Jogos de Independência

O teste Nuclear da Coréia do Norte em 3 de Setembro foi registrado como um raro terremoto geopolítico literal. Alguma incerteza pública persiste quanto à escala e à significância do tremor. Reportou-se estar em uma gama de magnitudes entre 6.1 e 6.3 (ou até mesmo superior), na escala logarítmica de Richter. Um evento desta dimensão sugere uma explosão de diversas centenas de kilotons de dinamite e é consistente com a detonação de um dispositivo termonuclear. A confirmação norte-coreana exatamente dessa ocorrência foi recebida com uma seriedade sem precedentes.

A não-proliferação nuclear é mais ideia que realidade. Sua única substância é uma comparativa lentidão quando estimada contra a referência de um cenário de pesadelo geralmente não declarado. De acordo com tal consideração contra-factual, as armas nucleares poderiam estar muito mais difundidas do que estão agora. Mas processos exponenciais têm essa aparência. Eles começam pequeno, e não parecem ir a lugar a nenhum lugar dramático por um tempo. Como a celebrada fábula da exponenciação mostra, uma modesta tigela de arroz lhe é suficiente em um bom tanto do tabuleiro de xadrez. A suposição, supostamente de bom senso, de que a proliferação nuclear incontrolável ainda não está acontecendo exige um argumento. (Este pequeno ensaio faz o outro argumento.)

O ‘clube’ nuclear é desajeitado demais para compartilhar qualquer tipo de princípio seriamente restritivo. Não há nada identificável que dê a uma nação o direito de ser membro, além da simples posse de uma capacidade militar de nível apocalíptico. O clube era trans-ideológico desde o começo e, logo depois, altamente multicultural. Entre os membros, a desconfiança e mesmo a hostilidade recíprocas são a norma, o que – dado o processo desembestado de ação e reação que definiu a lista dos membros – dificilmente poderia ser inesperado. O comportamento dos membros não é controlado por nada além da teoria dos jogos. Vale bastante a pena mencionar que ninguém que consiga entrar no clube pode, de qualquer maneira prática, ser retirado.

Os Estados Unidos detonaram a primeira bomba termonuclear de fusão com dois estágios, ou ‘de hidrogênio’ (com design Teller-Ulam) no atol Enewetak em 1º de novembro de 1952. A União Soviética respondeu menos de um ano depois, testando sua própria bomba-H em 12 de agosto de 1953. Os testes – ou demonstrações – seguiram-se em sucessão no Reino Unido (novembro de 1957), na China (17 de junho de 1967) e na França (agosto de 1968). Acredita-se que Israel tenha conduzido um teste conjunto com a República da África do Sul – o chamado ‘Incidente Vela’ – em 22 de setembro de 1979. Em 1991, o governo sul-africano alegou ter montado e, mais tarde, unilateralmente desmontado seis dispositivos nucleares. A Índia expandiu a espiral de proliferação termonuclear até o sul da Ásia, com um teste em maio de 1998. O Paquistão não é conhecido por ter testado nada além de dispositivos de ‘fissão intensificada’, mas sua formidável capacidade nuclear não está em questão. (Um ensaio mais longo teria encontrado espaço, neste ponto, para reconhecer a contribuição desproporcional do paquistanês Abdul Qadeer Khan para a dinâmica global de proliferação.) Pode-se esperar que a cooperação nuclear saudita com o Paquistão acelere a difusão de armamentos nucleares até a península arábica, uma vez que o progresso iraniano na aplicação militar da tecnologia desencadeia a muito antecipada corrida armamentista Sunita-Xiita em armas de destruição em massa. Assim, a cadeia de proliferação se estende de forma constante em seu eixo principal, passando da rivalidade de superpotências da Guerra Fria, para a triangulação chinesa, uma bomba indiana de resposta e daí para dentro do mundo fraturado do Islã, por via do Paquistão (com as proezas nucleares não reciprocadas israelitas como incitação, e pretexto adicional.)

O caráter unidimensional desta narrativa é um artefato de sua imaturidade. O sub-desenvolvimento do processo de proliferação aparece, para a atual ‘comunidade internacional’, sem mais do que uma crise por vez. As coisas não vão ficar assim por muito tempo. Não há nada essencialmente mono-linear sobre a dinâmica de escalação cruzada. Aumentar o impulso já é tirá-la dos trilhos. Como Richard Fernandez observa, as linhas de escape nucleares estão ocorrendo em diversas direções de uma só vez:

Nas questões de segurança, a antiga matrix de ganhos do jogo Ocidente-Oriente foi substituída por um vetor multidimensional de novos jogadores, muitos deles subnacionais, alguns deles desconhecidos. O grande coringa é a tecnologia. Mudanças tecnológicas disruptivas e novos modos de guerra a elas associadas têm perturbado o antigo cálculo. Coréia do Norte e Irã não são ameaças extravagantes, mas indicadores importantes da dinâmica alterada. Eles são as primeiras amostras de uma nova ameaça entrando em andamento.

A Coréia do Norte alega ter testado armas nucleares em janeiro de 2016, seguindo testes de dispositivos de fissão em 2006, 2009 e 2013. Seja como questão de realismo analítico ou de ceticismo público com motivação estratégica, a alegação foi recebida com um menosprezo ocidental orquestrado. O teste de 2017 estilhaçou esse muro de negação. Nas palavras de Scott D. Sagan, escrevendo na Foreign Affairs: “A Coréia do Norte não apresenta mais um problema de não-proliferação; ela apresenta um problema de dissuasão nuclear”.

Embora, se traçada como uma curva simples e historicamente consistente, ainda não seja impossível ver um processo de desaceleração nessa linha do tempo, tal ótica está deixando de convencer. Parece ser parte de uma ordem mundial em colapso, que está levando sua estruturas de percepção abaixo consigo. A suposição de continuidade, por exemplo, agora parece imprudente ao extremo. A descontinuidade histórica na dinâmica de proliferação tem sido especialmente notável ao longo das décadas recentes, devido a um padrão em arraigamento cujos efeitos de incentivo não poderiam facilmente ser mais sinistros. A renúncia de ambições termonucleares tem adquirido uma forte correlação com a subsequente destruição do regime, ao contrário de qualquer coisa vista na era anterior de patronagem de superpotências na Guerra Fria.

A Ucrânia voluntariamente entregou seu arsenal nuclear para a Rússia na desintegração da União Soviética. Na era de Gorbachev, esta decisão sem dúvida parecia racional – e até mesmo prudente. Os desenvolvimentos subsequentes na região a tornam bem mais difícil de desculpar. Resta saber se a independência nacional ucraniana será finalmente sacrificada por essa elevada decisão, mas a segurança geopolítica e doméstica rudimentares já o foram.

A predominante histeria racial de nossa era nubla qualquer análise da mudança do regime sul-africano em termos comparáveis, como já nublou o próprio processo. Historiadores futuros terão olhos mais nítidos. Certamente, ela parece se encaixar no padrão. Não menos do que com o Juche, a experiência do apartheid é de que a sensibilidade à ‘opinião educada’ internacional é amplamente aumentada pela ausência de nukes.

A lição da Líbia foi a mais lúgubre até hoje. A desnuclearização da Líbia “foi pacificamente resolvida em dezembro de 2003, [explica a Wikipédia. Em um artigo separado, ela adiciona o apêndice (ainda mais útil) de que “Muammar Gaddafi, o líder deposto da Líbia, foi capturado e morto em 20 de outubro de 2011, durante a Batalha de Sirte. …vídeos de seus últimos instantes mostram combatentes rebeldes o espancando e um deles o sodomizando com uma baioneta, antes dele ser baleado diversas vezes enquanto gritava por sua vida”. Seria difícil elaborar um recurso educacional mais explícito contra a observância da não-proliferação internacional das ADMs.

Este é o pano de fundo contra o qual a obstinação nuclear norte-coreana deve ser avaliada. O regime já havia, em todo caso, tornado a desobediência uma especialidade local. Seu comportamento internacional delinquente há muito tem sido material de comédia negra. A imagem cultivada do país leva o espinhoso a territórios que a linhagem zoológica do porco-espinho ainda está por explorar.

No que diz respeito a fundamentos estratégicos, contudo, a atitude feroz de performance punk do regime em relação à conduta diplomática não é a questão principal. Uma má atitude cria um teatro diplomático estimulante, mas decora os fundamentos da ameaça. Foque em capacidades, não motivações, é um princípio estratégico que não pode ser superestimado. No caso da Coréia do Norte, e de outros que sem dúvida logo se seguirão, contudo, é um princípio que requer uma inversão completa. Uma incapacidade definida se eleva, ao invés, à proeminência estratégica.

A extremidade da ameaça norte-coreada emergente é uma função da fraqueza, em muitos aspectos, mas mais centralmente em relação às suas novas responsabilidades pela gestão de dissuasão. Arsenais nucleares inseguros são desestabilizantes, uma vez que se inclinam ao primeiro uso, sobre o princípio do use-ou-perca. A vulnerabilidade a um primeiro golpe é uma incitação contínua a prevenção.

A Coréia do Norte é uma nação geograficamente pequena, com estruturas cruas de comando e controle, capacidades muito limitadas de alerta antecipado e uma dependência exclusiva de plataformas terrestres expostas de mísseis balísticos para o disparo de ogivas. Em outras palavras, está destinada a permanecer a um fio de cabelo do momento em que cruza o limiar de dissuasão. Em vez de ser uma dor de cabeça insuportável para a ordem mundial por conta de sua iniciativa implacável e maligna, ela doravante será uma por simples padrão estratégico. O mundo terá se tornado uma cidade construída sob o Vesúvio, independente de basicamente quaisquer decisões de planejamento ou filosofias de risco. Uma época de perigo está se abrindo.

Sob estas condições, a mera ‘capacidade’ se torna extraordinariamente provocativa, e a incompetência é automaticamente aterrorizante. Ainda assim, embora este dilema não seja difícil de entender, ele talvez seja um pouco difícil demais para ser capturado por qualquer debate público conduzido em um nível realisticamente imaginável de sofisticação. Na medida em que existe algo como uma corte da opinião global de massa, pode-se confiantemente esperar que ela deixe passar os fundamentos estratégicos e se perca em performances teatrais multilaterais. Realidades geoestratégicas e percepções de massa estão em trajetórias divergentes.

As ilusões predominantes tendem a ser simplificadoras e retardadas (no sentido estrito). Elas atrasam a tendência difusiva e, assim, invocam estruturas de agência irrealisticamente econômicas, voltadas para o ideal de bipolaridade há muito perdido. A era de superpotências ainda domina a imaginação nuclear.

Uma vez que não há nenhuma rota passando por Pyongyang que não acabe em um buraco cheio de estacas diplomáticas, a tentação é fantasiar uma rota que passe por Pequim. Tal estrada não existe. As relações entre a China e o regime norte-coreano chegaram ao seu ponto mais baixo desde a Guerra da Coréia e agora são francamente hostis. O regime de Kim Jong-un buscou extirpar a influência chinesa de sua liderança, com espetacular crueldade. Ter os centros urbanos chineses como alvos do arsenal norte-coreano não é mais inimaginável, ou, na China, inimaginado. Afinal, o alvo natural de um dissuasor é a maior ameaça à soberania da nação que o usa. É quase-inevitável que a China venha a ocupar esse papel no caso norte-coreano. A impotência chinesa em relação à Coréia do Norte é grandemente – e talvez mesmo primariamente – o objetivo do arsenal norte-coreano.

Tyler Cowen [descreve o romance “The Moon Is A Harsh Mistress” (1966) de Robert Heinlein como “talvez o melhor romance para entender a lógica de um futuro conflito com a Coréia do Norte”. Ele, então, adiciona: “além disso, os Catalães deveriam lê-lo também. Acima de tudo, eu lembrei ao reler que este livro foi minha primeira exposição ao raciocínio da teoria dos jogos”. Não apenas bombardeios exóticos (por “catapultas eletrônicas”), luta por independência e jogos, mas também uma ordem mundial reconstruída pela ascensão da China e até mesmo uma “IA maliciosa” que adquire agência estratégica. Evidentemente, já há meio século, Heinlein estava explorando um aglomerado durável de preocupações. No cerne: Não pode haver uma questão de se alcançar ou manter independência sem a capacidade de infligir um sério dano àqueles que poderiam buscar impedi-la.

Independência, no seu sentido geopolítico, funde liberdade e segurança de maneira indissociável. A autonomia – que é, de maneira exata, soberania – exige insensibilidade à coerção e é, assim, o negativo de ameaças estrangeiras convincentes. A equivalência analítica entre independência recíproca e um ‘equilíbrio de terror’ submete a autonomia nacional a uma forma geopolítica de relatividade geral. Uma vez que nada como uma segurança absoluta é realista, a soberania existe apenas em graus, dentro de redes tensas. A tensão é o jogo.

A aplicação pioneira, por Thomas Schelling, da teoria dos jogos à estratégia nuclear continua sendo o ponto de ingresso neste mundo. O cerne da realidade dos jogos de destruição mútua assegurada (MAD) é facilmente incompreendido. Uma retaliação massiva (ou não reiterante) é, – no estágio em que se torna devida – por estimação imediata, irracional. Nesse momento, é tarde demais para contribuir qualquer coisa além de dano composto, independente de sua ocorrência. Sob condições hipotéticas de amnésia e ação irrestrita, ela nunca pode fazer sentido. Ainda assim, paradoxalmente, a capacidade de fazer ameaças retaliatória críveis é o fundamento básico da racionalidade durante os jogos de negociação anteriores. Sem ela, não pode haver nenhuma razão para a restrição do competidor. A exigência, então, é que um agente futuro esteja firmemente comprometido a um curso condicional de ação que – no potencial ponto de execução – não será convincente.

A destruição mútua assegura foi ridicularizada por sua loucura, mas não é menos um limite externo da sanidade. Sua lógica é tão rigorosamente implacável quanto qualquer uma encontrada dentro das ciências sociais e históricas. A perturbação moral extrema que ela desperta fala em favor de sua racionalidade intransigente. Uma intuição angustiada não conta de nada em seu cálculo frio, a não ser como um obstáculo técnico. O fato de que as pessoas acham essa lógica de comprometimentos fatais herdados intolerável, como dramatizado com excepcional vividez na sequência de abertura da filme War Games de 1983, é nosso problema. O processo é re-roteado por nossos melindres, mas de forma alguma descarrilado. Há muito se suspeita que os humanos são fracos demais para a MAD.

Enquanto expressão de comprometimento absoluto, o terrorismo suicida parece fornecer um modelo microscópico à MAD, mas ele é fraco e enganador. Para além da diferença em escala, o terrorismo suicida falha através da execução. Ele comunica através da realização – ou demonstração de vontade – o que é o negativo da dissuasão. (Ou talvez, da dissuasão de um tipo, comprada a um preço alto.) O terror à beira do presente, e do futuro, tem modelos diferentes. Entre esses, o ‘suicídio quântico’ de escala civilizacional é talvez a concepção filosófica e ideológica mais exótica em nosso caminho. Dada a suposição de um multiverso (de Nível-3 ou superior), um apocalipse abrangente é racionalizado como a poda de ramos sub-ótimos. Opera como uma edição da realidade. As consequências na teoria dos jogos de tal perspectiva são intrigantes. Ela aumenta a credibilidade das ameaças (se aceita como um comprometimento intelectual sério), ao passo em que adapta a matriz de ganhos de uma maneira que só pode ser considerada desestabilizadora. A MAD clássica funciona melhor entre aqueles que vislumbram um resultado como a pior coisa do mundo, e ainda assim se comprometem com ele da mesma forma.

Aproximamo-nos aqui de um dos mais profundos problemas da engenharia social e institucional. Poderia ser chamado de Problema de Odisseu. Ao navegar pelas sereias, Odisseu antecipou a subversão do comprometimento e, assim, implementou um mecanismo sócio-técnico para atar sua própria ação futura. A estrutura é aquela de um ‘jogo de galinha’ – uma variação mutante do dilema do prisioneiro, na qual o jogador que desvia perde. Se você conseguisse recuar, você poderia. Tanto no dilema de Odisseu quanto naquele do jogador de galinha, a eliminação da discrição futura aparece como um recurso estratégico. A exigência de auto-atação se inclina a um congelamento tecnológico da decisão. Problemas estratégicos do tipo do ‘jogo de galinha’, assim, tendem inexoravelmente à automação.

Se a IA for posta em jogo pelas dinâmicas intrínsecas ao confronto nuclear, não para por aí. A IA tem uma potencialidade de ADM própria de si. Não há nenhum horizonte óbvio do que um algoritmo poderia fazer. As mesmas capacidades que permitem o controle algorítmico de arsenais de ADMs igualmente permitem que tais arsenais sejam substituídos pela própria IA. Um arsenal inimigo sob controle algorítmico só é ‘deles’ por contingências de dominância de software. Da perspectiva militar – entre outras orientadas à capacidade negativa – a destrutividade potencial da tecnologia não tem limite determinado. Qualquer coisa sob controle de software cai nesse âmbito. O que seria dizer, assintoticamente, tudo. Mas não acaba aí. A IA também promove um avanço à virtualidade.

Armamentos nucleares cortam um caminho convergente até a pureza da concepção. Nenhuma bomba de hidrogênio foi usada contra um inimigo ainda (ou “com raiva”, como a expressão singularmente inapropriada diz). Ogivas termonucleares permanecem entre uma seleta categoria de armas virtuais, ao lado de uma variedade de agentes químicos e biológicos, cujo uso tem sido exclusivamente diplomático, ou mesmo filosófico. O valor deste maquinário militar é estritamente contra-factual. Aqueles ‘mundos possíveis’ nos quais eles foram operacionalizados sustentam pouco, se qualquer, valor. Armamentos que sustentam sua potencialidade levantam a opção ontológica da utilidade negativa extrema. Eles são – no sentido mais rigoroso – geradores de pesadelos.

Não existe qualquer razão (que seja), então, para pensar que as armas nucleares são a última palavra em destruição em massa. Tampouco pode se assumir que a destruição em massa é o critério último para armamentos de dissuasão. Não é apenas que a física de alta-energia abre um vasto e errante bestiário de catástrofes virtuais que mal começamos a examinar (embora isto seja verdade). A física não tem nenhum monopólio sobre desastres, independente do que seus privilégios recentes possam sugerir.

Não pode nunca ser uma virtude que uma arma seja indiscriminada, ou seja, imprecisa. Virando ao avesso, podemos dizer sem hesitação ou reserva que é louvável em qualquer arma, não importa o quão absolutamente devastadora, que a maior proporção possível do dano que ela produz seja infligido sobre o inimigo. Em outras palavras, uma boa arma discrimina especificamente contra os interesses inimigos. Ela caça. Não pode haver qualquer dúvida séria de que as biociências genômicas e a engenharia de software têm mais a contribuir para essa busca do que a física jamais poderia.

Stuart Russell descreve armas autônomas como uma “classe nova e escalável de ADMs”. Os sistemas que ele está considerando seriam exemplificados por enxames de drones, “caçando em matilhas como lobos” (como um empregado da DARPA foi indiscreto o suficiente para revelar). Dados enormes ciclos de produção industrial, especificações de desempenho desprendidas da limitação humana e algoritmos de mira definidos para letalidade indiscriminada, o potencial devastador de tais armas seria difícil de exagerar. Suas vulnerabilidades chave, confiantemente previstas, contudo, são pelo menos igualmente significantes.

Como Russell enfatiza, armas autônomas poderiam ser subvertidas por uma “atualização de software” hostil. Elas poderiam ser hackeadas. Por trás da ameaça do hacker está aquela de uma inteligência artificial avançada, reunindo poderes superiores de arrombamento criptográfico e intrusão suave. Armamentos autônomos estão, portanto, aninhados em uma ameaça mais profunda.

A IA designa uma culminação, por assim dizer. Em nenhum outro lugar, capacidade destrutiva e comprometimento rígido prometem se interseccionar mais dinamicamente. Nada separa a arma do jogo. Também conta, potencialmente, como uma escalada.

Muito da crítica à corrida armamentista da Guerra Fria  a configurava como um risco existencial, antes do termo ter sido cunhado. Entre um X-risco e um dissuasor extremo, não há nenhuma fronteira definida. A diferença é técnica. Dissuasão é um modo de emprego. Ela usa utilidade negativa. Neste aspecto, qualquer coisa ruim poderia ser útil, não fosse que um dissuasor exige um gatilho, sob o controle do agente negociador (no ponto de negociação). Ameaçar um potencial agressor com um ataque de asteroides não faz nenhum sentido, a menos que um ataque de asteroides possa ser realizado. O mesmo vale para desastres geológicos em geral. Tudo isso significa que a aquisição de capacidades de engenharia nas maiores escalas, tais como geo-engenharia, controle e regulação climática e defesa por asteroides – talvez desenvolvidos explicitamente para evitar riscos existenciais – inevitavelmente expandirão o domínio das opções de dissuasão. Em outras palavras, o progresso tecno-econômico e a escalada da infraestrutura de dissuasão estão apenas formalmente diferenciados. Não há nenhuma maneira materialmente persuasiva de se melhorar o mundo que não amplie – em seu lado oculto – os horizontes de horror geopolítico.

Além do que se poderia ter, há a questão de quem tem. Além das qualidades dos antagonistas armados com ADMs, seu mero número é uma fonte de terror, em si. É apenas natural que se ache a dissuasão multilateral mais ameaçadora do que seu ideal bilateral e agora predecessor distante. A complexidade se escala de maneira não linear em redes e rapidamente se torna matematicamente intratável. Ninguém têm qualquer ideia de como redes de insegurança massivamente distribuídas funcionariam. Bastante provavelmente é impossível saber. A dissuasão está prestes a mudar de fase.

A pasta de dentes não volta para o tubo só porque faz uma bagunça. Uma vez que esteja fora, o inconveniente deixou de ser qualquer tipo de argumento contra ela. Os perigos de um mundo no qual a capacidade ubíqua de dissuasão reina são tanto óbvios quanto imensos. Este é, não obstante, o mundo em que estamos entrando. As tendências que o guiam, tanto do lado geopolítico quanto do tecno-econômico, são, por qualquer estimativa realista, irresistíveis. Armamentos de pesadelos mais baratos e mais diversos estão ficando disponíveis dentro de uma ordem internacional cada vez mais desintegrada. Uma variedade de dinâmicas auto-reforçadoras – incluindo, mas não limitadas àquelas do tipo de corridas armamentistas – estimulam ainda mais o processo. Uma aceleração em cascata é basicamente inevitável.

Quando concebida com o máximo de cinismo (ou seja, realismo), a independência geoestratégica é uma função direta da capacidade de dissuasão. Não pise em mim é a afirmação coloquial, cuja aplicabilidade perfeita normalmente é subestimada. A cascavel, que combina um armamento terrível com sinalização, constitui um totem natural da dissuasão. Nem o veneno, nem o chocalho são dispensáveis. “Diplomacia sem armas é como música sem instrumentos”, diz a famosa analogia, atribuída a Frederico, O Grande. A teoria dos jogos reconhece a capacidade militar como um meio de comunicação.

Não é apenas que a independência robusta depende da dissuasão. De maneira recíproca, a liberdade geoestratégica necessariamente tende à produção de capacidade de dissuasão. Uma liberdade alienígena, que consiga fazer qualquer coisa, é – ineliminavelmente – uma ameaça. Ela fornece o modelo abrangente da ameaça militar. Se ‘eles nos odeiam por nossa liberdade’ ou não, eles não têm qualquer escolha além de nos temer por ela, e inversamente. A geopolítica não tem qualquer outra origem. Qualquer estado sem a vontade de assustar também carece da vontade de existir.

É tudo bem mais básico do que fomos levados a crer. Como Niall Ferguson escreve (de maneira realista):

Na análise final, fronteiras são uma função do poder. Se você não consegue defendê-las, elas são apenas linhas pontilhadas. O cálculo da dinastia Kim foi de que os nukes são os derradeiros guardas da fronteiras. Logo descobriremos se esse cálculo estava correto. Se estiver, muito mais estados irão querê-los.

Toda entidade geopolítica que seja séria sobre a soberania vai querê-los, ou algo de credibilidade dissuasora pelo menos equivalente. A única alternativa é a pura dependência, tornada cada vez mais desconfortável pela crescente multipolaridade global, entre os resolutos destroços de qualquer ‘ordem mundial’ ou ‘comunidade internacional’ fundamentada na fantasia coletiva de normas supranacionais milagrosamente autorizadas. Proliferação explosiva será algo que o mundo não viu antes, mesmo que já tenha estado lá para ver. Podemos estar confiantes de que a ordem geopolítica será reconfigurada por ela.

O que significa proliferação explosiva? Potencialmente, muitas coisas. Por exemplo, vetores de desenvolvimento tecnológico – e, assim, econômico – por certo serão, em algum grau significativo, orientados por ela. Conforme a inteligência artificial seja fatorada na tomada de decisões sobre políticas, não apenas como um colaborador para o comando, controle, comunicações e inteligência (C³I), mas como uma intrínseca arma de destruição em massa, sua proeminência será ainda mais elevada.

A proliferação de ADMs implica em uma multiplicação das agências geopolíticas reais. É rigorosamente indistinguível – em ambas as direções – de um mundo desintegrado. Relações estabelecidas de dependência são quebradas, liberando liberdades não antecipadas – e evidentemente perigosas. Quer este seja o mundo que queremos ou não, parece cada vez mais inevitável que este é o mundo que devemos ter.

Original.
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A Armadilha da Atomização

“Mãos para o alto todo mundo que odeia a atomização.” Esse não é um pedido de rendição (pelo menos abertamente), mas meramente uma enquete informal.

Agora tente de forma diferente:

“Mãos para o alto todo mundo que odeia a atomização, mas desta vez sem olhar para o lado.” O processo de decisão – talvez ironicamente – foi um pouco mais lento desta vez? Vale a pena pensar sobre isso. Pode-se esperar que tomar um atalho que ignora o processo social acelere as coisas. Ainda assim, por outro lado – introduzindo o atraso – vem o nebuloso reconhecimento: se você faz a decisão de forma privada, você já é cúmplice. Um reorganização formal menor da questão a transforma de maneira insidiosa. O que você acha da atomização, falando de forma atomística? Vira um loop estranho, ou auto-referencial. A história moderna tem sido assim.

Primeiro, contudo, algumas preliminares terminológicas. Um ‘átomo’ é etimologicamente indistinto de um ‘indivíduo’. Na raiz, as palavras são quase perfeitamente intercambiáveis. Nenhuma delas, em relação à outra, carrega qualquer carga semântica especial. Então, se ‘atomização’ soa como uma metáfora, realmente não é. Não há nada essencialmente derivativo sobre a aplicação sociológica da palavra. Se parece ser um empréstimo da física, isso poderia ser devido a uma série de confusões, mas não a um deslocamento de um terreno original ou natural. Átomos e sociedades são primordialmente indissociáveis, embora estejam em tensão. É isso que ser um animal social – em vez de um completamente ‘eussocial’ (como uma formiga, ou um rato-toupeira) – já indica.

Indivíduos são difíceis de encontrar. Em nenhum lugar eles são simples e confiavelmente dados, menos ainda a si mesmos. Eles exigem trabalho histórico e, em última análise, fabricação, para sequer flutuarem enquanto aproximações funcionais. Um processo está envolvido. É por isto que a palavra ‘atomização’ é menos susceptível a enganações do que ‘átomo’ em si. A individualidade não é nada fora um destino (mas isto é nos anteciparmos).

É difícil saber onde começar. (Os atenienses sentenciaram Sócrates à morte por ser um atomizador social?) O individualismo é estereotipicamente WEIRD (ocidental, educado, industrializado, rico e democrático, na sigla em inglês), e assim tende a levar ao labirinto da etnografia comparativa. Tem estado distribuído de maneira desigual, aproximadamente da mesma maneira que a modernidade. Uma vez que isso já é dizer quase tudo sobre o tópico, merece uma desmontagem.

O trabalho de Walter Russell Mead fornece um a estação de repetição útil. As questões históricas com as quais ele tem se engajado – que se ocupam de nada menos do que o resultado do mundo – estiveram cravadas em um quadro intelectual moldado por uma atenção especial ao cristianismo providencial moderno. Qual foi a fonte do ‘destino manifesto’ que colocou as chaves do domínio global nas mãos de um projeto social progressivamente destilado, protestante, depois puritano, depois ianque? Se não exata ou diretamente ‘Deus’ (ele é sutil demais para isso), é pelo menos algo que a linhagem da Reforma Cristã tem drenado com efetividade única. O protestantismo selou um pacto com o destino histórico – que, por todas as aparências, define uma teleologia global especificamente moderna – ao vencer de maneira consistente. A individualização da consciência – a atomização – foi tornada destino.

Seis anos após Special Providence (2001) veio God and Gold, que reforçou as linhas anglo-americana e capitalista da narrativa. As fronteiras entre a história sócio-econômica e religiosa foram estrategicamente fundidas, da maneira na qual foram pioneiros Max Weber, Werner Sombart e – de maneira mais crítica – numerosos pensadores católicos que identificaram e continuam a identificar a essência da modernidade como um poder religioso hostil. Eugene Michael Jones é Walter Russell Mead do outro lado do espelho. A estória que cada um está contando se transforma sem distorção significativa na do outro, uma vez que seja resfriada abaixo do limiar da agitação moral. O que quer que tenha acontecido com o cristianismo ocidental na Renascença soltou o capitalismo sobre o mundo.

É possível ser ainda mais cru sem sacrificar muita realidade. Quando consideradas enquanto designações rígidas, Atomização, Protestantismo, Capitalismo e Modernidade nomeiam exatamente a mesma coisa. No domínio da política pública (e para além dela), privatização endereça o mesmo diretório.

Embora qualquer variante em particular do Protestantismo implícito ou explícito tenha suas características teológicas (ou ateológicas) distintivas, assim como qualquer estágio da industrialização capitalista tem suas características concretas, estas servem como distrações mais do que como pontos de apoio no quadro mais amplo. O único quadro verdadeiramente mais amplo é a cisão. A Reforma não foi apenas uma quebra, mas, de maneira ainda mais importante, uma normalização da quebra, um protocolo inicialmente informal, mas cada vez mais rigorizado, de desintegração social. A solução derradeira que ela ofereceu em relação a todas as questões sociais não era o debate, mas a saída. A fissão crônica foi instalada no âmago do processo histórico. De maneira fundamental, é isso que a atomização significa.

O Protestantismo – o Protestantismo Real Abstrato – que está cada vez mais propenso a se identificar como pós-cristão, pós-teísta e pós-Tudo O Mais, é um máquina auto-propulsora para a desintegração social incompreensivelmente prolongada, e todo mundo sabe disso. A atomização se tornou uma agência autônoma e inumana ou, pelo menos, algo cada vez mais autônomo e cada vez mais inumano. Ela pode apenas liquidar tudo com o que você jamais se preocupou, por sua própria natureza, então – claro – ninguém gosta dela. O catolicismo, o socialismo e o nacionalismo buscaram, em sucessão, coalização ou competição mútua, reunir os estilhaços da comunidade violada contra ela. O longo fio de derrotas que se seguiu tem sido uma rica fonte de mitologia cultural e política. Já que não há realmente nenhuma escolha além da resistência, a batalha sempre foi retomada, mas sem qualquer sinal sério de alguma reversão da fortuna.

Sob as atuais condições, a atomização serve – de maneira única – como um tubo inexaurível de cola reacionária. Uma profunda aversão ao processo é o único denominador comum de nossa oposição cultural contemporânea, que se estende do catolicismo tradicionalista ao etno-nacionalismo da alt-right. “Qualquer que seja nossa cola preferida, não podemos pelo menos concordar que as coisas ficaram descoladas – e estão cada vez menos coladas?” Isso parece bem longe de uma aspiração desarrazoada. Afinal, se a construção de uma coalização é a meta, o que – imaginavelmente – poderia fornecer uma bandeira melhor do que o próprio princípio de integridade social, mesmo se este for invocado pura e negativamente, por meio de uma anatematização dirigida a seu inimigo histórico fatal? A atomização, neste aspecto, reúne as pessoas, pelo menos conversacionalmente, embora isto funcione melhor quando a conversa não fica muito profunda.

Quase ninguém quer ser atomizado (eles dizem). Talvez eles tenham lido a novela de 1998 de Michel Houellebecq Atomised (ou Elementary Particles), e acenaram juntos com a cabeça. Como seria possível não o fazer? Se fosse aí que acabasse, seria difícil de ver o problema, ou como jamais veio a haver um problema, mas não acaba aí, nem em nenhum lugar próximo, porque a atomização faz zombaria das palavras. A atomização nunca foi boa em festas, sem surpresas. Ela é impopular ao ponto de uma essência. Tem aquela coisa puritana, e a coisa da Ayn Rand, e a coisa dos nerds, e o gatilho de piadas sobre Aspergers – se isso realmente for uma coisa separada – e, sem dúvidas, inúmeras deficiências sociais mais, cada uma delas por si só desqualificando, se receber um ‘curtir’ em algum meio coletivo for a meta, porque ninguém curte ela, como já ouvimos (por meio milênio já). Mas o que ouvimos, e o que vimos, foram duas coisas bem diferentes.

A atomização nunca tentou se vender. Em vez disso, ela veio de graça, com todo o resto que foi vendido. Ela era a implicação formal da dissidência, primeiro de tudo, do ceticismo metódico, ou investigação crítica, que pressupunha uma suspensão de autoridade que se provou irreversível e, depois, – de maneira igualmente implícita originalmente – da forma da relação contratual e de toda inovação subsequente no âmbito da negociação privada (haveriam muitas, e mal começamos). “Então, o que você acha (ou quer)?” Isso foi o bastante. Nenhum entusiasmo articulado pela atomização jamais foi necessário. A feitiçaria da preferência revelada tem feito todo o trabalho e ali, também, mal começamos.

A atomização pode ter poucos amigos, mas não têm qualquer escassez de aliados formidáveis. Mesmo quando as pessoas estão prontamente convencidas de que a atomização é indesejável, elas querem, em última instância, decidir por si mesmas, e tanto mais quanto mais pensam que isso importa. Na medida em que a atomização se tornou um verdadeiro horror, ela compele uma relação íntima cognitiva e moral consigo mesma. Ninguém que vislumbre o que ela é pode delegar as conclusões relevantes para qualquer autoridade superior. Assim, ela ganha. Todo católico de seriedade intelectual tem visto isto por séculos. O socialistas também, por décadas. O momento de revelação etno-nacionalista não pode ser em muito adiado. Sob condições modernas, toda comunidade moral autoritativa é mantida refém da decisão privada, mesmo quando é aparentemente afirmada e especialmente quando tal afirmação é asseverada de maneira mais veemente. (Os elementos mais excitáveis dentro do mundo do Islã vêm isso chegando e estão conspicuamente infelizes com o fato.)

Substancialmente, mesmo que apenas especulativamente, a liberdade de consciência poderia tender à coletividade, mas, formalmente, ela fixa o individualismo cada vez mais firmemente. Ela desafia a autoridade da comunidade no mesmo momento em que oferece um endosso explícito, ao tornar a comunidade um questão urgente de decisão privada e – no pico mesmo de sua alegada sacralidade – de compras. Os tradicionalistas religiosos vêem a si mesmos espelhados no mercado de comidas integrais e estão horrorizados, quando não sombriamente entretidos. “Conservadores da Birkenstock” foi a auto-identificação sinistramente irônica de Rod Dreher. O anti-consumismo se torna uma preferência do consumidor, a causa pública, um entusiasmo privado. A intensificação do sentimento coletivista apenas estreita a armadilha do macaco. Fica pior.

A história americana – na fronteira global da atomização – está densamente salpicada de comunidades eletivas. Das comunidades religiosas puritanas do começo do período colonial, passando pelas comunas ‘hippies’ do século passado, e além, o experimentos de vida comunal sob os auspícios da consciência privada radicalizada buscaram melhorar a atomização da maneira mais consistente com seu destino histórico. Tais experimentos confiantemente falham, o que ajuda a acelerar o processo, mas isso não é o principal. O que mais importa sobre todas essas co-ops, comunas e cultos é a opção contratual semi-formal que as enquadram. Desde o momento de sua iniciação – ou até mesmo de sua concepção – elas confirmam uma atomização soberana e sua reconstrução do mundo social sobre o modelo de um menu. A muito discutida ‘Opção Beneditina’ de Dreher não é nenhuma exceção a isto. Não há retirada do curso da modernidade, ‘de volta’ à comunidade, que não reforce o padrão de dissidência, cisma e saída a partir do qual a atomização continuamente reabastecesse seu impulso. Conforme a consciência privada se dirige à escapada da privatização da consciência, ela regenera aquilo de que foge, cada vez mais fundo dentro de si. A individuação, considerada de maneira impessoal, gosta quando você corre.

Como é bem entendido, ‘átomos’ não são átomos, e ‘elementos’ não são elementos. Partículas elementares – se sequer elas existirem – estão pelo menos dois níveis (profundos) mais abaixo. Os indivíduos humanos certamente não são menos decomponíveis. A ‘sociedade da mente’ de Marvin Minsky é apenas uma indicação vívida de como a sociologia história poderia se inclinar para dentro do âmbito atômico. Aceleradores de partículas demonstram que estilhaçar entidades até as menores peças alcançáveis é um problema tecnológico. O mesmo se mantém no âmbito social, embora, naturalmente, com tecnologias muito diferentes.

Descartar indivíduos como fingimentos metafísicos, portanto, seria a mais fútil das diversões. A atomização não tem qualquer metafísica que a restrinja, seja na física de partículas, ou no processo dinâmico antropológico e socio-histórico. Se ela promete, às vez, lhe dizer quem você realmente é, tais sussurros eventualmente pararão, ou virão a zombar de si mesmos, ou serão simplesmente esquecidos. O protestantismo, tem que ser lembrado, é apenas mascarado, momentaneamente, como uma religião. O que está por debaixo duradouramente é uma maneira de quebrar coisas.

Depois de tanto já ter sido dilacerado, com tantas monstruosidades geradas, é sem dúvida exaustivo ouvir que, embora quase tudo ainda tenha que ser construído, não menos ainda aguarde ser quebrado. A atomização já foi longe demais, somos incessantemente informados. Se este for o caso, o futuro será difícil. Não pode haver qualquer dúvida realista de que ele será extremamente dividido. O dínamo que guia as coisas tende, de maneira irresistível, nessa direção. Tente se separar, e ele gira mais rápido.

“Mãos para o alto todo mundo que odeia a atomização.” Não, isso não é mais uma pergunta. Seria um pedido de rendição, se a rendição importasse, mas não importa, como vimos. Continue lutando contra ela, por todos os meios. Ela gosta disso.

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1930-e-poucos

A história nunca se repete, mas rima, assim diz o sugestivo aforismo (falsamente?) atribuído a Mark Twain.

James Delingpole escreve no Daily Telegraph:

…você já tentou ler revistas ou jornais privados dos anos 1930? O que vai te surpreender é que, até o último minuto – até o momento de fato em que a guerra realmente eclodiu – mesmo os comentadores e escritores mais perspicazes e informados se agarravam à ilusão de que as coisas de alguma forma iriam dar certo. Eu realmente espero que a história não esteja prestes a se repetir. Infelizmente, a lição da história é que, vezes demais, ela o faz.

Tem muito disso por aí.

Para um relato teórico de como a história poderia rimar, em um ciclo sinistro de 80 anos, há um modelo geracional que  o tom. “Strauss & Howe estabeleceram que a história pode ser decomposta em Saeculums de 80 a 100 anos, que consistem de quatro viradas: O Ponto Alto, O Despertar, O Desvendamento, e a Crise.” De um ponto de vista filosófico, parece um pouco sub-potenciado, mas sua plausibilidade cresce a cada mês.

Entre as anomalias de Shanghai está uma relação peculiar com os anos 1930. Para a cidade além da Concessão Internacional, a década caiu em desastre quando as hostilidades sino-japonesas eclodiram em 1937. Ainda assim, o período precedente não foi marcado por depressão, mas por um Alto Modernismo exuberante. Datas dos anos 1930 que em muito do mundo pareceriam distintamente sinistras estão expostas nas construções históricas da cidade como uma marca da autenticidade da Era Dourada. Para a mente paranoica, isso se encaixaria perfeitamente no mesmo esquema de rima perturbador de hoje.

Na maior parte do mundo rico, a decadência econômica, política e cultural pareceu – retrospectivamente – pressagiar o cataclisma vindouro, como se nada menos pudesse sacudir sistemas sociais exauridos de sua implacável trajetória descendente. Em quase todo lugar, alguma versão do pensamento fascista foi apreendida como o antídoto para o mal-estar que se congregava de maneira implacável. Por debaixo da superfície da ordem geoestratégica global, placas tectônicas em deslocamento acumulavam uma intolerável tensão. Sistemas monetários degenerados se despedaçaram em redemoinhos incontroláveis de sinais desfuncionais.

Ainda assim, é inteiramente possível que não haja nada com o que se preocupar:

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ADICIONADO: “Se você ouvir ecos dos anos 1930 na capitulação em Genebra, é porque o Ocidente está sendo liderado pelo mesmo tipo de homens, mas sem os guarda-chuvas.” (Estou ouvindo ecos dos anos 1930 em basicamente todos os lugares.)

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Uma Escuridão Mais Profunda

No ponto em que as pessoas começaram a falar sobre “um efeito positivo da Peste Negra”, elas percebem o quão longe elas descenderam às sombras? O horror hardcore da análise malthusiana sempre tem algumas novas profundidades para sondar.

A ideia de que os padrões de vida europeus se elevaram após o ‘alívio’ da pressão malthusiana oferecido pela peste bubônica está longe de ser nova. É até mesmo algo que se aproxima de um fato incontroverso da história econômica. Dar um passo a mais, contudo, e atribuir a ascensão do Ocidente à sua devastação epidêmica na metade do século XIV é vagar em tratos inexplorados de misantropia glacial. A Europa teve sorte o suficiente de que pessoas o suficiente morreram.

A implicação malthusiana (sistematizada por Gregory Clark), de que apenas a mobilidade social descendente é compatível com tendências eugênicas, é um pensamento sombrio no qual eu toquei ocasionalmente, mas ainda tenho que me fixar firmemente. A ideia de uma destruição populacional massiva como uma dádiva no desenvolvimento, em qualquer situação na qual as taxas de crescimento econômico caiam abaixo da fertilidade média (eu simplifico), leva o Iluminismo Sombrio a todo um novo nível.

Como nota de rodapé, ela levanta a questão: A Grande Divergência foi eugênica para o Extremo Oriente (que ficou para trás) e disgênica para o Ocidente (que seguiu adianta)? A prosperidade econômica é essencialmente uma destruidora de genes?

Eu tendo a ficar do lado dos libertários em sua aversão à economia (keynesiana) de janelas quebradas, mas é de se esperar que tal raciocínio rapidamente desapareça em pura paralisia cognitiva quando as conclusões malthusianas bem mais perturbadoras forem introduzidas. Os libertários já pensam que eles ‘pegaram’ Malthus, como o cara que perdeu a aposta de Simon-Ehlirch – um profeta anti-capitalista verde pregando a restrição populacional.

O Malthus real vai vir como um choque. Ele certamente gela minha espinha.

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Niilismo e Destino

Leitores de Nietzsche ou de Eugene Rose já estão familiarizados com a atribuição de uma teleologia cultural à modernidade, direcionada à realização consumada do niilismo. Nossa crise contemporânea encontra esse tema reanimado dentro de um contexto geopolítico através da obra de Alexandr Dugin, que a interpreta como um condutor de eventos concretos – mais especificamente a antagonização da Rússia por parte de uma ordem liberal mundial em implosão. Ele escreve:

Há um ponto na ideologia liberal que causou uma crise dentro dela: o liberalismo é profundamente niilista em seu âmago. O conjunto de valores defendidos pelo liberalismo está essencialmente ligado a sua tese principal: a primazia da liberdade. Mas a liberdade, na visão liberal, é uma categoria essencialmente negativa: ela reivindica ser livre de (nos termos de John Stuart Mill), não ser livre para, algo. […]…os inimigos da sociedade aberta, que é sinônima da sociedade Ocidental pós-1991 e que se tornou a norma para o resto do mundo, são concretos. Seus inimigos primários são o comunismo e o fascismo, ambas ideologias que emergiram da mesma filosofia Iluminista e que continham conceitos centrais não-individualistas – a classe no Marxismo, a raça no Nacional-Socialismo, e o Estado nacional no fascismo). Assim, a fonte do conflito do liberalismo com as alternativas existentes de modernidade, fascismo ou comunismo, é bastante óbvia. O liberais alegam liberar a sociedade do fascismo e do comunismo, ou seja, das duas grandes permutações de totalitarismo moderno explicitamente não-individualistas. A luta do liberalismo, quando vista enquanto parte do processo da liquidação de sociedades não-liberais, é bastante significativa: ela adquire seu significado do fato da própria existência de ideologias que explicitamente negam o indivíduo como o valor mais alto da sociedade. É bastante claro ao que a luta se opõe: à liberação de seu oposto. Mas o fato de que a liberdade, da maneira em que ela é concebida pelos liberais, é uma categoria essencialmente negativa não é claramente percebida aqui. O inimigo está presente e é concreto. Esse fato mesmo dá ao liberalismo seu conteúdo sólido. Algo além da sociedade aberta existe, e o fato de sua existência é o suficiente para justificar o processo de liberação.

Na análise de Dugin, o liberalismo tende à auto-abolição no niilismo e é capaz de neutralizar esse destino – mesmo que apenas temporariamente – ao se definir contra um inimigo concreto. Sem a guerra contra o iliberalismo, o liberalismo volta a ser nada em absoluto, uma negação flutuando livremente sem propósito. Portanto, a iminente guerra contra a Rússia é uma exigência do processo cultural intrínseco ao liberalismo. É uma fuga do niilismo, o que é dizer: a história do niilismo o propele.

Este blog está bem mais inclinado a criticar Dugin do que a se alinhar com ele, ou com as forças que ele orquestra, mas é difícil negar que ele representa uma espécie definida de gênio político, suficiente para categorizá-lo como um homem do destino. A mobilização da resistência à modernidade em nome de um contra-niilismo é inspirada, porque o entendimento histórico que ela desenha é genuinamente penetrante. Através de uma alquimia política potente, a destruição do significado coletivo é transformada em uma causa revigorante. Quando Dugin argumento que haverá sangue, o apelo a vitimologia eslava poderia ser considerado abjeto (e, claro, extremamente ‘perigoso’), mas a compreensão profética não é fácil de descartar.

A modernidade foi iniciada pela assimilação européia do zero matemático. O encontro com o nada está em sua raiz. Neste sentido, entre outros, ela é niilista em seu âmago. Os frívolos ‘significados’ a que as sociedades em modernização se agarram, como distrações de sua propulsão para dentro do abismo, são indefensáveis contra a ridicularização – e até mesmo contra a repulsa – daqueles que as contemplam com distanciamento. Uma modernidade que evade seu niilismo essencial é uma presa lamentável nas planícies da história. Isto é o que vimos antes, vemos agora e, sem dúvidas, veremos de novo.

Dugin fita a modernidade com os olhos frios de um lobo. É meramente patético denunciá-lo por isso.

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