A Armadilha da Atomização

“Mãos para o alto todo mundo que odeia a atomização.” Esse não é um pedido de rendição (pelo menos abertamente), mas meramente uma enquete informal.

Agora tente de forma diferente:

“Mãos para o alto todo mundo que odeia a atomização, mas desta vez sem olhar para o lado.” O processo de decisão – talvez ironicamente – foi um pouco mais lento desta vez? Vale a pena pensar sobre isso. Pode-se esperar que tomar um atalho que ignora o processo social acelere as coisas. Ainda assim, por outro lado – introduzindo o atraso – vem o nebuloso reconhecimento: se você faz a decisão de forma privada, você já é cúmplice. Um reorganização formal menor da questão a transforma de maneira insidiosa. O que você acha da atomização, falando de forma atomística? Vira um loop estranho, ou auto-referencial. A história moderna tem sido assim.

Primeiro, contudo, algumas preliminares terminológicas. Um ‘átomo’ é etimologicamente indistinto de um ‘indivíduo’. Na raiz, as palavras são quase perfeitamente intercambiáveis. Nenhuma delas, em relação à outra, carrega qualquer carga semântica especial. Então, se ‘atomização’ soa como uma metáfora, realmente não é. Não há nada essencialmente derivativo sobre a aplicação sociológica da palavra. Se parece ser um empréstimo da física, isso poderia ser devido a uma série de confusões, mas não a um deslocamento de um terreno original ou natural. Átomos e sociedades são primordialmente indissociáveis, embora estejam em tensão. É isso que ser um animal social – em vez de um completamente ‘eussocial’ (como uma formiga, ou um rato-toupeira) – já indica.

Indivíduos são difíceis de encontrar. Em nenhum lugar eles são simples e confiavelmente dados, menos ainda a si mesmos. Eles exigem trabalho histórico e, em última análise, fabricação, para sequer flutuarem enquanto aproximações funcionais. Um processo está envolvido. É por isto que a palavra ‘atomização’ é menos susceptível a enganações do que ‘átomo’ em si. A individualidade não é nada fora um destino (mas isto é nos anteciparmos).

É difícil saber onde começar. (Os atenienses sentenciaram Sócrates à morte por ser um atomizador social?) O individualismo é estereotipicamente WEIRD (ocidental, educado, industrializado, rico e democrático, na sigla em inglês), e assim tende a levar ao labirinto da etnografia comparativa. Tem estado distribuído de maneira desigual, aproximadamente da mesma maneira que a modernidade. Uma vez que isso já é dizer quase tudo sobre o tópico, merece uma desmontagem.

O trabalho de Walter Russell Mead fornece um a estação de repetição útil. As questões históricas com as quais ele tem se engajado – que se ocupam de nada menos do que o resultado do mundo – estiveram cravadas em um quadro intelectual moldado por uma atenção especial ao cristianismo providencial moderno. Qual foi a fonte do ‘destino manifesto’ que colocou as chaves do domínio global nas mãos de um projeto social progressivamente destilado, protestante, depois puritano, depois ianque? Se não exata ou diretamente ‘Deus’ (ele é sutil demais para isso), é pelo menos algo que a linhagem da Reforma Cristã tem drenado com efetividade única. O protestantismo selou um pacto com o destino histórico – que, por todas as aparências, define uma teleologia global especificamente moderna – ao vencer de maneira consistente. A individualização da consciência – a atomização – foi tornada destino.

Seis anos após Special Providence (2001) veio God and Gold, que reforçou as linhas anglo-americana e capitalista da narrativa. As fronteiras entre a história sócio-econômica e religiosa foram estrategicamente fundidas, da maneira na qual foram pioneiros Max Weber, Werner Sombart e – de maneira mais crítica – numerosos pensadores católicos que identificaram e continuam a identificar a essência da modernidade como um poder religioso hostil. Eugene Michael Jones é Walter Russell Mead do outro lado do espelho. A estória que cada um está contando se transforma sem distorção significativa na do outro, uma vez que seja resfriada abaixo do limiar da agitação moral. O que quer que tenha acontecido com o cristianismo ocidental na Renascença soltou o capitalismo sobre o mundo.

É possível ser ainda mais cru sem sacrificar muita realidade. Quando consideradas enquanto designações rígidas, Atomização, Protestantismo, Capitalismo e Modernidade nomeiam exatamente a mesma coisa. No domínio da política pública (e para além dela), privatização endereça o mesmo diretório.

Embora qualquer variante em particular do Protestantismo implícito ou explícito tenha suas características teológicas (ou ateológicas) distintivas, assim como qualquer estágio da industrialização capitalista tem suas características concretas, estas servem como distrações mais do que como pontos de apoio no quadro mais amplo. O único quadro verdadeiramente mais amplo é a cisão. A Reforma não foi apenas uma quebra, mas, de maneira ainda mais importante, uma normalização da quebra, um protocolo inicialmente informal, mas cada vez mais rigorizado, de desintegração social. A solução derradeira que ela ofereceu em relação a todas as questões sociais não era o debate, mas a saída. A fissão crônica foi instalada no âmago do processo histórico. De maneira fundamental, é isso que a atomização significa.

O Protestantismo – o Protestantismo Real Abstrato – que está cada vez mais propenso a se identificar como pós-cristão, pós-teísta e pós-Tudo O Mais, é um máquina auto-propulsora para a desintegração social incompreensivelmente prolongada, e todo mundo sabe disso. A atomização se tornou uma agência autônoma e inumana ou, pelo menos, algo cada vez mais autônomo e cada vez mais inumano. Ela pode apenas liquidar tudo com o que você jamais se preocupou, por sua própria natureza, então – claro – ninguém gosta dela. O catolicismo, o socialismo e o nacionalismo buscaram, em sucessão, coalização ou competição mútua, reunir os estilhaços da comunidade violada contra ela. O longo fio de derrotas que se seguiu tem sido uma rica fonte de mitologia cultural e política. Já que não há realmente nenhuma escolha além da resistência, a batalha sempre foi retomada, mas sem qualquer sinal sério de alguma reversão da fortuna.

Sob as atuais condições, a atomização serve – de maneira única – como um tubo inexaurível de cola reacionária. Uma profunda aversão ao processo é o único denominador comum de nossa oposição cultural contemporânea, que se estende do catolicismo tradicionalista ao etno-nacionalismo da alt-right. “Qualquer que seja nossa cola preferida, não podemos pelo menos concordar que as coisas ficaram descoladas – e estão cada vez menos coladas?” Isso parece bem longe de uma aspiração desarrazoada. Afinal, se a construção de uma coalização é a meta, o que – imaginavelmente – poderia fornecer uma bandeira melhor do que o próprio princípio de integridade social, mesmo se este for invocado pura e negativamente, por meio de uma anatematização dirigida a seu inimigo histórico fatal? A atomização, neste aspecto, reúne as pessoas, pelo menos conversacionalmente, embora isto funcione melhor quando a conversa não fica muito profunda.

Quase ninguém quer ser atomizado (eles dizem). Talvez eles tenham lido a novela de 1998 de Michel Houellebecq Atomised (ou Elementary Particles), e acenaram juntos com a cabeça. Como seria possível não o fazer? Se fosse aí que acabasse, seria difícil de ver o problema, ou como jamais veio a haver um problema, mas não acaba aí, nem em nenhum lugar próximo, porque a atomização faz zombaria das palavras. A atomização nunca foi boa em festas, sem surpresas. Ela é impopular ao ponto de uma essência. Tem aquela coisa puritana, e a coisa da Ayn Rand, e a coisa dos nerds, e o gatilho de piadas sobre Aspergers – se isso realmente for uma coisa separada – e, sem dúvidas, inúmeras deficiências sociais mais, cada uma delas por si só desqualificando, se receber um ‘curtir’ em algum meio coletivo for a meta, porque ninguém curte ela, como já ouvimos (por meio milênio já). Mas o que ouvimos, e o que vimos, foram duas coisas bem diferentes.

A atomização nunca tentou se vender. Em vez disso, ela veio de graça, com todo o resto que foi vendido. Ela era a implicação formal da dissidência, primeiro de tudo, do ceticismo metódico, ou investigação crítica, que pressupunha uma suspensão de autoridade que se provou irreversível e, depois, – de maneira igualmente implícita originalmente – da forma da relação contratual e de toda inovação subsequente no âmbito da negociação privada (haveriam muitas, e mal começamos). “Então, o que você acha (ou quer)?” Isso foi o bastante. Nenhum entusiasmo articulado pela atomização jamais foi necessário. A feitiçaria da preferência revelada tem feito todo o trabalho e ali, também, mal começamos.

A atomização pode ter poucos amigos, mas não têm qualquer escassez de aliados formidáveis. Mesmo quando as pessoas estão prontamente convencidas de que a atomização é indesejável, elas querem, em última instância, decidir por si mesmas, e tanto mais quanto mais pensam que isso importa. Na medida em que a atomização se tornou um verdadeiro horror, ela compele uma relação íntima cognitiva e moral consigo mesma. Ninguém que vislumbre o que ela é pode delegar as conclusões relevantes para qualquer autoridade superior. Assim, ela ganha. Todo católico de seriedade intelectual tem visto isto por séculos. O socialistas também, por décadas. O momento de revelação etno-nacionalista não pode ser em muito adiado. Sob condições modernas, toda comunidade moral autoritativa é mantida refém da decisão privada, mesmo quando é aparentemente afirmada e especialmente quando tal afirmação é asseverada de maneira mais veemente. (Os elementos mais excitáveis dentro do mundo do Islã vêm isso chegando e estão conspicuamente infelizes com o fato.)

Substancialmente, mesmo que apenas especulativamente, a liberdade de consciência poderia tender à coletividade, mas, formalmente, ela fixa o individualismo cada vez mais firmemente. Ela desafia a autoridade da comunidade no mesmo momento em que oferece um endosso explícito, ao tornar a comunidade um questão urgente de decisão privada e – no pico mesmo de sua alegada sacralidade – de compras. Os tradicionalistas religiosos vêem a si mesmos espelhados no mercado de comidas integrais e estão horrorizados, quando não sombriamente entretidos. “Conservadores da Birkenstock” foi a auto-identificação sinistramente irônica de Rod Dreher. O anti-consumismo se torna uma preferência do consumidor, a causa pública, um entusiasmo privado. A intensificação do sentimento coletivista apenas estreita a armadilha do macaco. Fica pior.

A história americana – na fronteira global da atomização – está densamente salpicada de comunidades eletivas. Das comunidades religiosas puritanas do começo do período colonial, passando pelas comunas ‘hippies’ do século passado, e além, o experimentos de vida comunal sob os auspícios da consciência privada radicalizada buscaram melhorar a atomização da maneira mais consistente com seu destino histórico. Tais experimentos confiantemente falham, o que ajuda a acelerar o processo, mas isso não é o principal. O que mais importa sobre todas essas co-ops, comunas e cultos é a opção contratual semi-formal que as enquadram. Desde o momento de sua iniciação – ou até mesmo de sua concepção – elas confirmam uma atomização soberana e sua reconstrução do mundo social sobre o modelo de um menu. A muito discutida ‘Opção Beneditina’ de Dreher não é nenhuma exceção a isto. Não há retirada do curso da modernidade, ‘de volta’ à comunidade, que não reforce o padrão de dissidência, cisma e saída a partir do qual a atomização continuamente reabastecesse seu impulso. Conforme a consciência privada se dirige à escapada da privatização da consciência, ela regenera aquilo de que foge, cada vez mais fundo dentro de si. A individuação, considerada de maneira impessoal, gosta quando você corre.

Como é bem entendido, ‘átomos’ não são átomos, e ‘elementos’ não são elementos. Partículas elementares – se sequer elas existirem – estão pelo menos dois níveis (profundos) mais abaixo. Os indivíduos humanos certamente não são menos decomponíveis. A ‘sociedade da mente’ de Marvin Minsky é apenas uma indicação vívida de como a sociologia história poderia se inclinar para dentro do âmbito atômico. Aceleradores de partículas demonstram que estilhaçar entidades até as menores peças alcançáveis é um problema tecnológico. O mesmo se mantém no âmbito social, embora, naturalmente, com tecnologias muito diferentes.

Descartar indivíduos como fingimentos metafísicos, portanto, seria a mais fútil das diversões. A atomização não tem qualquer metafísica que a restrinja, seja na física de partículas, ou no processo dinâmico antropológico e socio-histórico. Se ela promete, às vez, lhe dizer quem você realmente é, tais sussurros eventualmente pararão, ou virão a zombar de si mesmos, ou serão simplesmente esquecidos. O protestantismo, tem que ser lembrado, é apenas mascarado, momentaneamente, como uma religião. O que está por debaixo duradouramente é uma maneira de quebrar coisas.

Depois de tanto já ter sido dilacerado, com tantas monstruosidades geradas, é sem dúvida exaustivo ouvir que, embora quase tudo ainda tenha que ser construído, não menos ainda aguarde ser quebrado. A atomização já foi longe demais, somos incessantemente informados. Se este for o caso, o futuro será difícil. Não pode haver qualquer dúvida realista de que ele será extremamente dividido. O dínamo que guia as coisas tende, de maneira irresistível, nessa direção. Tente se separar, e ele gira mais rápido.

“Mãos para o alto todo mundo que odeia a atomização.” Não, isso não é mais uma pergunta. Seria um pedido de rendição, se a rendição importasse, mas não importa, como vimos. Continue lutando contra ela, por todos os meios. Ela gosta disso.

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1930-e-poucos

A história nunca se repete, mas rima, assim diz o sugestivo aforismo (falsamente?) atribuído a Mark Twain.

James Delingpole escreve no Daily Telegraph:

…você já tentou ler revistas ou jornais privados dos anos 1930? O que vai te surpreender é que, até o último minuto – até o momento de fato em que a guerra realmente eclodiu – mesmo os comentadores e escritores mais perspicazes e informados se agarravam à ilusão de que as coisas de alguma forma iriam dar certo. Eu realmente espero que a história não esteja prestes a se repetir. Infelizmente, a lição da história é que, vezes demais, ela o faz.

Tem muito disso por aí.

Para um relato teórico de como a história poderia rimar, em um ciclo sinistro de 80 anos, há um modelo geracional que  o tom. “Strauss & Howe estabeleceram que a história pode ser decomposta em Saeculums de 80 a 100 anos, que consistem de quatro viradas: O Ponto Alto, O Despertar, O Desvendamento, e a Crise.” De um ponto de vista filosófico, parece um pouco sub-potenciado, mas sua plausibilidade cresce a cada mês.

Entre as anomalias de Shanghai está uma relação peculiar com os anos 1930. Para a cidade além da Concessão Internacional, a década caiu em desastre quando as hostilidades sino-japonesas eclodiram em 1937. Ainda assim, o período precedente não foi marcado por depressão, mas por um Alto Modernismo exuberante. Datas dos anos 1930 que em muito do mundo pareceriam distintamente sinistras estão expostas nas construções históricas da cidade como uma marca da autenticidade da Era Dourada. Para a mente paranoica, isso se encaixaria perfeitamente no mesmo esquema de rima perturbador de hoje.

Na maior parte do mundo rico, a decadência econômica, política e cultural pareceu – retrospectivamente – pressagiar o cataclisma vindouro, como se nada menos pudesse sacudir sistemas sociais exauridos de sua implacável trajetória descendente. Em quase todo lugar, alguma versão do pensamento fascista foi apreendida como o antídoto para o mal-estar que se congregava de maneira implacável. Por debaixo da superfície da ordem geoestratégica global, placas tectônicas em deslocamento acumulavam uma intolerável tensão. Sistemas monetários degenerados se despedaçaram em redemoinhos incontroláveis de sinais desfuncionais.

Ainda assim, é inteiramente possível que não haja nada com o que se preocupar:

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ADICIONADO: “Se você ouvir ecos dos anos 1930 na capitulação em Genebra, é porque o Ocidente está sendo liderado pelo mesmo tipo de homens, mas sem os guarda-chuvas.” (Estou ouvindo ecos dos anos 1930 em basicamente todos os lugares.)

Original.

Uma Escuridão Mais Profunda

No ponto em que as pessoas começaram a falar sobre “um efeito positivo da Peste Negra”, elas percebem o quão longe elas descenderam às sombras? O horror hardcore da análise malthusiana sempre tem algumas novas profundidades para sondar.

A ideia de que os padrões de vida europeus se elevaram após o ‘alívio’ da pressão malthusiana oferecido pela peste bubônica está longe de ser nova. É até mesmo algo que se aproxima de um fato incontroverso da história econômica. Dar um passo a mais, contudo, e atribuir a ascensão do Ocidente à sua devastação epidêmica na metade do século XIV é vagar em tratos inexplorados de misantropia glacial. A Europa teve sorte o suficiente de que pessoas o suficiente morreram.

A implicação malthusiana (sistematizada por Gregory Clark), de que apenas a mobilidade social descendente é compatível com tendências eugênicas, é um pensamento sombrio no qual eu toquei ocasionalmente, mas ainda tenho que me fixar firmemente. A ideia de uma destruição populacional massiva como uma dádiva no desenvolvimento, em qualquer situação na qual as taxas de crescimento econômico caiam abaixo da fertilidade média (eu simplifico), leva o Iluminismo Sombrio a todo um novo nível.

Como nota de rodapé, ela levanta a questão: A Grande Divergência foi eugênica para o Extremo Oriente (que ficou para trás) e disgênica para o Ocidente (que seguiu adianta)? A prosperidade econômica é essencialmente uma destruidora de genes?

Eu tendo a ficar do lado dos libertários em sua aversão à economia (keynesiana) de janelas quebradas, mas é de se esperar que tal raciocínio rapidamente desapareça em pura paralisia cognitiva quando as conclusões malthusianas bem mais perturbadoras forem introduzidas. Os libertários já pensam que eles ‘pegaram’ Malthus, como o cara que perdeu a aposta de Simon-Ehlirch – um profeta anti-capitalista verde pregando a restrição populacional.

O Malthus real vai vir como um choque. Ele certamente gela minha espinha.

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Niilismo e Destino

Leitores de Nietzsche ou de Eugene Rose já estão familiarizados com a atribuição de uma teleologia cultural à modernidade, direcionada à realização consumada do niilismo. Nossa crise contemporânea encontra esse tema reanimado dentro de um contexto geopolítico através da obra de Alexandr Dugin, que a interpreta como um condutor de eventos concretos – mais especificamente a antagonização da Rússia por parte de uma ordem liberal mundial em implosão. Ele escreve:

Há um ponto na ideologia liberal que causou uma crise dentro dela: o liberalismo é profundamente niilista em seu âmago. O conjunto de valores defendidos pelo liberalismo está essencialmente ligado a sua tese principal: a primazia da liberdade. Mas a liberdade, na visão liberal, é uma categoria essencialmente negativa: ela reivindica ser livre de (nos termos de John Stuart Mill), não ser livre para, algo. […]…os inimigos da sociedade aberta, que é sinônima da sociedade Ocidental pós-1991 e que se tornou a norma para o resto do mundo, são concretos. Seus inimigos primários são o comunismo e o fascismo, ambas ideologias que emergiram da mesma filosofia Iluminista e que continham conceitos centrais não-individualistas – a classe no Marxismo, a raça no Nacional-Socialismo, e o Estado nacional no fascismo). Assim, a fonte do conflito do liberalismo com as alternativas existentes de modernidade, fascismo ou comunismo, é bastante óbvia. O liberais alegam liberar a sociedade do fascismo e do comunismo, ou seja, das duas grandes permutações de totalitarismo moderno explicitamente não-individualistas. A luta do liberalismo, quando vista enquanto parte do processo da liquidação de sociedades não-liberais, é bastante significativa: ela adquire seu significado do fato da própria existência de ideologias que explicitamente negam o indivíduo como o valor mais alto da sociedade. É bastante claro ao que a luta se opõe: à liberação de seu oposto. Mas o fato de que a liberdade, da maneira em que ela é concebida pelos liberais, é uma categoria essencialmente negativa não é claramente percebida aqui. O inimigo está presente e é concreto. Esse fato mesmo dá ao liberalismo seu conteúdo sólido. Algo além da sociedade aberta existe, e o fato de sua existência é o suficiente para justificar o processo de liberação.

Na análise de Dugin, o liberalismo tende à auto-abolição no niilismo e é capaz de neutralizar esse destino – mesmo que apenas temporariamente – ao se definir contra um inimigo concreto. Sem a guerra contra o iliberalismo, o liberalismo volta a ser nada em absoluto, uma negação flutuando livremente sem propósito. Portanto, a iminente guerra contra a Rússia é uma exigência do processo cultural intrínseco ao liberalismo. É uma fuga do niilismo, o que é dizer: a história do niilismo o propele.

Este blog está bem mais inclinado a criticar Dugin do que a se alinhar com ele, ou com as forças que ele orquestra, mas é difícil negar que ele representa uma espécie definida de gênio político, suficiente para categorizá-lo como um homem do destino. A mobilização da resistência à modernidade em nome de um contra-niilismo é inspirada, porque o entendimento histórico que ela desenha é genuinamente penetrante. Através de uma alquimia política potente, a destruição do significado coletivo é transformada em uma causa revigorante. Quando Dugin argumento que haverá sangue, o apelo a vitimologia eslava poderia ser considerado abjeto (e, claro, extremamente ‘perigoso’), mas a compreensão profética não é fácil de descartar.

A modernidade foi iniciada pela assimilação européia do zero matemático. O encontro com o nada está em sua raiz. Neste sentido, entre outros, ela é niilista em seu âmago. Os frívolos ‘significados’ a que as sociedades em modernização se agarram, como distrações de sua propulsão para dentro do abismo, são indefensáveis contra a ridicularização – e até mesmo contra a repulsa – daqueles que as contemplam com distanciamento. Uma modernidade que evade seu niilismo essencial é uma presa lamentável nas planícies da história. Isto é o que vimos antes, vemos agora e, sem dúvidas, veremos de novo.

Dugin fita a modernidade com os olhos frios de um lobo. É meramente patético denunciá-lo por isso.

Original.