O Iluminismo Sombrio, Parte 4c

Parte 4c: A Fábrica de Crackers

Em um certo sentido, viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, eles estavam assinando uma nota promissória da qual todo americano seria herdeiro. Esta nota era uma promessa de que todos os homens – sim, homens negros tanto quanto homens brancos – teriam garantidos os direitos inalienáveis da vida, da liberdade e da busca pela felicidade. É óbvio hoje que a América deu um calote nessa nota promissória, naquilo que concerne seus cidadãos de cor. Em vez de honrar essa obrigação sagrada, a América deu às pessoas Negras um cheque ruim, um cheque que voltou marcado “fundos insuficientes”.
Martin Luther King Jr.

O conservadorismo… é um movimento de pessoas brancas, uma dispersão de discrepantes, não obstante. Sempre foi, sempre será. Eu já participei de pelo menos uma centena de encontros, conferências, cruzeiros e comemorações conservadoras: deixe eu lhe contar, não há muitas passas nesse pão. Eu entrei e saí dos escritórios da National Review por doze anos e a única pessoa negra que via lá, além de quando Herman Cain vinha chamar, era Alex, o cara que operava a sala de correspondência. (Ei, Alex!)
Isso não é porque o conservadorismo é hostil a negros e mestiços. Muito pelo contrário, especialmente no caso do Conservadorismo S/A. Eles bajulam o ocasional não-branco com uma deferência de filhote que, honestamente, enevoa o ar com embaraço. (P: Como você chama o cara negro num encontro de 1000 Republicanos? R: “Sr. Presidente.”)
É só que os ideais conservadores como autossuficiência e dependência mínima do governo não têm qualquer apelo com as minorias com baixo desempenho – grupos que, na generalidade estatística, estão aquém dos atributos que contribuem para o sucesso do grupo em uma nação comercial moderna.
De que lhes serviria adotar tais ideais? Eles acabariam ainda mais decisivamente reunidos na parte de baixo da sociedade do que estão atualmente.
Uma estratégia muito melhor para eles é se aliar a tantos subgrupos descontentes de brancos e asiáticos quanto conseguirem (homossexuais, feministas, sindicatos de fim de carreira), alcançar maiorias eleitorais e instituir grandes governos redistributivistas para lhes dar empregos de faz de conta e transferir riqueza de grupos bem-sucedidos para eles.
Que é o que, muito racional e sensatamente, eles fazem.
John Derbyshire

Neo-secessionistas estão em todo lugar ao nosso redor… e a liberdade de expressão lhes dá um cobertor confortável de proteção. Rick Perry insinuando que o Texas poderia se separar em vez de aderir à lei federal do sistema de saúde, Todd Palin pertencendo a uma associação política que advoga a secessão do Alaska, e Sharron Angle falando sobre ‘remédio da segunda emenda’ para lidar com disputas com autoridades federais são todos exemplos de uma retórica secessionista perigosa que permeia o discurso moderno. A mídia foca nossa atenção em reencenadores da Guerra Civil e picapes com bandeiras confederadas esvoaçando sobre elas. Mas figuras públicas são influenciadas também, por acadêmicos que lutam para perpetuar um tipo muito perigoso de revisionismo.
Practically Historical

Afro-Americanos são a consciência do nosso país.
– comentador ‘surfed’ no blog de Walter Russell Mead (editado pela ortografia)

O ‘pecado original’ racial da América foi fundacional, datando de antes do nascimento dos Estados Unidos, à limpeza dos povos aborígenes pelos colonizadores europeus e – de forma ainda mais saliente – à instituição da escravidão. Esta é a história do Velho Testamento das relações entre brancos e negros americanos, definida em uma narrativa providencial de escapada do cativeiro, na qual documentação factual e exortação moral estão indissoluvelmente fundidas. A combinação de um abuso social prolongado e intenso, em um padrão estabelecido pela Torá, recapitulando o mito moral-político primordial da tradição ocidental, instalou a estória de escravidão e emancipação como o quadro insuperável da experiência histórica americana: deixe meu povo ir.

‘Practically Historical’ (citado acima), cita Lincoln sobre a Guerra Civil:

Ainda assim, se Deus quiser que continue até que toda a riqueza pilhada pelos duzentos e cinquenta anos de trabalho não recompensado do escravo seja afundada e até que cada gota de sangue extraída com o chicote seja pega por uma outra extraída com a espada, como foi dito três mil anos atrás, assim ainda deverá ser dito “os julgamentos do Senhor são verdadeiros e inteiramente justos”.

O Novo Testamento da raça na América foi escrito nos anos 1960, revisando e especificando o modelo. A combinação do Movimento dos Direitos Civis, com a Lei de Imigração e Nacionalidade de 1965 e a Estratégia Sulista Republicana (apelar para brancos insatisfeitos nos estados da antiga Confederação) forjou um identificação partidária entre Negros e o Partido Democrata que equivalia a um renascimento liberal-progressista, estabelecendo os termos de uma polarização racial partidária que durou – e mesmo se fortaleceu – ao longo das décadas subsequentes. Para um movimento progressista comprometido por uma história de racismo eugenista sistemático, e um Partido Democrata tradicionalmente alinhado com obstinação sulista e com a Ku Klux Klan, a era dos direitos civis apresentou uma oportunidade de expiação, purificação ritual e redenção.

Reciprocamente, para o conservadorismo americano (e seu veículo cada vez mais sem direção que era o Partido Republicano), esta progressão significou uma morte prolongada, por razões que continuam a eludi-lo. A Ideia da América agora era inextricável de uma renúncia veemente do passado e mesmo do presente, na medida em que o passado ainda o moldava. Apenas uma ‘união cada vez mais perfeita’ poderia se conformar a ela. No nível mais superficial, as implicações partidárias mais amplas da nova ordem eram inequívocas, em um país que estava se tornando cada vez mais democrático e cada vez menos republicano, com a soberania efetiva concentrada nacionalmente no executivo, e a urgência moral de um governo ativista instalada como um princípio de fé. Para o que já havia se tornado a ‘Old Right’, não havia saída ou retorno, porque o caminho para trás cruzava o horizonte de eventos do movimento dos direitos civis, para dentro de tratos de impossibilidade política cujo significado derradeiro era escravidão.

A esquerda prospera na dialética, a direita perece através dela. Na medida em que há uma lógica pura da política, ela é essa. Uma consequência imediata (repetidamente enfatizada por Mencius Moldbug) é que o progressismo não tem inimigos à esquerda. Ele reconhece apenas idealistas, cujo tempo ainda não chegou. Conflitos faccionais na esquerda são politicamente dinâmicos, celebrados por seu potencial motriz. O conservadorismo, em contraste, está preso entre a cruz e a espada: espancado pela esquerda pelo rolo compressor do estatismo pós-constitucional e agitado pela ‘direita’ por tendências incoerentes que são tanto inassimiláveis (ao mainstream) quanto muitas vezes mutualmente incompatíveis, indo desde variedades extremas (austro-libertárias) de defesas capitalistas laissez-faire até estirpes de tradicionalismo social obstinado e teologicamente fundamentado, ultra-nacionalismo ou política identitária branca.

‘A direita’ não tem nenhuma unidade, real ou prospectiva e, assim, não tem nenhuma definição simétrica àquela da esquerda. É por esta razão que a dialética política (uma tautologia) que gira em apenas uma direção, previsivelmente, em direção à expansão do estado e a um ideal igualitário substancial cada vez mais coercitivo. A direita se move para o centro, e o centro se move para a esquerda.

Independentemente das fantasias conservadoras mainstream, o domínio liberal-progressista da providência americana se tornou incontestável, dominado por uma dialética racial que absorve contradições ilimitadas, ao passo que posiciona a subclasse afro-americana como a crítica encarnada da ordem social existente, o critério de emancipação e o único caminho para a salvação coletiva. Nenhuma estrutura alternativa de inteligibilidade histórica é politicamente tolerável ou mesmo – estritamente falando – imaginável, uma vez que a resistência à narrativa é anti-americana, antissocial e (claro) racista, servindo apenas para confirmar a existência de uma opressão racial sistemática através da violência simbólica manifesta em sua negação. Argumentar contra ela já é prová-la correta, ao demonstrar concretamente as mesmas forças ignorantes de atraso social que estão sendo verbalmente negadas. Ao resistir à demanda por reeducação social orquestrada, os boçais “amargurados” apenas demonstram o quando ainda há a se fazer.

Em sua forma mais abstrata e abrangente, a dialética liberal-progressista racial abole o seu exterior, junto com qualquer possibilidade de uma consistência de princípios. Ela afirma – a um e mesmo tempo – que a raça não existe e que sua pseudo-existência socialmente construída é um instrumento de violência interracial. O reconhecimento racial é tanto obrigatório quanto proibido. Identidades raciais são meticulosamente catalogadas para propósitos de remediação social, detecção de crimes de ódio e estudos de impacto desigual, que visam grupos para ‘discriminação positiva’, ‘ação afirmativa’ ou ‘promoção de diversidade’ (para listar estes termos em sua ordem aproximada de substituição histórica), mesmo enquanto são denunciadas como sem sentido (pelas Nações Unidas, não menos) e descartadas como estereótipos maliciosos, que não correspondem a nada real. Sensibilidade racial extrema e dessensibilização racial absoluta são exigidas simultaneamente. Raça é tudo e nada. Não há saída.

O conservadorismo é dialeticamente incompetente por definição e tão abjetamente sem noção que ele se imagina sendo capaz de explorar essas contradições, ou – em sua formulação iludida – dissonância cognitiva liberal. Os conservadores que triunfantemente apontam tais inconsistência parecem nunca ter passado os olhos na produção de um programa contemporâneo de humanidades, no qual grossas jangadas de vitimização internamente conflitante são amavelmente tecidas a partir de queixas incompatíveis, a fim de exultar na promessa progressista radical de suas lamentações discordantes. A inconsistência é combustível para a Catedral, exigindo argumentação ativista e realizações cada vez mais elevadas de unidade. O debate público integrador sempre movimenta as coisas para a esquerda – isso poderia não parecer um ponto especialmente difícil de se compreender, mas entendê-lo é expor a futilidade fundamental do conservadorismo mainstream, e isso não é do interesse de quase ninguém, então não será entendido.

O conservadorismo é incapaz de uma dialética funcional, ou contradição simultânea, mas isso não o impede de server ao progresso (pelo contrário). Em vez de celebrar o poder da inconsistência, ele tropeça por entre as contradições, descomprimido, em sucessão, à maneira de uma exibição de fósseis e de uma folha. Depois de “ficar na frente da história, gritando ‘Pare!'” durante a Era dos Direitos Civis e, assim, banindo-se eternamente à danação racial, o mainstream conservador (e Republicano) reverteu o curso, apoderando-se de Martin Luther King Jr como uma parte integral de seu cânone e buscando se harmonizar com “um sonho profundamente enraizado no senho americano”.

Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença: “Consideramos estas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais”.

Eu tenho um sonho que um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter.

Cativado pelo apelo de King ao tradicionalismo constitucional e bíblico, por sua rejeição da violência política e por seus hinos desinibidos à liberdade, o conservadorismo americano gradualmente veio a se identificar com seu sonho de reconciliação e cegueira racial e a aceitá-lo como o significado verdadeiro e providencial de seus próprios documentos mais sagrados. Pelo menos, esta veio a ser a ortodoxia conservadora mainstream e pública, muito embora ela tenha se consolidado tarde demais para neutralizar suspeitas de insinceridade, falhado quase inteiramente em convencer a própria demografia negra e continuasse aberta a um escárnio escalante vindo da esquerda por seu formalismo vazio.

Tão convincente foi a reafirmação de King do Credo Americano que, em retrospectiva, seu triunfo sobre o mainstream político parece simplesmente inevitável. Quanto mais o conservadorismo americanos se afastou do racionalismo maçônico dos fundadores, na direção da religiosidade bíblica, tanto mais indistinguível sua fé se tornou de uma experiência americana negra, miticamente articulada através do Êxodo, no qual o quadro básico da história era de uma escapada do cativeiro, levada em direção a um futuro em que “todos os filhos de Deus – homens negros e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos – poderão juntar as mãos e cantar na palavras do antigo hino negro: ‘Livre afinal! Livre afinal! Graças ao Deus Todo-Poderoso, somos livres afinal!”

A genialidade da mensagem de King está em seu extraordinário poder de integração. A fuga dos hebreus do Egito, a Guerra de Independência Americana, a abolição da escravidão na esteira da Guerra Civil Americana e as aspirações da era dos direitos civis foram miticamente comprimidas em um único episódio arquetípico, perfeitamente consoante com o Credo Americano e levado adiante não apenas por sua força moral irresistível, mas mesmo por um decreto divino. A medida desta genialidade integradora, contudo, é a complexidade que ela domina. Um século após a “alegre alvorada” da emancipação da escravidão, King declara, “o Negro ainda não é livre”.

Cem anos mais tarde, a vida do negro ainda é tristemente paralisada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. Cem anos mais tarde, o Negro vive em uma ilha solitária de pobreza, no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o Negro ainda está lânguido nos cantos da sociedade americana e se descobre um exilado em sua própria terra.

A estória do Êxodo é saída, a Guerra de Independência é saída e a emancipação da escravidão é saída, especialmente quando isto exemplificado pelo Underground Railroad e pelo modelo de auto-liberação, escapada, ou fuga. Ser ‘algemado’ pela segregação, ‘acorrentado’ pela discriminação, estar preso em uma ‘ilha solitária de pobreza’ ou ser ‘exilado’ em sua ‘própria terra’, em contraste, não tem qualquer relação que seja com a saída, além daquela que uma fascinante metáfora possa alcançar. Não há nenhuma saída para a integração e aceitação social, para a prosperidade igualmente distribuída, para a participação pública ou para a assimilação, mas apenas uma aspiração, ou um sonho, refém do fato e da fortuna. Como a esquerda e a direita reacionária foram rápidas em notar, na medida em que esse sonho se aventura significantemente para além de um direito à igualdade formal e para dentro do reino de um remédio político substancial, ele é um sonho a que a direita não tem nenhum direito.

Na sequência imediata do caso John Derbyshire, Jessica Valenti, no blog da The Nation faz o ponto de maneira clara:

… isso não é apenas sobre quem escreveu o que – é sobre as políticas intensamente racista que são típicas do conservadorismo. Algumas pessoas gostariam de acreditar que o racismo é apenas a discriminação explícita e dita em voz alta e o ódio que é facilmente identificável. Não é – é também empurrar políticas xenofóbicas e apoiar a desigualdade sistêmica. Afinal, o que é mais impactante – um racista singular como Derbyshire ou a lei de imigração do Arizona? Uma coluna ou a supressão de eleitores? Livrar-se de um racista de uma publicação não muda o fato de que a agenda conservadora é uma que pune desproporcionalmente e discrimina as pessoas de cor. Então, sinto muito, pessoal – você não pode apoiar a desigualdade estrutural e depois se dar um tapinha nas costas por não ser abertamente racista.

A ‘agenda conservadora’ não pode jamais ser sonhadora (esperançosa e inconsistente) o suficiente para escapar das acusações de racismo – isso é intrínseco à maneira em que a dialética racial funciona. Políticas amplamente compatíveis com o desenvolvimento capitalista, orientadas à recompensa da baixa preferência temporal e, assim, à punição da impulsividade, confiantemente terão um pacto desigual sobre os grupos sociais menos economicamente funcionais. Claro, a dialética demanda que o aspecto racial deste impacto desigual possa e deva ser fortemente enfatizado (para o propósito de condenar incentivos à formação de capital humano como racistas) e, ao mesmo tempo, forçosamente negado (a fim de denunciar exatamente a mesma observação como estereótipo racista). Qualquer um que espere que os conservadores naveguem este dilema com agilidade política e graça deve, de alguma forma, ter perdido o final do século XX. Por exemplo, os idiotas perdedores condenados conservadores do Washington Examiner, notando alarmados que:

Os Democratas da Câmara receberam treinamento esta semana sobre como abordar a questão da raça para defender programas governamentais… O conteúdo preparado de uma apresentação na terça-feira para o Caucus Democrata da Câmara e seu pessoal indica que os Democratas buscarão retratar a retórica de livre mercado aparentemente neutra como sendo carregada de viés racial, consciente ou inconsciente.

Não há versões alternativas a uma união cada vez mais perfeita, porque uma união é a alternativa às alternativas. Buscar onde as alternativas poderiam outrora terem sido encontradas, onde a liberdade ainda significava saída e onde a dialética era dissolvida no espaço, leva para dentro de uma casa de horrores de palhaços, fabricada como a sombra, ou cara-metade, da Catedral. Uma vez que a direita nunca teve uma unidade própria, deu-se uma a ela. Chame-a de Fábrica de Crackers.

Quando James C. Bennett, em The Anglosphere Challenge, buscou identificar as principais características culturais do mundo de língua inglesa, a lista resultante era geralmente familiar. Ela incluída, além da própria língua, tradições do direito comum, individualismo, níveis comparativamente altos de abertura econômica e tecnológica e reservas distintivamente enfáticas sobre o poder político centralizado. Talvez a característica mais impressionante, contudo, era uma tendência cultural marcante de se resolver discordâncias no espaço, em vez de no tempo, optando por cisma territorial, separatismo, independência e fuga, no lugar de transformação revolucionária dentro de um território integrado. Quando os anglófonos discordam, eles frequentemente buscaram se dissociar no espaço. Em vez de um resolução integral (mudança de regime), eles buscam uma irresolução plural (através da divisão de regimes), proliferando estados, localizando o poder e diversificando sistemas de governo. Mesmo em sua forma presente e altamente atenuada, esta predisposição anti-dialética e dessintetizadora à desagregação social encontra expressão em uma hostilidade teimosa e sussurrante aos projetos políticos globalistas e em uma atração vestigial ao federalismo (em seu sentido fissional).

Dividir-se, ou fugir, é tudo saída e anti-dialética (não recuperável). É a fonte básica da liberdade dentro da tradição anglófona. Se a função de uma Fábrica de Crackers é bloquear todas as saídas, há um único lugar para construí-la – bem aqui.

Como o Inferno, ou Auschwitz, a Fábrica de Crackers tem um slogan simples inscrito em seu portão: Escapar é racista. É por isto que a expressão ‘white flight’ – que diz exatamente a mesma coisa – nunca foi denunciada por ser politicamente incorreta, apesar do fato de que ela se baseia numa generalização estatística étnica do tipo que, em qualquer outro caso, provocaria paroxismos de indignação. O ‘white flight’ não é mais ‘branco’ do que a baixa preferência temporal, mas esta insensibilidade de pincel largo é considerada aceitável, porque apoia estruturalmente a Fábrica de Crackers e a indispensável confusão da antiga liberdade (negativa) com o pecado original (racial).

Você absolutamente, definitivamente, não deve ir lá … então, é claro, nós vamos … [a seguir].

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4b

Parte 4b: Observações Desagradáveis

Embora famílias negras e pais de garotos não sejam os únicos que se preocupam com a segurança dos adolescentes, Tillman, Brown e outros pais dizem que criar garotos negros é talvez o aspecto mais estressantes de ser pai, porque estão lidando com uma sociedade é temerosa e hostil em relação a eles, simplesmente por causa da cor de sua pele.

“Não acredita? Fique um dia em meu lugar”, disse Brown.

Brown disse que, aos 14, seu filho está naquela idade crítica em que ele está sempre preocupado com sua segurança por causa da criação de perfis.

“Eu não quero assustá-lo ou fazê-lo generalizar as pessoas, mas, historicamente, nós homens negros temos sido estigmatizados como os perpetradores de crimes e, onde quer que estejamos, somos suspeitos”, disse Brown.

Pais negros que não deixam esse fato claro, ele e outros disseram, o fazem arriscando seus filhos.

“Qualquer pai afro-americano que não esteja tendo essa conversa está sendo irresponsável”, Brown disse. “Eu vejo toda esta coisa como uma oportunidade para falarmos francamente, abertamente e honestamente sobre relações raciais.”
– Gracie Bonds Staples (Star-Telegram)

Quando as comunidades resistem a um influxo de titulares de vales-habitação do Seção 8 vindos do centro da cidade, digamos, eles estão reagindo esmagadoramente a comportamentos. A cor da pele é um indicador desse comportamento. Se os negros do centro da cidade se comportassem como Asiáticos – amontoando tanto conhecimento em seus filhos quanto eles conseguem colocar em seus crânios – a cautela persistente em relação aos negros de renda mais baixa que muitos americanos inquestionavelmente nutrem desapareceriam. Existem racistas irremediáveis entre os americanos? Por certo. Eles vêm em todas as cores, e deveríamos deplorar todos eles. Mas a questão da raça nos Estados Unidos é mais complexa do que a companhia educada geralmente tem permissão de expressar.
– Heather Mac Donald (City Journal)

“Vamos falar sobre o elefante na sala. Eu sou negra, OK?” disse a mulher, recusando-se a se identificar porque antecipou uma reação devido à sua raça. Ela se inclinou para olhar para o repórter direto nos olhos. “Haviam garotos negros roubando casas nesta vizinhança”, ela disse. “É por isto que George suspeitou de Trayvon Martin.”
— Chris Francescani (Reuters)

“Em suma, a dialética pode ser definida como a doutrina da unidade dos opostos. Isto incorpora a essência da dialética”, Lenin observa, “mas isso requer explicações e desenvolvimento”. Isto é: mais discussão.

A sublimação (Aufhebung) do Marxismo no Leninismo é uma eventualidade que é melhor compreendida de maneira crua. Ao forjar um política comunista revolucionária de ampla aplicação, quase inteiramente divorciada das condições materiais maduras ou das contradições sociais avançadas que foram anteriormente antecipadas, Lenin demonstrou que a tensão dialética coincidia, exaustivamente, com sua politização (e que toda referência a uma ‘dialética da natureza’ não é mais do que uma subordinação retrospectiva do domínio científico a um modelo político). Dialéticas são tão reais quanto são feitas ser.

A dialética começa com uma agitação política e não se estende para além de sua ‘lógica’ prática, antagonista, faccional e de coalizão. Ela é a ‘superestrutura’ por si só, ou contra a limitação natural, apropriando-se de maneira prática da esfera política, em sua extensão inteligível mais ampla, como uma plataforma para a dominação social. Onde quer que haja discussão, há uma oportunidade não resolvida para governar.

A Catedral encarna estas lições. Ela não tem qualquer necessidade de esposar o Leninismo, ou dialética operacional comunista, porque não reconhece nada mais. Dificilmente há um fragmento da ‘superestrutura’ social que tenha escapado da reconstrução dialética através de antagonismo articulado, polarização, estruturação binária e reversão. Dentro da academia, da mídia e mesmo das belas artes, a super-saturação política prevaleceu, identificando mesmo os elementos mais minúsculos da apreensão com uma ‘crítica social’ conflituosa e com a teologia igualitária. O comunismo é a implicação universal.

Mais dialética é mais política, e mais política significa ‘progresso’ – ou migração social para a esquerda. A produção de concordância pública leva apenas em uma direção e, dentro da discordância pública, tal ímpeto já existe em embrião. É apenas na ausência de concordância e de uma discordância publicamente articulada, ou seja, na não-dialética, no não-argumento, na diversidade sub-política ou iniciativa politicamente descoordenada que o refúgio ‘direitista’ da ‘economia’ (e, de maneira mais ampla, da sociedade civil) será encontrado.

Quando nenhuma concordância é necessária ou coercitivamente exigida, a liberdade negativa (ou ‘libertária’) ainda é possível, e este ‘outro’ não argumentativo da dialética é facilmente formulado (mesmo que, em uma sociedade livre, ele não precise ser): Faça suas próprias coisas. Bastante claramente, este imperativo irresponsável e negligente é politicamente intolerável. Ele coincide exatamente com a depressão esquerdista, retrocesso ou despolitização. Nada clama mais urgentemente por ser contra argumentado.

No extremo oposto está o êxtase dialético da justiça teatral, na qual a estrutura argumentativa dos procedimentos legais é associada à divulgação por meio da mídia. O entusiasmo dialético encontra sua expressão definitiva em um drama de tribunal que combina advogados, jornalistas, ativistas comunitários e outros agentes da superestrutura revolucionária na produção de um julgamento-show. Contradições sociais são encenadas, casos antagonistas articulados, e uma resolução, institucionalmente esperada. Isto é Hegel para o horário nobre da televisão (e agora para a Internet). É a maneira em que a Catedral compartilha sua mensagem com as pessoas.

Às vezes, em suas paixão impaciente pelo progresso, essa mensagem pode tropeçar em si mesma, porque, muito embora os agentes da Catedral sejam infinitamente razoáveis, eles são cada vez menos sensatos, muitas vezes surpreendentemente incompetentes, e estão propensos a cometer erros. Isto deve ser esperado com bases teológicas. Conforme o estado se torna Deus, ele se degenera em imbecilidade, no modelo do santo tolo. A política midiática do espetáculo de Trayvon Martin fornece um exemplo pertinente.

Nos Estados Unidos, como em qualquer outro país grande, muitas coisas acontecem todos os dias, exibindo inúmeros padrões de obscuridade variante. Por exemplo, em um dia médio, há aproximadamente 3400 crimes violentos, incluindo 40 assassinatos, 230 estupros, 1000 assaltos e 2100 agressões agravadas, ao lado de 25.000 crimes não violentos de propriedade (roubos e furtos). Muito poucos destes serão amplamente divulgados ou aproveitados como educacionais, exemplares e representativos. Mesmo que a mídia não estivesse inclinada a uma seleção baseada em narrativa das ‘boas estórias’, o simples volume de incidentes compeliria a algo do tipo. Dada esta situação, é quase inevitável que as pessoas perguntem: Por que estão nos contando isto?

Quase tudo sobre a morte de Trayvon Martin é controverso, exceto pela motivação da mídia. Sobre este tópico, há quase uma unanimidade. O significado ou mensagem pretendida da estória do caso dificilmente poderia ter sido mais transparente: A paranoia racista branca torna a América perigosa para pessoas negras. Ele assim ensaiaria a dialética do terror racial (seu medo é assustador), feita – como sempre – para converter o pesadelo social recíproco da América em uma peça de moralidade unilateral, alocando o pavor legítimo exclusivamente a um lado da divisão racial principal do país. Parecia perfeito. Um vigilante branco malignamente enganado atira em uma criança negra inocente, justificando o medo negro (‘a conversa’) enquanto expõe o pânico branco como um psicose assassina. Esta é uma estória de tamanho significado arquetípico progressista que não pode ser contada vezes demais. Na verdade, é boa demais para ser verdadeira.

Logo se tornou evidente, contudo, que a seleção da mídia – mesmo quando reforçada pela máquina de raiva de celebridades / ‘ativistas comunitários’ – não fora suficiente para manter a estória no script, e ambos os atores principais estavam se distanciando de seus papeis atribuídos. Se os estereótipos endossados pelos progressistas devessem ser sequer remotamente preservados, uma vigorosa edição seria exigida. Isso foi especialmente necessário porque certos leitores maus, racistas e preconceituosos do Miami Herald estavam começando a forjar uma conexão mental destruidora de narrativas entre ‘Trayvon Martin’ e ‘ferramenta de assalto’.

Quanto ao assassino, George Zimmerman, o nome dizia tudo. Ele claramente iria ser um cara pálida, desajeitado, parecido com um storm-trooper, com esperança algum tipo de cristão louco por armas e, talvez – se eles realmente achassem ouro, – um tipo dos movimentos de milícia, com um histórico de homofobia e ativismo anti-aborto. Ele começou ‘branco’ – por nenhuma razão óbvia além da incompetência midiática e da programação narrativa – e depois se viu transformado em um ‘hispânico branco’ (uma categoria que parece ter sido rapidamente inovada no momento), antes de ser gradualmente deslocado ao longo de uma série de complicações étnicas cada vez mais compatíveis com a realidade, culminando na descoberta de seu bisavô afro-peruano.

No coração da Catedral, estava bem na hora de coçar a cabeça. Aqui estava o grande réu amerikkkano, sendo preparado para seu julgamento-show, o Presidente havia contribuído emocionalmente em nome da sagrada vítima, e o jogo coordenado no solo havia sido avançado à beira fervilhante de revoltas raciais, quando a mensagem começou a cair aos pedaços, em tal medida que agora ameaçava a se degenerar em um caso irritantemente irrelevante de violência de negros contra negros. Não era apenas que George Zimmerman tinha uma ancestralidade negra – o que o tornava simplesmente ‘negro’ pelos padrões construtivistas sociais da própria esquerda – ele também havia crescido amigavelmente entre pessoas negras, com duas garotas afro-americanas como “parte do lar por anos”, havia entrado em um empreendimento em conjunto com um parceiro negro, era um democrata registrado e até mesmo algum tipo de ‘organizador comunitário’…

Então, por que Martin morreu? Foi por carregar chá gelado e um pacote de Skittles sendo negro (a versão ‘poderia ter sido o Obama filho’, aprovada pela mídia e por ativistas comunitários), por ir verificar alvos de assaltos (a versão do perfilamento racial kluxer) ou por quebrar o nariz de Zimmerman, derruba-lo, sentar em cima dele e golpear sua cabeça repetidamente contra o calçada (a ser decidido no tribunal)? Ele era um mártir da injustiça racial, um predador social de baixo nível ou um sintoma humano da crise urbana americana? A única coisa que estava realmente clara quando os procedimentos legais começaram, além da tristeza esquálida do episódio, era que ele não estava resolvendo nada.

Para uma sensação do quão desconcertantemente a lição aprovada havia se desintegrado no momento em que Zimmerman foi acusado de assassinato em segundo grau, só é necessário ler este post do blogueiro BDH oneSTDV, que descreve os distúrbios dialéticos da direita guerreira racial.

Apesar da natureza perturbadora das “acusações” contra Zimmerman, muitos da alt-right recusam conceder a Zimmerman qualquer simpatia ou sequer ver isto como um momento seminal no reino anarco-tirano do esquerdismo moderno. De acordo com estes indivíduos, os mestiço, falante de espanhol e democrata registrado, recebeu o que estava em seu caminho – a ira da multidão negra e da elite de esquerda indiretamente apoiada pelo próprio Zimmerman. Devido ao seu histórico de votação, antecedentes multiculturais e tutelagem de jovens de minorias, eles vêem Zimmerman como emblemático do ataque da esquerda à América branca, um tipo de soldado na campanha contra a brancura americana. [Negrito no original]

A política popular do politicamente correto estava pronta para seguir adiante. Com o grande julgamento-show colapsando em desordem narrativa, era hora de refocar na Mensagem, que se danem os fatos (que se danem duplamente). ‘Jezebel‘ melhor exemplifica o tom ameaçador e vagamente histérico:

Você sabe como dizer se as pessoas negras ainda são oprimidas? Porque as pessoas negras ainda são oprimidas. Se você alega que você não é uma pessoa racista (ou, pelo menos, que você está comprometido em trabalhar para caralho para não ser uma – o que, na verdade, é o melhor que qualquer um nós pode prometer), então você tem que acreditar que as pessoas são fundamentalmente nascidas iguais. Logo, se isso é verdade, então, em um vácuo, fatores como cor da pele não deveriam ter nenhum efeito sobre o sucesso de ninguém. Certo? E, portanto, se você realmente acredita que todas as pessoas são criadas iguais, então, quando você vê que desigualdades raciais drásticas existem no mundo real, a única coisa que você poderia concluir é que alguma força externa está segurando algumas pessoas. Como… o racismo. Certo? Então, parabéns. Você acredita em racismo! A menos que você não acredite realmente que as pessoas nasçam iguais. E, se você não acredita que as pessoas nascem iguais, então você é a p**** de um racista.

Alguém “realmente acredita que as pessoas nascem iguais”, da maneira que se entende isso aqui? Acredita, isto é, não apenas que uma expectativa formal de tratamento igual é um pré-requisito da interação civilizada, mas que qualquer desvio revelado da igualdade substancial de resultado é uma indicação óbvia e inequívoca de opressão? Que isso é “a unica coisa que você poderia concluir”?

No mínimo, Jezebel poderia ser parabenizada por expressar a fé progressista em sua forma mais pura, inteiramente descontaminada de sensibilidade à evidência ou à incerteza de qualquer tipo, casualmente desdenhosa de qualquer pesquisa relevante – quer existente ou meramente concebível – e supremamente confiante sobre sua própria invencibilidade moral. Se os fatos estão moralmente errados, tanto pior para os fatos – está é a única posição que poderia ser adotada, mesmo se for embasada em uma mistura de pensamento desejoso, ignorância deliberada e mentiras insultantemente infantis.

Chamar a crença na igualdade substancial humana de superstição é insultar a superstição. Pode ser injustificado acreditar em leprechauns, mas pelo menos a pessoa que mantém tal crença não está assistindo-os não existir, a cada hora de vigília do dia. A desigualdade humana, em contraste e em toda a sua multiplicidade abundante, está constantemente em exposição, conforme as pessoas exibem suas variações em gênero, etnia, atratividade física, tamanho e forma, força, saúde, agilidade, charme, humor, sagacidade, diligência e sociabilidade, ente outras inúmeras características, traços, habilidades e aspectos de sua personalidade, algumas de forma imediata e conspícua, algumas apenas lentamente, ao longo do tempo. Absorver mesmo a mais mínima fração disso tudo e concluir, da única maneira possível, que ou não é nada em absoluto, ou que é um ‘construto social’ e um índice de opressão, é puro delírio Gnóstico: um comprometimento, para além de toda evidência, com a existência de um mundo verdadeiro e bom, velado pelas aparências. As pessoas não são iguais, elas não se desenvolvem igualmente, suas metas e realizações não são iguais, e nada pode torná-las iguais. A igualdade substancial não tem qualquer relação com a realidade, exceto enquanto sua negação sistemática. Violência em uma escala genocida é necessária para sequer se aproximar do programa igualitário prático e, se qualquer coisa menos ambiciosa for tentada, as pessoas a contornam (algumas de maneira mais competente que as outras).

Para tomar apenas o exemplo mais óbvio, qualquer um com mais do que um filho sabe que ninguém nasce igual (exceto, talvez, gêmeos monozigóticos e clones). Na verdade, todo mundo nasce diferente, de inúmeras maneiras. Mesmo quando, – como normalmente é o caso – as implicações dessas diferenças para os resultados da vida são difíceis de prever com confiança, sua existência é inegável ou, pelo menos: sinceramente inegáveis. Claro, sinceridade, ou mesmo uma coerência cognitiva mínima, não é nem remotamente a questão aqui. A posição de Jezebel, embora impecável em sua correção política, não é apenas factualmente duvidosa, mas sim risivelmente absurda e, na verdade – estritamente falando – insana. Ela dogmatiza um negação da realidade tão extrema que ninguém poderia genuinamente manter, ou sequer entretê-la, muito menos plausivelmente explicá-la ou defendê-la. Ela é um princípio de fé que não pode ser entendido, mas apenas afirmado ou aceito, como loucura tornada lei, ou religião autoritária.

O mandamento político desta religião é transparente: Aceite a política social progressista como a única solução possível para o pecado problema da desigualdade. Este comando é um ‘imperativo categórico’ – nenhum fato possível jamais poderia miná-lo, complicá-lo ou revisá-lo. Se a política social progressista na verdade resultar em uma exacerbação do problema, a realidade ‘caída’ deve ser culpada, uma vez que o mal social é obviamente pior do que se vislumbrara anteriormente e apenas esforços redobrados na mesma direção podem esperar remediá-lo. Não pode haver nada a se aprender em questão de fé. Eventualmente, o colapso social sistemático ensina a lição que a falha crônica e a deterioração incremental não puderam comunicar. (Isso é o darwinismo social em escala macro para principiantes, e é a maneira em que a civilização acaba.)

Devido a sua excepcional correlação com uma variação substancial nos resultados sociais nas sociedades modernas, de longe a dimensão mais problemática da biodiversidade humana é a inteligência ou capacidade geral de resolução de problemas, quantificada como QI (que mede o ‘g’ de Spearman). Quando o ‘senso comum estatístico’ ou perfilamento é aplicado aos proponentes da Bio-Diversidade Humana, contudo, um outro traço significativo rapidamente é exposto: um déficit notavelmente consistente de condescendência. De fato, é amplamente aceito dentro da própria ‘comunidade’ amaldiçoada que a maior parte daqueles teimosos e esquisitos o suficiente para se educarem sobre o tópico da variação biológica humana são significantemente ‘retardados socialmente‘, com baixa inibição verbal, baixa empatia e baixa integração social, o que resulta em má adaptação crônica às expectativas do grupo. Os EQs típicos deste grupo podem ser extraídos como a raiz quadrada aproximada de seus QIs. Um autismo moderado é típico, suficiente para aproximar seus companheiros em um espírito de curiosidade natural-científica desprendida, mas não tão avançado ao ponto de compelir um desengajamento cósmico total. Estes traços, que eles próprios consideram – com base na copiosa informação técnica – como sendo substancialmente herdáveis, têm consequências sociais manifestas, que reduzem oportunidades de emprego, rendas e mesmo potencial reprodutivo. A despeito de todo o conselho terapêutico gratuito disponível no ambiente progressista, esta desagradabilidade não demonstra qualquer sinal de estar diminuindo e pode mesmo estar se intensificando. Como Jezebel mostra tão claramente, isto só pode ser um signal de opressão estrutural. Por que as pessoas desagradáveis não podem ter uma pausa?

A história é condenadora. Os ‘sociáveis’ sempre tiveram um rancor pelos desagradáveis, frequentemente declinando se casar ou fazer negócios com eles, os excluindo das atividades do grupo e de cargos políticos, os rotulando com insultos, os ostracizando e evitando. A ‘desagradabilidade’ foi estigmatizada e estereotipada em termos extremamente negativos, em tal medida que muitos dos desagradáveis buscaram rótulos mais sensíveis, tais como ‘deficientes sociais’, ou ‘sócioatípicos’. Não raro, pessoas foram verbal ou mesmo fisicamente agredidas por nenhuma outra razão além de sua desagradabilidade radical. Mais trágico de tudo, devido à sua completa incapacidade de se relacionarem uns com os outros, os desagradáveis nunca foram capazes de se mobilizar politicamente contra a opressão social estrutural que enfrentam ou de entrar em coalizações com seus aliados naturais, tais como cínicos, refutadores, contrarianistas e aqueles que sofrem com síndrome de Tourette. A desagradabilidade ainda tem que ser libertada, embora seja provável que a Internet ‘ajude’…

Considere o ensaio em infâmia de John Derbyshire, The Talk: Nonblack Version, que foca inicialmente em sua implacável desagradabilidade e está atento à correlação negativa entre sociabilidade e razão objetiva. Como Derbyshire observa em outros lugares, as pessoas geralmente são incapazes de se diferenciar de suas identidade de grupo ou de aplicar apropriadamente generalizações estatísticas sobre grupos a casos individuais, incluindo os seus próprios. Um reificação racionalmente indefensável, mas socialmente inevitável, dos perfis de grupo é psicologicamente normal – até mesmo ‘humana’ – com o resultado de que informação estatística ruidosa e não específica é erroneamente aceita como uma contribuição para o auto-entendimento, mesmo quando informações específicas estão disponíveis.

Da perspectiva da análise racional socialmente autista e de baixo QE, isto está simplesmente equivocado. Se um indivíduo tem certas características, o fato de pertencer a um grupo que tem características médias similares ou dissimilares não tem qualquer relevância que seja. Informações diretas e determinadas sobre o indivíduo não são, em nenhum grau, enriquecidas por informações indiretas e indeterminadas (probabilísticas) sobre os grupos aos quais o indivíduo pertence. Se os resultados individuais de um teste são conhecidos, por exemplo, nenhuma compreensão adicional é fornecida por inferências estatísticas sobre os resultados do teste que poderiam ter sido esperados com base no perfilamento do grupo. Um judeu asquenaze imbecil não é menos imbecil porque ele é um judeu asquenaze. É pouco provável que freiras chinesas idosas sejam assassinas, mas uma assassina que ocorra de ser um freira chinesa idosa não é nem mais nem menos assassina do que uma que não o seja. Isto é tudo extremamente óbvio, para as pessoas desagradáveis.

Para as pessoas normais, contudo, não é óbvio de maneira alguma. Em parte, isto é porque a inteligência racional é escassa e anormal entre humanos e, em parte, porque a ‘inteligência’ social funciona com o que o resto das pessoas está pensando, ou seja, com um sentimento irracional de grupo, pouca informação, preconceitos, estereótipos e heurística. Uma vez que (quase) todas as outras pessoas estão tomando atalhos, ou ‘economizando’ razão, é apenas racional reagir defensivamente a generalizações que provavelmente serão reificadas ou inapropriadamente aplicadas – superando ou substituindo percepções específicas. Qualquer um que antecipe ser predefinido através de um identidade de grupo tem um ego-investimento expandido naquele grupo e na maneira em que ele é percebido. Uma avaliação genérica, por mais objetivamente que tenha sido alcançada, se tornará imediatamente pessoal, sob condições (mesmo bastante remotamente) normais.

A razão desagradável pode teimosamente insistir que qualquer coisa na média não pode ser sobre você, mas a mensagem não será, em geral, recebida. A ‘inteligência’ social humana não é construída dessa maneira. Mesmo comentadores supostamente sofisticados tropeçam repetidamente nas exibições mais chocantes de incompreensão estatística, sem o menor embaraço, porque o embaraço foi feito para alguma outra coisa (e quase exatamente para o oposto). A falha em entender estereótipos em sua aplicação científica ou probabilística é um pré-requisito funcional da sociabilidade, uma vez que a única alternativa à idiotice, neste aspecto, é a desagradabilidade.

O artigo de Derbyshire é digno de nota porque é bem sucedido em ser definitivamente desagradável e tem sido reconhecido como tal, apesar da incoerência espumante da maioria das réplicas. Entre as coisas que ‘a conversa’ e ‘a contra-conversa’ compartilham está uma estrutura teatral de conversação pseudo-privada feita para ser ouvida. Em ambos os casos, uma mensagem que pais são compelidos a entregar a seus filhos é encenada como o veículo de uma lição social mais ampla, visando aqueles que, por ação ou inação, criaram um mundo que é intoleravelmente perigoso para eles.

Esta forma é intrinsecamente manipuladora, o que torna mesmo a conversa ‘original’ um alvo tentador de paródias. No original, contudo, um tom de sinceridade angustiada é projetado através de uma performance deliberada de inocência (ou ignorância). Ouça filho, eu sei que isso vai ser difícil de entender… (Ó, por quê, por que estão fazendo isto conosco?). A contra-conversa, em forte contraste, funde seu drama microssocial com o discuso clinicamente não-sociável de “pesquisas metódicas nas ciências humanas” – tratando populações como unidades biogeográficas vagas com características quantificáveis, em vez de como sujeitos jurídico-políticos em comunicação. Ela ridiculariza a inocência e – por implicação – o critério da própria sociabilidade. Concordância, condescendência, não contam para nada. As estatísticas rigorosa e redundantemente compiladas dizem o que dizem e, se não conseguimos viver com isso, tanto pior para nós.

Ainda assim, mesmo para uma leitura razoavelmente simpática, ou escrupulosamente desagradável, o artigo de Derbyshire fornece bases para críticas. Por exemplo, e desde o começo, é notável que o recíproco racial de “americanos não-negros” é “americanos negros”, e não “negros americanos” (o termos que Derbyshire seleciona). Esta inversão da ordem das palavras, trocando substantivos e adjetivos, rapidamente se assenta em um padrão. Tem importância que Derbyshire exija a extensão da civilidade para qualquer “negro individual” (em vez de aos ‘indivíduos negros’)? Certamente faz diferença. Dizer que alguém é ‘negro’ é dizer algo sobre ela, mas dizer que alguém é ‘um negro’ é dizer quem ela é. O efeito é sutilmente, mas distintivamente, ameaçador, e Derbyshire é bem treinado demais, algebraicamente, para ser desculpado de observar isso. Afinal, ‘John Derbyshire é um branco’ soa igualmente estranho, assim como o faz qualquer formulação análoga, que submerge o indivíduo no gênero, a ser recuperado como uma mera instância ou exemplo.

O aspecto mais intelectualmente substantivo deste logro de incivilidade gratuita foi examinado por William Saletan e Noah Millman, que fizeram pontos muito similares, dos dois lados da divisa liberal/conservador. Ambos os autores identificam um fissura ou incongruência metódica no artigo de Derbyshire, decorrente de seu comprometimento com a aplicação microssocial de generalizações estatísticas macrossociais. Estereótipos, por mais rigorosamente confirmados que sejam, são essencialmente inferiores ao conhecimento específico em qualquer situação social concreta, porque ninguém nunca encontra uma população.

Como um liberal de posições problemáticas, Saletan não tem escolha alguma além de recuar melodramaticamente das “conclusões de revirar o estômago” de Derbyshire, mas suas razões para fazê-lo não são consumadas por suas crise gastro-emocional. “Mas o quê, exatamente, é uma verdade estatística?” ele pergunta. “É uma estimativa de probabilidade a que você pode recorrer se você não souber nada sobre [um indivíduo em particular]. É o substituto fraco de uma pessoa ignorante para o conhecimento.” Derbyshire, com sua atenção de Aspergers à ausência de vencedores negros da Fields Medal, é “…um nerd matemático que substitui a inteligência social pela inteligência estatística. Ele recomenda cálculos de grupo em vez de se dar ao trabalho de aprender sobre a pessoas que está na sua frente”.

Millman enfatiza a inversão irônica que transforma o (desagradável) conhecimento científico social em ignorância imperativa:

Os “realistas raciais” gostam de dizer que eles são os que estão curiosos quanto ao mundo e que os tipos “politicamente corretos” são os que preferem ignorar a feia realidade. Mas o conselho que Derbyshire dá a seus filhos os encoraja a não serem curiosos demais sobre o mundo a seu redor, por medo de se machucarem. E, como regra geral, esse é conselho terrível para crianças – e não é o conselho que Derbyshire tem seguido em sua própria vida.

A conclusão de Millman também é instrutiva:

Então, por que eu sequer estou argumentando com Derb? Bem, porque ele é um amigo. E porque mesmo conversas preguiçosas e socialmente irresponsáveis precisam ser refutadas, não meramente denunciadas. O artigo de Derbyshire é racista? Claro que é racista. Todo o seu ponto é que é tanto racional quanto moralmente correto que seus filhos tratem pessoas negras de maneira significativamente diferente das pessoas brancas e tenham medo delas. Mas “racista” é um termo descritivo, não moral. A turma “realista racial” está fortemente convencida da precisão das principais premissas de Derbyshire, e eles não vão ser convencidos a abandonar essa convicção pela afirmação de que tal convicção é “racista” – tampouco, honestamente, eles deveriam ser. Por esta razão, eu sinto que é importante argumentar que as conclusões de Derbyshire não se seguem, de maneira simples, daquelas premissas e estão, na verdade, moralmente incorretas, mesmo que aquelas premissas sejam concedidas por bem do argumento.

[Breve intervalo…]

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Hiper-Racismo

Embora este blog geralmente busque espalhar desalento quando quer que a oportunidade surja, ele não pode fingir uma enorme obsessão pelo que poderia ser descrito como racismo ordinário. Ao examinar os crimes de pensamento da comunidade racista mainstream, ele é continuamente afligido por um senso de esmagadora irrealidade. Isto não é (claro) porque raças não existam ou não difiram significativamente ou… o que quer que seja. A posição cognitiva mais politicamente incorreta sobre quase todos os pontos deste tipo está confiavelmente mais próxima da realidade do que suas alternativas mais socialmente convenientes e reconfortantes.

O problema com o racismo ordinário é sua total incompreensão do futuro próximo. Não apenas as capacidades de manipulação genômica dissolverão a identidade biológica em processos tecno-comerciais de radicalidade ainda incompreensível, mas também… outras coisas.

Primeiro, um esboço da disputa racismo-antirracismo existente em sua forma comum ou dominante. A posição antirracista ou humanista universal – quando extraída de suas expressões social-construtivistas e alt-racistas hipócritas mais idiotas – equivale a um programa para o agrupamento genético global. As barreiras culturais à visão utópica de um pool genético ‘humano’ unitário, agitado com um ardor crescente até uma mistura homogênea, são deploradas como obstruções atávicas à realização de uma humanidade verdadeira e comum. Raças não existirão uma vez que forem reduzidas, por política prática e indiscriminação libidinal, a relíquias da partição histórica contingente. Em contraste, o identitarismo racial prevê uma conservação de um (comparativo) isolamento genético, geralmente determinado por limites que correspondem a uma variação fenotípica conspícua. Ele é realista racial, no sentido de que admite ver o que todo mundo de fato vê – ou seja, padrões consistentes de variedade impressionante, correlacionada e multi-dimensional entre populações (ou sub-espécies) humanas. Seu irrealismo está em suas projeções.

Gregory Cochran sugere que a colonização espacial inevitavelmente funcionará como um filtro genético altamente seletivo, a menos que uma intervenção política extrema seja tomada para impedir isto:

Supõe-se, em geral, que colonos espaciais, assumindo que em algum momento haja algum, serão indivíduos escolhidos, um pouco como os astronautas existentes – os melhores de hordas de candidatos. Eles serão mais inteligentes que a média, mais saudáveis que a média, mais sãos que a média – e não apenas um pouco. […] Uma vez que todos esses traços são significantemente herdáveis, alguns altamente herdáveis, temos que esperar que seus descendentes sejam diferentes – diferentes acima do pescoço. Ele provavelmente seriam, na média, mais inteligentes do que qualquer grupo étnico existente. Se uma colônia lunar realmente decolasse, os colonos iniciais poderiam representar uma fração desproporcional da população (assim como o fazem os puritanos nos EUA), e os lunáticos poderiam continuar a ter quantias desmesuradas da coisa certa por tempo indeterminado.

Como um tipo científico, Cochran está explorando este cenário como uma fonte potencial de evidência hereditária convincente (antecipada através de um experimento mental). O que dizer, contudo, do prospecto em si, enquanto ilustração de um mecanismo que se empresta à generalização teórica? Poder-se-ia discuti-lo em termos do racismo ordinário, como uma zona de impacto desigual (o que quase certamente seria). Ainda assim, isto é apenas arranhá-lo, nebulosa e superficialmente.

O modelo mais proeminente de um filtro desses é encontrado na teoria do acasalamento preferencial. Estritamente falando, a cultura racial-preservacionista advogada pelo racismo ordinário é um exemplo de acasalamento preferencial, com um critério de proximidade genética filtrando os pares potenciais. Não é por isto que a ideia tem tanta circulação. É o acasalamento preferencial com bases no SSE que o elevou à proeminência, tanto porque parece estar inquestionavelmente acontecendo quanto porque as implicações de seu acontecimento são extremas. (De maneira crucial, SSE é um forte indicador de QI.)

O acasalamento preferencial tende à diversificação genética. Isto não é nem a diversidade preservada do racismo ordinário, menos ainda o agrupamento genético idealizado dos antirracistas, mas um mecanismo, estruturado por classe, de divisão populacional, em um vetor em direção à neo-especiação. Ele implica na desintegração da espécie humana, ao longo de linhas em grande parte sem precedentes, com consequências hierárquicas intrínsecas. A elite geneticamente auto-filtradora não é meramente diferente – e se tornando cada vez mais diferente – ela é explicitamente superior, de acordo com os critérios estabelecidos que alocam status social. Uma fusão analógica com os colonos espaciais de Cochran dificilmente é evitável. Se o acasalamento preferencial com base em SSE está ocorrendo, a humanidade (e não apenas a sociedade) está desmoronando, em um eixo cujo polo inferior é refugo. Isto não é nada que o racismo ordinário seja sequer remotamente capaz de processar. Que seja um pesadelo consumado para o antirracismo vai sem questão, mas é também trans-racial, infra-racial e hiper-racial de maneiras que deixam a ‘política racial’ como uma ruína sem sentido em sua esteira.

Capacidades neo-eugênicas de manipulação genômica, que também estarão distribuídas de forma desigual por SSE, certamente intensificarão a tendência à especiação, em vez de melhorá-la. No lado da doçura-e-luz, pode-se esperar que racistas e antirracistas eventualmente se unam numa fraternidade defensiva, quando reconhecerem que as populações tradicionalmente diferenciadas estão sendo dilaceradas sobre um eixo de variação que anula todas as suas preocupações estabelecidas.

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4a

Parte 4a: Uma sub-digressão multiparte ao terror racial

Meu próprio sentimento da coisa é que, por debaixo de toda a conversa feliz, debaixo da adesão obstinada a ideias falhas e teorias mortas, debaixo da gritaria e do anátema contra pessoas como eu, há um desespero profundo e frio. Em nossos mais íntimos corações, não acreditamos que a harmonia racial possa ser alcançada. Daí a tendência à separação. Só queremos continuar com nossas vidas longe um dos outros. Ainda assim, para um povo moralista e otimista como os americanos, esse desespero é insuportável. Ele é empurrado para longe, para algum lugar em que não tenhamos que pensar sobre ele. Quando alguém nos força a pensar sobre ele, reagimos com fúria. Aquele menininho na estória de Andersen sobre as novas roupas do Imperador? O fim seria mais verdadeiro para com a vida se ele tivesse sido linchado por uma multidão uivante de cidadãos ultrajados.
– John Derbyshire, entrevistado na Gawker

Acreditamos na igual dignidade e na presunção de igual decência em relação a toda pessoa – não importa qual raça, não importa o que a ciência nos diga sobre inteligência comparativa e não importa o que possa ser obtido das estatísticas criminais. É importante que a pesquisa seja feita, que as conclusões não sejam fraudadas e que tenhamos liberdade de falar francamente sobre o que ela nos diz. Mas isto não é um argumento a favor de conclusões a priori sobre como pessoas individuais devem ser tradas em diversas situações – ou a favor de calcular medo ou amizade com base apenas na raça. Manter e ensinar de outra forma é prescrever a desintegração de uma sociedade pluralista, minar a aspiração de E Pluribus Unum.
– Andrew McCarthy, defendendo a expulsão de JD da National Review

“A Conversa”, da forma em que os americanos negros e os liberais a apresentam (a saber: necessitada pela malícia branca), é uma afronta cômica – porque ninguém tem permissão (vide Barro acima) de notar o contexto no qual os americanos negros estão tendo desentendimentos com a lei, uns com os outros e com outros. O contexto apropriado para entender isto, e a mania que é o Travyonicus aliás, é o medo razoável de violência. Este é o fato mais exigente aqui – e, ainda assim, você decreta que ele não pode ser falado.
– Dennis Dale, respondendo ao chamado de Josh Barro pela demissão de JD.

Tremenda experiência viver com medo, não é? É isso que é ser um escravo.
– Bladerunner

Não há nenhuma parte de Singapura, Hong Kong, Taipei, Xangai ou muitas outras cidades no Leste asiático em que seja impossível passear, com segurança, tarde da noite. Mulheres, sejam jovens ou velhas, sozinhas ou com crianças pequenas, podem ficar confortavelmente alheias aos detalhes do espaço e do tempo, pelo menos no que diz respeito à ameaça de agressão. Embora isto possa não ser bem suficiente para definir uma sociedade civilizada, chega extremamente próximo. É certamente necessário a qualquer definição dessas. O caso contrário é o barbarismo.

Essas cidades afortunadas do oeste do Círculo do Pacífico são tipificadas por localizações geográficas e perfis demográficos que ecoam de maneira conspícua as embaraçosamente bem-comportadas ‘minorias modelo’ dos países ocidentais. Elas são dominadas (de maneira não desagradável) por populações que – devido a herança biológica, profundas tradições culturais ou algum emaranhamento inextricável das duas – acham interações sociais educadas, prudentes e pacíficas comparativamente fáceis e dignas de reforço contínuo. Elas são também, importantemente, sociedades abertas e cosmopolitas, notavelmente desprovidas de arrogância chauvinista ou de um sentimento etno-nacionalista paranoico. Seus cidadãos não estão inclinados a enfatizar suas próprias virtudes. Pelo contrário, eles serão tipicamente modestos quanto aos seus atributos e realizações individuais e coletivas, anormalmente sensíveis às suas falhas e deficiências e estarão constantemente alertas para oportunidades de melhoria. A complacência é quase tão rara quanto a delinquência. Nessas cidades, toda uma dimensão – com consequências massivas – de terror social está simplesmente ausente.

Em muito do mundo ocidental, em um contraste gritante, o barbarismo foi normalizado. É considerado simplesmente óbvio que cidades tem ‘áreas ruins’ que não são meramente pobres, mas letalmente ameaçadoras, para estranhos assim como para residentes. Adverte-se os visitantes para que fiquem longe, ao passo que os locais fazem o seu melhor para transformar suas casas em fortalezas, evitam se aventurar nas ruas depois do anoitecer e – especialmente se forem homens jovens – voltam-se para gangues criminosas em busca de proteção, o que degrada ainda mais a segurança de todas as outras pessoas. Predadores controlam o espaço público, parques são armadilhas mortais, a ameaça agressiva é celebrada como ‘atitude’, a aquisição de propriedade é para caretas (ou assaltantes), a aspiração educacional é ridicularizada e a atividade empresarial não-criminosa é desprezada como uma violação das normas culturais. Todo mecanismo significativo de pressão sócio-cultural, desde heranças interpretadas e influências dos pares até a retórica política e incentivos econômicos, está alinhado com o aprofundamento da depravação complacente e da extirpação cruel de todo impulso de auto-melhoria. Bastante claramente, esses são lugares em que a civilização colapsou de maneira fundamental, e uma sociedade que os inclua, em uma medida substancial, falhou.

Dentro dos países mais influentes do mundo de língua inglesa, a desintegração da civilização urbana moldou profundamente a estrutura e o desenvolvimento das cidades. Em muitos casos, o padrão ‘natural’ (agora se poderia dizer ‘asiático’), no qual a urbanização intensiva e os valores imobiliários correspondentes são maiores no centro da cidade, foi destruído ou, pelo menos, profundamente deformado. A desintegração social do centro urbano levou a um êxodo dos (sequer moderadamente) prósperos para refúgios suburbanos e extra-urbanos, produzindo um padrão grotesco e historicamente sem precedentes de desenvolvimento estilo ‘rosquinha’, com cidades que toleram – ou meramente se acomodam a – interiores arruínados e podres, nos quais pessoas sãs temem pisar. ‘Centro da cidade’ veio a significar quase exatamente o oposto do que um curso não distorcido de desenvolvimento urbano produziria. Esta é a expressão geográfica de um problema social ocidental – e especialmente americano – que é, de uma só vez, basicamente imencionável e visível do espaço sideral.

Surpreendentemente, a síndrome da rosquinha com núcleo quebrado tem um nome notavelmente insensível e ainda assim comumente aceito, que a captura em linhas gerais – pelo menos de acordo com suas características secundárias – e em um grau razoável de aproximação estatística: White Flight (Fuga dos Brancos). Este é um termo que prende, por uma variedade de razões. Ele é marcado, primeiro de tudo, pela bipolaridade racial que – como um arcaísmo vital – ressoa com a crise social crônica da América, em uma série de níveis. Embora superficialmente datado, em uma era de questões multiculturais e de imigração de muitos matizes, ele reverte ao código morto-vivo herdado da escravidão e da segregação, perpetuamente identificada com as palavras de Faulkner: “O passado não está morto. Ele nem mesmo é passado.” Ainda assim, mesmo neste atípico momento de candura racial, a negritude é elidida e implicitamente desconectada da agência. É denotada apenas por alusão, como um resíduo, concentrado passiva e derivadamente pela função peneiradora de um pânico branco altamente adrenalinizado. O que não pode ser dito é indicado mesmo enquanto não é mencionado. Um silêncio distintivo acompanha a meia-expressão quebrantada de uma maré muda de separatismo racial, guiado por terrores e animosidades civilizacionalmente incapacitantes, cujas profundidades e estruturas de reciprocidade permanecem inconfessáveis.

O que o êxodo puritano do Antigo para o Novo Mundo foi para a fundação da modernidade anglófona global, o white flight é para o seu desgaste e dissolução. Assim como com a migração pré-fundadora, o que da ao white flight relevância inelutável aqui é seu caráter sub-político: tudo saída e nenhuma voz. Ela é o ‘outro’ sutil, não-argumentativo e não-exigente da democracia social e seus sonhos – o impulso espontâneo do iluminismo sombrio, da maneira em que é inicialmente vislumbrado, de uma só vez desilusivo e implacável.

A rosquinha com o núcleo quebrado não é o único modelo de síndrome da cidade doente (o fenômeno da favela marginal enfatizado no Planet of Slums de Mike Davis é muito diferente). Tampouco o urbanismo do desastre-rosquinha é redutível à crise racial, pelo menos em suas origens. Fatores tecnológicos desempenharam um papel crucial (mais proeminentemente, a geografia do automóvel), assim como o fizeram outras tradições culturais de longa data (tais como a construção de subúrbios enquanto idílios burguêses). Ainda assim, todas essas linhagens foram, em muito grande medida, suplantadas ou, pelo menos, subordinadas ao ‘problema racial’ herdado e que ainda emerge.

Então, o que é este ‘problema’? Como ele está se desenvolvendo? Por que alguém fora da América deveria estar preocupado com ele? Por que levantar o tópico agora (se jamais)? – Se o seu coração está afundando sob a sombria suspeita de que isto vai ser enorme, sinuoso, estressante e torturante, você está certo. Temos semanas nesta câmara de horrores pelas quais esperar.

As duas respostas mais simples, bastante amplamente mantidas e basicamente incompatíveis, para a primeira questão merecem ser consideradas como partes importantes do problema.

Questão: Qual é o problema racial americano?

Resposta-1: Pessoas negras.

Resposta-2: Pessoas brancas.

A popularidade combinada destas opções é significantemente expandida, muito provavelmente para englobar a grande maioria de todos os americanos, quando se considera que ela inclui aqueles que assumem que uma destas duas respostas domina o pensamento do outro lado. Entre si, as proposições “O problema estaria acabado se pudéssemos simplesmente nos livrar dos vadios negros / racistas brancos” e / ou “Eles pensão que somos todos vadios / racistas e querem se livrar de nós” consomem uma proporção impressionante do espectro político, estabelecendo uma fundação sólida de terror e aversão recíprocos. Quando projeções defensivas são adicionadas (“Não somos vadios, vocês são racistas” ou “Não somos racistas, você são vadios”), o potencial para uma dialética superaquecida e não-sintetizadora se aproxima do infinito.

Não que estes ‘lados’ sejam raciais (exceto na fantasia tribal-nacionalista negra ou branca). Para estereótipos crus, é bem mais útil se voltar para a dimensão política principal e suas categorias de ‘liberal’ e ‘conservador’ no sentido americano contemporâneo. Identificar o problema racial da América com o racismo branco é a posição liberal estereotípica, ao passo que identificá-lo com a disfunção social negra é o exato complemento conservador. Embora estas posições sejam formalmente simétricas, é sua assimetria política real que investe o problema racial americano com seu extraordinário dinamismo histórico e significância universal.

Que os brancos e negros americanos – considerados grosseiramente como agregados estatísticos – coexistem em uma relação de medo recíproco e vitimização percebida é atestado pelos padrões manifestos de desenvolvimento e navegação urbana, escolha de escolas, propriedade de armas, policiamento e encarceramento, e quase todas as outras expressões de preferência revelada (ao contrário da afirmada) que estejam relacionadas à distribuição social voluntária e à segurança. Um equilíbrio objetivo de terror reina, apagado da visibilidade por perspectivas complementares, mas incompatíveis, de supremacismo e negação vitimológicos. Ainda assim, entre as posições liberal e conservadora sobre raça não há qualquer equilíbrio que seja, mas algo próximo de uma derrota. Os conservadores estão completamente aterrorizados com a questão, ao passo que, para os liberais, ela é um jardim de delícias terrenas, cujos prazeres transcendem os limites da compreensão humana. Quando qualquer discussão política chega firme e claramente ao tópico da raça, o liberalismo vence. Esta é a lei fundamental da efetividade ideológica à sombra fragante meia-luz da Catedral. Em certos aspectos, este desequilíbrio político dinâmico é até mesmo o fenômeno primário sob consideração (e muito mais precisa ser dito sobre isso, mais á frente).

A humilhação regular, excruciante e esmagadora do conservadorismo na questão da raça não deveria ser nenhuma surpresa para ninguém. Afinal, o papel principal do conservadorismo na política moderna é ser humilhado. É para isto que uma perpétua e leal oposição, ou bobo da corte, serve. O caráter essencial do liberalismo, enquanto guardião e proponente da fé espiritual neo-puritana, o investe com domínio supremo sobre a dialética, ou invulnerabilidade à contradição. Aquilo que é impossível de se pensar deve, necessariamente, ser adotado através da fé. Considere apenas a doutrina fundamental ou primeiro artigo do credo liberal, conforme promulgado através de toda discussão pública, articulação acadêmica e iniciativa legislativa relevante ao tópico: Raça não existe, exceto enquanto construto social empregado por uma raça para explorar e oprimir uma outra. Meramente entreter isso é estremecer antes à incrível majestade do absoluto, onde tudo é simultaneamente seu preciso oposto, e a razão evapora extaticamente à beira do sublime.

Se o mundo fosse construído com ideologia, esta estória já estaria acabada ou, pelo menos, previsivelmente programada. Para além do aparente zigue-zague da dialética, há uma tendência dominante, que leva em uma direção única e inequívoca. Ainda assim, a solução liberal-progressista para o problema da raça – um ‘anti-racismo’ abrangentemente sistemático e dinamicamente paradoxal que se escala sem limites – confronta um obstáculo real que é apenas muito parcialmente refletido nas atitudes, retórica e ideologia conservadoras. O verdadeiro inimigo – glacial, incipiente e não-argumentativo – é o ‘white flight’.

Neste ponto, uma referência explícita ao Caso Derbyshire se torna irresistível. Há uma quantia muito considerável de contexto histórico complexo e recente que clama por introdução – a convulsão cultural que acompanhou ao incidente Trayvon Martin em particular – mas haverá tempo para isso mais tarde (ah sim, eu temo que sim). A intervenção de Derbyshire e a explosão de palavras que ela provocou, embora em alguma medida iluminada por tal contexto, de longe o excede. Isso porque o termo crucial não dito, tanto no agora notório artigo curto de Derbyshire, quanto também – aparentemente – nas respostas que ele gerou, é ‘white flight’. Ao publicar um conselho paternal para seus filhos (eurasiáticos) que foi – não inteiramente sem razão – resumido como ‘evite pessoas negras’, ele converteu a fuga dos brancos, de um fato muito lamentado, mas aparentemente inexorável, para um imperativo explícito, até mesmo uma causa. Não discuta, fuja.

A palavra que Derbyshire enfatiza, em sua própria penumbra de comentários e em escritos antecedentes, não é ‘fuga’ ou ‘pânico’, mas desespero. Quando perguntado pelo blogueiro Vox Day se ele concordava que a ‘race card’ (‘carta da raça’) havia se tornado menos intimidadora ao longo das últimas duas décadas, Derbyshire responde:

Um [fator], sobre o qual eu já escrevi mais de uma vez, eu acho, nos Estados Unidos, é simplesmente o desespero. Eu tenho uma certa idade e eu estava por aí 50 anos atrás. Eu lia os jornais e seguia o eventos mundiais e lembro do movimento dos direitos civis. Eu estava na Inglaterra, mas nós o acompanhávamos. Eu lembro dele, lembro do que sentíamos sobre ele e do que as pessoas estavam escrevendo sobre ele. Tinha muita esperança. A ideia na mente de todo mundo era que, se derrubássemos essas leis injustas e baníssemos toda essa discriminação, então seríamos curados. Então a América seria restaurada. Depois de um período intermediário de alguns anos, quem sabe, talvez 20 anos, com uma mão de coisas como a ação afirmativa, a América negra simplesmente se fundirá à população geral e a coisa toda simplesmente irá embora. Isso é o que todo mundo acreditava. Todo mundo pensava isso. E não aconteceu.

Aqui estamos, 50 anos mais tarde, e ainda temos essas tremendas disparidades de taxas de crimes, realizações educacionais e assim por diante. E eu acho que, embora eles ainda estejam declamando as banalidades, os americanos, em seus corações, sentem um tipo de desespero frio sobre isso. Eles sentem que Thomas Jefferson provavelmente estava certo e que não podemos viver juntos em harmonia. Acho que é por isso que você vê esse lento desagregamento étnico. Temos um sistema escolar muito segregado agora. Existem escolas a 10 milhas de onde estou sentado que são 98 por cento minorias. Na habitação residencial também é a mesma coisa. Então, eu acho que há um desespero frio e sombrio, à espreita no coração coletiva do América, sobre toda essa coisa.

Esta é uma versão da realidade que poucos querem ouvir. Como Derbyshire reconhece, os americanos são um povo predominantemente cristão, otimista, ‘dá pra fazer’, cujo ‘coração coletivo’ é incomumente mal-adaptado a um abandono da esperança. Esse é um país culturalmente programado para interpretar o desespero não meramente como erro ou fraqueza, mas como um pecado. Ninguém que entenda isto poderia ficar remotamente surpreso de encontrar o fatalismo hereditário desolador sendo rejeitado – tipicamente com hostilidade veemente – não apenas por progressistas, mas também pela esmagadora maioria dos conservadores. Na NRO, Andrew C. McCarthy sem dúvida falou por muitos ao observar:

Há um mundo de diferença, no entanto, entre a necessidade de ser capaz de discutir fatos desconfortáveis sobre QI e encarceramento, por um lado, e, por outro, insistir na raça como um fundamento para se abandonar a caridade cristã básica.

Outros foram muito além. No Examiner, James Gibson aproveitou “a torpe arenga racista de John Derbyshire” como uma oportunidade para ensinar uma lição mais ampla – “o perigo do conservadorismo divorciado do cristianismo”:

…uma vez que Derbyshire não acredita “que Jesus de Nazaré era divino …e que a Ressurreição foi um evento real”, ele não pode compreender o grande mistério da Encarnação, através da qual o Divino verdadeiramente assumiu carne humana na pessoa de Jesus de Nazaré e sofreu a morte nas mãos de uma humanidade caída, a fim de redimir essa humanidade de seu estado de queda.

Nisto jaz o perigo de uma filosofia sociopolítica conservadora divorciada de uma robusta fé cristã. Ela se torna uma ideologia morta, produzindo uma visão da humanidade que é tóxica, fatalista e (como Derbyshire prova de maneira abundante) pouco caridosa.

Foi, claro, na esquerda que os fogos de artifício realmente acenderam. Elspeth Reeve, no Atlantic Wire afirmou que Derbyshire se agarrara à sua relação com a National Review porque estava oferecendo aos “leitores menos iluminados” da revista o que eles queriam: “estereótipos raciais datados”. Assim como Gibson na direita, ela estava interessada em que as pessoas aprendessem uma lição mais ampla: não pense, nem por um minuto, que isto acaba em Derbyshire. (Vale a pena notar a seção de comentários incrivelmente pouco cooperativa de seu artigo.)

Na Gawker, Louis Peitzman diminui a qualidade (na direção aprovada) ao descrever a “horrível diatribe” de Derbyshire como “o artigo mais racista possível”, um julgamento que denuncia extrema ignorância histórica, uma vida protegida, inocência incomum e uma falta de imaginação, assim como faz o artigo soar bem mais interessante do que realmente é. Os comentadores de Peitzman são impecavelmente liberais e, claro, estão uniformemente, completamente, chocantemente assustados (ao ponto de um orgasmo). Para além do emocionar, Peitzman não oferece muito conteúdo, com exceção apenas de um pouco mais de emocionar – desta vez uma leve satisfação misturada com uma raiva residual – com as notícias de que a punição de Derbyshire havia pelo menos começado (“um passo na direção certa”) com seu “enxotamento” da National Review.

Joanna Schroeder (escrevendo em algo chamado Good Feel Blog) buscou estender o expurgo para além de Derbyshire, para incluir qualquer um que ainda não tenha irrompido em paroxismos suficientemente melodramáticos de indignação, a começar com David Weigel na Slate (que ela não conhece “na vida real, mas, ao ler este artigo, parece que você bem poderia ser um racista, cara”). “Há tantas… referências racistas e desumanizantes a pessoas negras no artigo de Derbyshire que eu tenho que me parar aqui, antes que reconte a coisa toda, ponto a ponto, fumegante de raiva”, ela compartilha. Ao contrário de Peitzman, contudo, pelo menos Schroeder tem um ponto – a dialética do terror racial – “…propagar a ideia de que deveríamos ter medo de homens negros, de pessoas negras em geral, torna este mundo perigoso para americanos inocentes”. Seu medo o torna assustador (embora aparentemente não com reciprocidade legítima).

Quanto a Weigel, ele entende o terror bem e arduamente. Em poucas horas, ele está de volta ao teclado, se desculpando por sua despreocupação anterior e pelo fato de que ele “acabou nunca dizendo o óbvio: Povo, o ensaio era repugnante”.

Então, o que Derbyshire realmente disse, de onde isso veio e o que isso significa para a política americana (e além)? Esta sub-série penteará por entre o espectro, da esquerda à direita, em busca de sugestões, com o pânico / desespero ‘branco’ socio-geograficamente manifesto como uma linha guia…

A seguir: O Ecstasy Liberal

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O Momento NRx

Este não é ele.

O fenômeno Trump realmente é algo, uma crise da democracia e um despedaçamento da Janela de Overton muito inclusos, mas não é uma coisa intrinsecamente direitista e é radicalmente populista em natureza. Uma exploração reacionária do demotismo não é um episódio neorreacionário. É a Alt-Right que tem o devido crédito da captura do espírito deste desenvolvimento. Não somos nós.

A NRx está situada absolutamente fora da política de massa. Seu momento raia apenas quando a Era das Massas estiver concluída.

Ela estará concluída. A emergência da propriedade soberana (primária), liberada do critério da legitimação democrática é seu sinal. O governo, nestas bases, é neocameral. As tendências históricas profundas que a suportam incluem:

(1) Propriedade apolítica. Nenhuma realidade ou concepção dessa foi historicamente realizada ainda. Pois, enquanto a propriedade for determinada como uma relação social, ela não poder ser. A propriedade absoluta é criptográfica. Ela é mantida, não por consentimento social e, assim, acordo político, mas por chaves. Fnargl é um experimento mental provocador, mas as chaves privadas da CCP são um fato inegociável. Elas definem a relação de propriedade com um rigor que toda a história precedente da filosofia e da economia política foi incapaz de alcançar. Tudo que se segue da transição criptográfica – o Bitcoin mais notavelmente – contribui para o estabelecimento de um sistema de propriedade para além da prestação democrática de contas (e, desta forma, insensível à Voz). A administração neocameral implementa um estado criptográfico, estritamente equivalente a um governo completamente comercializado.

(2) Capital autônomo. A definição da corporação como uma pessoa legal estabelece as bases, dentro da modernidade, para a agência comercial abstraída que logo será realizada em ‘Corporações Autônomas Digitais’ (ou DACs). A escala da transição econômica assim implicada é difícil de superestimar. O consumo de massa enquanto fonte básica de receita para a empresa capitalista é superado em princípio. A convulsão iminente é imensa. O desenvolvimento industrial autopropulsor se torna seu próprio mercado, liberado da dependência de desejos de consumo populares (ou popularizáveis) arbitrários. A administração da demanda, enquanto base da governança macroeconômica, acabou. (Ninguém está remotamente pronto para isto ainda.)

(3) Segurança robótica. O rebaixamento definitivo das massas militares completa a trifeta. A massa armadas enquanto modelo da cidadania revolucionária declina à insensatez, substituída por drones. A Asabiyyah deixa inteiramente de importar, não importa o quanto continue a ser um foco de apego romântico. A industrialização fecha o ciclo e protege a si mesma.

O grande jogo, para as agências humanas (de qualquer escala social) se torna um de cooperação produtiva com formações de propriedade soberana, com a ameaça de violência política de massa varrida da mesa. A Alt-Right não é qualquer tipo de preparação para isto. Sua aventura é bastante diferente, o que não quer dizer que seja desinteressante ou – no curto prazo – inteiramente sem consequências, mas é exaurida por seu demotismo. Ela pertence à era que está morrendo, não à que está nascendo.

A modernidade sócio-política tem sido um argumento sobre distribuições de propriedade, e a Alt-Right agora demonstrou que a Esquerda (auto-consciente) não tem qualquer monopólio sobre isso. Conforme a senescência se aprofunda, a dialética rasga toda a estrutura apodrecida em pedaços. A NRx – quando entende a si mesma – não está argumentando.

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Determinismo Militar

“Esse rifle na parede do casebre do trabalhador ou do apartamento da classe trabalhadora é o símbolo da democracia”, escreveu George Orwell. Este é um argumento familiar – e importante. (ESR ensaia um versão ligeiramente diferente dele aqui.) Um caso poderoso pode ser feito a favor da imprensa enquanto tecnologia catalítica da modernidade, mas é o mosquete que mais inequivocamente obliterou o poder feudal em seu âmago, inaugurando a era da cidadania armada – nacionalismo, exércitos revolucionários e a vontade popular enquanto questão de consideração estratégica séria. A democracia cheira a pólvora.

Isto levanta, por implicação, a sugestão de que o crescente sentimento de crise democrática é um sintoma, cuja causa subjacente é uma transição no cálculo militar, não menos profundo do que aquele que convulsionou o mundo no início da Renascença. Se a infraestrutura do avanço democrática é a centralidade estratégica da população armada – sintetizada na infantaria em massa – seu horizonte será marcado pela desconexão tecnológica entre o poder militar e ‘o povo’. Quais são as características da paisagem política aberta pelo surgimento da guerra robótica?

Robôs são capital. Eles consumam uma tendência que tem vinculado o hard power à capacidade industrial em toda a era moderna. Conforme eles se tornam cada vez mais autônomos, a matriz política-popular na qual eles têm emergido é cada vez mais marginalizada. A lealdade – um profundo marcador de posição para o consentimento dos cidadãos – é formalmente mecanizada como controle criptográfico. A autonomização do capital, que tem assombrado o mundo moderno por séculos, escala para um novo estágio, imediatamente auto-protetivo e, em última análise, soberano. Os mercenários sempre exigiram uma vinculação política auxiliar, porque as pessoas são apenas fracamente contratuais, e a lealdade não pode – no fim das contas – ser comprada. Os robôs não apresentam nenhuma dessas restrições. Eles se conformam a uma ordem de poder tecno-comercial ilimitado.

Se alguém aprova a demolição do Ancien Régime pela pólvora, pouco importa (se é que importa). O caso da guerra robótica iminente não é nem um pouco diferente a este respeito. O domínio estratégico do povo está entrando em seu crepúsculo. Alguma outra coisa acontece a seguir.

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O que é a Alt-Right?

Tópico da semana, parece. O XS esculpirá um espaço no Chaos Patch para links visados no domingo, mas para os tipos impacientes, eis aqui um tira-gosto (1, 2, 3, 4).

Este blog, creio que previsivelmente, toma uma posição de me inclua fora dessa. A Neorreação, da maneira em que eu a entendo, previu a emergência da Alt-Right enquanto resultado inevitável dos excessos da Catedral e não gostou nem remotamente do que viu. Chute um cão o suficiente e você acaba com um cão mal-humorado. Reconhecer o fato não significa que você apoia chutar cães – ou cães mal-humorados. Talvez você fique feliz de ver o chutador de cães ser mordido (eu também). Isso, contudo, é o máximo a que se chega.

Uma definição curta, que me parece incontroversa: A Alt-Right é a direita populista dissidente. Colocada teoricamente, a NRx está, portanto, agrupada com ela, mas como uma coisa bastante diferente. Uma outra conclusão óbvia a partir da definição: a Alt-Right vai quase inevitavelmente ser bem maior do que a NRx é ou jamais deveria visar ser. Se você acha que o poder popular é basicamente ótimo, mas que a Esquerda apenas têm feito errado, a Alt-Right é muito provavelmente o que você está procurando (e a NRx definitivamente não é).

Para a Alt-Right, de maneira geral, o fascismo é (1) basicamente uma grande ideia e (2) um insulto sem sentido, inventado por (((Marxistas Culturais))), a ser ridicularizado. Para a NRx (versão do XS), o fascismo é uma aberração esquerdista em estágio terminal, tornada peculiarmente tóxica por sua praticidade comparativa. Não existe realmente qualquer espaço para um encontro de mentes neste ponto.

Como consequência de seu populismo essencial, a Alt-Right está inclinada ao anti-capitalismo, etno-socialismo, política de ressentimento e estatismo progressivo. Seu interesse na fragmentação geopolítica (ou produção do Patchwork) é algo entre irremediavelmente distraído e positivamente hostil. Além do seu – admitidamente muito divertido – potencial para a catálise do colapso, não há qualquer razão que seja para a ala tecno-comercial da NRx ter a menor simpatia por ela. Espaço para cooperação tática, dentro do quadro estratégico do pan-secessionismo, certamente existe, mas isso poderia ser igualmente dito de completos maoistas com uma disposição para quebrar coisas.

Nada disto deveria ser tomado como uma concorrência por recrutas. A Alt-Right ficará com quase todos eles – vai ser enorme. Da perspectiva da NRx, a Alt-Right deve ser apreciada por nos ajudar a nos limpar. Eles são muito bem-vindos a levarem quem quer que puderem, especialmente se fecharem a porta na saída.

Original.