O Twitter faz as pessoas contarem caracteres e, assim, numerizarem a língua. Em apenas muitos poucos casos esta atividade microcultural tomba para dentro das extravagâncias mais selvagens do qabalismo exótico, mas ela cutuca a inteligência nesta direção. Mesmo quando a única questão é estritamente booleana – esta mensagem vai se espremer em um tweet ou não? – as palavras adquirem uma significância suplementar a partir de suas propriedades numéricas apenas. Uma frase é momentaneamente numerada, na mais crua das maneiras, que a caixa de tweets registra como uma contagem regressiva até zero e, então, até a acumulação negativa de transbordamento. O Twitter promove, assim, uma prática semiótica rigidamente limitada pela convenção, que ele simultaneamente esconde, instanciando tecnologicamente um análogo preciso de um ritual hermético.

Qabalismo é a ciência da fantasmagoria, o que o torna um companheira natural em qualquer expedição ao horror. Há, além disso, uma inclinação reacionária intrínseca a seu ultra-tradicionalismo e apego ao princípio de revelação hierárquica. Sua história concreta fornece um exemplo insuperável de auto-catálise espontânea (a partir de convenções discrepantes de notação aritmética). Este post, contudo, se restringe a uma discussão muito preliminar de sua pressuposição intelectual mais básica, como se ele tivesse sido desenvolvido a partir de uma filosofia implícita (o que não foi). Ele será persuadido a fazer sentido, na contramão de sua inclinação essencial.

Dentro da tradição abraâmica, a Palavra de Deus antecipa a criação. Na medida em que a escritura registra fielmente esta Palavra, os escritos sagrados correspondem a um nível de realidade mais fundamental do que a natureza e um a que o ‘livro da natureza’ faz referência, enquanto chave para seu significado final. O desenrolar da criação no tempo segue uma narrativa traçada na eternidade, na qual a história e a divina providência são necessariamente idênticas. Não podem haver quaisquer acidentes verdadeiros, ou coincidências.

O Livro da Criação é legível e inteligível. Ele pode ser lido, e conta uma estória. As ruidosas disputas entre a ortodoxia religiosa e as ciências naturais que irromperam nos tempos modernos ameaçam abafar a continuidades mais profundas de presunção, que enquadram a rancorosa contenção entre ‘crença’ e ‘descrença’ como uma disputa doméstica íntima. Isto não é ilustrado em nenhum lugar mais claramente do que na declaração atribuída a Francis Bacon: “Meu único desejo terreno é… estender os limites deploravelmente estreitos do domínio do homem sobre o universo a sua fronteiras prometidos… [a natureza será] atada em servidão, perseguida em suas andanças e colocada na cremalheira e torturada por seus segredos”. Não há dúvida de que a natureza pode falar e ela tem uma estória a contar.

Resistindo a qualquer tentação de tomar lados neste argumento de família, referimo-nos, de maneira neutra, a Gnon (“natureza ou Deus da natureza”), ignorando toda dialética e partindo em outra direção. A distinção a ser traçada não diferencia entre crença e descrença, mas, antes, discrimina entre religião exotérica e esotérica.

Qualquer sistema de crença (e descrença complementar) que apele ao endosso universal é necessariamente exotérico em orientação. Como os caçadores de bruxas ou Francis Bacon, ela declara guerra ao segredo, em nome de um culto público, cujas convicções centrais são dispensadas de maneira comum. O Papa é o Papa, e Einstein é Einstein, porque o acesso à verdade que os eleva acima dos outros homens é – em sua natureza mais íntima – de igual posse de todos. O pináculo da compreensão é alcançado através de uma fórmula pública. Isto é a democracia em seu sentido mais profundo e de crença.

A religião esotérica aceita tudo isto, sobre a religião exotérica. Ela confirma a solidariedade entre autoridades doutrinárias e as crenças das massas, ao passo que exime a si mesma, de maneira privada, do culto público. Sua atenção discreta é dirigida para longe da máscara exotérica de Gnon, para dentro da – ou em direção à – OOon (ou Ordem Oculta da natureza).

A OOon não precisa ser mantida em segredo. Ela é secreta por sua natureza intrínseca e inviolável. Uma excursão qabalística muito primitiva deve ser suficiente para ilustrar isto.

Assuma, de maneira inteiramente hipotética, que uma inteligência sobrenatural ou complexidades obscuras na estrutura topológica do tempo tenham sedimentado profundidades abismais de significância dentro das ocorrências superficiais do mundo. O ‘Livro da Criação’, então, é legível em muitos (muitíssimos) níveis diferentes, com cada detalhe aleatório ou inconsequente dos aspectos relativamente exotéricos fornecendo material para sistemas de informação mais ‘abaixo’. Quanto mais se escava o ‘caos sem significado’ do substrato comunicativo exotérico, mais desobstruído fica seu acesso aos sinais da absoluta Exterioridade. Uma vez que ‘se’ é, para sua carne viva, um produto sinalético, essa empreitada criptográfica é irredutivelmente uma viagem, transmutação e desilusão.

O exemplo mais completamente documentado é a leitura esotérica da Bíblia Hebraica, que só precisa ser comentada aqui em suas características mais gerais. Já que o alfabeto hebreu serve tanto como um sistema fonético quanto como um conjunto de numerais, cada palavra escrita na língua tem um valor numérico preciso. Ela é, de uma só vez, uma palavra exotérica e um número esotérico. Nada impede que usuários ordinários da língua deliberadamente codifiquem (numericamente) conforme escrevem ou mesmo enquanto falam. A chave para o decriptamento numérico não é um segredo, mas sim um recurso cultural comumente compreendido, utilizado por todo indivíduo numerato. Não obstante, os aspectos linguístico e aritmético estão de fato bastante estritamente separados, porque pensar em palavras e números simultaneamente é difícil, porque manter a inteligibilidade paralela continuada em ambos é perto de impossível, porque a tentativa de fazê-lo é (exotericamente) sem sentido e porque a praticidade domina. A esfera esotérica não é proibida, mas simplesmente desnecessária.

Que a Bíblia Hebraica não tenha sido deliberadamente concebida como uma composição numérica-criptográfica intricada por autores humanos é, portanto, um fato empírico ou contingente que pode ser aceito com extrema confiança. Seu canal esotérico poderia, claro, como o senso comum tem que insistir, estar vazio de qualquer coisa além de ruído, mas ele está, não menos certamente, limpo. O que quer que venha através dele, que seja qualquer coisa além de nada, só pode vir do Lado de Fora. É a real diferença entre os níveis exotérico e esotérico que torna a OOon sequer pensável. Apenas aquilo que o exotérico não toca está disponível para que o esotérico se comunique através dele e se monte a partir dele. O Qabalismo tem que ser raro, a fim de que ocorra. Por esta razão, ele não pode buscar persuadir as massas de nada, a não se de sua própria falta de sentido. Em uma era de exoterismo triunfante, isto não é uma coisa fácil de entender (graças a Gnon).

Original.
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3 thoughts on “Gnon e OOon

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