Exumação

Eles o haviam enterrado fundo, tremendo o tempo todo, espalhando seus encantamentos de proteção sobre o túmulo amaldiçoado, como se para sepultar suas memórias ali, enterrando tudo que haviam sabido no barro infinitamente indulgente. O que eles imploravam silenciosamente para esquecer, acima de tudo, era profecia de que, quando as estrelas estivessem certas, ele – aquilo – retornaria para alguma conclusão horrível. O tempo passou, na medida exata que sempre fora necessária, até que a noite sem lua veio, sem anúncio e sem o agito da menor das brisas, quando as estrelas estavam – em fato gelado e brilhante – perfeita e impiedosamente certas

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Notas de Citação (#26)

Otimize a inteligência não é um grito de guerra ao qual Chip Smith está sucumbindo:

… a alta inteligência pode muito bem ser um beco evolutivo sem saída. Eu certamente fico sem saber como apresentar uma boa razão de por que um traço outrora adaptativo, que ocorre de eu e você valorizarmos, deveria gozar de uma defesa especial ante ao ruído algorítmico cego que é a seleção natural.

Mas mesmo que os musculosos em cérebro de fato descubram uma maneira de desafiar a gravidade antes que o sol exploda, eu acho que ainda existem razões para se questionar se a ascensão galopante da mente é realmente digna de aplauso. Nerds futuristas nos informarão de que existe uma miríade de revoluções tecnológicas em andamento – todas encabeçadas por sabichões, podemos estar certos. E eu sugeriria que, dessas, as que convergem na promessa dourada de computação quântica e nanotecnologia poderia aconselhar uma segunda pausa reflexiva – uma que vem por meio do “Não tenho boca e preciso gritar” de Harlan Ellison e se resolve no consolo solene que resta nas explicações mais sombrias que sempre cercaram o Enigma de Fermi.

Talvez eu esteja sendo críptico. O que eu quero considerar é simplesmente que a trajetória evolutiva da inteligência ainda pode levar, e já levou, a coisas muito ruins. Pode um dia ser possível, por exemplo, criar experiência senciente – não sejamos tão audazes de chamá-la de “vida” – não a partir de gametas, mas na medula profunda de estados de quibits [sic] e, se isto vier a ocorrer, não é um salto tão grande imaginar que tais simulações inteligentes – okay, elas estão vivas – serão capazes de sofrer, ou que se fará com que elas sofram, talvez por emoções sádicas, talvez em loops recursivos de intensidade imensurável que se aproximam o suficiente do estado eterno de tortura que se ameaça em toda visão febril do Inferno para tornar a distinção irrelevante.

Utilitaristas não tem nenhum senso de diversão.

(via)

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Horrorismo

A Neorreação, conforme tende à extremidade de seu vetor no Iluminismo Sombrio, frustra todas as demandas familiares por ativismo. Mesmo que a anti-política explícita continue sendo uma postura minoritária, o cálculo demótico da possibilidade política, há muito dominante, é consistentemente subvertido – esvaziando os eleitorados demográficos dos quais se poderia esperar uma ‘mobilização’. Não há nenhuma classe, raça ou credo reacionário remotamente coerente – ela dolorosamente explica – a partir do qual uma política de massas que reverta a maré possa ser construída. A este respeito, mesmo as versões mais brandas de análise neorreacionária são profundamente decepcionantes em termos de política.

Quando as ideologia demotistas entraram em crises superficialmente comparáveis, elas se bifurcaram em ‘realistas’ conciliadores e ‘terroristas’ extremistas. A última opção, que substitui a erosão do fator extensivo (popular) por uma intensificação violenta da vontade política, é um indicador especialmente confiável de que o demotismo está entrando em um estado idealista, no qual suas características ideológicas essenciais são expostas com peculiar clareza. Terroristas são os veículos de ideias políticas que ficaram encalhadas por conta de uma maré vazante de identidade social e estão, assim, liberados para se aperfeiçoarem na abstração da praticidade massiva. Uma vez que um movimento revolucionário se torna demograficamente implausível, terroristas nascem.

O realismo neorreacionário, em contraste, está positivamente alinhado com a recessão da sustentação demótica. Se este não fosse o caso, ele exibiria seu próprio modo específico de política democrática – um evidente absurdo. Qualquer sugestão de raiva frustrada, que se incline a expressões terroristas, imediatamente revelaria uma profunda confusão, ou hipocrisia. Açoitar as massas até a aquiescência ideológica, através da violência exemplar, não pode sequer imaginavelmente ser um objetivo neorreacionário.

O ativismo demotista encontra sua rigorosa ‘contrapartida’ neorreacionária no fatalismo – tricotomizado como providência, hereditariedade e catalaxia. Cada uma destas vertentes do destino trabalha em seu caminho para fora, na ausência do endosso político das massas, com um impulso que se constrói através da dissolução da ação compensatória organizada. Em vez de tentar fazer algo acontecer, a fatalidade restaura algo que não pode ser parado.

É assim que os contornos aproximados da tarefa horrorista emergem em foco. Em vez de resistir ao desespero do ideal progressista aterrorizando seus inimigos, ela se dirige à culminação do desespero progressista no abandono da compensação à realidade. Ela des-mobiliza, des-massifica e des-democratiza, através de intervenções sutis, singulares e catalíticas, orientadas à efetuação do destino. A Catedral tem que ser horrorizada à paralisia. A mensagem horrorista (aos seus inimigos): Nada do que você está fazendo tem qualquer possibilidade de funcionar.

“O que deve ser feito?” não é uma questão neutra. O agente que ela invoca já se estica na direção do progresso. Isso é suficiente para sugerir uma resposta horrorista: Nada. Não faça nada. Sua ‘práxis’ progressista dará em nada, em todo caso. Desespere-se. Receda ao horror. Você pode fingir prevalecer em antagonismo a ‘nós’, mas a realidade é seu inimigo verdadeiro – e fatal. Não temos nenhum interesse em gritar para você. Nós sussurramos, gentilmente, em seu ouvido: “desespere-se”. (O horror.)

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Big Bang – uma apreciação

Algumas razões para se amar o Big Bang:

– O tempo fica tenso novamente.

– O modelo de estado estacionário é provado insustentável – a mais requintada ironia de todos os tempos?

– As teorias físicas agora têm datas cósmicas. Por exemplo, a ainda elusiva teoria unificadora da gravitação quântica corresponde à Época de Planck, quando o universo ainda era bem menor do que um núcleo atômico, compelindo a gravidade a operar na escala quântica. Similarmente, a tecnologia de aceleradores de partículas se torna uma regressão ao tempo profundo.

– A Época de Planck é realmente selvagem: “Durante a era de Planck, o Universo pode ser melhor descrito como uma espuma quântica de 10 dimensões contendo buracos negros de comprimentos de Planck sendo continuamente criados e aniquilados sem qualquer causa ou efeito. Em outras palavras, tente não pensar sobre esta era em termos normais”.

– O vazio se anima. Sten Odenwald cita o físico da UCSB Frank Wilczek: “A razão pela qual há algo ao invés de nada é que nada é instável”.

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Questões

Nydwracu quer que pensemos mais forte, o que tem que ser uma coisa boa (certo?). Então, quais são as questões básicas da neorreação? Isto é importante demais para apressar, então estou inclinada a ficar meta (o que confiavelmente desacelera as coisas).

Primeiro meta-ponto: Se isso for funcionar, tem que ser bem mais rigorosamente afinado. Isso significa um máximo de três problemas básicos cada um, com o objetivo de amalgamação em uma lista de 10, no máximo. O processo de compressão deveria fazer muito do trabalho preparatório. Adicione os 11 originais de Nydwracu aos 10 completamente diferentes de Bryce Laliberte (nos comentários, mesmo link), e o resultado já é uma confusão em expansão que não vai a lugar algum. Nenhuma das listas é notável por sua concisão, como espero que ambos os proponentes admitiriam. “Os 119 problemas básicos da neorreação” não vai afiar ninguém.

De qualquer forma, aqui estão os meus:

(1) O Problema de Odisseu (ou teoria do nó político): Um modelo de poder distribuído pode ser rigorosamente formulado? Eu não estou nem remotamente convencido de que esta questão já foi respondida e me recuso a ficar animado com monarcas até que tenha sido.

(2) Uma teoria rigorosa de catracas degenerativas captura o problema prático básico da neorreação? Se o fizer, um domínio de investigação é determinado em um alto nível de abstração. Se não o fizer, aonde procuramos pela contra-engenharia de catracas (onde quer que seja, estarei passando muito tempo lá).

(3) O que o ‘neo-‘ em ‘neorreação’ significa? Esta é uma questão oportuna, porque estou notando muitas pessoas indo em direção a ela, e os tópicos que ela escava são enormes. Minha própria opinião sobre isso: Qualquer um que pense que Modernidade, Capitalismo e Progresso sejam simplesmente coisas ruins a terem acontecido deveria abandonar o prefixo ‘neo-‘ imediatamente. Depois disso, qualquer um que careça da convicção de precisar dele deveria pensar sobre fazer o mesmo. A simples reação é OK, não é? Moda não é uma boa razão para nada.

James Goulding também tinha um conjunto extremamente interessante de questões básicas (estou preocupado que elas estão perdidas em algum lugar deste blog). Fazê-las aparecerem também contribuiria seriamente para mover isso para frente.

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Estilhaços Nietzscheanos

É hora de ainda outro ‘novo Nietzsche’? Qualquer voga dessas não poderia ser mais do que uma distração, comparada ao que realmente importa, que é que lascas de compreensão nitzscheana se recusam a envelhecer em silêncio e, em vez disso, se refazem como nossas contemporâneas, comentando com espantosa perspicácia sobre o desdobrar do caos dos tempos.

Pode nunca ter havido um pensador mais merecedor de um post de blog curto, esfarrapado e inconclusivo. Eis aqui alguns temas nietzscheanos que ainda estão conosco – ou conosco mais do que nunca.

(1) Vontade de Poder. Poder são meios abstratos, ou capacidade instrumental. Fazer dele o objeto determinante da vontade, portanto, é retorcer a estrutura teleológica ordenada em um circuito reflexivo e paradoxal. A vontade de poder diz que os meios são o fim último e que mesmo aqueles dispostos a simplesmente rejeitar esta fórmula perturbadora são desafiados a aceitar que ela é pelo menos pensável.

(2) Revolta de Escravos na Moralidade. Discriminar entre bom e mau, como foram outrora entendidos, é mau, e apenas aqueles que se opõem a tal discriminação são bons. Alguém, antes ou depois dele, se aproximou da acuidade de Nietzsche em compreender a insanidade sistemática de nossos sistemas dominantes de valor?

(3) Niilismo como Destino. Nos anos finais do século XIX, Nietzsche declarou que o niilismo era a chave interpretativa para entender a história Ocidental dos duzentos anos por vir. O cristianismo, mortalmente ferido por sua própria tolerância à honestidade, estava passando para um eclipse, com nada em posição para lhe substituir. (Não apenas nada, mas Nada, estava à frente.) Alguma coisa ocorreu desde então para refutar esta visão de ruína civilizatória que se amontoa?

(4) Super-homem. A humanidade é algo a ser superada, Nietzsche proclamou, e o transumanismo nasceu. Ciborgues são seus filhos mentais.

(5) Eterno Retorno. Nós compreendemos mal a topologia do tempo e, ao fazê-lo, fechamos os portões que conectam o tempo à eternidade. A recuperação a partir deste maior dos erros separará os fortes dos fracos, estabelecendo a pedra de capeamento da ‘Grande Política’ que se abre no fim do niilismo. Eventualmente, a filosofia do tempo decidirá.

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Frieza

‘Coincidentemente’, uma série de estímulos nas mídias sociais, aparentemente não relacionados, conspiraram para relembrar isto hoje:

political-triangle

Nota: “Políticas mais próximas de mim” vem do criador original deste diagrama (ainda não estou certo de que é esse). As políticas mais próximas de mim estão localizadas no canto direito superior da caixa cinza, onde ela desaparece na escuridão do Lá Fora.

Para constar, estes tweets foram as principais tenazes:

(Demorei um tempo para fazer a conexão)

Há mais um link – também do Twitter – em relação à acusação de que o Anarco-Capitalismo e o Neocameralismo são ‘Utópicos’. Não vou reproduzi-lo aqui, porque foi mais longo e mais envolvido. O ponto relevante é que ambas estas ‘posições’ podem ser interpretadas ou como ideais, e, portanto, de fato, vulneráveis à críticas por seu Utopismo, ou como quadros analíticos frios, que capturam o o que existe, de uma maneira que aumenta sua tratabilidade teórica. O darwinismo não é nem um pouco diferente a este respeito.

Qualquer um que seja um Darwinista Cósmico certamente vai ser uma Darwinista Social, a menos que tenha um problema de consistência cognitiva. Quando um darwinista observa uma má adaptação, ela não é vista como um buraco teórico, mas sim como a base para uma previsão. Pode-se esperar que o que quer que não consiga se reproduzir efetivamente não vá se reproduzir com sucesso. Se aventuras na recomendação de políticas daí se seguem, elas são estritamente secundárias. O que é primário é simples. A realidade rege.

Este blog é, claro, completamente Darwinista Social neste sentido (e provavelmente também em quaisquer outros que estejam disponíveis). As dinâmicas de variação e seleção são insuperáveis. O que quer que busque se afastar delas falhará. A supressão, seja da variação ou da seleção, é intrinsecamente mal adaptada ao cosmos. A maximização de funções interligadas de experimentação e erradicação do erro é o único valor ao qual a natureza última das coisas se subscreve. Qualquer coisa que funcione compreende isso e vai com sua semente. Qualquer coisa que não funcione é objetivamente insana. Não é especialmente difícil, exceto pelo fato de que não nos oferece nada além da (fria) verdade.

O darwinismo define a Direita derradeira (transcendental) (neste sentido e neste)? O capitalismo como socioeconomia darwiniana, a BDH como antropologia darwiniana, os Deuses dos Cabeçalhos de Cadernos como história cultural darwiniana…? Eu não consigo nem imaginar como isso poderia não ser assim.

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