A Armadilha da Atomização

“Mãos para o alto todo mundo que odeia a atomização.” Esse não é um pedido de rendição (pelo menos abertamente), mas meramente uma enquete informal.

Agora tente de forma diferente:

“Mãos para o alto todo mundo que odeia a atomização, mas desta vez sem olhar para o lado.” O processo de decisão – talvez ironicamente – foi um pouco mais lento desta vez? Vale a pena pensar sobre isso. Pode-se esperar que tomar um atalho que ignora o processo social acelere as coisas. Ainda assim, por outro lado – introduzindo o atraso – vem o nebuloso reconhecimento: se você faz a decisão de forma privada, você já é cúmplice. Um reorganização formal menor da questão a transforma de maneira insidiosa. O que você acha da atomização, falando de forma atomística? Vira um loop estranho, ou auto-referencial. A história moderna tem sido assim.

Primeiro, contudo, algumas preliminares terminológicas. Um ‘átomo’ é etimologicamente indistinto de um ‘indivíduo’. Na raiz, as palavras são quase perfeitamente intercambiáveis. Nenhuma delas, em relação à outra, carrega qualquer carga semântica especial. Então, se ‘atomização’ soa como uma metáfora, realmente não é. Não há nada essencialmente derivativo sobre a aplicação sociológica da palavra. Se parece ser um empréstimo da física, isso poderia ser devido a uma série de confusões, mas não a um deslocamento de um terreno original ou natural. Átomos e sociedades são primordialmente indissociáveis, embora estejam em tensão. É isso que ser um animal social – em vez de um completamente ‘eussocial’ (como uma formiga, ou um rato-toupeira) – já indica.

Indivíduos são difíceis de encontrar. Em nenhum lugar eles são simples e confiavelmente dados, menos ainda a si mesmos. Eles exigem trabalho histórico e, em última análise, fabricação, para sequer flutuarem enquanto aproximações funcionais. Um processo está envolvido. É por isto que a palavra ‘atomização’ é menos susceptível a enganações do que ‘átomo’ em si. A individualidade não é nada fora um destino (mas isto é nos anteciparmos).

É difícil saber onde começar. (Os atenienses sentenciaram Sócrates à morte por ser um atomizador social?) O individualismo é estereotipicamente WEIRD (ocidental, educado, industrializado, rico e democrático, na sigla em inglês), e assim tende a levar ao labirinto da etnografia comparativa. Tem estado distribuído de maneira desigual, aproximadamente da mesma maneira que a modernidade. Uma vez que isso já é dizer quase tudo sobre o tópico, merece uma desmontagem.

O trabalho de Walter Russell Mead fornece um a estação de repetição útil. As questões históricas com as quais ele tem se engajado – que se ocupam de nada menos do que o resultado do mundo – estiveram cravadas em um quadro intelectual moldado por uma atenção especial ao cristianismo providencial moderno. Qual foi a fonte do ‘destino manifesto’ que colocou as chaves do domínio global nas mãos de um projeto social progressivamente destilado, protestante, depois puritano, depois ianque? Se não exata ou diretamente ‘Deus’ (ele é sutil demais para isso), é pelo menos algo que a linhagem da Reforma Cristã tem drenado com efetividade única. O protestantismo selou um pacto com o destino histórico – que, por todas as aparências, define uma teleologia global especificamente moderna – ao vencer de maneira consistente. A individualização da consciência – a atomização – foi tornada destino.

Seis anos após Special Providence (2001) veio God and Gold, que reforçou as linhas anglo-americana e capitalista da narrativa. As fronteiras entre a história sócio-econômica e religiosa foram estrategicamente fundidas, da maneira na qual foram pioneiros Max Weber, Werner Sombart e – de maneira mais crítica – numerosos pensadores católicos que identificaram e continuam a identificar a essência da modernidade como um poder religioso hostil. Eugene Michael Jones é Walter Russell Mead do outro lado do espelho. A estória que cada um está contando se transforma sem distorção significativa na do outro, uma vez que seja resfriada abaixo do limiar da agitação moral. O que quer que tenha acontecido com o cristianismo ocidental na Renascença soltou o capitalismo sobre o mundo.

É possível ser ainda mais cru sem sacrificar muita realidade. Quando consideradas enquanto designações rígidas, Atomização, Protestantismo, Capitalismo e Modernidade nomeiam exatamente a mesma coisa. No domínio da política pública (e para além dela), privatização endereça o mesmo diretório.

Embora qualquer variante em particular do Protestantismo implícito ou explícito tenha suas características teológicas (ou ateológicas) distintivas, assim como qualquer estágio da industrialização capitalista tem suas características concretas, estas servem como distrações mais do que como pontos de apoio no quadro mais amplo. O único quadro verdadeiramente mais amplo é a cisão. A Reforma não foi apenas uma quebra, mas, de maneira ainda mais importante, uma normalização da quebra, um protocolo inicialmente informal, mas cada vez mais rigorizado, de desintegração social. A solução derradeira que ela ofereceu em relação a todas as questões sociais não era o debate, mas a saída. A fissão crônica foi instalada no âmago do processo histórico. De maneira fundamental, é isso que a atomização significa.

O Protestantismo – o Protestantismo Real Abstrato – que está cada vez mais propenso a se identificar como pós-cristão, pós-teísta e pós-Tudo O Mais, é um máquina auto-propulsora para a desintegração social incompreensivelmente prolongada, e todo mundo sabe disso. A atomização se tornou uma agência autônoma e inumana ou, pelo menos, algo cada vez mais autônomo e cada vez mais inumano. Ela pode apenas liquidar tudo com o que você jamais se preocupou, por sua própria natureza, então – claro – ninguém gosta dela. O catolicismo, o socialismo e o nacionalismo buscaram, em sucessão, coalização ou competição mútua, reunir os estilhaços da comunidade violada contra ela. O longo fio de derrotas que se seguiu tem sido uma rica fonte de mitologia cultural e política. Já que não há realmente nenhuma escolha além da resistência, a batalha sempre foi retomada, mas sem qualquer sinal sério de alguma reversão da fortuna.

Sob as atuais condições, a atomização serve – de maneira única – como um tubo inexaurível de cola reacionária. Uma profunda aversão ao processo é o único denominador comum de nossa oposição cultural contemporânea, que se estende do catolicismo tradicionalista ao etno-nacionalismo da alt-right. “Qualquer que seja nossa cola preferida, não podemos pelo menos concordar que as coisas ficaram descoladas – e estão cada vez menos coladas?” Isso parece bem longe de uma aspiração desarrazoada. Afinal, se a construção de uma coalização é a meta, o que – imaginavelmente – poderia fornecer uma bandeira melhor do que o próprio princípio de integridade social, mesmo se este for invocado pura e negativamente, por meio de uma anatematização dirigida a seu inimigo histórico fatal? A atomização, neste aspecto, reúne as pessoas, pelo menos conversacionalmente, embora isto funcione melhor quando a conversa não fica muito profunda.

Quase ninguém quer ser atomizado (eles dizem). Talvez eles tenham lido a novela de 1998 de Michel Houellebecq Atomised (ou Elementary Particles), e acenaram juntos com a cabeça. Como seria possível não o fazer? Se fosse aí que acabasse, seria difícil de ver o problema, ou como jamais veio a haver um problema, mas não acaba aí, nem em nenhum lugar próximo, porque a atomização faz zombaria das palavras. A atomização nunca foi boa em festas, sem surpresas. Ela é impopular ao ponto de uma essência. Tem aquela coisa puritana, e a coisa da Ayn Rand, e a coisa dos nerds, e o gatilho de piadas sobre Aspergers – se isso realmente for uma coisa separada – e, sem dúvidas, inúmeras deficiências sociais mais, cada uma delas por si só desqualificando, se receber um ‘curtir’ em algum meio coletivo for a meta, porque ninguém curte ela, como já ouvimos (por meio milênio já). Mas o que ouvimos, e o que vimos, foram duas coisas bem diferentes.

A atomização nunca tentou se vender. Em vez disso, ela veio de graça, com todo o resto que foi vendido. Ela era a implicação formal da dissidência, primeiro de tudo, do ceticismo metódico, ou investigação crítica, que pressupunha uma suspensão de autoridade que se provou irreversível e, depois, – de maneira igualmente implícita originalmente – da forma da relação contratual e de toda inovação subsequente no âmbito da negociação privada (haveriam muitas, e mal começamos). “Então, o que você acha (ou quer)?” Isso foi o bastante. Nenhum entusiasmo articulado pela atomização jamais foi necessário. A feitiçaria da preferência revelada tem feito todo o trabalho e ali, também, mal começamos.

A atomização pode ter poucos amigos, mas não têm qualquer escassez de aliados formidáveis. Mesmo quando as pessoas estão prontamente convencidas de que a atomização é indesejável, elas querem, em última instância, decidir por si mesmas, e tanto mais quanto mais pensam que isso importa. Na medida em que a atomização se tornou um verdadeiro horror, ela compele uma relação íntima cognitiva e moral consigo mesma. Ninguém que vislumbre o que ela é pode delegar as conclusões relevantes para qualquer autoridade superior. Assim, ela ganha. Todo católico de seriedade intelectual tem visto isto por séculos. O socialistas também, por décadas. O momento de revelação etno-nacionalista não pode ser em muito adiado. Sob condições modernas, toda comunidade moral autoritativa é mantida refém da decisão privada, mesmo quando é aparentemente afirmada e especialmente quando tal afirmação é asseverada de maneira mais veemente. (Os elementos mais excitáveis dentro do mundo do Islã vêm isso chegando e estão conspicuamente infelizes com o fato.)

Substancialmente, mesmo que apenas especulativamente, a liberdade de consciência poderia tender à coletividade, mas, formalmente, ela fixa o individualismo cada vez mais firmemente. Ela desafia a autoridade da comunidade no mesmo momento em que oferece um endosso explícito, ao tornar a comunidade um questão urgente de decisão privada e – no pico mesmo de sua alegada sacralidade – de compras. Os tradicionalistas religiosos vêem a si mesmos espelhados no mercado de comidas integrais e estão horrorizados, quando não sombriamente entretidos. “Conservadores da Birkenstock” foi a auto-identificação sinistramente irônica de Rod Dreher. O anti-consumismo se torna uma preferência do consumidor, a causa pública, um entusiasmo privado. A intensificação do sentimento coletivista apenas estreita a armadilha do macaco. Fica pior.

A história americana – na fronteira global da atomização – está densamente salpicada de comunidades eletivas. Das comunidades religiosas puritanas do começo do período colonial, passando pelas comunas ‘hippies’ do século passado, e além, o experimentos de vida comunal sob os auspícios da consciência privada radicalizada buscaram melhorar a atomização da maneira mais consistente com seu destino histórico. Tais experimentos confiantemente falham, o que ajuda a acelerar o processo, mas isso não é o principal. O que mais importa sobre todas essas co-ops, comunas e cultos é a opção contratual semi-formal que as enquadram. Desde o momento de sua iniciação – ou até mesmo de sua concepção – elas confirmam uma atomização soberana e sua reconstrução do mundo social sobre o modelo de um menu. A muito discutida ‘Opção Beneditina’ de Dreher não é nenhuma exceção a isto. Não há retirada do curso da modernidade, ‘de volta’ à comunidade, que não reforce o padrão de dissidência, cisma e saída a partir do qual a atomização continuamente reabastecesse seu impulso. Conforme a consciência privada se dirige à escapada da privatização da consciência, ela regenera aquilo de que foge, cada vez mais fundo dentro de si. A individuação, considerada de maneira impessoal, gosta quando você corre.

Como é bem entendido, ‘átomos’ não são átomos, e ‘elementos’ não são elementos. Partículas elementares – se sequer elas existirem – estão pelo menos dois níveis (profundos) mais abaixo. Os indivíduos humanos certamente não são menos decomponíveis. A ‘sociedade da mente’ de Marvin Minsky é apenas uma indicação vívida de como a sociologia história poderia se inclinar para dentro do âmbito atômico. Aceleradores de partículas demonstram que estilhaçar entidades até as menores peças alcançáveis é um problema tecnológico. O mesmo se mantém no âmbito social, embora, naturalmente, com tecnologias muito diferentes.

Descartar indivíduos como fingimentos metafísicos, portanto, seria a mais fútil das diversões. A atomização não tem qualquer metafísica que a restrinja, seja na física de partículas, ou no processo dinâmico antropológico e socio-histórico. Se ela promete, às vez, lhe dizer quem você realmente é, tais sussurros eventualmente pararão, ou virão a zombar de si mesmos, ou serão simplesmente esquecidos. O protestantismo, tem que ser lembrado, é apenas mascarado, momentaneamente, como uma religião. O que está por debaixo duradouramente é uma maneira de quebrar coisas.

Depois de tanto já ter sido dilacerado, com tantas monstruosidades geradas, é sem dúvida exaustivo ouvir que, embora quase tudo ainda tenha que ser construído, não menos ainda aguarde ser quebrado. A atomização já foi longe demais, somos incessantemente informados. Se este for o caso, o futuro será difícil. Não pode haver qualquer dúvida realista de que ele será extremamente dividido. O dínamo que guia as coisas tende, de maneira irresistível, nessa direção. Tente se separar, e ele gira mais rápido.

“Mãos para o alto todo mundo que odeia a atomização.” Não, isso não é mais uma pergunta. Seria um pedido de rendição, se a rendição importasse, mas não importa, como vimos. Continue lutando contra ela, por todos os meios. Ela gosta disso.

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Uma Introdução Rápida-e-Suja ao Aceleracionismo

Qualquer um que esteja tentando resolver o que pensa sobre o aceleracionismo, é melhor fazê-lo rapidamente. Esta é a natureza da coisa. Já estava apanhado de tendências pareciam rápidas demais para se acompanhar quando começou a se tornar auto-consciente, décadas atrás. Ganhou bastante velocidade desde então.

O aceleracionismo é velho o suficiente para ter chegado em ondas, o que seria dizer, insistente ou recorrentemente, e cada vez o desafio é mais urgente. Entre suas previsões está a expectativa de que você será lento demais para lidar com ele de maneira coerente. Ainda assim, se você tatear as questões que ele coloca – uma vez que está apressado – você perde, talvez de maneira bem séria. É difícil. (Para nossos propósitos aqui, “você” está como substituto portador das “opiniões da humanidade”.)

A pressão do tempo, por sua própria natureza, é algo difícil de se pensar. Tipicamente, embora a oportunidade para deliberação não é necessariamente presumida, ela é pelo menos – com esmagadora probabilidade – confundida com uma constante histórica, em vez de uma variável. Se já houve tempo para pensar, pensamos, ainda há e sempre haverá. A probabilidade definitiva de que a atribuição de tempo à tomada de decisão está sofrendo uma compressão sistemática permanece uma consideração negligenciada, mesmo entre aqueles que estão prestando uma atenção explícita e excepcional à crescente rapidez da mudança.

Em termos filosóficos, o problema profundo da aceleração é transcendental. Ele descreve um horizonte absoluto – e que está se fechando. Pensar toma tempo, e o aceleracionismo sugere que estamos ficando sem tempo para pensar sobre isso de maneira completa, se já não estivermos. Nenhum dilema contemporâneo está sendo entretido de maneira realista até que também seja reconhecido que a oportunidade para fazê-lo está colapsando rapidamente.

Tem-se que chegar à suspeita de que, se uma conversa pública sobre a aceleração está começando, é apenas a tempo de ser tarde demais. A profunda crise institucional que torna o tópico ‘quente’ tem, em seu cerne, uma implosão da capacidade social de tomada de decisão. Fazer qualquer coisa, nesse ponto, demoraria tempo demais. Então, em vez disso, os eventos cada vez mais apenas acontecem. Eles parecem cada vez mais fora de controle, em uma medida até mesmo traumática. Já que o fenômeno básico parece ser uma falha dos freios, o aceleracionismo é apanhado novamente.

O aceleracionismo liga a implosão do espaço de decisão à explosão do mundo – isto é, à modernidade. É importante, portanto, notar que a oposição conceitual entre implosão e explosão não faz nada para impedir seu acoplamento real (mecânico). Armas termonucleares fornecem os exemplos mais vividamente iluminantes. Uma bomba H emprega uma bomba A como gatilho. Uma reação de fissão desencadeia uma reação de fusão. A massa de fusão é esmagada até a ignição por um processo de explosão. (A modernidade é uma explosão.)

Isto já é falar sobre a cibernética, que também retorna insistentemente, em ondas. Ela se amplifica até um uivo e depois se dissipa na balbuciação sem sentido da moda, até que a próxima onda de explosão chegue.

Para o aceleracionismo, a lição crucial foi esta: Um circuito de feedback negativo – tal como um “governador centrífugo” de uma máquina a vapor ou um termostato – funciona para manter algum estado de um sistema no mesmo lugar. Seu produto, na linguagem formulada pelos ciberneticistas filosóficos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari, é territorialização. O feedback negativo estabiliza um processo, ao corrigir a deriva e, assim, inibir o afastamento para além de um alcance limitado. A dinâmica é colocada a serviço da fixação – um estase de nível superior, ou estado. Todos os modelos de equilíbrio de sistemas e processos complexos são assim. Para capturar a tendência contrária, caracterizada por uma errância, fuga ou escapada auto-reforçadora, D&G cunharam o termo deselegante, mas influente, desterritorialização. A desterritorialização é a única coisa sobre a qual o aceleracionismo realmente sempre falou.

Um termos sócio-históricos, a linha de desterritorialização corresponde a um capitalismo não compensado. O esquema básico – e, claro, em algum grau elevado e altamente consequente, efetivamente instalado – é um circuito de feedback positivo, dentro do qual a comercialização e a industrialização mutuamente excitam uma à outra em um processo descontrolado, a partir do qual a modernidade extrai seu gradiente. Karl Marx e Friedrich Nietzsche estavam entre aqueles que capturaram aspectos importantes da tendência. Conforme o circuito é incrementalmente fechado, ou intensificado, ele exibe uma autonomia, ou automação, cada vez maior. Ele se torna mais firmemente auto-produtivo (o que é apenas o que ‘feedback positivo’ já diz). Uma vez que ele não apela a nada além de si mesmo, ele é inerentemente niilista. Ele não tem qualquer significado concebível além da auto-amplificação. Ele cresce a fim de crescer. A humanidade é seu hospedeiro temporário, não seu mestre. Seu único propósito é si mesmo.

“Acelerar o processo”, recomendaram Deleuze & Guattari em seu Anti-Édipo, de 1972, citando Nietzsche para reativar Marx. Embora fosse levar outras quatro décadas até que o “aceleracionismo” fosse nomeado como tal, de maneira crítica por Benjamin Noys, ele já estava ali, em sua totalidade. A passagem relevante é digna de ser repetida por completo (como seria, repetidamente, em todas as discussões aceleracionistas subsequentes):

… qual é o caminho revolucionário? Existe um? – Retirar-se do mercado mundial, como Samir Amin aconselha que os países do Terceiro Mundo façam, em um curioso renascimento da “solução econômica” fascista? Ou poderia ser ir na direção oposta? Ir ainda além, isto é, no movimento do mercado, de decodificação e desterritorialização? Pois talvez os fluxos não estejam ainda desterritorializados o suficiente, nem decodificados o suficiente, do ponto de vista de uma teoria e de uma prática de um caráter altamente esquizofrênico. Não se retirar do processo, mas ir além, “acelerar o processo”, como Nietzsche colocou: nesta questão, a verdade é que não vimos nada ainda.

O ponto de uma análise do capitalismo, ou do niilismo, é fazer mais disso. O processo não deve ser criticado. O processo é a crítica, retroalimentando a si mesmo, conforme se escala. O único caminho adiante é através, o que significa mais adentro.

Marx tem seu próprio ‘fragmento aceleracionista’, que antecipa a passagem do Anti-Édipo de maneira notável. Ele diz, no discurso de 1848 ‘Da Questão do Livre Comércio’:

…em geral, o sistema protetor de nossos dias é conservador, ao passo que o sistema de livre comércio é destrutivo. Ele quebra antigas nacionalidades e empurra o antagonismo entre o proletariado e a burguesia a um ponto extremo. Em uma palavra, o sistema de livre comércio acelera a revolução social. É neste sentido revolucionário apenas, senhores, que eu voto a favor do livre comércio.

Nesta matriz aceleracionista germinal, não há distinção a ser feita entre a destruição do capitalismo e sua intensificação. A auto-destruição do capitalismo é o que o capitalismo é. “Destruição criativa” é o todo dele, apenas ao lado de seu retardamento, compensações parciais ou inibições. O capital se revoluciona mais completamente do que qualquer ‘revolução’ extrínseca possivelmente poderia. Se a história subsequente não justificou esse ponto para além de qualquer questão, ela pelo menos tem simulado tal justificação, em um grau enlouquecedor.

Em 2013, Nick Srnicek e Alex Williams buscaram resolver esta ambivalência intolerável – até mesmo ‘esquizofrênica’ – em seu ‘Manifesto por uma Política Aceleracionista’, que visava precipitar um ‘Aceleracionismo de esquerda’ especificamente anti-capitalista, claramente demarcado contra sua sombra ‘Aceleracionista de direita’ abominavelmente pró-capitalista. Este projeto – previsivelmente – teve mais sucesso em reanimar a questão aceleracionista do que em purificá-la de qualquer maneira sustentável. Foi apenas através de uma introdução de uma distinção totalmente artificial entre capitalismo e aceleração tecnológica moderna que suas linhas de fronteira puderam ser sequer traçadas. O chamado implícito era por um novo Leninismo, sem a NEP (e com os experimentos tecno-gerenciais utópicos do comunismo chileno como base para ilustração).

O capital, em sua definição derradeira, não é nada além do fator social acelerativo abstrato. Seu esquema cibernético positivo o exaure. A fuga consome sua identidade. Qualquer outra determinação é removida como um acidente, em algum estágio de seu processo de intensificação. Uma vez que qualquer coisa capaz de alimentar a aceleração sócio-histórica necessariamente, ou por essência, será capital, o prospecto de qualquer ‘Aceleracionismo’ inequivocamente ‘de esquerda’ ganhar um ímpeto sério pode ser confiantemente descartado. O aceleracionismo é simplesmente a auto-consciência do capitalismo, que mal começou. (“Não vimos nada ainda.”)

No momento em que escrevo, o Aceleracionismo de esquerda parece ter se desconstruído de volta à política socialista tradicional, e a tocha aceleracionista foi passada para uma nova geração de brilhantes jovens pensadores que avançam um ‘Aceleracionismo Incondicional’ (nem R/Acc., nem L/Acc., mas U/Acc.). Suas identidades online – se não, de qualquer maneira facilmente extricável, suas ideias – podem ser pesquisadas através da peculiar hash-tag nas mídias sociais, #Rhetttwitter.

Conforme blockchains, logística com drones, nanotecnologia, computação quântica, genômica computacional e realidade virtual inundam, encharcadas em densidades cada vez maiores de inteligência artificial, o aceleracionismo não vai a lugar algum, a não ser mais fundo em si mesmo. Ser apressado pelo fenômeno, ao ponto de paralisia institucional terminal, é o fenômeno. Naturalmente – o que seria dizer, de maneira completamente inevitável – a espécie humana definirá este evento terrestre derradeiro como um problem. Vê-lo já é dizer: Temos que fazer alguma coisa. Ao quê o aceleracionismo só pode responder: Você finalmente está dizendo isso agora? Talvez devêssemos começar? Em suas variantes mais frias, que são aquelas que são vitoriosas, ele tende a gargalhar.

Nota:

O #Accelerate: The Accelerationist Reader da Urbanomic continua sendo de longe a introdução mais abrangente ao aceleracionismo. O livro foi publicado em 2014, contudo, e muito aconteceu desde então.

O artigo da Wikipédia sobre ‘Accelerationism’ é curto, mas de qualidade excepcionalmente alta.

Para o ‘Manifesto por uma Política Aceleracionista’ de Srnicek e Williams veja isto.

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Horror Malthusiano

O post é lançado assim porque é sexta-feira à noite, mas funciona. Um post mais atencioso poderia ter sido intitulado simplesmente ‘Malthus’ e envolvido muito trabalho. Isso vai ser necessário em algum ponto. (Eis aqui a 6ª edição de An Essay on the Principle of Population, para qualquer um que queira começar agora.) Uma abordagem mais minuciosamente técnica teria sido marcado como ‘neo-malthusianismo’. Embora simpatize com lamentações sobre um outro prefixo ‘neo-‘, neste caso ele teria sido solidamente justificado. É apenas através da expansão da compreensão malthusiana, de acordo com uma lei de conservação mais geral, que sua relevância atual completa pode ser apreciada. O Malthus clássico ainda faz bem mais trabalho do que lhe é creditado, mas contém um princípio de bem aplicação bem mais penetrante.

O ‘neo-‘, em sua forma mais frívola, é meramente uma marca da moda. Quando empregado de maneira mais séria, ele denota um elemento de inovação. Seu sentido mais significante inclui não apenas novidade, mas também abstração. Algo é levado adiante de tal maneira que seu núcleo conceitual é destilado através da extração de um contexto específico, alcançando uma generalidade mais elevada e uma formalidade mais exata. Malthus antecipa isto parcialmente, em uma frase que aponta para além de qualquer concretude excessivamente restritiva:

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“O poder da população é tão superior ao poder da terra em produzir subsistência ao homem que a morte prematura deve, de uma forma ou outra, visitar a raça humana.”
– Reverendo Thomas Malthus

A qualificação “de uma forma ou outra” poderia ter sido extraída do horror abstrato, e “morte prematura” só a restringe vagamente. Ainda assim, essa formulação permanece demasiado estreita, uma vez que tende a excluir o resultado disgênico que, desde então, descobrimos ser uma dimensão da expressão malthusiana, pouco menos imponente do que a crise de recursos. Uma descrição neo-malthusiana do “X”, que, de uma forma ou outra, faz uma sombria perversidade de todos os esforços da humanidade para melhorar sua condição, o compreende como um destino matematicamente conservado, plástico ou abstrato, funcionando tão sem remorso através de reduções da mortalidade (‘relaxamentos’ malthusianos) quanto através de aumentos (‘pressões’ malthusianas). Ambos contariam igualmente como “restrições à população” – cada um conversível, através de um cálculo complexo, ao termos do outro. Uma população disgenicamente deteriorada através do relaxamento malthusiano ‘iluminado’ descobre, uma vez mais, como passar fome.

O Iluminismo Sombrio (ensaio) foi claramente catalizado pelo trabalho de Mencius Moldbug, mas deveria ter tido dois pilares histórico-intelectuais anglo-Thomistas ou Thomas céticos (e nenhum deles era Thomas Carlyle). O primeiro era Thomas Hobbes, no qual pelo menos se tocou. O segundo deveria ter sido Thomas Malthus, mas a série foi desviada para dentro da corrente espumante do caso Derbyshire e dos ultrajes da política racial esquerdista. A integridade da concepção foi perdida. Não tivesse sido, poderia ter sido menos tentador ler a corrente-333 como um Anti-Iluminismo, em vez de como um Contra-Iluminismo, no sentido de um alternativa eclipsada à calamidade rousseauista que prevaleceu. Teria certamente anexado o Iluminismo Escocês, mas apenas sob a condição definitiva de que ele fosse acorrentado seguramente ao cadafalso duramente realista do Iluminismo Sombrio (Hobbes e Malthus), desiludido de todo idealismo. Estórias bonitas são para criancinhas (sendo criadas por liberais).

Malthus subtrai todo o utopismo do iluminismo. Ele demonstra que a história é montada – necessariamente – em um jardim de açougueiro. Através de Malthus, Ricardo descobriu a Lei de Ferro dos Salários, desconectando as ideias de avanço econômico e redenção humanitária. Darwin efetuou um revisão comparável (e mais importante) na biologia, também sobre bases malthusianas, dissipando toda a sentimentalidade das noções de ‘progressão’ evolutiva. É a partir de Malthus que sabemos que, quando qualquer coisa parece se mover adiante, é por ser moída contra um fio de corte. É quando Marx tenta colocar Malthus na história, em vez da história em Malthus, que a demência utópica foi ressuscitada dentro da economia. O anti-malthusianismo dos libertários os estigmatiza como tolo sonhadores.

Com a NRx, a questão talvez seja mais instável, mas o Iluminismo Sombrio é inequivocamente malthusiano. Se você encontrar seu olho ficando úmido, arranque-o fora.

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Liberdade (Prelúdio-1a)

Nota sobre Teleologia

Bryce, que tem pensado sobre teleologia por um bom tempo, expressa seus pensamentos sobre o tópico com louvável lucidez. O argumento central: Alegações caracteristicamente modernas de se ter ‘transcendido’ o problema da teleologia são tornadas absurdas pela dependência continuada e de fato massivamente aprofundada do conceito de equilíbrio por parte de todas as disciplinas intelectuais sensíveis à complexidade, desde a física estatística, passando pela biologia de populações, até a economia. O equilíbrio é exatamente um telos. Negar isto é primariamente o sintoma de uma alergia a modos de pensamento ‘medievais’ ou ‘escolásticos’ (isto é, aristotélicos), herdada do mecanicismo rebelde vulgar da filosofia natural do início do Iluminismo.

Em que eu acho que o relato de Bryce ainda é deficiente é mais facilmente demonstrado por uma maior especificação de seu ponto principal. O equilíbrio é o telos daqueles sistemas complexos dinâmicos em particular que são governados pela homeostase, o que quer dizer: por um mecanismo dominante de feedback negativo. Tais sistemas estão, de fato, de profundo acordo com a teleologia física aristotélica clássica e com sua tendência a um estado de repouso. Esta antiga física, ridicularizada pelos mecanicistas iluministas em nome da conservação do momento, é redimida, através da abstração, na concepção moderna de equilíbrio. ‘Repouso’ não é imobilidade, mas maximização da entropia.

A Teleologia do Capital, contudo, não é capturada por este modelo. Ela é definida por duas dinâmicas anômalas, que radicalizam a perturbação, em vez de anulá-la. O capital é cumulativo e acelerativo, devido a uma dependência primária de um feedback positivo (em vez de negativo). Ele é também teleopléxico, em vez de teleológico da maneira clássica – inextricável de um processo de reversão de meios e fins que leva uma orientação teleológica anterior (o propósito utilitário humano) em uma direção alternativa e críptica.

Em consequência:

(1) A Teleologia do Capital não se aproxima de uma ideia. Ela é, por natureza intrínseca, um escape em vez de um retorno ao lar. A Ideia, em relação ao dinamismo do Capital, é necessariamente uma constrição. A metafísica inerente do capital é, portanto, irredutivelmente cética (em vez de dogmática).

(2) Segue-se que a ‘finalidade’ Capitalista (isto é, a Singularidade Tecno-comercial) é um limiar de transição, em vez de um estado terminal. O Capital tende a um horizonte aberto, não a um estado de conclusão.

(3) A entropia (considerada, de maneira apropriada, como um processo inerentemente teleológico) é o motor de todos os sistemas complexos. A Teleologia do Capital não tende em direção a um máximo de entropia, contudo, mas a uma escalação da dissipação da entropia. Ela explora a corrente entrópica para viajar para trás, para dentro de estados de via ciberneticamente intensificados de complexidade e inteligência aumentadas. O ‘progresso’ do capitalismo é uma acentuação do desequilíbrio.

(4) A teleoplexia requer um registro teleológico gêmeo. De maneira mais simples, há a ordem utilitária, na qual o capital se estabelece como a solução competitivamente superior para os propósitos anteriores (a produção de valores de uso humanos), e a ordem inteligênica, na qual ele realiza sua auto-escalação (mecanização, autonomização e, em última análise, secessão). Confundir estar duas ordens é quase inevitável, uma vez que a teleoplexia é, por natureza, camuflada (insidiosa). O fato de que ela parece ser orientada à satisfação das preferência de consumo humanas é essencial para sua emergência e sobrevivência sócio-históricas. A indulgência teimosa nesta confusão, contudo, não é digna da inteligência filosófica.

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Liberdade (Prelúdio-1)

A forma mais provocadora de começar isso seria dizer: A recepção de investigações metafísicas da liberdade e do destino é frequentemente similar àquela da BDH. Estas questões não são desejadas. Elas desestabilizam demais. As réplicas que elas evocam normalmente são concebidas para acabarem com uma agitação angustiante, em vez de aproveitar as oportunidades de exploração. Não que isto seja de qualquer forma surpreendente. Tais problemas tendem a fazer pender as fundações mais básicas da existência teológica, cultural e psicológica para dentro de um abismo insondável. Se não podemos estar certos de onde elas levarão – e como poderíamos? – elas apostam o mundo, sem deixar restos. Desista de tudo e talvez algo possa sair disso.

Quando interpretada como uma consideração de causalidade, que relaciona uma concepção de “livre arbítrio” com modelos naturalistas de determinação física, as linhas de batalha parecem dividir a tradição religiosa da ciência moderna. Ainda assim, a tensão mais profunda está enraizada dentro da própria tradição religiosa Ocidental, que estabelece as ideias indispensáveis de eternidade e agência em uma relação de subversão recíproca tácita. A abominação intelectual do calvinismo – que não pode ser pensada sem ruína – é idêntica a este tormento cultural que irrompe à proeminência. É também o motor sombrio da modernidade Ocidental (e, assim, global): o paradoxo central que faz da história uma estória de horror.

Se o futuro (já) é real, que é o que a eternidade implica, então a agência finita ou ‘intra-temporal’ só pode ser uma ilusão. Se a agência é real, como qualquer apelo à liberdade e à responsabilidade metafísicas exigem, a eternidade está abolida pela indeterminação absoluta do tempo futuro. Eternidade e agência não podem ser reconciliadas fora do berço de uma obscuridade reconfortante. Esta, pelo menos, é a indicação a ser extraída da história Ocidental da convulsão teológica e da crise filosófica em curso. Agostinho, Calvino, Espinoza estão entre as ondas de choque mais óbvias de um envolvimento despedaçador de almas na eternidade, que funde tradição e catástrofe como destruição.

“Você acha que foi predestinado a se tornar um filósofo?” se pergunta ao filósofo católico Peter Kreeft:

Sim, claro. A predestinação está na Bíblia. Um bom autor dá liberdade às suas personagens, de modo que somos livres precisamente porque fomos predestinados a sermos livres. Não há qualquer contradição entre predestinação e livre arbítrio.

Este blog ainda tem algumas questões a perseguir…

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Dupla Predestinação

A herança cladística exige que eu comece a falar sobre a doutrina calvinista da Providência aqui (logo), apesar da minha total depravação cognitiva sobre o tópico. Tenho estado lendo as Institutas da Religião Cristã, e em seu entorno, mas inevitavelmente como se fosse de Marte (e como um confucionista). Tem que ser o caso de que muitos dos visitantes aqui são vastamente mais intelectualmente fluentes sobre o assunto, de modo que quaisquer comentários antecipatórios serão avidamente apoderados.

A fatalidade, até onde ela está inicialmente evidente:

(1) A Neorreação, localizada cladisticamente, é um estilhaço criptocalvinista.

(2) As doutrinas que colocaram o calvinismo no “gabinete dos horrores” de H. L. Mencken (“próximo ao canibalismo”), nunca foram filosoficamente dissolvidas, seja por argumentos teológicos ou seculares.

(3) A dispensa moralista da modernidade e, por associação, do protestantismo, evidencia uma concepção quase incompreensivelmente crua da Providência – como se a maneira em que as coisas ocorreram não fosse uma fatalidade e, em termos teológicos, uma mensagem (ou punição), mas sim um acidente ou contingência criada pelo homem. A teologia rigorosa da modernidade não pode se reduzir a mera denúncia.

(4) O calvinismo é um instrumento com o qual se explorar o catolicismo, especialmente no que diz respeito à sua filosofia implícita da história (e ao recursos ao raciocínio teleológico). O ‘Neo-‘ na Neorreação parece ser uma marca calvinista. Há um sem número de explicações seculares influentes para a maneira em que a história torturou a Igreja – de modo que mesmo os religiosos parecem tipicamente assumi-las por padrão. Onde se encontra uma descrição radicalmente providencial (que escave o significado teológico da modernidade)?

(5) A própria palavra ‘Catedral’, em seu uso neorreacionário, não é um sinal providencial complexo? (O que sugere que ela tem bem mais a dizer do que qualquer coisa que escritores neorreacionários ou o mero acidente coloquem nela.)

(6) O aglomerado de disputas em torno da ‘predestinação’ (ou ação da eternidade sobre a história) é a chave ocidental para o problema do tempo.

Estou certo de que há muito mais…

[Isto ajuda a estabelecer o tom.]

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O Básico

A compreensão fundamental do Ocidente é a tragédia. Ela não pode ser cognitivamente dominada, assimilada ou superada. No final, ela será tão insuperável quanto era no princípio. A compreensão essencial já é completamente alcançada dentro do fragmento de Anaximandro, na origem da filosofia Ocidental.

Há traduções em inglês do fragmento aqui e aqui. Uma versão definitiva ainda nos aguarda. Esta é a versão da Wikipédia:

De onde as coisas tiveram sua origem,
Daí também sua destruição acontece,
De acordo com a necessidade;
Pois elas dão, uma à outra, justiça e recompensa
Por sua injustiça
Em conformidade com a ordenança do Tempo.

Retorno e compensação estão cozidos dentro da natureza das coisas. Os trágicos entenderão isto como a dinâmica de hubris e nemesis. Na modernidade madura, a chamamos de cibernética. Mecanismos compensatórios a demonstram, em forma de brinquedo, assistindo a compreensão. É o maquinário do destino.

A assinatura da tragédia na história é um ritmo – em uma grande escala, a ascensão e queda de civilizações. O Ocidente, como um todo, é um pulso. Tem um começo e um fim. Tudo isto já está escrito no fragmento de Anaximandro.

Poderíamos pensar que é possível dominar esse destino. O progressismo é um pensamento desses. Isto é a hubris destilada, em forma programática. Anaximandro, Homero e os trágicos anteciparam seu resultado, que evoca pena em nós.

Em nossa hubris, somos incapazes de impiedade, ou aceitação, então a nemesis vem. Este é todo o destino do Ocidente. É uma necessidade que pode apenas ser negada e, em sua negação – implícita e inexorável – está a realização de sua fatalidade.

Você se contorcerá no anzol e depois morrerá. Assim será.

ADICIONADO: Um Pequeno Diálogo Moral-Religioso
“Você está dizendo que é por nossa pena que somos punidos, no final das contas?”
“Sim, isto é precisamente o que estou dizendo – ou, na verdade, meramente passando adiante. É toda a mensagem da direita, na medida em que esta comunica a verdade.”
“Então, Malthus?”
“Esse nome será o suficiente”

ADICIONADO: Se você dá à sua civilização o nome da Terra dos Mortos, não faz sentido reclamar depois.

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