Missão Arrepio

A sensação – nutrição da mídia – está situada em uma fronteira. Ela conta ao interior algo sobre o exterior e é moldada por ambos os lados. O exterior é o que é, o que poderia não ser perceptível ou aceitável. O interior quer informação relevante, selecionada e formatada para os seus propósitos. A sensação é, portanto, onde o sujeito e o objeto se encontram.

…essa é uma tentativa de expressar uma simpatia preliminar pela situação de Matt Sigl, preso entre uma coisa sinistra e uma agenda definida. De maneira concreta; a pesquisa colide com a edição, com o cérebro de Sigl como marco zero. O encontro da Neorreação com a mídia é peculiarmente vicioso, com sensações condizentes.

Falando de maneira crua, a Neorreação é o desgosto com a mídia condensado em uma ideologia. Embora desdenhosa, de maneira geral, com a forragem humana que compõe as democracias modernas, a Neorreação visa principalmente o complexo midiático-acadêmico (ou ‘Catedral’) para antagonismo, porque é a mídia que é o real ‘eleitorado’ – dizendo ao eleitores o que fazer. Esta crítica fundamental, por si só, seria o suficiente para garantir um ódio recíproco intenso. Claro, ela não está sozinha. A Neorreação é, em quase todos os aspectos, a anti-mensagem da Catedral, o que quer dizer que ela está consistente, radical e desafiadoramente ‘fora da mensagem’ sobre todo tópico de significância e é, assim, algo indizivelmente horrível. Ainda assim, dicção – agora parece – tem que haver…

Então, o que aparece na fronteira – ou sensacionalmente – é algo notavelmente arrepiante. Enquanto comunicação pública profundamente ressonante do que acabou de acontecer, e continua acontecendo, assim como do que foi editorialmente decidido, essa palavra é quase primorosa demais para se contemplar. Podemos, pelo menos, nos enfiar um pouco mais fundo nela.

O que é o arrepio exatamente? A intratabilidade desta questão é o fenômeno (que não é um fenômeno exatamente). O arrepio não é bem o que parece, e esta insinuação do desconhecido, ou inexatidão intrínseca, é algo horrível, que excede a sensação inicial de repulsa. Ela sugere uma revelação em estágios, complicada por revisões sucessivas, mas levando inexoravelmente, cada vez mais fundo, a um encontro do qual se recua, pressentindo (de maneira inexata) que se o descobrirá, em última análise, intolerável.

Já é uma pequena estória de horror, muito provavelmente com uma protagonista feminina (como observado, de maneira aguçada, em Amos & Gromar). Desde o princípio, é uma sensação sinistra. Não se pode ver exatamente por quê, já que não se pode suportar ver. A imprecisão da percepção já é protetora, ou evasiva, servindo dramaticamente como um pressentimento agourento do pânico cegante, da fuga selvagem e dos gritos que certamente devem vir. Você realmente não quer ver isso, muito embora (horrivelmente) você saiba que você tem que ver, porque poderia ser perigoso. Como os lívidos cartazes de filmes guincham sensacionalmente, é uma coisa que É Melhor Você Levar a Sério.

Isso é o jornalismo comendo a si mesmo, ou sendo comido, em um encontro com algo monstruoso vindo do Exterior. Olhe para esta coisa que você não será capaz de olhar (sem gemer em horror). Observe o que você não pode suportar ver. Inclina-se para um tipo de loucura, que não poderia ser mais óbvia ou menos claramente perceptível. Os editores de Sigl foram sugados para dentro de um vórtex de sensacionalismo horrível que chama atenção para a única coisa que eles têm o dever de esconder das pessoas. Tem que ser arrepiante, isto é: imperceptível no momento mesmo em que é vista. A resposta aprovada à Neorreação é ficar arrepiado, mas isso não pode ser o suficiente.

A princípio poderíamos pensar que ‘arrepiante’ é um adjetivo subjetivo, que descreve algo horrível demais para se descrever. É tentador, uma vez que suspeitamos que essas pessoas se retiraram aos seus sentimentos há muito tempo. A realidade é bem mais arrepiante.

As coisas realmente arrepiam, embora não exatamente de maneira objetiva, quando procedem de uma maneira que você não é bem capaz de perceber. Evidentemente, Moldbug  isso (“Algo está acontecendo aqui. Mas você não sabe o que é – sabe, Mr. Jones?”).

Você tem que imaginar que você é a mídia para ir mais adiante na estória de horror. Aí você pode ver que é arrepiante, em parte (sempre em partes), porque você a deixou entrar. Aquela coisa de guinchar que você estava fazendo? Talvez você devesse ter tomado como um sinal. Agora ela está rastejando por dentro, na sua mídia, nos seus cérebros, em seus pensamentos vagos e sem escrutínio e em todos aqueles elaborados sistemas de segurança que você gastou tanto tempo montando – agora eles são em sua maior parte uma pista de obstáculos para os tiras, ou quem quer que seja que você pensa que poderia, em imaginação, vir a seu resgate, porque eles certamente não estão entre você e o Vírus Mental.

Sério, o que você estava pensando, quando começou a gritar sobre ela e, assim, a deixou entrar? Você não sabe, né? – e isso é seriamente arrepiante. Muito embora você não queira – de maneira alguma – ela lhe faz pensar sobre BDH, hereditariedade, instintos, impulsos e máquinas química incompreensíveis, furtivamente operantes por trás de seus pensamentos, obstinadas em sua realidade e intoleráveis para além do reconhecimento. Guinchar “ciência nazista!” (ou o que seja) não ajuda, porque agora ela está dentro, e você sabe que é verdade, mesmo enquanto você atua como a heroína sendo caçada, balbuciando “não, não, não, não, não…”, recuando cada vez mais profundamente nas sombras. Isto é a realidade, e já está dentro, era isso que você estava dizendo quando a chamou de ‘arrepiante’.

Está acontecendo, e não faz sentido nenhum dizer “supere” – porque você não vai.

Original.
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O Que é Filosofia? (Parte 2a)

Por mais estranho que o reconhecimento possa ser, não se pode evitar o fato de que a filosofia, quando apreendida dentro da tradição Ocidental, é o pecado original. Entre a árvore da vida e a árvore do conhecimento, ela não hesita. Seu nome é indistinguível de uma lascívia pelo proibido. Embora queimar filósofos não seja mais socialmente aceitável, nossa ordem canônica de proibição cultural – em sua raiz – só pode considerar tal punição obrigatória. Uma vez que se permita que filósofos vivam, a civilização estabelecida está acabada.

Para a filosofia, o sussurro da serpente não é mais uma tentação resistível. Ela é, pelo contrário, um princípio constitutivo, ou fundação. Se há uma diferença entre um daemon socrático e um demônio diabólico, não é uma que importa filosoficamente. Não pode haver nenhuma recusa de qualquer informação acessível. Esta é uma suposição tão básica que a filosofia não pode existir até que ela tenha passado para além de questão. Transgressão religiosa derradeira é a iniciação.

Não deveria ser nenhuma surpresa para os Tradicionalistas Cristãos, portanto, encontrar as extremidades do esforço filosófico misturadas, intimamente, nas cinzas do Terceiro Reich. O absoluto religioso negativo, ou mal infinito, do experimento Nacional-Socialista, que suplanta toda a revelação positiva sob as condições socioculturais da Catedral madura, é, ‘coincidentemente’, o lugar em que o limite da filosofia foi traçado. Isto é, claro, introduzir o pensamento de Martin Heidegger.

Como a perfeita negação de Cristo, ou realização consumada do Anti-Cristo, Adolf Hitler fecha – ou completa de maneira essencial – a história do Ocidente. Não importa se acreditamos nisso. A Catedral o faz, absolutamente, ao ponto de doutrina selada. Heidegger antecipou lucidamente esta conclusão. Em um comício eleitoral, realizado por acadêmicos alemães em 11 de novembro de 1933, ele declarou:

Declaramos nossa independência do ídolo do pensamento que não tem fundamento, nem poder. Vemos o fim da filosofia que serve a tal pensamento. …E, assim, nós, a quem a preservação da vontade de saber de nosso povo será no futuro confiada, declaramos: A revolução Nacional-Socialista não é meramente a assunção do poder, da forma em que ele existe atualmente no Estado, por outro partido, um partido que ficou suficientemente grande em números para ser capaz de fazê-lo. Antes, esta revolução está realizando a total transformação de nossa existência alemã. …O Führer despertou essa vontade [de auto-responsabilidade nacional] em todo o povo e a fundiu em uma única resolução. Ninguém pode ficar longe das urnas no dia em que esta vontade for manifestada.
Heil Hitler!

Naturalmente, enquanto pronunciamento democrático (endereçado a comparativos imbecis), apenas algumas pistas da profunda modulação de Heidegger da “vontade de saber” germânica se infiltram. A [reconstrução, por parte da Wikipédia, do pano de fundo visionário oculto, extraída da obra de Michael Allen Gillespie, é excelente:

Heidegger acreditava que o mundo ocidental estivesse em uma trajetória em direção à guerra total e à beira de um niilismo profundo (a rejeição de todos os princípios religiosos e morais), que seria a revelação mais pura e elevada do Ser em si mesmo, oferecendo uma horrível encruzilhada de salvação ou do fim da metafísica e da modernidade; fazendo do Ocidente: um deserto populado por brutos que usam ferramentas, caracterizado por uma ignorância sem precedentes e por um barbarismo em que tudo é permitido. Ele pensava que a última possibilidade degeneraria a raça humana, de maneira geral, em: cientistas, trabalhadores e brutos; vivendo sob o último manto de uma de três ideologias: Americanismo, Marxismo ou Nazismo (que ele considerava metafisicamente idênticas; enquanto avatares de subjetividade e do niilismo institucionalizado) e sob uma tecnologia mundial totalitária irrestrita. Supostamente, esta época seria ironicamente celebrada como a mais iluminada e gloriosa da história humana. Ele vislumbrava este abismo como sendo o maior evento na história do Ocidente; porque ele permite que a Humanidade compreenda o Ser mais profunda e primordialmente do que os Pré-Socráticos.

É errôneo sugerir que Heidegger via qualquer distinção entre “salvação” e “o fim da metafísica e da modernidade”, ou que não via nenhuma distinção significativa entre a díade tecnológica irrefletida do Americanismo/Marxismo e o despertar Nacional-Socialista da existência alemã, mas nos outros aspectos essa descrição é penetrante. Ao trazer a história da ocultação do Ser à sua ruinosa conclusão, o niilismo consumado proclamaria um retorno à origem da filosofia, abrindo o caminho para um encontro cru com o abismo escondido e inominável (o Ser em sua própria verdade). Como porta para o fim do mundo, Hitler liderava o caminho ao historicamente impensável.

Sim, isso é altamente – de fato, singularmente – arcano. Antes d’O Evento, não pode haver qualquer formulação adequada do problema, muito menos a solução. Por volta de 1927, com a publicação de Ser e o Tempo (Parte I), Heidegger havia completado o que é alcançável antes da calamidade, que é esclarecer a insuficiência da Questão do Ser, como ela foi formulada dentro da história da ontologia.

Os recursos cognitivos de Heidegger são basicamente kantianos, o que é dizer que ele empreende um crítica transcendental da ontologia, produzindo não uma filosofia crítica, mas um esboço de uma ‘ontologia fundamental’. Onde Kant diagnostica o erro da metafísica especulativa como uma confusão entre objetos e suas condições de possibilidade (o que então interpreta as últimas como objetos de um discuso insustentável), Heidegger ontologiza a abordagem transcendental, distinguindo entre ‘seres’ e sua base (o Ser), ao passo que diagnostica o concomitante erro de interpretar a base dos seres como ela mesma um ser (de algum tipo). Uma vez que o ser mais dignificado – e, assim, exemplar – conhecido da tradição Ocidental é Deus, Heidegger se refere à má apreensão estrutural do Ser – que define e ordena a história da filosofia – como ‘Onto-Teologia’.

Criticamente (ou ‘destrutivamente’) concebida, a ontologia fundamental é aquela investigação que não apresenta a Questão do Ser de tal maneira que ela possa ser respondida pela invocação de um ser. Nenhuma formulação adequada, compatível com este critério transcendental (ou ‘diferença ontológica’), é concebível, porque não importa como ‘o Ser’ seja nomeado, sua concepção permanece presa dentro da esfera ‘ôntica’ dos (meros) seres. Não podemos, através de um ato de vontade filosófica – não importa o quão estrênuo – deixar de pensar sobre o Ser como se ele fosse algum tipo de coisa, mesmo depois de entender a inadequação de tal apreensão. É assim, quebrada por sobre um problema derradeiro que não pode ser nem dispensado, nem resolvido, que a filosofia alcança seu fim, aguardando a ruína do clímax d’O Evento.

[Breve intervalo – e depois tempo, linguagem e mais apocalypse ontológico nazista]

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4

Parte 4: Recorrendo a raça à ruína.

Os liberais estão confusos e furiosos que os brancos pobres votam em Republicanos, embora votar com fundamentos tribais seja uma característica de todas as democracias multi-étnicas, seja [na] Irlanda do Norte, no Líbano ou no Iraque. Quanto mais uma maioria se torna uma minoria, mais tribal se torna sua votação, de modo que cada vez mais os Republicanos se tornaram o “partido branco”; fazer este ponto de maneira indelicada mandou Pat Buchanan para o saco, mas muitos outros o fazem também.

O que vai acontecer aqui [no Reino Unido]? Os padrões não são dissimilares. Na eleição de 2010, os Conservadores conseguiram apenas 16 por cento do voto étnico minoritário, ao passo que o Labour conseguiu o apoio de 72 por cento dos bangladeshis, 78 por cento dos afro-caribenhos e 87 por cento dos africanos. Os Tories são ligeiramente mais fortes entre os hindus e sikhs britânicos – espelhando o apoio Republicano entre os ásio-americanos – que têm maior probabilidade de serem profissionais proprietários de imóveis e de se sentirem menos alienados.

A The Economist recentemente perguntou se os Tories tinham um “problema de raça”, mas pode ser só que a democracia tenha um problema de raça.
– Ed West (Aqui)

Sem um gosto pela ironia, Mencius Moldbug é praticamente insuportável e certamente ininteligível. Vastas estruturas de ironia histórica moldam seus escritos, às vezes mesmo os engolfando. De que outra maneira poderia um proponente de configurações tradicionais de ordem social – um auto-proclamado jacobita – compor um corpo de trabalho é que teimosamente dedicado à subversão?

A ironia é o método de Moldbug, assim como seu ambiente. Isto pode ser visto, de forma mais reveladora, em seu nome escolhido para o iluminismo usurpado, a fé dominante do mundo moderno: Universalismo. Esta é uma palavra de que ele se apropria (e que coloca em letra maiúscula) dentro de um diagnóstico reacionário cuja força inteira jaz em sua exposição de uma particularidade exorbitante.

Moldbug se volta continuamente para a história (ou, mais rigorosamente, para a cladística) para especificar de maneira acurada aquilo que afirma sua própria significância universal enquanto ascende a um estado de dominância geral que se aproxima do universal. Sob este exame, o que conta como razão Universal, determinando a direção e o significado da modernidade, é revelado como o ramo ou subespécie minuciosamente determinado de uma tradição cultual, descendente de ‘ranters’, ‘levelers’ e variantes intimamente relacionadas de fanatismo dissidente ultra-protestante e que deve infimamente pouco às conclusões dos lógicos.

Ironicamente, então, a fé democrática-igualitária Universalista reinante do mundo é um culto particular ou peculiar que irrompeu, ao longo de caminhos históricos e geográficos identificáveis, com uma virulência epidêmica que é disfarçada como iluminação global progressiva. A rota que ela tomou, através da Inglaterra e da Nova Inglaterra, Reforma e Revolução, é registrada por um acúmulo de traços que fornecem material abundante para a ironia e para variedades mais baixas de comédia. O desmascaramento do intelectual ‘liberal’ moderno ou do ‘contador de verdades’ ‘de mente aberta’ da mídia como um puritano pálido, fervoroso e estritamente doutrinário, reconhecivelmente descendente da espécie de zelotes queimadores de bruxas, é confiantemente – e irresistivelmente – divertido.

Ainda assim, conforme a Catedral se estende e intensifica seu controle sobre tudo, em todo lugar, de acordo com seu mandato divino, a resposta que ela desencadeia é apenas atipicamente cômica. Mais comumente, quando incapaz de extrair humilde complacência, ela encontra raiva inarticulada ou, pelo menos, um ressentimento incompreensível e fumegante, como convém à imposição de dogmas culturais paroquiais ainda envoltos na pompa de uma linhagem específica e alienígena, mesmo que confessem seriamente uma racionalidade universal.

Considere, por exemplo, as palavras mais famosas da Declaração de Independência da América: “Consideramos estas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis…”. Pode-se honestamente manter que submeter-se, de maneira escrupulosa e sincera, a tais verdades ‘auto-evidentes’ equivale a qualquer coisa além de um ato de reconfirmação ou conversão religiosa? Ou ser negado que, nestas palavras, razão e evidência são explicitamente colocadas de lado, para criar espaço para princípios de fé? Poderia qualquer coisa ser menos científica do que tal declaração, ou mais indiferente aos critérios do raciocínio genuinamente universal? Como poderia se esperar que alguém que não fosse já um crente consentisse com tais suposições?

Que a declaração fundante do credo democrático-republicano seja formulada como uma declaração de pura (e doutrinariamente reconhecível) fé é uma espécie de informação, mas ainda não é ironia. A ironia começa com o fato de que, entre as elites da Catedral de hoje, estas palavras da Declaração de Independência (assim como muitas outras) seriam consideradas – quase universalmente – curiosamente sugestivas, na melhor das hipóteses, talvez vagamente embaraçosas e, mais certamente, incapazes de sustentar um assentimento literal. Mesmo em meio a conservadores inclinados ao libertarianismo, é pouco provável que um compromisso firme com os ‘direitos naturais’ proceda confiante e enfaticamente para sua origem divina. Para os ‘liberais’ modernos, crentes do Estado concessor de direitos (ou intitulamentos), essas ideias arcaicas não estão apenas absurdamente datadas, mas são positivamente obstrutivas. Por esta razão, elas são associadas menos com predecessores venerados do que com o pensamento retardado e fundamentalista de inimigos políticos. Sofisticados do núcleo da Catedral entendem, como o fazia Hegel, que Deus não é mais do que o governo profundo apreendido por infantes e, como tal, um desperdício de fé (que os burocratas poderiam colocar em melhores usos).

Uma vez que a Catedral já ascendeu à supremacia global, ela não tem mais necessidade de Pais Fundadores, que desajeitadamente relembram sua ancestralidade paroquial e impedem suas relações públicas transnacionais. Em vez disso, ela busca revigoramento perpétuo através da difamação deles. O fenômeno do ‘Novo Ateísmo’, com suas transparentes afiliações progressistas, atesta isso abundantemente. O paleopuritanismo deve ser ridicularizado, a fim de que o neopuritanismo floresça – o meme está morto, vida longa ao meme!

No limite da auto-paródia, o parricídio neopuritano toma a forma da ridícula ‘Guerra ao Natal’, na qual os aliados da Catedral santificam a (radicalmente não ameaçada) separação entre Igreja e Estado, através da incômoda agitação contra expressões públicas da piedade cristã tradicional, e seus patetas dos ‘Red States’ respondem com dispéptica indignação em programas de TV à cabo. Como toda outra guerra contra substantivos indefinidos (seja ‘pobreza’, ‘drogas’ ou ‘terror’), o resultado é previsivelmente perverso. Se a resistência à Guerra ao Natal ainda não está estabelecida como o centro sólido das festividades natalinas, pode-se confiantemente esperar que se tornem no futuro. Os propósitos da Catedral são servidos, não obstante, através da promoção de um secularismo sintético que separa a fé progressista de seus fundamentos religiosos, ao passo que direciona a atenção para longe do conteúdo etnicamente específico e dogmático do credo em seu âmago.

Até onde vão os reacionários, os cristão tradicionais são geralmente considerados como sendo até bem fofinhos. Mesmo os fanáticos com os olhos mais arregalado da ortodoxia neopuritana têm dificuldades em ficarem genuinamente excitados com eles (embora ativistas do aborto cheguem perto). Para um pouco de carne realmente vermelha, com os nervos expostos e se contorcendo com os choques de forte estimulação, faz bem mais sentido se voltar para uma outra quadra descartada e cerimonialmente abominada da linhagem progressista: a Política Identitária Branca, ou (o termo pelo qual Moldbug opta) ‘nacionalismo branco’.

Assim como a catraca do progresso da democracia social neopuritana é radicalmente facilitada pela tortura orquestrada de suas formas religiosas embriônicas no pelourinho, assim também a sua tendência à economia política neo-fascista é suavizada pelo repúdio concertado de uma ameaça ‘neo-nazi’ (ou paleo-fascista). É extremamente conveniente, quando se constrói estruturas cada vez mais abertamente corporatista ou ‘de terceira posição’ de pseudo-capitalismo dirigido pelo estado, ser capaz de desviar a atenção para expressões irritadas de paranoia racial branca, especialmente quando estas são ornamentadas por insígnias nazistas desajeitadamente modificadas, capacetes com chifres, estética de Leni Riefenstahl e slogans livremente emprestados do Mein Kampf. Nos Estados Unidos (e, assim, com um lapso de tempo que se encolhe, internacionalmente) os ícones do Ku Klux Klan, de lençóis brancos, títulos semi-maçônicos e cruzes em chamas até cordas de linchamento, têm adquirido um valor teatral comparável.

Moldbug oferece uma lista higienizada de leitura de blogs nacionalistas brancos, que consiste de autores que – com diferentes graus de sucesso – evitam uma reversão imediata à auto-paródia paleo-fascista. O primeiro passo para além da fronteira da opinião respeitável é representado por Lawrence Auster, um cristão, anti-darwinista e ‘Conservador Tradicionalista’ que defende uma identidade nacional ‘substancial’ (etno-racial) e se opõe ao princípio-mestre liberal de não discriminação. No momento em que chegamos a ‘Tanstaafl‘, na dilacerada borda exterior do espectro cuidadosamente truncado de Moldbug, já entramos em uma órbita decadente, que se espirala para dentro do grande buraco negro que está escondido no centro morto da possibilidade política moderna.

Antes de seguir os tipos de Tanstaafl para dentro do abismo esmagador onde a luz morre, há alguma observações preliminares a serem feitas sobre a perspectiva nacionalista branca e sobre suas implicações. Ainda mais do que os cristãos tradicionalistas (que, mesmo no meio de seu inverno cultural, podem se aquecer no calor do endosso sobrenatural), a política identitária branca se considera sitiada. Uma preocupação moderada ou comedida não oferece qualquer equilíbrio para aqueles que cruzam a linha e começam a se auto-identificar nesses termos. Em vez disso, o caminho de envolvimento demanda uma rápida aceleração até um estado de alerta extremo, ou pânico racial, que se conforma a uma análise focada na maliciosa substituição populacional nas mãos de um governo que, nas palavras frequentemente citadas de Bertold Brecht, “decidiu dissolver o povo e apontar um outro”. A ‘branqueza’ (quer seja concebida de maneira biológica, mística ou ambas) é associada com vulnerabilidade, fragilidade e perseguição. Este tema é tão básico, e tão multifário, que é difícil de abordar de maneira sucinta. Ele engloba tudo, desde predação criminosa (especialmente assassinatos, estupros e espancamentos racialmente carregados), exações econômicas e discriminação inversa, agressão cultural por parte de sistemas acadêmicos e midiáticos hostis até, em última análise, ‘genocídio’ – ou destruição racial definitiva.

Tipicamente, a aniquilação prospectiva da raça branca é atribuída à sua própria vulnerabilidade sistemática, que seja devido a traços culturais característicos (altruísmo excessivo, susceptibilidade à manipulação moral, hospitalidade excessiva, confiança, reciprocidade universal, culpa ou desdém individualista pela identidade de grupo), ou a fatores biológicos mais imediatos (genes recessivos que suportam os frágeis fenótipos arianos). Embora seja improvável que este senso de ameaça de extinção única seja redutível à fórmula cromática ‘Branco + Cor = Cor’, a estrutura fundamental é deste tipo. Em sua descrição abstrata da vulnerabilidade não recíproca, ela reflete a ‘regra da uma gota’ (e a combinação genética mendeliana recessivo / dominante). Ela descreve a mistura como essencialmente anti-branca.

Uma vez que ‘branqueza’ é um limite (pura ausência de cor), ela desliza suavemente da factualidade biológica da subespécie caucasiana para ideias metafísicas e místicas. Em vez de acumular variação genética, uma raça branca é contaminada ou poluída por misturas que comprometem sua negatividade definidora – escurecê-la é destruí-la. A densidade mitológica destas associações – predominantemente subliminares – investe a política identitária branca de uma resiliência que frustra os esforços iluminados de denúncia racionalista, ao passo que contradiz sua própria auto-representação paranoica. Ela também enfraquece as promoções nacionalistas brancas recentes de uma ameaça racial que é estritamente comparável àquela que enfrentam os povos indígenas, de maneira universal, e descreve os brancos como ‘nativos’ cruelmente privados de igual proteção contra a extinção. Não há nenhuma rota de retorno para a inocência tribal ou para a diversidade biológica rasa. A branqueza foi compactada indissoluvelmente com a ideologia, seja qual for a estrada tomada.

“Se os negros podem ter, e os hispânicos podem ter, e os judeus podem ter, por que não podemos ter?” – Esse é o alicerce final do agravo nacionalista branco, a maldição do lobisomem que significa que ele só pode ser, para sempre, um monstro. Há exatamente um único caminho de saída para os caras pálidas perseguidos, e ele leva direitamente para dentro de um buraco negro. Prometemos que voltaríamos a Tanstaafl, e aqui estamos, no final do verão de 2007, logo depois que pegou ‘a coisa judia‘. Não há nada de muito original quanto à sua epifania, o que é exatamente o ponto. Ele cita a si mesmo:

Não é absurdo que alguém sequer pensasse em culpar o cristianismo ou os WASPs pelo surgimento do politicamente correto e de suas consequências catastróficas? Isto, na verdade, não é uma inversão da verdade? O surgimento e disseminação do PC não erodiu o poder do cristianismo, dos WASPs e dos brancos em geral? Culpá-los é, com efeito, culpar a vítima.
Sim, existem cristãos, WASPs e brancos que caíram na lavagem cerebral do PC. Sim, existem alguns que o levaram tão a fundo no coração que trabalham para expandi-lo e protege-lo. Esta é a natureza do PC. Este é seu propósito. Controlar as mentes das pessoas que ele busca destruir. A esquerda, em sua raiz, é totalmente sobre destruição.
Você não tem que ser um anti-semita para notar de onde essas ideias se originam e quem se beneficia. Mas você têm que violar o PC para dizer: Judeus.

Este é o labirinto, a armadilha, com seu circuito lamentavelmente restrito e estereotipado. “Por que não podemos ser preservacionistas raciais fofinhos, como os índios amazônicos? Como é que sempre viramos os Neo-Nazis? É algum tipo de conspiração, o que significa que tem que ser os Judeus.” Desde o meio do século XX, a intensidade política do mundo globalizado tem corrido, quase exclusivamente, a partir da pilha de cinzas craterada do Terceiro Reich. Até que você entenda o padrão, parece misterioso que não haja maneira de fugir dele. Depois de listar alguns blogs que caem sobre a categoria relativamente distinta de ‘nacionalismo branco’, Moldbug adverte:

A Internet também é lar de muitos blogs inquestionavelmente racistas. A maioria é simplesmente ilegível. Mas alguns são mantidos por escritores relativamente capazes. …Nestes blogs racistas, você encontrará, epítetos raciais, anti-semitismo (veja why I am not an anti-Semite) e coisa do tipo. Obviamente, eu não posse recomendar nenhum desse blogs e tampouco eu os linkarei. Contudo, se você estiver interessado na mente do racista moderno, o Google lhe levará lá.

Google é um exagero. Um pouco de pesca de links lhe levará lá. É um problema de ‘seis graus de separação’ (e mais algo como dois, ou menos). Comece a cavar na ‘reactosfera’ realmente existente, e as coisas ficam bastante assombrosamente feias muito rápido. Sim, realmente existe ‘ódio’, pânico e nojo, assim como uma abundância morbidamente viciante de sagacidade sombria e mordaz e um peso desconcertantemente impressionante de fatos críveis (esses caras simplesmente amam estatísticas de morrer). Acima de tudo, logo além do horizonte, há o buraco negro. Se a reação jamais se tornasse um movimento popular, suas poucas linhas esguias de civilidade burguesa (ou talvez sonhadoramente ‘aristocrática’) não segurariam a besta por muito tempo.

Conforme a decência liberal se separou da integridade intelectual e exilou verdades duras, estas verdades encontraram novos aliados e se tornaram consideravelmente mais duras. O resultado é mecânica e monotonamente previsível. Toda ‘guerra de causa’ liberal democrática fortalece e torna mais selvagem aquilo contra o que luta. A guerra à pobreza cria uma subclasse cronicamente disfuncional. A guerra às drogas cria super-drogas cristalizadas e mega-mafias. Adivinha? A guerra ao politicamente incorreto cria lobisomens empoderados por dados, coordenados via web, paranoicos e poli-conspiratórios, soberbamente posicionados para tirar vantagem do iminente encontro da democracia liberal com a ruinosa realidade e, então, desempenhar sua parte na deflagração de dissabores que mal são imagináveis (exceto por uma analogia histórica perturbadora). Quando uma negociação sã, pragmática e embasada em fatos das diferenças humanas é proibida por decreto ideológico, a alternativa não é um reino de paz perpétua, mas uma putrefação de crimideias cada vez mais auto-conscientes e militantemente desafiadoras, nutridas por realidades publicamente inconfessáveis e energizada por mitologias poderosas, atávicas e palpavelmente dissidentes. Isso é óbvio na ‘Net.

Moldbug considera que o perigo do nacionalismo branco foi tanto exagerado quando minimizado. Por um lado, a ‘ameaça’ é simplesmente ridícula e meramente reflete o dogma espiritual neopuritano em sua forma mais histericamente opressiva e teimosamente estúpida. “Deveria ser óbvio que, embora eu não seja um nacionalista branco, eu não sou exatamente alérgico à coisa”, Moldbug observa, antes de descrevê-la como “o sistema de crença mais marginalizado e socialmente excluído na história do mundo …um irritante social obnóxio em qualquer círculo que não inclua motoqueiros tatuados viciados em anfetamina”.

Ainda assim, o perigo permanece, ou melhor, está em construção.

Eu consigo imaginar uma possibilidade que poderia tornar o nacionalismo branco genuinamente perigoso. O nacionalismo branco seria perigoso se houvesse alguma questão sobre a qual os nacionalistas brancos estivessem certos, e todo o resto estivesse errado. A verdade é sempre perigosa. Ao contrário da crença popular, ela nem sempre prevalece. Mas é sempre uma má ideia virar as costas para ela. …Ao passo que a evidência para a biodiversidade cognitiva humana é, de fato, discutível, o que não é discutível é que ela é discutível …[muito embora] todo mundo que não seja um nacionalista branco tenha passado os últimos 50 anos nos informando que não é discutível…

Há bem mais no ensaio de Moldbug, como sempre há. Eventualmente, ele explica porque ele rejeita o nacionalismo branco, por razões que não devem nada aos reflexos convencionais. Mas o coração sombrio do ensaio, que o eleva, para além do brilhantismo, à beira da genialidade, é encontrado logo no início, na borda de um buraco negro:

Por que o nacionalismo branco nos parece mau? Porque Hitler era um nacionalista branco, e Hitler era mau. Nenhuma dessas afirmações é remotamente controversa. Há exatamente um grau de separação entre o nacionalismo branco e o mal. E esse grau é Hitler. Deixe-me repetir: Hitler.

O argumento parece à prova d’água. (À prova de Hitler?) Mas ele não segura qualquer água que seja.

Por que o socialismo nos parece mau? Porque Stalin era um socialista, e Stalin era mau. Qualquer um que queira seriamente argumentar que Stalin era menos mau do que Hitler tem trabalho horrivelmente grande pela frente. Não apenas Stalin ordenou mais assassinatos, sua máquina de assassinatos teve seu auge em tempos de paz, ao passo que a de Hitler pode pelo menos ser vista como um crime de guerra contra civis inimigos. Se isso faz alguma diferença pode ser debatido, mas se faz, coloca Stalin no topo.

E, ainda assim, eu nunca tive, nem vi, nada parecido com as respostas de “alerta vermelho” ao socialismo [“o sentimento da presença do mal”]. Se eu visse uma multidão de pessoas jovens e elegantes fazendo fila na bilheteria de uma cinebiografia hagiográfica de Reinhard Heydrich, arrepios subiriam e desceriam pelo meu pescoço. De Ernesto Guevara, eu não tenho qualquer resposta emocional. Talvez eu achasse que é estúpido e triste. De fato, eu acho que é estúpido e triste. Mas não me assusta.

Qualquer tentativa de ser nuançado, equilibrado ou proporcional no caso moral contra Hitler é interpretar inteiramente mal a natureza do fenômeno. Isto pode ser notado, com bastante regularidade, nas sociedades asiáticas, por exemplo, porque o fantasma do Terceiro Reich não ocupa uma posição central em sua história, ou melhor, em sua religião, embora – enquanto sacrário interno da Catadral – esteja determinado a fazê-lo (e mostra quase todo sinal de estar sendo bem sucedido). Uma breve digressão sobre o mal-entendido transcultural e a cegueira recíproca poder ser merecida neste ponto. Quando os ocidentais prestam atenção no estilo ‘Deus-Imperador’ de devoção política que tem acompanhado o totalitarismo moderno no Leste Asiático, a conclusão tipicamente tirada é que este padrão de sentimento político é exoticamente alienígena, morbidamente divertido e, em última análise, – arrepiantemente – incompreensível. Comparações contemporâneas com líderes democráticos ocidentais risivelmente não-numinosos apenas aprofundam a confusão, assim como o fazem referência semi-marxistas a sensibilidades ‘feudais’ (como se a monarquia absolutista não tivesse sido uma alternativa ao feudalismo, e como se os monarcas absolutos tivessem sido adorados). Como uma figura histórica e política jamais poderia ter sido investida com a dignidade transcendente do significado religioso absoluto? Parece absurdo…

“Olha, eu não estou dizendo que Hitler era um cara particularmente legal…” – imaginar tais palavras já é ver muitas coisas. Poderia até mesmo provocar a questão: Alguém dentro do mundo globalizado (da Catedral) ainda pensa que Adolf Hitler era menos mau do que o próprio Príncipe da Escuridão? Talvez apenas alguns paleo-cristãos espalhados (que teimosamente insistem que Satã é realmente, realmente, mau) e um número ainda menor de ultra-neo-nazis (que pensam que Hitler era meio legal). Para basicamente todo o resto, Hitler personifica perfeitamente a monstruosidade demoníaca, transcendendo a história e a política para alcançar a estatura de um absoluto metafísico: o mal encarnado. Para além de Hitler é impossível ir, ou pensar. Isto certamente é interessante, uma vez que indica uma erupção do infinito dentro da história – uma revelação religiosa, de tipo abraâmico, invertida, mas ainda estruturalmente familiar. (A ‘Teologia do Holocausto’ já implica nisso.)

A este respeito, em vez de Satã, seria mais útil comparar Hitler ao Anticristo, isto é: a um espelho do Messias, de polaridade moral invertida. Houve até mesmo uma tumba vazia. O Hitlerismo, concebido de forma neutra, portanto, é menos uma ideologia pró-nazi do que uma fé universal, especiada dentro da super-família abraâmica e unida no reconhecimento da vinda do puro mal sobre a terra. Embora não seja exatamente adorado (fora dos círculos extraordinariamente vergonhosos em que já nos aventuramos), Hitler é sacramentalmente abominado, de uma maneira que toca em teológicas ‘coisas primeiras’. Se abraçar Hitler como Deus é um sinal de uma confusão político-espiritual altamente lamentável (na melhor das hipóteses), reconhecer sua singularidade histórica e significado sagrado é quase obrigatório, uma vez que ele é afirmado por todos os homens de fé sólida como o exato complemento do Deus encarnado (o anti-Messias revelado, ou Adversário), e esta identificação tem a força de uma ‘verdade auto-evidente’. (Alguém já precisou perguntar por que a reductio ad Hitlerum funciona?)

Convenientemente, assim como o neopuritanismo secularizado que ele engole, o Hitlerismo (aversivo) pode ser seguramente ensinado nas escolas americanas, com um notável alto nível de intensidade religiosa. Na medida em que a história progressiva ou programática continua, isto sugere que a Igreja da Sagrada Abominação Hitlerista eventualmente suplantará suas predecessoras abraâmicas, para se tornar a fé ecumênica triunfante do mundo. Como ela poderia não o fazer? Afinal, ao contrário do deísmo padrão, esta é uma fé reconcilia completamente o entusiasmo religioso com a opinião iluminada, igualmente adaptada, com capacidade anfíbia consumada, aos êxtases convulsivos do ritual popular e às páginas de cartas do New York Times. “O mal absoluto já andou por entre nós, e vive ainda…” Como esta já não é a principal mensagem religiosa de nossos tempos? Tudo que permanece inacabado é a consolidação mitológica e isso há muito tem estado a caminho.

Há ainda algum catar de ossos fragmentados a ser feito entre as cinzas e destroços [na Parte 5], antes de nos voltarmos para coisas mais saudáveis…

Original.

A Palavra com ‘F’

O fascismo está de volta, aparentemente. No mínimo, pode estar se tornando mais interessante se falar sobre ele.

No período imediatamente seguinte à Segunda Guerra Mundia, ambos os blocos triunfantes se moveram rapidamente para definir a palavra ‘fascismo’ de maneira expediente. O objetivo crítico, de cada lado, era enfatizar aquelas características comparativamente minimizadas em sua própria versão doméstica do fenômeno, a fim de sublinhar a impressão de que eles haviam inequivocamente se colocado contra ele. O ‘fascismo’ era, definitivamente, aquela coisa derrotada recentemente e a um custo enorme. Os imensos sacrifícios – e, na verdade, a progressiva reconstrução fascista da sociedade que fora acelerada durante os anos da guerra – eram justificados pela derrota esmagadora de um mal absoluto. A distinção era imperativa. Assim, os soviéticos chamaram atenção, em particular, para o comparativamente abafado anti-capitalismo das potências do Eixo, ao passo que os aliados atlânticos se concentraram nos ornamentos exóticos do arianismo antissemita alemão. É particularmente notável que a definição ocidental predominante de fascismo seja excepcionalmente mal adaptada a sequer a mais básica compreensão do original italiano, e que as narrativas anti-fascistas tanto ocidental quanto soviética sejam compelidas a minimizar o socialismo revolucionário em suas raízes, nas variantes tanto italiana quanto alemã.

Tudo isto é compreensível o suficiente, mas mistifica grosseiramente a realidade do fascismo, que foi simbolizado – universalmente – pela economia de guerra do século XX. Todos os principais competidores da Segunda Guerra – incluindo as grandes potências asiáticas, Japão e China – desenvolveram uma governança fascista em um estado avançado. A característica essencial foi a apreensão estatal do ‘alto comando’ da economia no ‘interesse popular’ delegado (e integrado). Durante o tempo de guerra, tal interesse é revertido à pura sobrevivência e, assim, divulgado com dramática intensidade, o que também é dizer com uma incomum ausência de ceticismo. O fascismo é, portanto, amplamente idêntico a uma normalização dos poderes de guerra do estado moderno, isto é: mobilização social continuada sob uma direção central. Consequentemente, ele envolve, além da centralização da autoridade política em um conselho permanente de guerra, uma histerização tribal da identidade social e uma considerável medida de pragmatismo econômico. O fascismo é o socialismo prático, distinto de seu primo obscuro por sua compreensão bem mais sofisticada de incentivos, ou da natureza humana em sua particularidade motivada individual e tribal. Quando comparado com o comunismo universalista, as vantagens práticas do fascismo são tais que o ‘socialismo realmente existente’ sempre logo vira ele. Nacional-socialismo e socialismo em um país são não coisas sensatamente separáveis. Todo mundo sabe que o significado literal de ‘fascismo’ é agrupamento.

Assim como seus concorrentes europeu continental e soviético, o fascismo americano havia sido completamente consolidado por volta do começo da guerra. O New Deal cimentou seus pilares estruturais no lugar. A socialização da economia através de um banco central, a transformação da Suprema Corte em uma facilitador do sobre-alcance executivo sistemático e a transformação da política de massa através de tecnologias de mídia radio-difusiva compuseram uma ordem política nova e pós-constitucional. É esta formação que está tão flagrantemente entrando em sua fase de demência terminal hoje.

Uma vez que o estado fascista se justifica através da guerra perpétua, ele naturalmente gosta de guerras que não podem acabar. A Guerra Fria parecia uma, mas não era bem isso. A Guerra ao Terror é uma aposta melhor. Em relação a sua interminabilidade, se não sua intensidade moral, as ‘guerras’ à pobreza, às drogas e a outras condições sociais resilientes são mais atraentes ainda. Lutar guerras modernas, e seus produtos secundários, é para o que serve o estado fascista. Vencê-las ocasionalmente, e por acidente, é sempre apenas um infortúnio. A lição parece ter sido inteiramente aprendida.

A recente adaptação para a televisão do profético O Homem do Castelo Alto de Philip K. Dick é uma indicação sugestiva de um despertar ideológico geral. Em contraste dramático com o mito histórico predominante, o fascismo venceu a Segunda Guerra tão decisivamente que seus oponentes foram levados às franjas políticas do paleo-conservadorismo (outrora o conservadorismo mainstream), do libertarianismo (outrora liberalismo mainstream) e do trotskismo (outrora simplesmente ‘comunismo’). A vitória foi tão completa que mesmo objetivos políticos tão descaradamente fascistas como a nacionalização poderiam ser considerados totalmente inocentes da mácula fascista. Não era sequer necessário dizer: “Nacionalização, mas, sabe, não de um jeito fascista”. Seria divertido, se não tivesse arruinado tudo. Talvez ainda seja divertido. É notável que o humor tenha se tornado um bocado mais áspero recentemente.

Uma vez que o fascismo preencheu inteiramente a janela de Overton, ele perdeu contorno e se tornou invisível A palavra persistiu em conversas públicas apenas como um insulto vazio. Sob este disfarce e sob a marca absurdamente enganosa a ele associado, o fascismo americano ascendeu a um estado de dominância hegemônica global. Desde 1989, ele permaneceu essencialmente inconteste, exceto pela birra geopolítica que é o islã radical. Ainda assim, de repente, do campo da esquerda, a candidatura de Trump o lançou em uma crise.

As características fascistas extravagantes da campanha de Trump – e ainda mais de seus exaltados apoiadores na Alt Right – são negáveis apenas por tolos. A escalação anterior de imagens ostensivamente fascistas pela primeira campanha de Obama e por sua subsequente administração não foi menos notável. A convenção estabelecida na sociedade educada de que todos os candidatos presidenciais conservadores são Hitler obscureceu a tendência antes deste ano, em ambos os lados. Muito disto poderia ser reminiscente da tese de Jonah Goldberg de que somos todos fascistas agora, que é quase universalmente descartada de cara, por razões que não estiverem – até recentemente – sob qualquer pressão sociopolítica que seja para se defenderem. É um absurdo óbvio, a classe do controle mental decidiu, e isso deveria ter sido o suficiente para todo mundo. Esses dias estão inequivocamente acabando.
A compreensão geral que permanece incompletamente cristalizada nisto: A democracia tende ao fascismo, devido à sua afinidade fundamental com a mobilização tribal (isto é, seu iliberalismo essencial). A catraca multissecular da democratização ocidental levou, de maneira exata e inexorável, a isto. Se o pior não chegou ainda, ele chegará em breve. Estamos todos próximo de ver isso agora.

Um catalisador especialmente óbvio da radicalização política tem sido a adoção da engenharia demográfica como objetivo político explícito, de assimetria partidária deliberada, com a participação de uma trovoada da retórica aprovada pela elite cultural que não tem sido apenas indiscreta, mas descaradamente triunfalista. Ao descartar medos de ‘genocídio’ branco como malignos e exagerados, não é útil rir em público sobre o contínuo progresso da substituição populacional (à maneira de John Judis e Ruy Teixeira, mais obviamente). Em algum ponto, o exemplo mais celebrado de advocacia do diabo de Berthold Brecht – “Não seria mais fácil… para o governo dissolver o povo e eleger outro?” – trocou de polaridade ideológica, para se tornar uma piada amarga da Alt Right. A nova demografia americana vai realmente ferrar com vocês, caras é divertido para burro, até que – de repente – não é.

Tem havido muitas gargalhadas em 2016, mas não muitos sorrisos. Talvez não demore para que as pessoas percebam o que fizeram.

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