Ciência

Esta (pt) seção de comentários entrou em uma discussão sobre ciência, de considerável complexidade e originalidade. O post em questão se focava em Heidegger, que tem ideias bem definidas sobre a ciência natural, mas essas ideias – dominadas por sua concepção de ‘ontologias regionais’ – não são especialmente dignas de nota, seja para um entendimento da preocupação principal de Heidegger ou para uma compreensão realista do empreendimento científico. Por essa razão, parece sensato recomeçar a discussão em outro lugar (aqui).

A primeira tese crucial sobre a ciência natural – ou ‘filosofia natural’ autônoma – é que ela é um fenômeno exclusivamente capitalista. A existência da ciência, enquanto realidade social efetiva, está estritamente limitada a tempos e lugares nos quais certas estruturas elementares de organização capitalista prevalecem. Ela dependente, de maneira central e definidora, de uma forma moderna de competição. Isso é dizer que não pode haver ciência sem um mecanismo social efetivo para a eliminação da falha, baseado em critérios extra-racionais, inacessíveis à captura cultural.

Se uma empresa ou teoria científica falhou não pode – em última análise – ser uma questão de concordância. Nenhuma decisão política possível, embasada na persuasão e no consenso, pode decidir a questão. Claro, muito do que se passa pelo nome de ciência e empreendimento comercial capitalista está sujeito a exatamente essas formas de resolução, mas, em tais casos, nem o capitalismo, nem a ciência está mais em operação efetiva. Se um apelo ao poder pode garantir viabilidade, o critério da competição é desativado, e a descoberta real deixou de ocorrer.

Sob condições de um processo social capitalista desencadeado, tanto empresas quanto teorias envolvem um aspecto duplo. Sua expressão semiótica é matematizada, e sua operação é testada pela realidade (ou não-politicamente performativa). A matemática elimina a retórica no nível dos sinais, comunicando os resultados experimentais – independente de qualquer exigência de concordância – que determinam a força competitiva. Não é nenhuma coincidência que empresas capitalistas e teorias, quando não suportadas por instituições compatíveis, se voltam para cumplicidade com a guerra e com a decisão militar, que as acompanharam em seu nascimento na Renascença européia. Não se pode ‘debater’ com a derrota militar. É apenas quando a exigência de um debate é deixada de lado – quando o capitalismo começa – que a compulsão realista militar se torna desnecessária.

O capitalismo está em operação onde não há nada para se discutir. Um empresa ou teoria simplesmente está falida (ou não). Se – dados os fatos – as somas não funcionam, acabou. A retórica política não tem nenhum lugar. ‘Ciência politizada’, bastante simplesmente, não é ciência, assim como a atividade empresarial politizada é anti-capitalismo. Nada foi entendido sobre qualquer um dos dois, até que isso o seja.

Na medida em que há qualquer coisa como um ‘contrato social’ na origem do capitalismo – empresa e ciência igualmente – é este: se você insistir em um debate, então vamos ter que lutar. O desempenho real é o único critério crível, para o qual nenhuma estrutura política de disputa pode ser um substituto. A guerra só se torna desnecessária quando (e onde) o debate é suspenso, permitindo que os processos modernos de descoberta empresarial e científica da realidade avancem. Quando o debate se reimpõe, politizando a economia e a ciência, a guerra reemerge, tácita mas inevitavelmente. O antigo e esquecido contrato ressurge. “Se você insistir em um debate, então vamos ter que lutar.” (Esse é o jeito de Gnon.)

É bastante natural, portanto, que a ‘tecnologia’ seja considerada um sumário adequado da cultura capitalista de descoberta. Máquinas – máquinas sociais não menos do que máquinas técnicas – não podem ser retoricamente persuadidas a funcionar. Quando a ciência realmente funciona, é guerra de robôs, na qual a decisão é estabelecida do lado de fora, para além de qualquer apelo à razão. Experimentos bem projetados antecipam o que a guerra diria, de modo que nem um debate nem uma luta seja necessária. Isto é o falsificacionismo popperiano, re-embutido na realidade sócio-histórica. Experimentos que não podem abater são lembranças imperfeitas do campo de batalha primordial.

É intrínseco à Catedral que ela ganhe todos os debates, conforme sucumbe – através da pura vontade-de-poder – à reimposição da sociologia argumentativa. Ao fazê-lo, ela destrói o capitalismo, o empreendimento e a ciência. No fim desta trajetória, ela escava o esquecido contrato social da modernidade. Sua descoberta final é a guerra.

Original.

Horror Abstrato (Nota-2)

Um sobressalto muito especial de alegria para a Noite (de Horror) de Sexta-Feira – um monstro totalmente novo (o ‘Fantasma’):

A maioria dos modelos de energia escura mantém que a quantidade dela permanece constante. Mas cerca de 10 anos atrás, os cosmólogos perceberam que, se a densidade total da energia escura estiver aumentando, poderíamos estar em direção a um cenário de pesadelo – o “grande rasgo”. Conforme o espaço-tempo se expande, cada vez mais rápido, a matéria será dilacerada, começando com os aglomerados de galáxias e terminando com os núcleos atômicos. Os cosmólogos a chamaram de energia “fantasma”.

Para descobrir se isso poderia ser verdade, Dragan Huterer, da Universidade de Michigan em Ann Arbor, se voltou para supernovas de tipo Ia. Estas explosões estelares têm todas o mesmo brilho, de modo que elas agem como padrões cósmicos para medir distâncias. A primeira evidência de que a expansão do universo está se acelerando veio de estudos de supernovas do tipo Ia, no final dos anos 1990.

Se as supernovas estivessem se acelerando para longe umas das outras mais lentamente no passado do que agora, então a densidade da energia escura poderia estar aumentando, e nós poderíamos estar encrencados. “Se você se mover mesmo que seja um milímetro da borda, você cai no abismo”, Huterer diz.

Huterer e seu colega Daniel Shafer compilaram dados de levantamentos recentes sobre supernovas e descobriram que, dependendo de quais levantamentos você usa, poderia haver uma ligeira evidência de que a densidade da energia escura tem aumentado ao longo dos últimos 2 bilhões de anos, mas isso não é estatisticamente significante ainda (Physical Review D, doi.org/vf9)

A energia fantasma é uma teoria azarona, mas as consequências são tão dramáticas que vale a pena testar, diz Huterer. A fraqueza da evidência é equilibrada pelo fato de que as implicações são enormes, diz ele. “Teremos que revisar completamente até mesmo nosso pensamento atual sobre energia escura se o fantasma estiver mesmo trabalhando.”

(Se eu estivesse inventando essas coisas, sobre a totalidade do espaço cósmico sendo um monstro oculto, pronto para despedaçar cada partícula do universo, eu teria dado o nome de ‘Dragan Huterer‘ para o herói também.)

Original.

Antecâmara do Horror II

Algumas passagens de definição de cena da resenha Supernatural Horror in Literature de H. P. Lovecraft:

A mais antiga e mais forte emoção da humanidade é o medo, e a mais antiga e mais forte forma de medo é o medo do desconhecido. Estes fatos poucos psicólogos disputarão, e sua verdade admitida deve estabelecer para todo o tempo a genuinidade e dignidade do conto esquisitamente horrível enquanto forma literária.

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O apelo do espectralmente macabro é geralmente restrito porque ele demanda do leitor um certo grau de imaginação e uma capacidade de distanciamento da vida cotidiana. Relativamente poucos são livres o suficiente do feitiço da rotina diária para responder às batidas do lado de fora…

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Uma vez que lembramos da dor e da ameaça de morte mais vividamente do que do prazer e uma vez que nossos sentimentos em relação aos aspectos benéficos do desconhecido foram, desde o princípio, capturados e formalizados pelos rituais religiosos convencionais, ficou para o lote do lado mais sombrio e mais maléfico do mistério cósmico figurar de maneira principal em nosso folclore popular sobrenatural. Esta tendência, também, é naturalmente realçada pelo fato de que a incerteza e o perigo estão sempre intimamente aliados; tornando, assim, qualquer tipo de mundo desconhecido um mundo de perigo e possibilidades malignas. Quando, a este sentido de medo e maleficência, o inevitável fascínio do maravilhamento e da curiosidade é acrescentado, nasce um corpo composto de aguda emoção e provocação imaginativa, cuja vitalidade deve, por necessidade, durar tanto quanto a própria raça humana. As crianças sempre terão medo do escuro, e homens com mentes sensíveis ao impulso hereditário sempre estremecerão com o pensamento de mundos ocultos e insondáveis, de vida estranha, que podem pulsar nos golfos além das estrelas ou se imprimir horrendamente sobre o nosso próprio globo, em dimensões profanas que apenas os mortos e os lunáticos podem vislumbrar.

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O verdadeiro conto esquisito tem algo mais do que um assassinato secreto, ossos sangrentos ou uma forma envolta em lençóis tinindo correntes, de acordo com a regra. Uma certa atmosfera de pavor ofegante e inexplicável de forças exteriores e desconhecidas deve estar presente; e deve haver uma pista, expressa com uma seriedade e portentosidade que se torna seu assunto, daquela mais terrível concepção do cérebro humano – uma suspensão ou derrota maligna e particular daquelas leis fixas da Natureza que são nossa única salvaguarda contra os ataques do caos e dos demônios do espaço insondável.

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O único teste do realmente esquisito é simplesmente este – se foi ou não excitado, no leitor, um profundo sentido de temor e contato com esferas e poderes desconhecidos; uma sutil atitude de escuta aterrorizada, como se fosse pelo bater de asas negras ou pelo arranhar de formas e entidades exteriores sobre a orla mais remota do universo conhecido.

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Antes de Poe, a maior parte dos escritores esquisitos houvera trabalhado no escuro; sem um entendimento da base psicológica do apelo do horror e prejudicados por mais ou menos da conformidade a certas convenções literárias vazias, tais como o final feliz, a virtude recompensada e, em geral, um didatismo moral oco, aceitação de padrões e valores populares e um esforço do autor de intrometer suas próprias emoções na estória e tomar lados com os partidários das ideias artificiais da maioria. Poe, por outro lado, percebeu a impessoalidade essencial do real artista; e sabia que a função da ficção criativa é meramente expressar e interpretar eventos e sensações como elas são, independente de ao que elas tendem ou do que elas provam – boas ou más, atraentes ou repulsivas, estimulantes ou depressivas – com o autor sempre agindo como um cronista vívido e distanciado, em vez de como um professor, simpatizador ou vendedor de opinião. Ele via claramente que todas as fases da vida e do pensamento são igualmente elegíveis como assunto para o artista e, sendo inclinado por temperamento à estranheza e à melancolia, decidiu ser o interpretador daquele poderoso sentimento e frequentes acontecimentos que tratam da dor ao invés do prazer, da decadência ao invés do crescimento, do terror ao invés da tranquilidade e que são fundamentalmente adversos ou indiferentes aos gostos e sentimentos extrínsecos tradicionais da humanidade e à saúde, sanidade e bem-estar expansivo normal da espécie.

Os espectros de Poe, desta forma, adquiriram uma malignidade convincente, não possuída por nenhum de seus predecessores, e estabeleceram um novo padrão de realismo nos anais do horror literário.

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O público para quem Poe escrevia, embora tivesse grosseiramente pouco interesse em sua arte, não estava de forma alguma pouco acostumado com os horrores com os quais ele lidava. A América, além de herdar o folclore sombrio usual da Europa, tinha um fundo adicional de associações esquisitas no qual se basear… dos agudos interesses espirituais e teológicos dos primeiros colonos, mais a natureza estranha e proibitiva da cena na qual eles foram mergulhados. As vastas e sombrias florestas virgens em cuja penumbra perpétua todos os terrores poderiam bem espreitar; as hordas de índios acobreados cujas fisionomias estranhas e saturninas e costumes violentos insinuavam fortemente traços de origem infernal; a rédea livre, dada sob a influência da teocracia puritana, a todo tipo de noções a respeito da relação do homem com o Deus severo e vingativo dos calvinistas e com o adversário sulfuroso desse Deus, sobre quem tanto se trovejava nos púlpitos a cada domingo; a a mórbida introspecção desenvolvida por uma vida isolada no interior, desprovida dos divertimentos normais e do humor recreativo, assediada pelas ordens de auto-exame teológico, afinada para a repressão emocional antinatural e que formava, sobretudo, uma mera luta severa pela sobrevivência – todas estas coisas conspiravam para produzir um ambiente no qual os sussurros negros de anciãs sinistras eram ouvidos bem além do canto das chaminés, e no qual contos de bruxaria e monstruosidades secretas inacreditáveis perduraram muito depois dos dias de pavor do pesadelo de Salem.

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Dos criadores vivos de medo cósmico elevado a seu tom mais artístico, poucos se quaisquer podem esperar se igualar ao versátil Arthur Machen; autor de uma dúzia de contos, longos e curtos, nos quais os elementos de horror oculto e susto chocante atingem uma sustância e uma agudeza realista quase incomparáveis. …Dos contos de horror do Sr. Machen, o mais famoso talvez seja “The Great God Pan” (1894), que conta sobre um experimento singular e terrível e suas consequências. …O melodrama está inegavelmente presente, a coincidência é estendida a uma distância que parece absurda sob análise; mas, na bruxaria maligna do conto como um todo, essas ninharias são esquecidas, e o leitor sensível chega ao fim com apenas um arrepio apreciativo e uma tendência a repetir as palavras de um dos personagens: “É incríveis demais, monstruoso demais; tais coisas não podem nunca existir neste mundo quieto… Ora, homem, se tal caso fosse possível, nossa terra seria um pesadelo”.

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Para aqueles que apreciam especulações em relação ao futuro, o conto de horror sobrenatural fornece um campo interessante. Combatido por uma onda crescente de realismo laborioso, leviandade cínica e desilusão sofisticada, ele ainda é encorajado por uma maré paralela de crescente misticismo, da forma como foi desenvolvido tanto através da reação fatigada de “ocultistas” e fundamentalistas religiosos contra a descoberta materialista, quanto através da estimulação do maravilhamento e da fantasia por panoramas ampliados e barreiras quebradas tais quais a ciência moderna nos deus, com sua química intra-atômica, astrofísica avançada, doutrinas da relatividade e sondagens na biologia e no pensamento humano.

Original.

Exterminador

Gnon – conhecido, em alguns cultos depravados, como ‘O Grande Deus-Caranguejo’ – é severo e, quando formulado com rigoroso ceticismo, necessariamente real. Ainda assim, esta abominação cancerosa com pinças é risos e amor, em comparação com o horror enterrado sob sombras que espreita por trás dele. Nós agora entendemos que o silêncio das galáxias é uma mensagem de agouro absoluto. Uma coisa há, de incompreensível poder, que toma a vida inteligente como sua presa. (Esta popularização é feita de maneira muito competente.)

Robin Hanson, que tenta estar animado, escreve sobre ela aqui e fala sobre ela aqui. Por trás do sorriso (e do entrevistador drogado), um abismo de lucidez sombria se escancara. Algumas ideias mal-ajeitadas:

(1) O pânico com a UFAI é uma distração desta Coisa. A menos que os mais absurdos cenários de maximizadores de clipes sejam entretidos, a Singularidade não pode importar para ela (como mesmo a central dos maximizadores de clipes concorda). O silêncio das galáxias não é parcial à vida orgânica – não há sinal inteligente vindo de nada. O primeiro evento senciente para qualquer IA verdadeira – amigável ou não – seria o horror cósmico lavador de almas do encontro intelectual com o Grande Filtro. (Se quisermos uma aliança com Pítia, este seria um bom tópico de conversa.) A mesma consideração se aplica a todos os X-riscos tecno-positivos. Entendidos a partir da perspectiva da contemplação do Grande Filtro, este tipo de coisa é um gatilho para o terror cru.

(2) O Grande Filtro não simplesmente caça e fere, ele extermina. Ele é um ameaça absoluta. As civilizações técnicas que ele aborta, ou mais tarde chacina, não são severamente feridas, mas erradicadas ou, pelo menos, aleijadas de maneira tão fundamental que nunca se ouve falar delas novamente. O que quer que esta ruína absoluta seja, ela acontece toda vez. O grito mudo vindo das estrelas diz que nada nunca o escapou. Seu desempenho de matança é perfeito. Pena de morte com probabilidade 1 para a Tecno-Civilização.

(3) A linha da esperança, que colocaria o Exterminador atrás de nós, é altamente sensível à ciência. Conforme nosso conhecimento tem aumentado, ela tem sido constantemente atenuada. Esta é uma questão empírica (sem necessidade a priori.) A vida poderia ter sido complicada, química ou termicamente muito exigente, mesmo resilientemente misteriosa. Na verdade, ela é comparativamente simples, cosmicamente barata, fisicamente previsível. Os planetas poderiam ter sido raros (eles são super-abundantes). A inteligência poderia ter apresentado desafios evolutivos peculiares, mas não há nenhum sinal de que o faça. A tendência científica é futurizar o Exterminador. (Isto é muito ruim.)

(4) Se o Grande Filtro encontra expressão mitológica no caçador, é apenas em um sentido específico – embora um antropologicamente realista. É o caçador que leva à extinção. O Exterminador.

(5) Nós sabemos que O Exterminador existe, mas nada que seja sobre o que ele é. Isto o torna o arquétipo da ontologia horrorista.

Original.