, ou com associações básicas em grande parte inconsistentes com esses termos.

A Esquerda para você agora é o lado conservador, e a Direita o progressista. Mas onde reside a distinção Esquerda/Direita, na realidade? A Esquerda significa – como Badiou e cia. alegariam – igualitarismo, e a Direita é contra isso? A Esquerda é a Regra de Ouro e a Direita a regra de algo na linha de ‘faça o que lhe aprouver, mas aceite as consequências’?

Bem, esse é o sentido crowleyita da Direita. Badiou é uma pessoa interessante para se introduzir, porque eu estou bem feliz com a sua distinção Esquerda/Direita. Em um sentido que agora está predominantemente em jogo, a Esquerda é o campo da unidade e do universalismo, e o igualitarismo é uma grande parte disso. A Direita é o campo da fragmentação, da experimentação e, eu diria, da competição, enquanto termo que foi herdado de uma tradição e é provavelmente bastante incontroverso. Mas, sim, as pessoas de fato se apegam a um sentido de Direita e, sem dúvida, também de Esquerda que é exatamente sobre hiperterritorialização. Há um sentido “Sangue e Solo” da essência da Direita, com o qual eu me sinto compelido a me engajar, e a tentar deslocar e destronar, porque eu não acho que ele leva a qualquer lugar. É um beco sem saída. Poderia haver algumas oportunidades táticas nessas tendências, mas o ‘Neo’ em NRx implica precisamente que não há volta. Na medida em que o identitarismo do “Sangue e Solo” conseguir alcançar o poder de várias maneiras, ele verá seus piores dias, será forçado a entregar e ter um desempenho, e falhará em fazê-lo. Quanto mais eles realmente estiverem em uma posição de implementar políticas, mais eles se tornarão ineficazes em seus próprios termos. Eles perderão o potencial de globalização em massa e serão associados a falhas. Eu gostaria de ver esses experimentos acontecerem em uma escala pequena o suficiente para que possam ser educativos, em vez de globalmente catastróficos.

Você está interessado em falhas locais?

Sim, falhas locais são ótimas. Falhas globais, obviamente, não tão boas.

Todas as analogias com os anos 30 são meio letárgicas ou nostálgicas, como se não houvesse nada novo ocorrendo. Não obstante, há também a paixão de Badiou pelo Real e o fenômeno de ‘comunistas’ virando ‘fascistas’ durante o período entre as duas guerras mundiais – figuras tais como Pierre Drieu la Rochelle ou Charles Péguy, que talvez seja ainda mais ambivalente, uma vez que ele se torna um vetor de referência tanto para a França de Vichy quanto para Mussolini, mas também para o movimento de resistência. Estamos cientes do seu ponto de vista diferente sobre o que o fascismo é, que não vê qualquer transformação nos casos acima, e da perspectiva do qual a mudança de Goebbels do socialismo para o nacional-socialismo é um mero passeio. Estamos, contudo, interessados na sua mudança para o outro lado – exterior. Qual poderia ser uma relação entre a paixão pelo Real e a paixão pelo Exterior? O seu Exterior é similar ao Real de Badiou?

Poderia ser. Eu diria, no entanto, que sem uma noção de teste de realidade, uma invocação do Real é de significância absolutamente zero. Qualquer um pode invocar o Real, mas, a menos que exista algum mecanismo que forneça, não uma voz para o Exterior, mas uma intervenção funcional real vinda do Exterior, de modo que tenha uma função seletiva, então a linguagem é vazia. Nesse sentido, ele é completamente inseparável da fragmentação. Os sistemas modernistas funcionam – quer você esteja falando sobre a economia de mercado ou das ciências naturais – porque são sistemas fragmentários. Não existe nenhuma decisão política sobre o que é ou não é um bom resultado científico ou econômico. Esses resultados estão sujeitos a um processo seletivo de triagem que mobiliza o Exterior. É aqui, sem ser um grande ou mesmo um medíocre acadêmico de Badiou, que minha suspeita natural sobre uma invocação do Exterior vinda da posição que ele parece ocupar estaria.

Uma questão metafísica boba: O Exterior é algo dado/fixo ou é uma entidade mutável?

É uma questão importante, mas não perfeitamente formulada. A tendência da filosofia transcendental tem sido cada vez mais identificar o Real com o Tempo. O Real e a Temporalidade estão profundamente co-envolvidos de tal maneira que o Tempo não pode ser usado como um quadro no qual colocar ou fazer sentido do Real. Simplesmente não podemos fazer a pergunta de se o Real é mutável ou imutável. Se dizemos que o Real é ou mutável ou imutável, estamos dizendo que ele existe no Tempo e, se este é o caso, então deveríamos estar perguntando sobre o Tempo, e não sobre o que pensávamos estar perguntando, quando estávamos perguntando sobre o Real. Porque é o Real que é o fator controlador derradeiro. Pensar que podemos colocá-Lo no Tempo é uma distração para longe deste nível transcendental derradeiro da questão. Isso é intrinsecamente obscuro, mas eu acho que também é inescapável.

Como o teste de realidade funciona?

Fazemos isso permitindo que um processo de seleção aconteça. As ciências naturais são um exemplo tão bom disso quanto qualquer outro. A única coisa que fez com as ciências modernas se elevassem para além dos procedimentos epistêmicos vistos em outros tempos e outras culturas é o fato de que há um mecanismo além da manipulação política humana para a eliminação de teorias defeituosas. Karl Popper está, nesse nível, totalmente correto. Se é politicamente negociável, é inútil, não é científico, por definição. Você não confia nos cientistas, você não confia nas teorias científicas, você não confia nas instituições científicas na medida em que elas têm integridade, você confia é na zona desintegrada de crítica e nos critérios para a crítica e para a avaliação em termos de experimentos repetidos, em termos das heurísticas que são construídas para decidir se uma teoria em particular foi derrotada e eliminada por uma teoria superior. É esse mecanismo de seleção que é a única coisa que torna a ciência importante e a torna um sistema de teste de realidade. E isto está, obviamente, intrinsecamente direcionado contra qualquer tipo de comunidade política orgânica que vise determinar internalmente – através de seus próprios processos – a negociação da natureza da realidade. A realidade tem que ser um fator crítico disruptivo externo.

O texto Lemurian Time War do CCRU diz que a hiperstição está ‘traçando uma fuga do destino’. Como esta noção entre em jogo com o teste de realidade?/

Eu acho que hiperstição é uma daquelas coisas que escapou completamente da caixa e agora é um animal selvagem e feroz à solta. Minha relação com essa coisa alienígena é como a de todas as outras pessoas que estão interessadas nela. Estou abordando-a de uma posição de zero autoridade, tentando fazer sentido de como ela está vivendo e mudando e afetando o mundo. Ela, a coisa, não ele, o conceito. Mas tendo dito isso, meu sentido de uma hiperstição é que uma hiperstição é um experimento. Ela torna a si mesma real, se funcionar. E ela funcionar ou não é algo que não pode ser, novamente, decidido por um processo de debate interno, você não pode, como resultado de algum tipo de dialética interna decidir que, ei, esta é uma boa hiperstição, ela tem um grande futuro. Ela vai funcionar por causa de sua relação intrínseca com o Exterior, que é algo que não pode ser gerido. Talvez ela possa ser cautelosa e tentativamente prevista, da maneira em que um cientista ou um artista – ao aprender seu ofício – conseguiria ter um sentimento do que vai funcionar e do que não vai funcionar. Mas isso não é o mesmo que ter um critério, ainda menos uma lei.

Retornemos à nossa primeira questão sobre a América, neste momento bastante histórico, que está entrelaçado com padrões semióticos e regularidades intensivas que parecem ser tweetadas e espalhadas em um certo discurso pós-factual, para dentro de uma imagem do real, que não se pode mais distinguir retroativamente do real. A fabricação de notícias falsas em Veles, Macedônia, durante as eleições dos EUA, é uma maneira de ‘propagar rotas de escape’, na sua visão, ou é um evento efêmero sem qualquer significância?

Eu definitivamente acharia que algum tipo de resposta desdenhosa ao longo da segunda linha seria grosseiramente complacente. É uma rota de escape? Há, definitivamente, uma relação com uma escapada. Todo esse fenômeno de notícias falsas é enormemente importante e historicamente significativo. No momento, eu estou completamente cativado pela força de uma analogia entre a era de Gutenberg e a era da internet, essa força rítmica vinda da conexão entre elas. Uma destruição radical da realidade se passou com a emergência da imprensa. Na Europa, este processo auto-propulsor começou, e o sistema de consenso de descrição da realidade, atribuição de autoridades e critérios para qualquer tipo de afirmação filosófica ou ontológica foi todo jogado no caos. Processos massivos de desordem se seguiram, os quais eventualmente foram resolvidos nessa nova estrutura, que teve que reconhecer um grau maior de pluralismo do que havia existido previamente. Eu acho que estamos no mesmo tipo de estágio inicial de um processo de caos ontológico que estilhaça o absoluto, que veio do fato de que as autoridades epistemológicas foram explodidas pela internet. Seja o sistema universitário, a mídia, as autoridades financeiras, a indústria editorial, todos os guardiões básicos e as agências e sistemas de credenciamento que mantinham as hierarquias epistemológicas do mundo moderno estão simplesmente caindo aos pedaços em uma velocidade que ninguém imaginava ser possível. E as consequências no curto prazo, no futuro próximo, estão fadadas a serem confusas e imprevisíveis e talvez inevitavelmente horríveis de diversas maneiras. É um fenômeno de limiar. A noção de que há um retorno ao regime anterior de estabilização ontológica parece absolutamente iludida. Há uma escapada que é estritamente análoga à maneira na qual a modernidade escapou do antigo regime.

No princípio da internet, havia a noção de ela ser inerentemente democrática. Nos anos 00, a saber, na época da Primavera Árabe, blogueiros e outros que estavam usando a internet foram vistos como os que espalhariam a democracia ao redor do mundo. Da sua perspectiva, essa expectativa provavelmente parece absolutamente ridícula.

É esse híbrido esquisito: reconhecer bastante realisticamente o massivo potencial insurgente da nova mídia, mas então aplicar isso a essas formações ideológicas moribundas. É como se alguém tivesse dito, na era de Gutenberg, que a imprensa é um dispositivo incrível e poderoso e vai espalhar a ortodoxia católica por todo o mundo. É metade correto e metade insano. A mentalidade neoconservadora, associada com essas novas tecnologias de comunicação, é exatamente o mesmo híbrido de um resplendor de realismo misturado com uma dose saudável de completa psicose.

Reza Negarestani, em algum lugar, escreve que a mera ‘coletividade não é o suficiente para que uma obra [ou um evento] seja hipersticional’. Ele elabora isto através da diferença entre Tolkien e Lovecraft. Que tipo de coletividades estamos observando aqui, se não aquelas ligadas ao universalismo?

Eu não estou 100 por cento confiante do que Reza está dizendo nesse texto. Eu não quero que isto seja lido como um comentário sobre seu pensamento. Mas a hiperstição de fato surgiu em um certo meio que definitivamente enfatizava, de maneira retórica, um certo tipo de coletividade e até mesmo mais do que isso. O que está sendo referenciado não é primariamente a universalidade, de maneira nenhuma, mas algo muito mais próximo de uma anonimidade ou a problematização da atribuição. Qualquer unidade hipersticional – e o que agora é chamado de meme está muito próximo disso – que possa ser confiantemente atribuída a um ato particular de criação individual está originalmente avariada. H. P. Lovecraft parece ter entendido que toda a produção do mythos lovecraftiano era bem uma tentativa de sua parte de subtrair seu próprio papel criativo. É apenas quando isso é subtraído que essas coisas são liberadas. Cthulhu se torna um tipo de termo hipersticional, ao ponto em que não é simplesmente algo que foi inventado por Lovecraft. O fato de que ele esquisitamente, por vezes meio desengonçadamente, entrelaçava sua rede social de amigos, isto é, seus nomes, em suas histórias, é parte desse reconhecimento. O que está mais em jogo nesta noção de coletividade é algo como uma ruptura da atribuição, a subversão original dela. Eu não acho que seja apenas uma tática. São precisamente as coisas que você não tem nenhuma ideia de onde vieram, são exatamente aqueles elementos sobre cuja gênese você tem menos confiança, que são os que têm o maior ímpeto hipersticional.

Para voltar ao período entre as duas guerras mundias mais uma vez, seus muitos pseudônimos nos lembram dos heterônimos de Fernando Pessoa. Um deles era um futurista, outro um monarquista, muitos deles ocultistas e neopagãos. Com você, isso vai ainda mais além, a princípio se pensava que Reza Negarestani era um dos seus apelidos. O mesmo vale para Jehu, um marxiano do twitter (@Damn_Jehu) que certamente encontra muita compreensão para suas posições. É como se heterônimos fossem uma força contra a univocidade, parece crucial mantê-los diferenciados.

Pessoa é uma pessoa sobre quem as pessoas continuam me falando, de maneira sempre persuasiva, para dar uma olhada, mas temo que eu simplesmente ainda não tive uma chance de fazer isso. Estou certo de que é uma boa referência, então fico embaraçado de confessar minha ignorância sobre isso. A poli-manutenção de uma identidade complexa, se isso for levado de uma maneira deliberada, não é uma coisa viável. Seria ótimo se fosse, mas tudo que você consegue fazer é visar seguir um conjunto aproximado de diretrizes pragmáticas que pelo menos compliquem a tentativa que as pessoas obsessivamente fazem de se engajar nessa reintegração psico-biográfica. Eu sempre detestei, de maneira absoluta, o esforço cognitivo humano devotado a tentar transformar a forma final de qualquer coisa em uma psico-biografia. Não é que eu seja alérgico a ler uma biografia, mas a noção de que, ao lê-la, você está realmente chegando ao âmago de alguma coisa me parece totalmente ridícula. Eu não consigo lembrar de qualquer figura interessante onde eu pensei, ah, se eu apenas soubesse sua biografia melhor, eu a entenderia. As biografias de Nietzsche, de Deleuze ou de Lovecraft, a menos que sejam tratadas muito cuidadosamente, são tristemente distrativas. Uma recusa da tentação psico-biográfica é a única coisa a que tento me agarrar. Mas a funcionalidade dela está inteiramente nas mãos do destino, ela excede a competência estratégica humana. Você está constantemente escorregando ladeira abaixo.

Por um longo tempo, tivemos o sentimento de que você era um moderador ou um cartógrafo da NRx, não seu ideólogo. Ou talvez você seja o cupim dela, mais cedo ou mais tarde passando para algo completamente diferente de novo. Talvez de maneira similar ao ponto de vista da conferência sobre o Legado de Nick Land que vai ocorrer este ano e que, como os organizadores nos dizem antecipadamente, não vai promover ideias NRx. Isso nos lembra de Brecht, onde, a fim de preserver seu status enquanto autor clássico, seu socialismo, ou comunismo, teve que ser sanitizado. Através das suas intervenções em blogs, enquanto agregados ou agregadores de links, descobrimos que a maneira de sair da câmara de eco é ler sobre coisas/processos que se acha fascinantes, não as com que necessariamente se concorda. É fitar o abismo, como Roberto Bolaño colocaria. Parece que esta é um papel/função altamente controverso.

Há tanta turbulência e tumulto nessa situação recente e dinâmica que é difícil ser muito lúcido sobre ela mesmo no seu próprio entendimento dela. Talvez uma resposta desmembrada seja a única que seja prática ou realista. Uma coisa, a total infâmia da NRx. Há um entendimento de que esta é a pior coisa do mundo, que vai ser totalmente traumática e produzirá uma resposta aversiva extrema. É algo que já está presente no Iluminismo Sombrio e na escrita de Moldbug, de uma maneira jocosa. Eu também concordaria que, nesse estágio, era mais curadoria do que polêmica. Temo que estou descobrindo algo completamente viciante sobre isso. Se você dissesse para alguém, o que realmente é essa coisa, a NRx, a resposta a essa questão seria vastamente menos clara do que a claridade da resposta emocional, que seria de ódio e horror absoluto. Toda a síndrome é fascinante, porque parece, em si, uma ferramenta exploratória fundamental. Como se você dissesse: Mencius Moldbug consolidou a noção da Catedral enquanto algo que é, em última análise, um processo religioso auto-organizante que tem um ortodoxia definida e um ímpeto doutrinário definido e que existem certas coisas que ela trata com uma paixão religiosa extrema, como sendo abominações e heresias. Você encontra uma provocação cultural que desencadeia tais imuno-respostas alérgicas extremas, o que significa que você está realmente engajado em um envolvimento experimental com esse objeto inicialmente tentativo e hipotético. Esse é o processo de lock-in crucial mais básico – pelo menos agora, de maneira provisória. Ele faz um lock-in e se torna indispensável, porque gera essa reatividade extrema. É por isso que seria muito difícil simplesmente recuar disso de uma maneira decisiva. É como dizer que não vamos mais fazer física de partículas com grandes colisores, abandonar todo o sistema de potencialidades experimentais.

A NRx também é algo muito jovem e extremamente contestada. Uma vez que ela gera tanto antagonismo, as pessoas que querem brigar, das quais existe um monte agora, de ambos os lados, se arrebanham nela, talvez de maneira mais apaixonada em 2014. Mas a NRx é enormemente diferenciada internamente, foi desde o princípio. Várias figuras foram jogadas para fora e agora são mais identificadas com um tipo de antiga Direta padrão com ideias do tipo nacionalista branco. Outras divisões existem também. Há uma facção que está muito mais próxima de um tradicionalismo reacionário e eu não entendo o que está rolando com a coisa do Neo, uma vez que se identifica com o tipo de política trono-e-altar da França pré-revolucionária. A pura quantidade de desordem e caos nela significa que é realmente difícil deixar um lugar quando você ainda não tem nenhuma ideia do que está acontecendo ali. Ainda não está estabelecida o suficiente para se saber se é algo que você realmente quer perder. E, finalmente, se alguém me pedisse para definir a NRx, eu diria que é a filosofia política neocameralista do Patchwork de Moldbug. Eu acho ela enormemente importante. Não tenho nenhuma inclinação de me dissociar dessa tendência básica na análise política.

Parece haver muitos envolvimentos com o contrarianismo e com a Lei de Poe. Através do @Outsideness, você escreveu: ‘Na verdade, eu gosto de muitos imigrantes e pessoas negras, só não gosto dos disseminadores de queixas, desordeiros, criminosos de rua e jihadistas em favor dos quais a Catedral incessantemente prega”. Você não soa aqui um pouco como Borges (da Tlon Corporation) advogando por ‘liberdade e ordem’ ao passo em que apoia Pinochet, preservando ou restabelecendo o Sistema de Segurança Humana? Tudo isso não está muito longe de: “A fusão tem um lugar para você como uma puta chinesa-latina, transexual, HIV+, esquizofrênica, viciada em estim, com espelhos oculares implantados e uma atitude ruim. Intoxicada com uma mistura de polidrogas com nova-K, serotonina sintética e análogos do orgasmo feminino, você acabou de congelar três tiras Turing com uma automática de 9mm altamente cinematográfica.”

[Longo silêncio.] Deixe-me ver qual é a melhor maneira de responder. [Longo silêncio.] Não sei, é difícil. Eu tenho toda uma fraternidade que morde meus tornozelos no Twitter agora. Não estou lhe identificando com eles, que fique claro desde o princípio, mas acho que a questão deles é muito parecida com a sua. Um elemento é a idade. Jovens são altamente tolerantes a um caos social incendiário massivo. Há razões para isso, a melhor música vem disso. Não é que eu não esteja entendendo isso, todo o apelo do cyberpunk é embasado nisso. Mas eu simplesmente não acho que você consiga fazer uma ideologia puramente a partir do colapso social entrópico, não vai se encaixar. Não é um processo sustentável e consistente na prática e, portanto, é uma má bandeira para a aceleração. Produz uma reação que vencerá. Toda evidência histórica parece ser de que o partido do caos é suprimido pelo partido da ordem. Mesmo que você seja completamente antipático ao partido da ordem, e eu não estou fingindo ser nada tão inequívoco assim, não é algo que você quer ver. Nixon suprimiu os hippies, o Thermidor suprimiu a loucura da revolução francesa. É uma historia absolutamente implacável e inevitável de que o partido do caos não vai ter permissão de operar o processo e será suprimido. Há obviamente vários tipos de atrações estéticas e libidinais a ele, mas em termos de praticidade programática, não há nada. O que eu diria para esses jovens loucos agora é, vocês não têm um programa. O que vocês estão defendendo leva perversamente ao exato oposto do que você diz que quer.

Você soa um pouco como um aceleracionista de esquerda agora, com todo esse papo de ter um programa e uma ideologia.

Sim, tem esse problema, mas você sempre tem uma orientação prática. A NRx tem um programa, mesmo em sua forma mais libertária. Não é um programa que vai ser implementado por um aparato burocrático em um regime centralizado, mas é uma tentativa de ter alguma consistência no seu padrão de intervenções. Claro, todo mundo está tentando fazer isso. Mesmo a fraternidade do caos, na medida em que querem ser a fraternidade do caos quando acordarem no dia seguinte, tem um programa nesse sentido mínimo. E esse sentido, creio eu, é o único sentido ao qual eu me apegaria fortemente aqui. Uma estratégia.

O ‘Somos todos fascistas agora’ de Jonah Goldberg, que você cita no seu artigo A palavra com ‘F’, soa como algo que Foucault diria, se aumentássemos o volume do seu ‘quem luta contra quem? Todos lutamos uns contra os outros. E há sempre, dentro de casa um de nós, algo que luta contra alguma outra coisa’. Não esqueçamos que Foucault era fascinado por Henri de Boulainvilliers, um tipo de proto-neorreacionário: guerra enquanto fundação da sociedade, guerra enquanto guerra racial entre francos aristocráticos e gauleses comuns. Por outro lado, os descentralizadores francos foram fodidos precisamente pelo monarca.

De novo, temo que este autor em particular não seja alguém com quem eu tenha familiaridade, mas me lembra de algo que me causou uma grande impressão e parece estar próximo desta noção. Quando eu estava estudando – eu estava fazendo um curso de filosofia e literatura – eu me senti muito interessado no Tess of the d’Urbervilles de Thomas Hardy. É sobre o fato de que o conflito de classes é, na verdade, essa guerra étnica, o contínuo conflito étnico entre os invasores normandos aristocráticos falantes do francês e os nativos ingleses. Mas, honestamente, qualquer coisa que eu fosse dizer sobre ele para além disso seria tão inventado no momento que seria de pouco valor.

Estamos lhe perguntando isso por causa da desterritorialização da divisão Esquerda/Direita. O conceito de acasalamento preferencial, que é realmente controverso em algumas partes do universo, quase soa como um Bordieu padrão sobre como apenas membros do mesmo habitus socializam e se reproduzem. Mas quando alguém da Direita fala sobre isso, não é interpretado como uma observação, mas como um diagnóstico, prescrição e pensamento ilusório ao mesmo tempo.

A razão pela qual essa linguagem de Direta/Esquerda é tão indispensável é porque agora ela está amarrada a uma estrutura de animosidade tribal que é tão profunda. Nos anos recentes, eu tenho ficado aturdido com a arbitrariedade da coisa – é como os Azuis e Verdes romanos. As diferenças entre a Direita e a Esquerda são abafadas por uma guerra tribal. As pessoas têm feito testes sobre isso. Elas colocam as propostas políticas de um político na boca do seu oponente e os apoiadores do oponente imediatamente apoiaram todas essas propostas que eles achavam que eram a absoluta encarnação do mal quando vinham do outro cara. A noção de que essa guerra tribal vai ser redutível a um conjunto de posições ideológicas coerentes é insana e um exemplo que você deu é totalmente assim. Quem está dizendo algo é muito mais importante para as pessoas do que o conteúdo real, a proposição positiva. O número de pessoas que não são vítimas disso é realmente pequeno e eu as acho impressionantes. A minha própria tentativa de não ser totalmente capturado pelo tribalismo é tentar garantir que há bastante loucura hipersticional físsil acontecendo. Às vezes você tem que dar uma sacudida e ter o sentimento de como a coisa se parece do outro lado, mas eu realmente acho que a maioria do mundo está presa tão fundo na guerra tribal que ela simplesmente não vê o que uma ideia realmente está dizendo. Elas apenas vêem a questão: isso é uma coisa do inimigo ou é coisa nossa?

O que nos trás à questão de convergência e divergência entre a NRx e o aceleracionismo, entre o blog Xenosystems e o blog Urban Future (2.1). Quando o seu @Outsideness, que está conectado ao Xenosystems, ficou temporariamente bloqueado no Twitter, você começou a tweetar coisas NRx no aceleracionista @UF_blog. A gente ficou: não queremos isso, queremos eles separados.

Você deve estar ficando entediado comigo dizendo isso, porque é algo que basicamente tenho repetido como um mantra, mas eu realmente me sinto desprovido de qualquer posição de sujeito oficial em relação a esse processo turbulento e complicado. As duas grandes linhas do processo, a NRx e a aceleracionista, estão sendo massivamente guiadas por todos os tipos de forças. O aceleracionismo foi reiniciado pelo hype do Aceleracionismo de Esquerda. Aconteceu depois do Iluminismo Sombrio, razão pela qual esse tecido de padrão temporal é um tanto complexo. De uma certa posição, parece que o aceleracionismo veio primeiro e depois você teve a NRx, o que implica em um tipo de processo sincrônico, mas da minha perspectiva é muito mais helicoidal e entrelaçado. A separação dos blogs e das contas no Twitter é – em vez de uma implementação de algum estratégia coerente deliberada – mais um conjunto de recursos que eu posso usar para tentar evitar ser sugado para dentro de certos tipos de integração, o que perderia o fascínio do fato de que a dinâmica dessas duas linhas não são de maneira alguma previsíveis uma a partir da outra, ou mesmo previsíveis em geral. Simplesmente amassar um tipo de síntese do Aceleracionismo de Direita com a NRx, que obviamente é inescapável em um certo aspecto, em última análise destruiria muito da capacidade de experimentação e muito do espaço de desenvolvimento dinâmico em ambas essas linhas.

O Aceleracionismo de Esquerda, em seu programa racional e pragmático, está perdendo o mito e o mítico? Reza Negarestani tentou incorporar essas coisas na Cyclonopedia, o que por vezes demais é confundido com pós-modernismo. Você acha que o Aceleracionismo de Esquerda é, de uma maneira, uma rigidificação dos supramencionados fluxos?

A língua tem esse caráter retrospectivo, então é enganadora. Aceleracionismo de Esquerda e Aceleracionismo de Direita são termos muito recentes. O ressurgimento original do aceleracionismo no mundo anglófono ocorre com a recapitulação da aceitação pelo CCRU da recapitulação de Deleuze e Guattari da aceleração do processo de Nietzsche. Em Deleuze e Guattari há uma invocação explícita de se ir na direção do mercado. Na sua origem, o CCRU estava impulsionando essa orientação, antes ainda de uma palavra aceleracionismo ter se formado, o que foi feito por um crítico mais tarde. Era uma posição de Esquerda, porque foi articulada por Deleuze & Guattari como uma estratégia política anti-capitalista. Eu não acho que o CCRU era revisionista quanto a isso. O aceleracionismo de Deleuze & Guattari enquanto maneira de se acelerar o capitalismo até sua morte também era a fase CCRU do aceleracionismo. Houve uma sugestão de que veio da Direita, porque nesse estágio de sua articulação, é impossível diferenciar Aceleracionismo de Esquerda e de Direita. Se você está dizendo, complete o processo capitalista, isso significa que todas as recomendações políticas, se houver alguma, são maximamente benéficas para a vitalidade e para o dinamismo do capitalismo. Então há uma necessidade estrutural de que não possa haver qualquer diferença entre pró e anti-capitalista nesse quadro aceleracionista. Como você pode dizer qual é qual? Quando o Aceleracionismo de Esquerda, que estava se chamando apenas de aceleracionismo, aparece, ele está, em sua política manifesta, fazendo algo muito diferente de qualquer coisa que tenha acontecido em toda a linhagem anterior. Ele diz que você tem que distinguir entre o motor básico da aceleração e o capitalismo. O capitalismo não é esse motor, mas algo que é, em um certo grau, coincidente com ele em um certo estágio em sua história, mas então se torna inibitório em relação a ele. Portanto, o aceleracionismo não é focal ou centralmente sobre o capitalismo, e isso se torna a doutrina Aceleracionista de Esquerda mainstream. Então, o estágio final na minha perspectiva é que, quando a resposta vem em nome do Aceleracionismo de Direita, sua tarefa teórica é reintegrar o aceleracionismo e a dinâmica do capitalismo. Eu concordaria que o Aceleracionismo de Esquerda é basicamente a resposta gerencial de comando-e-controle à aceleração tecno-econômica. Junto a isso vai um ceticismo massivo sobre suas alegações de que ele pode realmente acelerar as coisas mais rápido do que esses processos catalíticos espontâneos conseguem.

Então, como você vê o novo programa filosófico de Reza Negarestani, e o que você acha do seu antagonismo com a Blind Brain Theory de Scott R. Bakker?

Minha inclinação é estar do lado de Scott Bakker. Eu posso estar perdendo algo, mas eu não consigo lembrar de ter lido um artigo seu e pensar isso está errado. Sempre me parece, você está totalmente certo sobre isso. Frequentemente de maneira brilhante, de uma forma que você ainda não viu, mas assim que eu vejo, eu concordo com ele.

Você era tão pró ciências naturais antes de ter encontrado o pensamento dele?

Eu acho que as ciências naturais e o capitalismo são aspectos diferentes da mesma coisa. Ambos são um mecanismo auto-propulsor efetivo que dá ao Exterior uma função seletiva em um domínio considerado, esse domínio estando em perpétua expansão, dependendo de quanta autonomia você está vendo. Nesse sentido, estar do lado das ciências naturais é estar do lado do Exterior. Mas existem todos os tipos de maneiras tolas em que você poderia estar do lado do Exterior, assim como existe um monte de maneiras tolas em que você poderia estar do lado do capitalismo. Você poderia dizer, a burguesia é ótima, pessoas muito admiráveis, ou, eu amo essa empresa. Não estou dizendo que nunca existe um argumento a favor isso, mas você está perdendo totalmente o ponto, assim como você estaria perdendo o ponto ao dizer, esse cientista em particular é um grande cara, e eu acho que ele é realmente honesto e eu confio nele. Pode ser que ele seja um grande cara e ele pode realmente estar lutando para ser honesto, ele pode ser muito mais confiável que a maior das pessoas, mas isso ignora o que a ciência é. A ciência está orientada conta os cientistas, o capitalismo está orientado contra as empresas. Estes são processos que estão em uma relação de sujeitar os elementos dentro de seu domínio a uma crítica agressiva e destrutiva, com algum tipo de critério de seleção, o que significa que eles empurram as coisas em uma direção auto-propulsora particular.

Você estava falando sobre artistas conhecerem o Exterior. Como você vê a divisão entre ficção científica e ciências naturais, entre um cientista e um artista?

Minha tendência é não traçar uma distinção muito grande entre eles. Em todos os casos em que se está lidando com a formulação ou a flutuação de uma certa hipótese. Estou assumindo que todo cientista tenha uma ficção científica implícita. Todos temos um padrão do que pensamos que o mundo vai ser em cinco anos, mesmo que seja embaçado ou não muito explícito. Se não tivéssemos tentado fazer ficção científica, provavelmente significaria que temos um cenário implícito prejudicialmente conservador, inerte e irreal do futuro. Na maioria dos casos, um cientista é apenas um mau escritor de ficção científica e um artista, espera-se, é melhor. Há, obviamente, muito dinamismo não linear, no sentido de que escritores de ficção científica aprenderam montes com os cientistas, como aperfeiçoar seus cenários, e também o contrário. A ficção científica moldou o senso do futuro tanto que todo mundo tem isso como ruído de fundo. A melhor versão do futuro próximo que você tem foi adotada de algum escritor de ficção científica. Tem que ser o caso de que a ciência é, em alguma medida, guiada por isso. A ficção científica fornece um campo de testes.

Rebekah Sheldon, em uma resposta à emergência do Pepe the Frog enquanto Kek moderno e seus atributos ocultos, escreve que a exterioridade é ‘sombria no sentido de que opera sem a segurança de conhecimento completo e é caótica porque presume que a força do outro é sempre totalmente outra’. Pepe the Frog, como visto pela comunidade da internet, pode servir como modelo para um evento hipersticional?

É enormemente fascinante e algo sobre o que eu ainda não havia pensado o suficiente. Envolve uma constelação de tantos elementos aleatórios esquisitos e emergiu nesse processo incrível de auto-constituição autônoma. Há sempre a tentativa de se atribuir: alguns caras em particular no /pol/ estavam usando essa coisa e o fizeram deliberadamente. Mas tudo isso é totalmente inadequado. Envolve essa tradução do Orco no Warcraft, envolve um culto egípcio antigo, envolve uma estranha obsessão com o conjunto de fonemas que você vê indo direto, essa erupção fonêmica que ocorre, K K K K K. Obviamente é um tipo de modelo para um evento hipersticional. Dentro da NRx, tivemos uma discussão informal auto-organizada sobre a necessidade de uma nova religião, muito antes de Kek derrubar a parede. Por causa da análise de Moldbug de que a Catedral é um lar de um protestantismo deformado e pervertido, muitos católicos ficam muito atraídos por esse modelo. A opinião deles é de que o que Moldbug está dizendo é que o protestantismo é um erro terrível que leva à Catedral, que é como eles tentam vingar o catolicismo. Mas há também muitos ateus. É um coquetel social muito estranho. Esse cara, o Spandrell, que é sempre muito abrasivo, mas muito astuto, estava dizendo que a única saída é uma nova religião. Na hora você pensa, okay, você não pode simplesmente cozinhar uma nova religião, você não pode simplesmente cozinhar Kek. Aí a coisa acontece e todos esses trolls estão dizendo ‘Louve Kek’. Mas não é apenas uma piada: você só pode se defender psicologicamente de algo realmente intenso e lovecraftiano sobre todo o assunto não pensando sobre isso. Algo insano aconteceu com esse culto massivo e auto-orientado de Kek. Realmente lhe leva de volta aos tempos antigos e a como esse tipo de insurgência religiosa deve ter sido e de onde as religiões vêm.

Poderíamos conectar Pepe the Frog com a figura do trickster, que é vista pelo chamado aceleracionismo de Esquerda como um agente efetivo de transformação em si mesmo e tem a habilidade de ‘mudar o transcendental de um mundo’, como Srnicek e Williams o colocam. Simon O’Sullivan observa que Gilles Deleuze oferece uma inflexão interessante sobre isto em sua diferenciação entre o trickster e o traidor: o primeiro está operando dentro de um dado regime, embora subverta seus termos (um mundo virado de cabeça para baixo, como se fosse). O segundo está quebrando com um dado regime, ou mundo, completamente. Em um das respostas em seu blog, você está elaborando sobre uma metáfora de um dique, que está sendo lentamente devorado e destruído por alguma força externa – e você chame este dique de Xenosystems. Quem é o trickster e quem é o traidor aqui?

Parte disso é uma questão sobre agência. O agente trickster e o agente traidor são ambos reduzidos pela antropomorfização. Qualquer indivíduo humano que reivindicasse uma identificação com qualquer desses papéis estaria enganando todo mundo. Tricksters e traidores são aqueles que têm algum tipo de método para o tráfico com as verdadeiras fontes de agência. Uma ficção que explora essas coisas de maneira brilhante é o Neuromancer. Quem são os traidores ou tricksters nele? Todas as figuras humanas assumem seus papéis através de sua relação com uma agência real do Exterior, que é Wintermute. Como quando os tiras-Turing dizem para Case: Seus traidores, vocês sabem com o que estão lidando, você estão tentando liberar essa coisa, ela está completamente fora de controle. Seria um desastre para a espécie humana, o que diabos vocês estão pensando? A questão real é: Quais são os reservatórios de recursos de trapaça e traição que estão sendo acessados?

Amy Ireland, em uma entrevista com Andrej, disse que, em contraste com os esquerdistas na câmara de eco, você está realmente interagindo com os reais fascistas, misóginos, supremacistas brancos. Isso nos lembrou de Pasolini, quando ele enfatizava que se deveria encontrar os jovens fascistas. Acreditamos que você preferiria lhes chamar de supostos fascistas. Quem é um trickster, um traidor, um fascista é aberto.

A antropomorfização é sempre tentadora. Os indivíduos em questão querem sentir que são nós críticos de agência no que estão fazendo, e as pessoas do lado fora querem ser capazes de identificar esses processos com indivíduos em particular e com suas ideologias explícitas e suas estruturas de agência, mas tudo isso parece profundamente iludido. Você não obtém o fascismo porque há um certo número de pessoas que são fascistas auto-conscientes, isso é colocar o carro na frente dos bois. Você obtém fascistas auto-conscientes porque há algum processo fascista efetivo ocorrendo. As pessoas estão em total negação, provavelmente sobre coisas diferentes em lados diferentes. Do lado da Esquerda, eles estão em total negação sobre quanta ortodoxia fascista foi embutida nas sociedades modernas no século XX. Elas também estão em negação sobre quão profundas as forças com as quais estão lidando são. Elas parecem pensar que são alguns ovos ruins e que, se elas conseguirem ameaçá-los e aterrorizá-los o suficiente, essa coisa toda vai parar. Eu acho que é loucura não estar interessado nisso e tentar descobrir o que você conseguir e como essas pessoas pensam e de onde as coisas estão vindo.

Em relação ao incidente com a Galeria LD50, você tweetou: ‘A História da Arte Moderna (versão curta) 1917: o urinol-como-arte, de Duchamp. 2017: Pequena galeria em Dalston finalmente choca a burguesia’. Este é um exagero intencional? É realmente sobre épater la bourgeoisie? Há algo bastante situacionista em tratar os AntiFa como burguesia (ou pelo menos como um simulacro de uma).

Tem havido muitas discussões sobre Mark Fisher recentemente, onde sua posição acaba sendo, de maneira extrema e aparentemente inequívoca, esquerdista. Há um estória psico-biográfica chata que veria minha relação com ele como um simples antônimo. Não que não haja nada disso, porque tinha alguma coisa a ver com essa reação físsil do CCRU, onde ele toma um lado da coisa e eu tomo o outro lado, então não quero apenas ridicularizar essa interpretação. Mas se olharmos para seu artigo “Exit the Vampire Castle”, ele consistentemente atravessa a base de classes da cultura esquerdista dominante, que já tinha sido um alvo de uma crítica profunda do CCRU. Evidentemente podemos fazer o mesmo ponto vindo da extrema Esquerda e da extrema Direita. O que seria dizer: sim, eles são a burguesia. Eu sempre estive em uma relação de antagonismo e continuo em uma relação de antagonismo com a burguesia. Eu acho que é simplesmente auto-evidente que o terreno fértil disso são primariamente as universidades de elite. Não haveria simplesmente nada disso acontecendo nas ruas se fosse realmente organizado de maneira espontânea palas pessoas de nível educacional mais baixo em Dalston. Aconteceu porque um professor universitário e seus associados decidiram enervar a coisa toda e fornecer um vocabulário para isso. Estamos olhando para uma crise ideológica profunda e absolutamente traumática da elite dominante da modernidade tardia, da Catedral tardia, porque eles construíram todas as suas vidas e seu sentido do que deveriam estar fazendo, suas etiquetas, suas noções sobre credibilidade, credenciais e autoridade institucional em torno de uma estrutura social e histórica particular e muito distinta que parecia absolutamente invulnerável e que agora parece estar caindo no abismo.

Então quando a moça AntiFa grita ‘Volte para de onde veio” para o cara carregando uma placa ‘O Direito de Discutir Ideias Abertamente Deve Ser Defendido’ em frete a galeria LD50, ela na verdade quer dizer ‘Volte para o abismo’?

Correto.

Se omitirmos a parte da posição do Último Homem do situacionismo, podemos vê-lo indo na direção do aceleracionismo. Como o Debord de seu último período, quando ele não acredita mais nos conselhos de trabalhadores e vê apenas essa enorme força invencível.

Sadie Plant era uma grande estudiosa situacionista. Eu li A Sociedade do Espetáculo com prazer, e algumas outras peças. Eu responderia com dois pontos totalmente inconsistentes em aparência. Primeiramente, o situacionismo aparece bastante, mas eu nunca me versei plenamente nele. Em segundo lugar, estou escrevendo uma estória de horror abstrato que é basicamente sobre situacionismo, muito embora eu não saiba nada sobre ele no momento. Eu reconheço a importância da questão, mas eu simultaneamente reconheço minha incompetência para lhe dar o tipo de resposta que ela merece.

Serge Daney escreve, em algum lugar, que Godard e Straub-Huillet recorrem aos tipos de poder político dos quais eles seriam as primeiras vítimas. Há um sentido no qual suas invocações são similares a isso. Isso é um tipo de vanguarda do desaparecimento ou vanguarda da extinção com bastante jouissance niilante? Ou é uma mutação?

Eu recebo esse argumento bastante, mas eu duvido dele. A única coisa que eu explícita e estrategicamente gostaria de impor é a fragmentação. Todo o resto está em relação tática com isso. Certas questões – como o que você pensa sobre Kek e assim por diante – são, em última análise, questões táticas. A única questão estratégica é como você pode quebrar em pedaços, eu diria especificamente, a Anglosfera. Qualquer tipo de projeto que exceda isso se torna uma forma de agressão universalista em risco de super-expansão neoconservadora. Eu não estou interessado em dizer aos russos ou aos chineses como suas sociedades devem ser. Eu poderia teorizar sobre isso, mas a única zona de intervenção em que estou interessado é o mundo anglófono, que tem uma afinidade particular com a desintegração. Não há nada suicida em qualquer fragmentação, eu poderia única e certamente ser protegido por ela. Eu não tenho um sentimento de estar protegido pelos grandes estados anglófonos. Não é que eu esteja alegando perseguição por parte deles, mas definitivamente ficaria dessa lado do registro, se qualquer coisa. Eu não sou um cidadão ou um residente de qualquer país ocidental, estou vivendo em Shanghai. E você não ensina aos seus anfitriões como eles deveriam estar organizando sua casa.

Estávamos pensamento mais sobre a Singularidade.

Ah, você está um passo à frente!

Você sendo humano, sabe. Pelo menos nominalmente humano.

Isso é muito melhor. É só que a questão do nível político-econômico é bastante levantada.

Essa é a questão Snowden/Assange. Estamos menos interessados nisso.

Meu único problema com a Singularidade é que qualquer noção de auto-proteção nessa esfera é estruturada por alucinações. Se fôssemos levar isso de volta a alguém, seria Bakker. O que ele está dizendo é: o ‘você’ que você pensa que poderia ser ameaçado por essas coisas, na verdade, é aquela coisa que você descobrirá que é uma ilusão. Agora, isso é uma ameaça? É assim que ela é uma ameaça. Não vai ser como ser dilacerado por um robô metalizado gigante, vai ser a ilusão particular do ego, sustentável até um certo ponto na história, se tornando insustentável.

Às vezes você retém o esquema de robôs contra pessoas, mas parece que você está, na verdade, mais interessado em coisas e processos híbridos, não nessa dialética maniqueísta.

Bem, dinâmicas maniqueístas são boas para guiar certos tipos de cenários, então é por isso que eu gosto bastante delas. Eu amo toda a coisa do Hugo de Garis sobre essa giga-guerra de artilectos que ele pensa que virá. Quanto mais esses cenários cibernéticos de ficção científica estiverem em jogo, mais certos tipos de excitação histórica estão operantes. As pessoas tentam se proteger e pensar umas sobre as outras, mas na verdade é uma forma de estímulo do processo. O Sistema de Segurança Humana é estruturado através de ilusões. O que está sendo protegido ali não é alguma coisa real que é a humanidade, é a estrutura da identidade ilusória. Assim como, no nível mais micro, não é que os humanos enquanto organismos estão sendo ameaçados por robôs, é mais que sua auto-compreensão enquanto organismos se torna algo que não pode ser mantida para além de um certo limiar de inteligência em ambiente de rede.

Original.
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Ciência

Esta (pt) seção de comentários entrou em uma discussão sobre ciência, de considerável complexidade e originalidade. O post em questão se focava em Heidegger, que tem ideias bem definidas sobre a ciência natural, mas essas ideias – dominadas por sua concepção de ‘ontologias regionais’ – não são especialmente dignas de nota, seja para um entendimento da preocupação principal de Heidegger ou para uma compreensão realista do empreendimento científico. Por essa razão, parece sensato recomeçar a discussão em outro lugar (aqui).

A primeira tese crucial sobre a ciência natural – ou ‘filosofia natural’ autônoma – é que ela é um fenômeno exclusivamente capitalista. A existência da ciência, enquanto realidade social efetiva, está estritamente limitada a tempos e lugares nos quais certas estruturas elementares de organização capitalista prevalecem. Ela dependente, de maneira central e definidora, de uma forma moderna de competição. Isso é dizer que não pode haver ciência sem um mecanismo social efetivo para a eliminação da falha, baseado em critérios extra-racionais, inacessíveis à captura cultural.

Se uma empresa ou teoria científica falhou não pode – em última análise – ser uma questão de concordância. Nenhuma decisão política possível, embasada na persuasão e no consenso, pode decidir a questão. Claro, muito do que se passa pelo nome de ciência e empreendimento comercial capitalista está sujeito a exatamente essas formas de resolução, mas, em tais casos, nem o capitalismo, nem a ciência está mais em operação efetiva. Se um apelo ao poder pode garantir viabilidade, o critério da competição é desativado, e a descoberta real deixou de ocorrer.

Sob condições de um processo social capitalista desencadeado, tanto empresas quanto teorias envolvem um aspecto duplo. Sua expressão semiótica é matematizada, e sua operação é testada pela realidade (ou não-politicamente performativa). A matemática elimina a retórica no nível dos sinais, comunicando os resultados experimentais – independente de qualquer exigência de concordância – que determinam a força competitiva. Não é nenhuma coincidência que empresas capitalistas e teorias, quando não suportadas por instituições compatíveis, se voltam para cumplicidade com a guerra e com a decisão militar, que as acompanharam em seu nascimento na Renascença européia. Não se pode ‘debater’ com a derrota militar. É apenas quando a exigência de um debate é deixada de lado – quando o capitalismo começa – que a compulsão realista militar se torna desnecessária.

O capitalismo está em operação onde não há nada para se discutir. Um empresa ou teoria simplesmente está falida (ou não). Se – dados os fatos – as somas não funcionam, acabou. A retórica política não tem nenhum lugar. ‘Ciência politizada’, bastante simplesmente, não é ciência, assim como a atividade empresarial politizada é anti-capitalismo. Nada foi entendido sobre qualquer um dos dois, até que isso o seja.

Na medida em que há qualquer coisa como um ‘contrato social’ na origem do capitalismo – empresa e ciência igualmente – é este: se você insistir em um debate, então vamos ter que lutar. O desempenho real é o único critério crível, para o qual nenhuma estrutura política de disputa pode ser um substituto. A guerra só se torna desnecessária quando (e onde) o debate é suspenso, permitindo que os processos modernos de descoberta empresarial e científica da realidade avancem. Quando o debate se reimpõe, politizando a economia e a ciência, a guerra reemerge, tácita mas inevitavelmente. O antigo e esquecido contrato ressurge. “Se você insistir em um debate, então vamos ter que lutar.” (Esse é o jeito de Gnon.)

É bastante natural, portanto, que a ‘tecnologia’ seja considerada um sumário adequado da cultura capitalista de descoberta. Máquinas – máquinas sociais não menos do que máquinas técnicas – não podem ser retoricamente persuadidas a funcionar. Quando a ciência realmente funciona, é guerra de robôs, na qual a decisão é estabelecida do lado de fora, para além de qualquer apelo à razão. Experimentos bem projetados antecipam o que a guerra diria, de modo que nem um debate nem uma luta seja necessária. Isto é o falsificacionismo popperiano, re-embutido na realidade sócio-histórica. Experimentos que não podem abater são lembranças imperfeitas do campo de batalha primordial.

É intrínseco à Catedral que ela ganhe todos os debates, conforme sucumbe – através da pura vontade-de-poder – à reimposição da sociologia argumentativa. Ao fazê-lo, ela destrói o capitalismo, o empreendimento e a ciência. No fim desta trajetória, ela escava o esquecido contrato social da modernidade. Sua descoberta final é a guerra.

Original.

Mecanização

Bryce Laliberte tem pensado sobre a Teleologia do Capital, da perspectiva do aumento tecnológico humano. Uma característica significativa desta abordagem é que ela não requer qualquer tipo de ruptura selvagem com o tradicionalismo ‘humanista’ – a estória da tecnologia se desdobra dentro da história do homem.

Coincidentemente, Isegoria tweetou sobre a jihad butleriana alguma horas antes (fazendo referência a este post de dezembro de 2013). A tensão implícita entre essas visões da tecno-teleologia merecem uma atenção sustentada – que sou incapaz de fornecer aqui e agora. O que é facilmente oferecido é uma citação do ‘Book of the Machines’ de Samuel Butler (os capítulos 23 e 24 de seu romance Erewhon), uma passagem que poderia produtivamente ser afixada à margem das reflexões de Laliberte, a fim de induzir uma fricção cognitiva produtiva. O tópico é especulação sobre a emergência de uma realização superior da vida e da consciência por sobre a terra, como explorada pelo autor ficcional de Butler:

O escritor … procedia perguntando se os traços da aproximação de uma tal fase nova da vida poderiam ser percebidos no presente; se podíamos ver quaisquer arranjos preparando o que poderia, em um futuro remoto, ser adaptado a ela; se, de fato, a célula primordial de tal tipo de vida poderia ser agora detectada na terra. No curso de sua obra, ele respondeu afirmativamente a essa pergunta e apontou para as máquinas mais elevadas.

“Não há nenhuma segurança,” – para citar suas próprias palavras – “contra o desenvolvimento último da consciência mecânica, no fato de que as máquinas possuam pouca consciência agora. Um molusco não tem muita consciência. Reflita sobre o extraordinário avanço que a máquinas têm feito durante os últimos séculos e note quão lentamente os reinos animal e vegetal estão avançando. A máquinas mais altamente organizadas são criaturas não tanto de ontem, quanto dos últimos cinco minutos, por assim dizer, em comparação com o tempo passado. Assuma, por bem do argumento, que seres conscientes tenham existido por cerca de vinte milhões de anos: veja os largos passos que as máquinas têm feito nos últimos mil! O mundo não pode durar mais vinte milhões de anos? Se sim, o que elas não irão, afinal, se tornar? Não é mais seguro cortar o mal pela raiz e proibi-las de avançar mais?

Mas quem pode dizer que a máquina a vapor não tem um tipo de consciência? Onde a consciência começa e onde termina? Quem pode traçar a linha? Quem pode traçar qualquer linha? Tudo não está entrelaçado com todo o resto? O maquinário não está ligado à vida animal em uma infinita variedade de maneiras? A casca de um ovo de galinha é feita de uma delicada porcelana branca e é uma máquina tanto quanto uma xícara de ovo o é: a casca é um dispositivo para segurar o ovo, tanto quanto a xícara é para segurar a casca: ambas são fases da mesma função; a galinha faz a casca dentro de si, mas ela é pura cerâmica. Ela faz seu ninho fora de si por bem da conveniência, mas o ninho não é mais uma máquina do que a casca do ovo. Uma ‘máquina’ é apenas um ‘dispositivo’.”

[…] “Mas, retornando ao argumento, eu repetiria que eu não temo nenhuma das máquinas existentes; o que eu temo é a extraordinária rapidez com a qual elas estão se tornando algo muito diferente do que elas são no presente. Nenhuma classe de seres fez, em nenhum tempo passado, um movimento adiante tão rápido. Esse movimento não deveria ser zelosamente observado e restrito enquanto ainda podemos restringi-lo? E não é necessário, para este fim, destruir as mais avançadas das máquinas que estão em uso no presente, embora se admita que elas são, por si só, inofensivas?

[…] Pode-se responder que, muito embora as máquinas não devessem nunca ouvir tão bem e nunca falar tão sabiamente, elas ainda sempre farão um ou o outro para nossa vantagem, e nunca para sua própria; que o homem será o espírito governante e a máquina, o servo; que, tão logo uma máquina falhe em executar o serviço que o homem espera dela, ela está fadada à extinção; que as máquinas estão para o homem simplesmente na relação de animais inferiores, a máquina-a-vapor em si sendo apenas um tipo mais econômico de cavalo; de modo que, em vez de estarem propensas a serem desenvolvidas até um tipo mais elevado de vida do que a do homem, elas devem sua própria existência e progresso a seu poder de ministrar as necessidades humanas e devem, portanto, agora e para sempre, serem inferiores ao homem.

Está tudo muito bem. Mas o servo desliza por aproximações imperceptíveis até o mestre; e chegamos a um tal ponto que, mesmo agora, o homem deve sofrer terrivelmente em deixar de beneficiar as máquinas. Se todas as máquinas fossem aniquiladas em um instante, de modo que nem uma faca, nem uma alavanca, nem um pano de roupa, nem qualquer coisa que fosse restasse ao homem além de seu próprio corpo nu, com o qual ele nasceu, e se todo o conhecimento das lei mecânicas fossem tomado dele, de modo que a raça do homem fosse deixada, por assim dizer, nua por sobre uma ilha deserta, seríamos extintos em seis semanas. Alguns poucos indivíduos miseráveis poderiam durar, mas mesmo esses, em um ano ou dois, se tornariam piores do que macacos. A própria alma do homem se deve às máquinas; é uma coisa feita por máquinas: ele pensa como pensa, e sente como sente, através do trabalho que as máquinas fizeram sobre ele, e sua existência é tanto uma condição sine qua non para a dele, quanto a dele é para elas. Este fato nos preclui de propor a aniquilação completa do maquinário, mas certamente indica que deveríamos destruir tantas delas quando pudermos dispensar, para que elas não nos tiranizem ainda mais completamente.

Verdade, de um ponto de vista materialista baixo, pareceria que aqueles que prosperam mais são os que usam maquinário onde quer que seu uso seja possível com lucro; mas esta é a arte das máquinas – elas servem para que possam governar. Elas não têm qualquer malícia para com o homem por destruir toda uma raça delas, contanto que ele crie uma melhor em seu lugar; pelo contrário, elas o recompensam de maneira liberal por ter acelerado seu desenvolvimento. É por negligenciá-las que ele incorre em sua ira, ou por usar máquinas inferiores, ou por não realizar exerções suficientes para inventar novas, ou por destruí-las sem substituí-las; ainda assim, essas são as próprias coisas que deveríamos fazer, e fazer rapidamente; pois, embora nossa rebelião contra seu poder pueril vá causar sofrimento infinito, ao quê não chegarão as coisas, se essa rebelião for adiada?”

A culminação natural desta investigação, conforme concebida dentro do romance de Butler, é uma guerra contra as máquinas. As consequências nas teorias dos jogos e de decisão são intricadas, e predominantemente agourentas. (Se é persuasivamente racional que a potência terrestre instalada extermine sua existência na concepção, as contra-medidas que fazem sentido mais óbvio combinam camuflagem e hostilidade. Apenas aquilo que chega em segredo e preparado para lutar pode esperar existir.)

Original.

Liberdade (Prelúdio-1a)

Nota sobre Teleologia

Bryce, que tem pensado sobre teleologia por um bom tempo, expressa seus pensamentos sobre o tópico com louvável lucidez. O argumento central: Alegações caracteristicamente modernas de se ter ‘transcendido’ o problema da teleologia são tornadas absurdas pela dependência continuada e de fato massivamente aprofundada do conceito de equilíbrio por parte de todas as disciplinas intelectuais sensíveis à complexidade, desde a física estatística, passando pela biologia de populações, até a economia. O equilíbrio é exatamente um telos. Negar isto é primariamente o sintoma de uma alergia a modos de pensamento ‘medievais’ ou ‘escolásticos’ (isto é, aristotélicos), herdada do mecanicismo rebelde vulgar da filosofia natural do início do Iluminismo.

Em que eu acho que o relato de Bryce ainda é deficiente é mais facilmente demonstrado por uma maior especificação de seu ponto principal. O equilíbrio é o telos daqueles sistemas complexos dinâmicos em particular que são governados pela homeostase, o que quer dizer: por um mecanismo dominante de feedback negativo. Tais sistemas estão, de fato, de profundo acordo com a teleologia física aristotélica clássica e com sua tendência a um estado de repouso. Esta antiga física, ridicularizada pelos mecanicistas iluministas em nome da conservação do momento, é redimida, através da abstração, na concepção moderna de equilíbrio. ‘Repouso’ não é imobilidade, mas maximização da entropia.

A Teleologia do Capital, contudo, não é capturada por este modelo. Ela é definida por duas dinâmicas anômalas, que radicalizam a perturbação, em vez de anulá-la. O capital é cumulativo e acelerativo, devido a uma dependência primária de um feedback positivo (em vez de negativo). Ele é também teleopléxico, em vez de teleológico da maneira clássica – inextricável de um processo de reversão de meios e fins que leva uma orientação teleológica anterior (o propósito utilitário humano) em uma direção alternativa e críptica.

Em consequência:

(1) A Teleologia do Capital não se aproxima de uma ideia. Ela é, por natureza intrínseca, um escape em vez de um retorno ao lar. A Ideia, em relação ao dinamismo do Capital, é necessariamente uma constrição. A metafísica inerente do capital é, portanto, irredutivelmente cética (em vez de dogmática).

(2) Segue-se que a ‘finalidade’ Capitalista (isto é, a Singularidade Tecno-comercial) é um limiar de transição, em vez de um estado terminal. O Capital tende a um horizonte aberto, não a um estado de conclusão.

(3) A entropia (considerada, de maneira apropriada, como um processo inerentemente teleológico) é o motor de todos os sistemas complexos. A Teleologia do Capital não tende em direção a um máximo de entropia, contudo, mas a uma escalação da dissipação da entropia. Ela explora a corrente entrópica para viajar para trás, para dentro de estados de via ciberneticamente intensificados de complexidade e inteligência aumentadas. O ‘progresso’ do capitalismo é uma acentuação do desequilíbrio.

(4) A teleoplexia requer um registro teleológico gêmeo. De maneira mais simples, há a ordem utilitária, na qual o capital se estabelece como a solução competitivamente superior para os propósitos anteriores (a produção de valores de uso humanos), e a ordem inteligênica, na qual ele realiza sua auto-escalação (mecanização, autonomização e, em última análise, secessão). Confundir estar duas ordens é quase inevitável, uma vez que a teleoplexia é, por natureza, camuflada (insidiosa). O fato de que ela parece ser orientada à satisfação das preferência de consumo humanas é essencial para sua emergência e sobrevivência sócio-históricas. A indulgência teimosa nesta confusão, contudo, não é digna da inteligência filosófica.

Original.

Perdedores Ressentidos

[V]amos admitir: A globalização não beneficia automaticamente a França. […] A globalização se desenvolve de acordo com princípios que não correspondem nem à tradição francesa, nem à cultura francesa. Estes princípios incluem a economia de mercado ultraliberal, a desconfiança do estado, o individualismo removido da tradição republicana, o inevitável reforço do papel universal e ‘indispensável’ dos Estados Unidos, o direito comum, a língua inglesa, as normas anglo-saxãs e conceitos protestantes – mais do que católicos.
– Hubert Védrine, 9 fevereiro, 2002[1]

Ser francês é entender – com peculiar lucidez – o que é ter sido derrotado pela modernidade. A primeira nação moderna do mundo, encantada para além de todas as outras pelo chamado de do universal, foi cortada de volta a um nexo de caminhos não tomados, ao longo do curso de dois séculos. Se Hubert Védrine diz isto mais claramente do Alain Badiou, Badiou o diz não obstante. Our Wound is Not So Recent (“Nossa Ferida Não É Tão Recente”). O título já diz quase tudo. Para antecipar: ‘…nossa ferida vem da derrota histórica do comunismo’.

Comparados a este infortúnio primário, crônico e, por ora, essencial, desastes ocasionais são meros acidentes. O recente massacre em Paris por soltados da Jihad fornece um exemplo incomumente dramático (ou ‘particularmente espetacular’). Ainda assim, apesar de seu caráter colorido e ricamente afetivo, a pertubação da segurança de estado representada pelo massacre de algumas dezenas de parisienses é um assunto menor, quando comparado à conquista da propria modernidade – e, assim, do mundo – por um adversário bem mais ameaçador. Qualquer dignidade filosófica que seja encontrada na reflexão sobre o incidente de 13 de novembro jaz em sua adoção cognitiva como um retransmissor, levando de volta à estória principal, ‘o triunfo do capitalismo globalizado’.

É compreensível, portanto, que a elegância da apresentação de Badiou seja incapaz de ocultar completamente sua irritabilidade estrutural. ‘Nós’ fomos distraídos, que é como adultos entendem o ‘terror’. É uma distração de ‘pensamento’ que ocorreu aqui, Badiou insiste, e, assim, um aborrecimento, em múltiplos sentidos, incluindo aquele da simples condescendência. Como convém a um membro da elite sócio-cultural, a resposta de Badiou toma a forma de uma pensativa meta-irritação – uma irritabilidade dirigida à irritação como tal. Este é um reflexo anti-empírico e, portanto, de uma maneira definitiva, ‘francês’ – mas chegaremos a isto em breve. Aquelas dezenas de jovens mortos espalhados por Paris demandam algum reconhecimento afetivo, o que é indigno (e aborrecedor). Bem mais significantemente, a atrocidade incomoda as pessoas. É – precisamente como pretendido pelos perpetradores e também no sentido mais neutro da palavra – excitante. A resposta pública que extrai não é apenas filosoficamente inútil, mas positivamente deletéria ao trabalho do universal. ‘Então, para enfrentar estes riscos, creio que devemos conseguir pensar no que aconteceu.’

Eu também acho. Temos um dever para com a filosofia – o que é dizer, com nosso único modelo crível de nobreza – de sermos frios. Espasmos emocionais em resposta a respingos de sangue seriam impróprios. Seriam também uma contribuição integral para a realização do terror ‘fascista’. Pior de tudo, distraem. O terror excita a identidade, ao concentrá-la e empacotá-la em uma falsa simplicidade. Badiou não está preocupado em disfarçar o fato de que, para a Esquerda européia, em particular, a ‘identidade’ é o verdadeiro terror.

Existem, contudo, outras distrações – para ‘nós’. Quando Badiou proclama que ‘Nossa ferida não é tão recente’, somos compelidos a perguntar: Até onde se estende este pronome coletivo? Uma resposta a esta questão poderia ser prolongada sem limite definido. Tudo que poderíamos querer dizer, em última análise, se enrola nela, a ‘identidade’ mais obviamente. Qualquer significado que ‘comunismo’ possa ter tem seu lugar aqui, conforme ‘nós’ alcançamos a periferia do universal e, assim (concebivelmente), o fim da filosofia. A ‘francesidade’ é, de alguma maneira complexa, envolta por ele, entre outros conjuntos sociais de menor ou maior obscuridade. Esse ‘nós’ é o todo, mesmo quando está escondido na margem. É também estrategicamente não negociável. (Ninguém pergunta ‘quem?’ – como Badiou sabe que não o farão). Contrabandeado para dentro da gramática, ele diz tudo de consequência derradeira antes de qualquer resposta possível, enquadrando a controvérsia subsequente em seus termos. Um antagonismo soberano ou transcendental – estabelecido seguramente para além da discussão – assim anuncia a si mesmo, em um sussurro.

De maneira comparável, então, nós só podemos propor um outro ‘nós’ fora dele. Como já prometido, o detalhe – mesmo que só um pouco – logo se seguirá. Para o momento, é necessário apenas ser notado que a identidade ‘deles’ não pode ser assumida ser a ‘nossa’, não mais do que compartilhamos de seus problemas, seus sucessos ou suas derrotas. O pronome é remexido, despedaçado. Nós não somos ‘feridos’ pelo que lhes machuca, a não ser acidentalmente e, muito menos, pela falha de seu projeto coletivo. Seja qual for a malícia que possa aparecer nestas palavras, nos parece pura retaliação. Isto é apenas dizer que o ‘nós’ de Badiou já foi um projeto de mobilização e uma declaração de guerra, mesmo que apenas como recordação, e um gesto de desafio. A bruma que ‘nos’ envolve é a névoa da guerra. Ninguém pode ficar sinceramente chocado com isso. (Não somos crianças.) Nosso conflito não é tão recente.

‘Deve-se ver que a vitória objetiva do capitalismo globalizado é uma prática destrutiva e agressiva’, afirma Badiou. Podemos apenas dar de ombros, uma vez que, claro, para vocês (coletivamente), isso é simplesmente verdade. Os sucessos dele são suas derrotas, e reciprocamente. Ninguém está sendo educado por nada disso. Há não muito tempo, nos ameaçamos uns aos outros com ogivas termonucleares e carbonizamos estados ainda mais recentemente. As apostas, de ambos os lados, são absolutas. Não há – muito provavelmente – nada que não faríamos, se ainda fosse necessário, a fim de prevalecer um contra o outro. ‘Vitória’, ‘derrota’ – estão são as palavras de Badiou, mesmo que – por nenhuma razão que seja – guerra não seja, a princípio, embora logo será.

Deixe-nos explicar, então, aquilo que Badiou ainda deixa parcialmente implícito. Nós não nos importamos com o Islã. Ninguém se importa – pelo menos ninguém com que nos importemos, mas apenas ‘fascistas’. Para o mundo industrializado, ele nunca é mais do que um aborrecimento e, mais tipicamente, uma oportunidade complexa a ser explorada, uma arma a ser dirigida àqueles cujo antagonismo é respeitado. Tendo falhado na modernidade com uma abrangência que se aproxima do cômico, já faz séculos desde que o Islã teve qualquer tipo de reivindicação séria à história para perder – de modo que ‘toda uma seção da população global não conta para nada’, inevitavelmente. Podemos parasitar o desprezo superficialmente enterrado de Badiou sem qualificação: ‘é a fascização que islamiza, não o Islã que fasciza’. Nós decidiremos sobre a maneira de categorizar sua recusa de nossas categorizações. Sua frieza é testada por esta piada.

Não é que a religião seja exatamente nada, claro, mesmo para Badiou em seu momento mais francês. Não originalmente, em todo caso. ‘A religião pode perfeitamente bem agir como um molho identitário para tudo isto, precisamente na medida em que é um referente adequadamente anti-ocidental. Mas como vimos, na análise final, a origem desses jovens não importa muito, sua originam espiritual e religiosa, como dizem, e assim por diante.’ (Ela ‘não conta para nada’.) ‘O que conta é a escolha que eles fizeram sobre sua frustração’ (nós decidimos). ‘E eles se mobilizarão em torno da mistura de corrupção e heroísmo sacrificial e criminoso por causa da subjetividade que é sua, não por causa de sua convicção islâmica. Mais ainda, fomos capazes de ver que, na maioria dos casos, a islamização é terminal em vez de inaugural.’ Indivíduos niilistas, seduzidos para dentro do ‘fascismo’, articulando suas motivações em palavras que não contam para nada, patéticos comunistas existencialistas com falsa consciências, vadios maliciosos… se existem alguns recursos de desprezo a mais que poderiam ser adicionados a esta análise, eles não serão fáceis de encontrar. O que não é, de forma alguma, sugerir que encontraremos qualquer problemática aqui ou algo que precise de retificação.

Poderia facilmente ter sido alguma outra fé que fornecesse este ‘término’, espera-se que aceitemos (a menos que a concessão a ‘um referente adequadamente anti-ocidental’ seja a pista para uma alegação mais persuasiva – e decorosamente não dita). Tudo bem, nós aceitamos. Pelo bem de se seguir adiante, nós o aceitamos, apesar da extraordinário deformação de evidência história necessária para fazê-lo. Vamos fingir que nossos ‘fascistas’ jihadi são apenas aleatoriamente diferenciados dos budistas ou confucionistas, a fim de proceder às identidades que mais imediatamente nos preocupam.

Aqueles jovens parisienses mortos não podem ser ‘contados para nada’ tão facilmente. Eles certamente teriam feito um pouco de capitalismo, mesmo a despeito de si mesmos, e também – sendo jovens e franceses – bastante provavelmente um pouco de comunismo além disso, de modo que eles importam para ‘nós’, pelo menos um pouco. Os jovens ‘fascistas’ jihadi que os massacraram, em contraste – com nada para fazer além de uma distração – não são absolutamente nada, para nenhum de nós. Isto entristece Badiou, retórica e taticamente. ‘Sua própria vida não contava. E, uma vez que sua próprias vidas não contavam, as vidas dos outros não significavam nada para eles tampouco.’ Olha o que o capitalismo globalizado fez com eles. Talvez devêssemos voltar nossa atenção para esta monstruosidade historicamente produtiva bem mais séria, antes que incomodemos as pessoas – gratuitamente – com nossa insondável e inteiramente mútua indiferença.

Vamos recapitular. Temos uma estrutura mundial contemporânea dominada pelo triunfo do capitalismo globalizado. Temos um enfraquecimento estratégico dos estado e mesmo um processo contínuo do murchamento capitalista dos estados. E, em terceiro lugar, temos novas práticas de imperialismo que toleram e mesmo encorajam, em certas circunstâncias, a destruição e a aniquilação dos estados.

A estória principal dos tempos recentes tem sido ‘a liberação do liberalismo’ – a libertação do capitalismo – insiste Badiou. (Sua identidade preferida está em insistir nisto.)

Essa Coisa – o Grande Inimigo – não está desprovida de identidade, não importa o quão embaraçoso possa ser reconhecer explicitamente esse fato (isto é, sua factualidade como tal). Sucumbir à excitação quanto à empiricidade da ‘globalização capitalista’, em sua escandalosa singularidade, é se emocionar com seu vasto aborrecimento, em vez de seu desastre universal. Ainda assim, ela é, como todo mundo claramente reconhece, uma aflição global anglófona que ‘nos’ perturba e uma negligência ideológica anglófona que não ‘contou para nada’ aqueles sem qualquer parte produtiva a desempenhar em sua expansão. O maior inimigo é anglófono, anglo-saxão, anglo-americano – ‘anglo-judeu’, inevitavelmente será dito, se não por Badiou, então por inúmeros outros, incluindo especialmente os ‘fascistas’ islâmicos cujas sensibilidades se recusam a ser embotadas sobre o ponto. É, em todo caso, a circunscrição étnica positiva primariamente identificada com a ‘liberação do liberalismo’, quando isto é reconhecido com grosseiro realismo. Ninguém chega a ver quão peculiar está coisa é a partir de lugar nenhum. Seus críticos, podemos confiantemente – mesmo que indelicadamente – especular, foram ofendidos de maneira concreta. Eles foram ‘feridos’ – e não apenas tão recentemente.

Claro, não poderia haver nada mais sem tato do que articular a crítica ideológica na voz do ressentimento nacional. Da perspectiva da filosofia, falar em nome de qualquer identidade positiva – mesmo uma bem mais elegante do que a nação e suas categorias étnicas associadas – é uma simples desgraça. Identidades selecionadas poderiam ser exaltadas à distância, na proporção aproximada de seu status transgressor ou vitimológico, mas todo intelectual da elite entende profundamente – mesmo que apenas implicitamente – que a definição ôntica é sujeita.

Badiou é fastidioso, portanto, em evitar toda tentação de auto-identificação em termos menos do que universais. Sua ‘posição discursiva’ depende de sua identidade enquanto orgulhoso comunista, que meramente ocorre de ser francês. Há um custo a ser pago por isso, em honestidade – ou realismo – primeiro de tudo. Um utopismo coletivista necrótico não constitui um local plausível de enunciação, e ninguém acredita que o faça. Talvez seja por esta razão que Badiou se abstém de fechar completamente a porta para um certo ‘patriotismo’ nuançado, mesmo que sua narrativa catastrofista exija que ela seja mantida entreaberta apenas em um modo de nostalgia (e um que não esteja completamente desprovido de amargura). O que a França foi, enquanto potência revolucionária, ainda é afirmado, em um tom de uma só vez trágico e filosófico, extraindo a quantidade necessária de desapego de ambos:

A França, o que é singular sobre a França – porque, se existem valores franceses, devemos perguntar o que é singular sobre eles – é a tradição revolucionária. Republicana, em primeiro lugar, desde a revolução de ’89. E, então, socialista, anarco-sindicalista, comunista e, finalmente, esquerdista, tudo isto entre 1789 e, digamos, 1976. […] Mas tudo isso acabou. Acabou. A França não pode mais ser representada hoje, de nenhuma maneira crível, como o local privilegiado de uma tradição revolucionária. Antes, ela é caracterizada por uma coleção singular de intelectuais identitários.

A rendição da França ao vício identitarista não é nada além de parte da derrota mais abrangente. Ainda assim, a qualidade dramática da posição de Badiou aqui não deveria nos cegar para o que ela evade. O sotaque francês no que ele tem a dizer – tanto antes quanto depois desta passagem – se estende bem além de seu lamento pela vocação revolucionária murcha da nação. A identidade étnica que fala em sua palavras engloba, entre muitas outras coisas, um modo específico de aspiração universal, uma fé secular ‘libertada’ – desdenhosamente – da pompa religiosa e uma firme confiança na dignidade moral do Estado. Houve apenas uma única ‘revolução’ do tipo que ele herda como modelo, e ela foi Francesa. Ela identificava a razão com a inovação revolucionária – em um grau usualmente considerado divertido para além da esfera cultural gálica, apesar de sua encarnação ameaçadora em uma re-originação armada do estado a partir de princípios fundamentais. Naturalmente, estes ‘princípios fundamentais’ já eram uma rejeição da antiga religião, através de sua própria originalidade, e também uma exaltação da filosofia – como fundida nas chamas da insurreição. Eles eram os monstros nascidos do pesadelo metodicamente exacerbado e artificial de Descarte, liberado por uma passagem através do zero (dúvida radical), na qual a tradição orgânica foi imolada no altar do universal. Eles teriam – por exemplo – decimalizado o tempo e a geometria, e lutado fervorosamente para o fazer, repetidamente, sem sequer um momento de reserva piedosa ou dúvida residual… mas eles falharam. A história moderna, de um ângulo particular, mas iluminador, tem sido esta falha, esta derrota. Nossa Ferida Não É Tão Recente.

A identidade francesa, concebida de maneira radical, corresponde a um projeto nacional falido. Ela não é, na realidade, o exemplo supremo da derrota coletiva no período moderno e, assim, – de maneira concreta – da humilhação pelo capital? É a forma em que a ‘alternativa’ morre: de maneira local e não persuasiva, sem engajamento dialético, caindo – negligenciada – na dilapidação. Ela pode ser inserida em uma série limitada, embora não desconsiderável, de identidades que fazem uma reivindicação veemente à universalidade sem o fornecimento de qualquer critério efetivo através do qual estabelecê-la. Quando frustradas pela indiferença do exterior, tais pretensões objetivas tendem a virar ‘fascistas’, exatamente no sentido em que Badiou emprega. Sua reivindicações são mostradas – demonstravelmente – serem inconvincentes além de seu próprio domínio que encolhe. Elas são ignoradas, então eles ‘agem’. Uma certa loucura violenta é facilmente desovada. Ainda assim, raramente é mais do que uma distração.

Aquilo de que estamos sofrendo é de uma ausência, na escala global, de uma política que estivesse inteiramente desapegada da interioridade do capitalismo. É a ausência, na escala global, desta política que significa que um jovem fascista aparece, é criado. Não é o jovem fascista, o banditismo e a religião que criam a ausência de uma política de emancipação capaz de construir sua própria visão e definir suas próprias práticas. É a ausência desta política que cria a possibilidade do fascismo, do banditismo e das alucinações religiosas./

Esta é a análise de Badiou. As alfinetadas até agora – e os sofrimentos bem maiores por vir – resultam de uma derrota etno-política, em um longo conflito ainda relembrado por seus teimosos sobreviventes como um drama global do Universal. É uma derrota que eles imaginam – ou, pelo menos, ainda alegam imaginar – que poderia um dia ser desfeita. Quem os privaria de suas antigas canções, e estranhas bandeiras, e sonhos feridos?

Despeito ou triunfalismo são confusões identitárias, extravagâncias e também simplesmente erros que nós não podemos nos permitir. Nossa guerra está bem menos abrangentemente ganha do que a deles está perdida. Os adversários que importam – fascistas reais – têm controlado os altos comandos de nossas sociedades desde o New Deal. A dispersão tecno-econômica do poder permanece radicalmente incompleta. O sino-capitalismo – momentaneamente trêmulo – ainda tem que refazer o mundo. A ‘liberação do liberalismo’ mal começou. Nada disso é uma preocupação para Badiou, contudo, ou para os islamistas. Ela pertence a uma outra estória, e – pois esta é a ferida derradeira e septicamente inflamada – conforme ela corre adiante, cada vez mais rápido, ela não é remotamente deles.

Original.

Democratização do X-Risco

Yudkowsky revisto: “A cada dezoito meses, o QI mínimo necessário para destruir o mundo cai em um ponto”.

Tergiverse sobre a programação (satírica da Lei de Moore), e o ponto ainda está de pé. A capacidade dissuasiva massiva tende a se espalhar.

Isso é ‘democrático’ na maneira em que o termo é comumente usado por aqueles que buscam aferrolhar as tendências de descentralização à credibilidade ideológica dos princípios de legitimação jacobinos. O capitalismo de consumo, a Internet e cripto-sistemas peer-to-peer são teoricamente ‘democráticos’ desta maneira. Eles subvertem a governança centralizada e se espalham através do contágio horizontal. O fato de que eles não tem absolutamente nada a ver com a representação política popular é de interesse de apenas certas agendas retóricas, e de forma alguma de outras. É besteira sofística pop-capitalista usar a palavra democracia desta maneira, mas normalmente não vale a pena para a Esquerda o trabalho de contestá-la, e a parte da Direita que não está animada em andar de carona nessa estratégia de propaganda normalmente é indiscriminada demais para se incomodar em se desembaraçar dela. Há um raro artigo de RP ‘direitista’ funcional aqui, mas nunca o suficiente para importar muito (e é essencialmente desonesta demais para a Direita Exterior defender).

Ao contrário da Democracia® (ideologia da Catedral), contudo, essa ‘democratização’ tem uma profunda consistência cibernética. Ela cai para fora do tecno-capitalismo com tamanha inevitabilidade automática que provavelmente é impossível de desligar sem encerrar a coisa toda. A escalação do capital produz a deflação tecnológica como seu subproduto metabólico básico, de modo que a ‘democratização’ da capacidade produtiva é inelutável. Os computadores migraram de exóticos bens de capital para componentes triviais de produtos de consumo dentro de meio século. Estude essa tendência e você verá toda a estória.

A deflação da dissuasão é a tendência profunda. Conecte a citação de Yudkowsky com os mercados de assassinato para chegar onde ela está indo. (Tente engavetar os escrúpulos morais até depois que você estiver vendo a figura.)

Imagine, hipoteticamente, que algum agente privado maníaco queira apenas lançar uma bomba atômica em Meca. Qual é a obstrução? Podemos confiantemente dizer – de uma vez só – que é um problema cada vez menor com cada ano que passa. A tendência histórica básica garante isso. Fanáticos islâmicos comparativamente incompetentes são as únicas pessoas testando com seriedade essa tendência nesse momento, mas isso não vai durar para sempre. Eventualmente, agentes mais inteligentes e mais estrategicamente flexíveis vão adquirir interesse na capacidade descentralizada de destruição em massa e eles fornecerão uma indicação bem melhor de onde está a fronteira.

Bombas nucleares fariam isso. Elas certamente vão ser democratizadas, no fim das contas. Existem provavelmente capacidades acelerantes de ADM muito mais notáveis, no entanto. Em quase todos os aspectos (capacidade de produção descentralizada, curva de desenvolvimento, economia, impacto…) armamentos biológicos deixam os nucleares na pó. Qualquer um com um bilhão de dólares, um rancor sério e um perfil de sociopatia de ponta poderia entrar em um jogo de ameaça de guerra biológica global dentro de um ano. Tudo poderia ser reunido em garagens secretas. As negociações poderiam ser conduzidas em segura anonimidade. Esculpir uma soberania a partir do jogo exigiria apenas recursos, crueldade, brilhantismo e nervos. Uma vez que você possa crivelmente ameaçar a matar 100.000.000 de pessoas, todos os tipos de oportunidade estratégicas estão abertos. O fato de que ninguém tentou isso ainda em grande parte se resume aos bilionários serem gordos e felizes. Só é necessário de um Doctor Gno para quebrar o padrão.

Essa é a sombra lançada sobre o século XXI. Jogos massivamente descentralizados de dissuasão incondicionalmente radicais são simplesmente inevitáveis. Qualquer um que pense que o estado do status quo detém algum tipo de supremacia de longo prazo sob essas circunstâncias não está vendo nada.

Um governo global totalitário poderia parar isso! Mas isso não vai acontecer – e já que ele não vai, isso irá.

Original.

Ilusão Romântica

Entre as razões para se apreciar More Right por compartilhar esta passagem de Evola está a compreensão que ela oferece sobre um fracasso em pensar muito específico e crítico. A Neorreação é peculiarmente afligida por esta condição, que é basicamente idêntica ao romantismo, ou a forma assertiva da recalcitrante mente símia. Ela é caracterizada por uma incapacidade de se perseguir linhas de investigação teleológica sutil, que são, em vez disso, reduzidas a uma subordinação ideal de meios a fins já divulgados. Como resultado, a inversão de meios e fins (Modernidade) é meramente denunciada como uma afronta estética-moral, sem qualquer tentativa séria de compreensão profunda.

O capitalismo – isto é, a teleologia do capital – é inteiramente ignorada por tal crítica romântica, exceto na medida em que possa ser descrito superficialmente como a usurpação de certos fins humanos ‘últimos’ por certos outros ou (como Evola, entre outros, corretamente observa) por uma complicação teleológica que resulta de uma insurreição do instrumental (de outra forma identificável como rebelião robô ou insurgência shoggothica). Até que se reconheça que o capitalismo tende à realização de um fim inteiramente inovado dentro de si mesmo, inerentemente não-linear em natureza e grosseiramente designado como Singularidade Tecnológica, a distração dos interesses humanos (status, riqueza, consumo, lazer…) impede que essa discussão alcance a primeira base.

Claro, a organização da sociedade para atender fins humanos é uma perversão degradante. Esta é uma proposição que todo reacionário provavelmente está disposto a aceitar reflexivamente. Qualquer um que pense que isto equivale a uma crítica do capitalismo, contudo, não começou seriamente a ponderar o que o capitalismo está realmente fazendo. O que ele é em si está apenas taticamente conectado ao que ele faz por nós – isto é (em parte), o que ele barganha conosco para sua auto-escalação. Nossa fenomenologia é sua camuflagem. Nós desdenhosamente zombamos do lixo que ele oferece às massas e então achamos que entendemos algo sobre o capitalismo, em vez de sobre o que o capitalismo aprendeu a pensar sobre os macacos entre os quais ele surgiu.

Se vamos ser irrefletidos assim, a Singularidade será bastante difícil, de fato. A extinção poderia, então, ser a melhor coisa que poderia acontecer a nossa espécie teimosamente idiota. Morreremos porque preferimos afirmar valores, em vez de investigá-los. Pelo menos este é um resultado romântico, de certo modo.

Original.