‘A Única Coisa que Eu Imporia É a Fragmentação’ – Uma Entrevista com Nick Land

por Marko Bauer e Andrej Tomazin

Em seu livro de 2014 Templexity: Disordered Loops through Shanghai Time você escreve: ‘”O que aconteceu com a América?” é a questão cyberpunk por excelência’. O que realmente aconteceu com a América nos últimos meses?

É meio roubado do William Gibson, então remonta até o meio dos anos 1980. Eu acho que você está totalmente certo de dizer que agora é uma excelente hora para se retornar a ela. Então, o que aconteceu com a América? Se eu fosse dizer em poucas palavras: depois de aproximadamente meio milênio, durante o qual a principal força motriz da história global foi alcançar a integração de estados maiores e mais poderosos, dirigidos por um grupo de ideólogos fortemente universalistas, que basicamente pensam que quanto maior sua agregação e quanto maior o conjunto de regras comuns que pode ser imposto sobre ela, melhor, estamos vendo uma reversão da maré de um escopo verdadeiramente histórico. A tendência básica agora é desintegradora. Então, o que eu vejo acontecendo com a América: se manter unida vai se tornar cada vez mais desafiador.

Sentimos muito, com antecedência, por fazer referência a teóricos franceses, que são, claro, parte de sua formação, mas aos quais parece que você está cada vez mais alérgico.

Isso não exige nenhum pedido de desculpas.

Uma das tendências mais valiosas de sua escrita é/era a desterritorialização da divisão progressista/reacionário. Isto parece especialmente perdido em seu blog Xenosystems, onde você se posiciona à Direita, independente de quão distante no extremo dela isso seja. Isso não é um tipo de reterritorialização?

Eu acho que estamos devendo – sempre – uma grande discussão sobre o que as pessoas querem dizer com Esquerda e Direita. A polaridade Esquerda/Direita é uma peça muito interessante de linguagem, um pequeno e compacto sistema de linguagem, porque todo mundo está usando ele ou com uma imensa falta de clareza sobre o que está realmente sendo invocado com isso, ou com associações básicas em grande parte inconsistentes com esses termos.

A Esquerda para você agora é o lado conservador, e a Direita o progressista. Mas onde reside a distinção Esquerda/Direita, na realidade? A Esquerda significa – como Badiou e cia. alegariam – igualitarismo, e a Direita é contra isso? A Esquerda é a Regra de Ouro e a Direita a regra de algo na linha de ‘faça o que lhe aprouver, mas aceite as consequências’?

Bem, esse é o sentido crowleyita da Direita. Badiou é uma pessoa interessante para se introduzir, porque eu estou bem feliz com a sua distinção Esquerda/Direita. Em um sentido que agora está predominantemente em jogo, a Esquerda é o campo da unidade e do universalismo, e o igualitarismo é uma grande parte disso. A Direita é o campo da fragmentação, da experimentação e, eu diria, da competição, enquanto termo que foi herdado de uma tradição e é provavelmente bastante incontroverso. Mas, sim, as pessoas de fato se apegam a um sentido de Direita e, sem dúvida, também de Esquerda que é exatamente sobre hiperterritorialização. Há um sentido “Sangue e Solo” da essência da Direita, com o qual eu me sinto compelido a me engajar, e a tentar deslocar e destronar, porque eu não acho que ele leva a qualquer lugar. É um beco sem saída. Poderia haver algumas oportunidades táticas nessas tendências, mas o ‘Neo’ em NRx implica precisamente que não há volta. Na medida em que o identitarismo do “Sangue e Solo” conseguir alcançar o poder de várias maneiras, ele verá seus piores dias, será forçado a entregar e ter um desempenho, e falhará em fazê-lo. Quanto mais eles realmente estiverem em uma posição de implementar políticas, mais eles se tornarão ineficazes em seus próprios termos. Eles perderão o potencial de globalização em massa e serão associados a falhas. Eu gostaria de ver esses experimentos acontecerem em uma escala pequena o suficiente para que possam ser educativos, em vez de globalmente catastróficos.

Você está interessado em falhas locais?

Sim, falhas locais são ótimas. Falhas globais, obviamente, não tão boas.

Todas as analogias com os anos 30 são meio letárgicas ou nostálgicas, como se não houvesse nada novo ocorrendo. Não obstante, há também a paixão de Badiou pelo Real e o fenômeno de ‘comunistas’ virando ‘fascistas’ durante o período entre as duas guerras mundiais – figuras tais como Pierre Drieu la Rochelle ou Charles Péguy, que talvez seja ainda mais ambivalente, uma vez que ele se torna um vetor de referência tanto para a França de Vichy quanto para Mussolini, mas também para o movimento de resistência. Estamos cientes do seu ponto de vista diferente sobre o que o fascismo é, que não vê qualquer transformação nos casos acima, e da perspectiva do qual a mudança de Goebbels do socialismo para o nacional-socialismo é um mero passeio. Estamos, contudo, interessados na sua mudança para o outro lado – exterior. Qual poderia ser uma relação entre a paixão pelo Real e a paixão pelo Exterior? O seu Exterior é similar ao Real de Badiou?

Poderia ser. Eu diria, no entanto, que sem uma noção de teste de realidade, uma invocação do Real é de significância absolutamente zero. Qualquer um pode invocar o Real, mas, a menos que exista algum mecanismo que forneça, não uma voz para o Exterior, mas uma intervenção funcional real vinda do Exterior, de modo que tenha uma função seletiva, então a linguagem é vazia. Nesse sentido, ele é completamente inseparável da fragmentação. Os sistemas modernistas funcionam – quer você esteja falando sobre a economia de mercado ou das ciências naturais – porque são sistemas fragmentários. Não existe nenhuma decisão política sobre o que é ou não é um bom resultado científico ou econômico. Esses resultados estão sujeitos a um processo seletivo de triagem que mobiliza o Exterior. É aqui, sem ser um grande ou mesmo um medíocre acadêmico de Badiou, que minha suspeita natural sobre uma invocação do Exterior vinda da posição que ele parece ocupar estaria.

Uma questão metafísica boba: O Exterior é algo dado/fixo ou é uma entidade mutável?

É uma questão importante, mas não perfeitamente formulada. A tendência da filosofia transcendental tem sido cada vez mais identificar o Real com o Tempo. O Real e a Temporalidade estão profundamente co-envolvidos de tal maneira que o Tempo não pode ser usado como um quadro no qual colocar ou fazer sentido do Real. Simplesmente não podemos fazer a pergunta de se o Real é mutável ou imutável. Se dizemos que o Real é ou mutável ou imutável, estamos dizendo que ele existe no Tempo e, se este é o caso, então deveríamos estar perguntando sobre o Tempo, e não sobre o que pensávamos estar perguntando, quando estávamos perguntando sobre o Real. Porque é o Real que é o fator controlador derradeiro. Pensar que podemos colocá-Lo no Tempo é uma distração para longe deste nível transcendental derradeiro da questão. Isso é intrinsecamente obscuro, mas eu acho que também é inescapável.

Como o teste de realidade funciona?

Fazemos isso permitindo que um processo de seleção aconteça. As ciências naturais são um exemplo tão bom disso quanto qualquer outro. A única coisa que fez com as ciências modernas se elevassem para além dos procedimentos epistêmicos vistos em outros tempos e outras culturas é o fato de que há um mecanismo além da manipulação política humana para a eliminação de teorias defeituosas. Karl Popper está, nesse nível, totalmente correto. Se é politicamente negociável, é inútil, não é científico, por definição. Você não confia nos cientistas, você não confia nas teorias científicas, você não confia nas instituições científicas na medida em que elas têm integridade, você confia é na zona desintegrada de crítica e nos critérios para a crítica e para a avaliação em termos de experimentos repetidos, em termos das heurísticas que são construídas para decidir se uma teoria em particular foi derrotada e eliminada por uma teoria superior. É esse mecanismo de seleção que é a única coisa que torna a ciência importante e a torna um sistema de teste de realidade. E isto está, obviamente, intrinsecamente direcionado contra qualquer tipo de comunidade política orgânica que vise determinar internalmente – através de seus próprios processos – a negociação da natureza da realidade. A realidade tem que ser um fator crítico disruptivo externo.

O texto Lemurian Time War do CCRU diz que a hiperstição está ‘traçando uma fuga do destino’. Como esta noção entre em jogo com o teste de realidade?/

Eu acho que hiperstição é uma daquelas coisas que escapou completamente da caixa e agora é um animal selvagem e feroz à solta. Minha relação com essa coisa alienígena é como a de todas as outras pessoas que estão interessadas nela. Estou abordando-a de uma posição de zero autoridade, tentando fazer sentido de como ela está vivendo e mudando e afetando o mundo. Ela, a coisa, não ele, o conceito. Mas tendo dito isso, meu sentido de uma hiperstição é que uma hiperstição é um experimento. Ela torna a si mesma real, se funcionar. E ela funcionar ou não é algo que não pode ser, novamente, decidido por um processo de debate interno, você não pode, como resultado de algum tipo de dialética interna decidir que, ei, esta é uma boa hiperstição, ela tem um grande futuro. Ela vai funcionar por causa de sua relação intrínseca com o Exterior, que é algo que não pode ser gerido. Talvez ela possa ser cautelosa e tentativamente prevista, da maneira em que um cientista ou um artista – ao aprender seu ofício – conseguiria ter um sentimento do que vai funcionar e do que não vai funcionar. Mas isso não é o mesmo que ter um critério, ainda menos uma lei.

Retornemos à nossa primeira questão sobre a América, neste momento bastante histórico, que está entrelaçado com padrões semióticos e regularidades intensivas que parecem ser tweetadas e espalhadas em um certo discurso pós-factual, para dentro de uma imagem do real, que não se pode mais distinguir retroativamente do real. A fabricação de notícias falsas em Veles, Macedônia, durante as eleições dos EUA, é uma maneira de ‘propagar rotas de escape’, na sua visão, ou é um evento efêmero sem qualquer significância?

Eu definitivamente acharia que algum tipo de resposta desdenhosa ao longo da segunda linha seria grosseiramente complacente. É uma rota de escape? Há, definitivamente, uma relação com uma escapada. Todo esse fenômeno de notícias falsas é enormemente importante e historicamente significativo. No momento, eu estou completamente cativado pela força de uma analogia entre a era de Gutenberg e a era da internet, essa força rítmica vinda da conexão entre elas. Uma destruição radical da realidade se passou com a emergência da imprensa. Na Europa, este processo auto-propulsor começou, e o sistema de consenso de descrição da realidade, atribuição de autoridades e critérios para qualquer tipo de afirmação filosófica ou ontológica foi todo jogado no caos. Processos massivos de desordem se seguiram, os quais eventualmente foram resolvidos nessa nova estrutura, que teve que reconhecer um grau maior de pluralismo do que havia existido previamente. Eu acho que estamos no mesmo tipo de estágio inicial de um processo de caos ontológico que estilhaça o absoluto, que veio do fato de que as autoridades epistemológicas foram explodidas pela internet. Seja o sistema universitário, a mídia, as autoridades financeiras, a indústria editorial, todos os guardiões básicos e as agências e sistemas de credenciamento que mantinham as hierarquias epistemológicas do mundo moderno estão simplesmente caindo aos pedaços em uma velocidade que ninguém imaginava ser possível. E as consequências no curto prazo, no futuro próximo, estão fadadas a serem confusas e imprevisíveis e talvez inevitavelmente horríveis de diversas maneiras. É um fenômeno de limiar. A noção de que há um retorno ao regime anterior de estabilização ontológica parece absolutamente iludida. Há uma escapada que é estritamente análoga à maneira na qual a modernidade escapou do antigo regime.

No princípio da internet, havia a noção de ela ser inerentemente democrática. Nos anos 00, a saber, na época da Primavera Árabe, blogueiros e outros que estavam usando a internet foram vistos como os que espalhariam a democracia ao redor do mundo. Da sua perspectiva, essa expectativa provavelmente parece absolutamente ridícula.

É esse híbrido esquisito: reconhecer bastante realisticamente o massivo potencial insurgente da nova mídia, mas então aplicar isso a essas formações ideológicas moribundas. É como se alguém tivesse dito, na era de Gutenberg, que a imprensa é um dispositivo incrível e poderoso e vai espalhar a ortodoxia católica por todo o mundo. É metade correto e metade insano. A mentalidade neoconservadora, associada com essas novas tecnologias de comunicação, é exatamente o mesmo híbrido de um resplendor de realismo misturado com uma dose saudável de completa psicose.

Reza Negarestani, em algum lugar, escreve que a mera ‘coletividade não é o suficiente para que uma obra [ou um evento] seja hipersticional’. Ele elabora isto através da diferença entre Tolkien e Lovecraft. Que tipo de coletividades estamos observando aqui, se não aquelas ligadas ao universalismo?

Eu não estou 100 por cento confiante do que Reza está dizendo nesse texto. Eu não quero que isto seja lido como um comentário sobre seu pensamento. Mas a hiperstição de fato surgiu em um certo meio que definitivamente enfatizava, de maneira retórica, um certo tipo de coletividade e até mesmo mais do que isso. O que está sendo referenciado não é primariamente a universalidade, de maneira nenhuma, mas algo muito mais próximo de uma anonimidade ou a problematização da atribuição. Qualquer unidade hipersticional – e o que agora é chamado de meme está muito próximo disso – que possa ser confiantemente atribuída a um ato particular de criação individual está originalmente avariada. H. P. Lovecraft parece ter entendido que toda a produção do mythos lovecraftiano era bem uma tentativa de sua parte de subtrair seu próprio papel criativo. É apenas quando isso é subtraído que essas coisas são liberadas. Cthulhu se torna um tipo de termo hipersticional, ao ponto em que não é simplesmente algo que foi inventado por Lovecraft. O fato de que ele esquisitamente, por vezes meio desengonçadamente, entrelaçava sua rede social de amigos, isto é, seus nomes, em suas histórias, é parte desse reconhecimento. O que está mais em jogo nesta noção de coletividade é algo como uma ruptura da atribuição, a subversão original dela. Eu não acho que seja apenas uma tática. São precisamente as coisas que você não tem nenhuma ideia de onde vieram, são exatamente aqueles elementos sobre cuja gênese você tem menos confiança, que são os que têm o maior ímpeto hipersticional.

Para voltar ao período entre as duas guerras mundias mais uma vez, seus muitos pseudônimos nos lembram dos heterônimos de Fernando Pessoa. Um deles era um futurista, outro um monarquista, muitos deles ocultistas e neopagãos. Com você, isso vai ainda mais além, a princípio se pensava que Reza Negarestani era um dos seus apelidos. O mesmo vale para Jehu, um marxiano do twitter (@Damn_Jehu) que certamente encontra muita compreensão para suas posições. É como se heterônimos fossem uma força contra a univocidade, parece crucial mantê-los diferenciados.

Pessoa é uma pessoa sobre quem as pessoas continuam me falando, de maneira sempre persuasiva, para dar uma olhada, mas temo que eu simplesmente ainda não tive uma chance de fazer isso. Estou certo de que é uma boa referência, então fico embaraçado de confessar minha ignorância sobre isso. A poli-manutenção de uma identidade complexa, se isso for levado de uma maneira deliberada, não é uma coisa viável. Seria ótimo se fosse, mas tudo que você consegue fazer é visar seguir um conjunto aproximado de diretrizes pragmáticas que pelo menos compliquem a tentativa que as pessoas obsessivamente fazem de se engajar nessa reintegração psico-biográfica. Eu sempre detestei, de maneira absoluta, o esforço cognitivo humano devotado a tentar transformar a forma final de qualquer coisa em uma psico-biografia. Não é que eu seja alérgico a ler uma biografia, mas a noção de que, ao lê-la, você está realmente chegando ao âmago de alguma coisa me parece totalmente ridícula. Eu não consigo lembrar de qualquer figura interessante onde eu pensei, ah, se eu apenas soubesse sua biografia melhor, eu a entenderia. As biografias de Nietzsche, de Deleuze ou de Lovecraft, a menos que sejam tratadas muito cuidadosamente, são tristemente distrativas. Uma recusa da tentação psico-biográfica é a única coisa a que tento me agarrar. Mas a funcionalidade dela está inteiramente nas mãos do destino, ela excede a competência estratégica humana. Você está constantemente escorregando ladeira abaixo.

Por um longo tempo, tivemos o sentimento de que você era um moderador ou um cartógrafo da NRx, não seu ideólogo. Ou talvez você seja o cupim dela, mais cedo ou mais tarde passando para algo completamente diferente de novo. Talvez de maneira similar ao ponto de vista da conferência sobre o Legado de Nick Land que vai ocorrer este ano e que, como os organizadores nos dizem antecipadamente, não vai promover ideias NRx. Isso nos lembra de Brecht, onde, a fim de preserver seu status enquanto autor clássico, seu socialismo, ou comunismo, teve que ser sanitizado. Através das suas intervenções em blogs, enquanto agregados ou agregadores de links, descobrimos que a maneira de sair da câmara de eco é ler sobre coisas/processos que se acha fascinantes, não as com que necessariamente se concorda. É fitar o abismo, como Roberto Bolaño colocaria. Parece que esta é um papel/função altamente controverso.

Há tanta turbulência e tumulto nessa situação recente e dinâmica que é difícil ser muito lúcido sobre ela mesmo no seu próprio entendimento dela. Talvez uma resposta desmembrada seja a única que seja prática ou realista. Uma coisa, a total infâmia da NRx. Há um entendimento de que esta é a pior coisa do mundo, que vai ser totalmente traumática e produzirá uma resposta aversiva extrema. É algo que já está presente no Iluminismo Sombrio e na escrita de Moldbug, de uma maneira jocosa. Eu também concordaria que, nesse estágio, era mais curadoria do que polêmica. Temo que estou descobrindo algo completamente viciante sobre isso. Se você dissesse para alguém, o que realmente é essa coisa, a NRx, a resposta a essa questão seria vastamente menos clara do que a claridade da resposta emocional, que seria de ódio e horror absoluto. Toda a síndrome é fascinante, porque parece, em si, uma ferramenta exploratória fundamental. Como se você dissesse: Mencius Moldbug consolidou a noção da Catedral enquanto algo que é, em última análise, um processo religioso auto-organizante que tem um ortodoxia definida e um ímpeto doutrinário definido e que existem certas coisas que ela trata com uma paixão religiosa extrema, como sendo abominações e heresias. Você encontra uma provocação cultural que desencadeia tais imuno-respostas alérgicas extremas, o que significa que você está realmente engajado em um envolvimento experimental com esse objeto inicialmente tentativo e hipotético. Esse é o processo de lock-in crucial mais básico – pelo menos agora, de maneira provisória. Ele faz um lock-in e se torna indispensável, porque gera essa reatividade extrema. É por isso que seria muito difícil simplesmente recuar disso de uma maneira decisiva. É como dizer que não vamos mais fazer física de partículas com grandes colisores, abandonar todo o sistema de potencialidades experimentais.

A NRx também é algo muito jovem e extremamente contestada. Uma vez que ela gera tanto antagonismo, as pessoas que querem brigar, das quais existe um monte agora, de ambos os lados, se arrebanham nela, talvez de maneira mais apaixonada em 2014. Mas a NRx é enormemente diferenciada internamente, foi desde o princípio. Várias figuras foram jogadas para fora e agora são mais identificadas com um tipo de antiga Direta padrão com ideias do tipo nacionalista branco. Outras divisões existem também. Há uma facção que está muito mais próxima de um tradicionalismo reacionário e eu não entendo o que está rolando com a coisa do Neo, uma vez que se identifica com o tipo de política trono-e-altar da França pré-revolucionária. A pura quantidade de desordem e caos nela significa que é realmente difícil deixar um lugar quando você ainda não tem nenhuma ideia do que está acontecendo ali. Ainda não está estabelecida o suficiente para se saber se é algo que você realmente quer perder. E, finalmente, se alguém me pedisse para definir a NRx, eu diria que é a filosofia política neocameralista do Patchwork de Moldbug. Eu acho ela enormemente importante. Não tenho nenhuma inclinação de me dissociar dessa tendência básica na análise política.

Parece haver muitos envolvimentos com o contrarianismo e com a Lei de Poe. Através do @Outsideness, você escreveu: ‘Na verdade, eu gosto de muitos imigrantes e pessoas negras, só não gosto dos disseminadores de queixas, desordeiros, criminosos de rua e jihadistas em favor dos quais a Catedral incessantemente prega”. Você não soa aqui um pouco como Borges (da Tlon Corporation) advogando por ‘liberdade e ordem’ ao passo em que apoia Pinochet, preservando ou restabelecendo o Sistema de Segurança Humana? Tudo isso não está muito longe de: “A fusão tem um lugar para você como uma puta chinesa-latina, transexual, HIV+, esquizofrênica, viciada em estim, com espelhos oculares implantados e uma atitude ruim. Intoxicada com uma mistura de polidrogas com nova-K, serotonina sintética e análogos do orgasmo feminino, você acabou de congelar três tiras Turing com uma automática de 9mm altamente cinematográfica.”

[Longo silêncio.] Deixe-me ver qual é a melhor maneira de responder. [Longo silêncio.] Não sei, é difícil. Eu tenho toda uma fraternidade que morde meus tornozelos no Twitter agora. Não estou lhe identificando com eles, que fique claro desde o princípio, mas acho que a questão deles é muito parecida com a sua. Um elemento é a idade. Jovens são altamente tolerantes a um caos social incendiário massivo. Há razões para isso, a melhor música vem disso. Não é que eu não esteja entendendo isso, todo o apelo do cyberpunk é embasado nisso. Mas eu simplesmente não acho que você consiga fazer uma ideologia puramente a partir do colapso social entrópico, não vai se encaixar. Não é um processo sustentável e consistente na prática e, portanto, é uma má bandeira para a aceleração. Produz uma reação que vencerá. Toda evidência histórica parece ser de que o partido do caos é suprimido pelo partido da ordem. Mesmo que você seja completamente antipático ao partido da ordem, e eu não estou fingindo ser nada tão inequívoco assim, não é algo que você quer ver. Nixon suprimiu os hippies, o Thermidor suprimiu a loucura da revolução francesa. É uma historia absolutamente implacável e inevitável de que o partido do caos não vai ter permissão de operar o processo e será suprimido. Há obviamente vários tipos de atrações estéticas e libidinais a ele, mas em termos de praticidade programática, não há nada. O que eu diria para esses jovens loucos agora é, vocês não têm um programa. O que vocês estão defendendo leva perversamente ao exato oposto do que você diz que quer.

Você soa um pouco como um aceleracionista de esquerda agora, com todo esse papo de ter um programa e uma ideologia.

Sim, tem esse problema, mas você sempre tem uma orientação prática. A NRx tem um programa, mesmo em sua forma mais libertária. Não é um programa que vai ser implementado por um aparato burocrático em um regime centralizado, mas é uma tentativa de ter alguma consistência no seu padrão de intervenções. Claro, todo mundo está tentando fazer isso. Mesmo a fraternidade do caos, na medida em que querem ser a fraternidade do caos quando acordarem no dia seguinte, tem um programa nesse sentido mínimo. E esse sentido, creio eu, é o único sentido ao qual eu me apegaria fortemente aqui. Uma estratégia.

O ‘Somos todos fascistas agora’ de Jonah Goldberg, que você cita no seu artigo A palavra com ‘F’, soa como algo que Foucault diria, se aumentássemos o volume do seu ‘quem luta contra quem? Todos lutamos uns contra os outros. E há sempre, dentro de casa um de nós, algo que luta contra alguma outra coisa’. Não esqueçamos que Foucault era fascinado por Henri de Boulainvilliers, um tipo de proto-neorreacionário: guerra enquanto fundação da sociedade, guerra enquanto guerra racial entre francos aristocráticos e gauleses comuns. Por outro lado, os descentralizadores francos foram fodidos precisamente pelo monarca.

De novo, temo que este autor em particular não seja alguém com quem eu tenha familiaridade, mas me lembra de algo que me causou uma grande impressão e parece estar próximo desta noção. Quando eu estava estudando – eu estava fazendo um curso de filosofia e literatura – eu me senti muito interessado no Tess of the d’Urbervilles de Thomas Hardy. É sobre o fato de que o conflito de classes é, na verdade, essa guerra étnica, o contínuo conflito étnico entre os invasores normandos aristocráticos falantes do francês e os nativos ingleses. Mas, honestamente, qualquer coisa que eu fosse dizer sobre ele para além disso seria tão inventado no momento que seria de pouco valor.

Estamos lhe perguntando isso por causa da desterritorialização da divisão Esquerda/Direita. O conceito de acasalamento preferencial, que é realmente controverso em algumas partes do universo, quase soa como um Bordieu padrão sobre como apenas membros do mesmo habitus socializam e se reproduzem. Mas quando alguém da Direita fala sobre isso, não é interpretado como uma observação, mas como um diagnóstico, prescrição e pensamento ilusório ao mesmo tempo.

A razão pela qual essa linguagem de Direta/Esquerda é tão indispensável é porque agora ela está amarrada a uma estrutura de animosidade tribal que é tão profunda. Nos anos recentes, eu tenho ficado aturdido com a arbitrariedade da coisa – é como os Azuis e Verdes romanos. As diferenças entre a Direita e a Esquerda são abafadas por uma guerra tribal. As pessoas têm feito testes sobre isso. Elas colocam as propostas políticas de um político na boca do seu oponente e os apoiadores do oponente imediatamente apoiaram todas essas propostas que eles achavam que eram a absoluta encarnação do mal quando vinham do outro cara. A noção de que essa guerra tribal vai ser redutível a um conjunto de posições ideológicas coerentes é insana e um exemplo que você deu é totalmente assim. Quem está dizendo algo é muito mais importante para as pessoas do que o conteúdo real, a proposição positiva. O número de pessoas que não são vítimas disso é realmente pequeno e eu as acho impressionantes. A minha própria tentativa de não ser totalmente capturado pelo tribalismo é tentar garantir que há bastante loucura hipersticional físsil acontecendo. Às vezes você tem que dar uma sacudida e ter o sentimento de como a coisa se parece do outro lado, mas eu realmente acho que a maioria do mundo está presa tão fundo na guerra tribal que ela simplesmente não vê o que uma ideia realmente está dizendo. Elas apenas vêem a questão: isso é uma coisa do inimigo ou é coisa nossa?

O que nos trás à questão de convergência e divergência entre a NRx e o aceleracionismo, entre o blog Xenosystems e o blog Urban Future (2.1). Quando o seu @Outsideness, que está conectado ao Xenosystems, ficou temporariamente bloqueado no Twitter, você começou a tweetar coisas NRx no aceleracionista @UF_blog. A gente ficou: não queremos isso, queremos eles separados.

Você deve estar ficando entediado comigo dizendo isso, porque é algo que basicamente tenho repetido como um mantra, mas eu realmente me sinto desprovido de qualquer posição de sujeito oficial em relação a esse processo turbulento e complicado. As duas grandes linhas do processo, a NRx e a aceleracionista, estão sendo massivamente guiadas por todos os tipos de forças. O aceleracionismo foi reiniciado pelo hype do Aceleracionismo de Esquerda. Aconteceu depois do Iluminismo Sombrio, razão pela qual esse tecido de padrão temporal é um tanto complexo. De uma certa posição, parece que o aceleracionismo veio primeiro e depois você teve a NRx, o que implica em um tipo de processo sincrônico, mas da minha perspectiva é muito mais helicoidal e entrelaçado. A separação dos blogs e das contas no Twitter é – em vez de uma implementação de algum estratégia coerente deliberada – mais um conjunto de recursos que eu posso usar para tentar evitar ser sugado para dentro de certos tipos de integração, o que perderia o fascínio do fato de que a dinâmica dessas duas linhas não são de maneira alguma previsíveis uma a partir da outra, ou mesmo previsíveis em geral. Simplesmente amassar um tipo de síntese do Aceleracionismo de Direita com a NRx, que obviamente é inescapável em um certo aspecto, em última análise destruiria muito da capacidade de experimentação e muito do espaço de desenvolvimento dinâmico em ambas essas linhas.

O Aceleracionismo de Esquerda, em seu programa racional e pragmático, está perdendo o mito e o mítico? Reza Negarestani tentou incorporar essas coisas na Cyclonopedia, o que por vezes demais é confundido com pós-modernismo. Você acha que o Aceleracionismo de Esquerda é, de uma maneira, uma rigidificação dos supramencionados fluxos?

A língua tem esse caráter retrospectivo, então é enganadora. Aceleracionismo de Esquerda e Aceleracionismo de Direita são termos muito recentes. O ressurgimento original do aceleracionismo no mundo anglófono ocorre com a recapitulação da aceitação pelo CCRU da recapitulação de Deleuze e Guattari da aceleração do processo de Nietzsche. Em Deleuze e Guattari há uma invocação explícita de se ir na direção do mercado. Na sua origem, o CCRU estava impulsionando essa orientação, antes ainda de uma palavra aceleracionismo ter se formado, o que foi feito por um crítico mais tarde. Era uma posição de Esquerda, porque foi articulada por Deleuze & Guattari como uma estratégia política anti-capitalista. Eu não acho que o CCRU era revisionista quanto a isso. O aceleracionismo de Deleuze & Guattari enquanto maneira de se acelerar o capitalismo até sua morte também era a fase CCRU do aceleracionismo. Houve uma sugestão de que veio da Direita, porque nesse estágio de sua articulação, é impossível diferenciar Aceleracionismo de Esquerda e de Direita. Se você está dizendo, complete o processo capitalista, isso significa que todas as recomendações políticas, se houver alguma, são maximamente benéficas para a vitalidade e para o dinamismo do capitalismo. Então há uma necessidade estrutural de que não possa haver qualquer diferença entre pró e anti-capitalista nesse quadro aceleracionista. Como você pode dizer qual é qual? Quando o Aceleracionismo de Esquerda, que estava se chamando apenas de aceleracionismo, aparece, ele está, em sua política manifesta, fazendo algo muito diferente de qualquer coisa que tenha acontecido em toda a linhagem anterior. Ele diz que você tem que distinguir entre o motor básico da aceleração e o capitalismo. O capitalismo não é esse motor, mas algo que é, em um certo grau, coincidente com ele em um certo estágio em sua história, mas então se torna inibitório em relação a ele. Portanto, o aceleracionismo não é focal ou centralmente sobre o capitalismo, e isso se torna a doutrina Aceleracionista de Esquerda mainstream. Então, o estágio final na minha perspectiva é que, quando a resposta vem em nome do Aceleracionismo de Direita, sua tarefa teórica é reintegrar o aceleracionismo e a dinâmica do capitalismo. Eu concordaria que o Aceleracionismo de Esquerda é basicamente a resposta gerencial de comando-e-controle à aceleração tecno-econômica. Junto a isso vai um ceticismo massivo sobre suas alegações de que ele pode realmente acelerar as coisas mais rápido do que esses processos catalíticos espontâneos conseguem.

Então, como você vê o novo programa filosófico de Reza Negarestani, e o que você acha do seu antagonismo com a Blind Brain Theory de Scott R. Bakker?

Minha inclinação é estar do lado de Scott Bakker. Eu posso estar perdendo algo, mas eu não consigo lembrar de ter lido um artigo seu e pensar isso está errado. Sempre me parece, você está totalmente certo sobre isso. Frequentemente de maneira brilhante, de uma forma que você ainda não viu, mas assim que eu vejo, eu concordo com ele.

Você era tão pró ciências naturais antes de ter encontrado o pensamento dele?

Eu acho que as ciências naturais e o capitalismo são aspectos diferentes da mesma coisa. Ambos são um mecanismo auto-propulsor efetivo que dá ao Exterior uma função seletiva em um domínio considerado, esse domínio estando em perpétua expansão, dependendo de quanta autonomia você está vendo. Nesse sentido, estar do lado das ciências naturais é estar do lado do Exterior. Mas existem todos os tipos de maneiras tolas em que você poderia estar do lado do Exterior, assim como existe um monte de maneiras tolas em que você poderia estar do lado do capitalismo. Você poderia dizer, a burguesia é ótima, pessoas muito admiráveis, ou, eu amo essa empresa. Não estou dizendo que nunca existe um argumento a favor isso, mas você está perdendo totalmente o ponto, assim como você estaria perdendo o ponto ao dizer, esse cientista em particular é um grande cara, e eu acho que ele é realmente honesto e eu confio nele. Pode ser que ele seja um grande cara e ele pode realmente estar lutando para ser honesto, ele pode ser muito mais confiável que a maior das pessoas, mas isso ignora o que a ciência é. A ciência está orientada conta os cientistas, o capitalismo está orientado contra as empresas. Estes são processos que estão em uma relação de sujeitar os elementos dentro de seu domínio a uma crítica agressiva e destrutiva, com algum tipo de critério de seleção, o que significa que eles empurram as coisas em uma direção auto-propulsora particular.

Você estava falando sobre artistas conhecerem o Exterior. Como você vê a divisão entre ficção científica e ciências naturais, entre um cientista e um artista?

Minha tendência é não traçar uma distinção muito grande entre eles. Em todos os casos em que se está lidando com a formulação ou a flutuação de uma certa hipótese. Estou assumindo que todo cientista tenha uma ficção científica implícita. Todos temos um padrão do que pensamos que o mundo vai ser em cinco anos, mesmo que seja embaçado ou não muito explícito. Se não tivéssemos tentado fazer ficção científica, provavelmente significaria que temos um cenário implícito prejudicialmente conservador, inerte e irreal do futuro. Na maioria dos casos, um cientista é apenas um mau escritor de ficção científica e um artista, espera-se, é melhor. Há, obviamente, muito dinamismo não linear, no sentido de que escritores de ficção científica aprenderam montes com os cientistas, como aperfeiçoar seus cenários, e também o contrário. A ficção científica moldou o senso do futuro tanto que todo mundo tem isso como ruído de fundo. A melhor versão do futuro próximo que você tem foi adotada de algum escritor de ficção científica. Tem que ser o caso de que a ciência é, em alguma medida, guiada por isso. A ficção científica fornece um campo de testes.

Rebekah Sheldon, em uma resposta à emergência do Pepe the Frog enquanto Kek moderno e seus atributos ocultos, escreve que a exterioridade é ‘sombria no sentido de que opera sem a segurança de conhecimento completo e é caótica porque presume que a força do outro é sempre totalmente outra’. Pepe the Frog, como visto pela comunidade da internet, pode servir como modelo para um evento hipersticional?

É enormemente fascinante e algo sobre o que eu ainda não havia pensado o suficiente. Envolve uma constelação de tantos elementos aleatórios esquisitos e emergiu nesse processo incrível de auto-constituição autônoma. Há sempre a tentativa de se atribuir: alguns caras em particular no /pol/ estavam usando essa coisa e o fizeram deliberadamente. Mas tudo isso é totalmente inadequado. Envolve essa tradução do Orco no Warcraft, envolve um culto egípcio antigo, envolve uma estranha obsessão com o conjunto de fonemas que você vê indo direto, essa erupção fonêmica que ocorre, K K K K K. Obviamente é um tipo de modelo para um evento hipersticional. Dentro da NRx, tivemos uma discussão informal auto-organizada sobre a necessidade de uma nova religião, muito antes de Kek derrubar a parede. Por causa da análise de Moldbug de que a Catedral é um lar de um protestantismo deformado e pervertido, muitos católicos ficam muito atraídos por esse modelo. A opinião deles é de que o que Moldbug está dizendo é que o protestantismo é um erro terrível que leva à Catedral, que é como eles tentam vingar o catolicismo. Mas há também muitos ateus. É um coquetel social muito estranho. Esse cara, o Spandrell, que é sempre muito abrasivo, mas muito astuto, estava dizendo que a única saída é uma nova religião. Na hora você pensa, okay, você não pode simplesmente cozinhar uma nova religião, você não pode simplesmente cozinhar Kek. Aí a coisa acontece e todos esses trolls estão dizendo ‘Louve Kek’. Mas não é apenas uma piada: você só pode se defender psicologicamente de algo realmente intenso e lovecraftiano sobre todo o assunto não pensando sobre isso. Algo insano aconteceu com esse culto massivo e auto-orientado de Kek. Realmente lhe leva de volta aos tempos antigos e a como esse tipo de insurgência religiosa deve ter sido e de onde as religiões vêm.

Poderíamos conectar Pepe the Frog com a figura do trickster, que é vista pelo chamado aceleracionismo de Esquerda como um agente efetivo de transformação em si mesmo e tem a habilidade de ‘mudar o transcendental de um mundo’, como Srnicek e Williams o colocam. Simon O’Sullivan observa que Gilles Deleuze oferece uma inflexão interessante sobre isto em sua diferenciação entre o trickster e o traidor: o primeiro está operando dentro de um dado regime, embora subverta seus termos (um mundo virado de cabeça para baixo, como se fosse). O segundo está quebrando com um dado regime, ou mundo, completamente. Em um das respostas em seu blog, você está elaborando sobre uma metáfora de um dique, que está sendo lentamente devorado e destruído por alguma força externa – e você chame este dique de Xenosystems. Quem é o trickster e quem é o traidor aqui?

Parte disso é uma questão sobre agência. O agente trickster e o agente traidor são ambos reduzidos pela antropomorfização. Qualquer indivíduo humano que reivindicasse uma identificação com qualquer desses papéis estaria enganando todo mundo. Tricksters e traidores são aqueles que têm algum tipo de método para o tráfico com as verdadeiras fontes de agência. Uma ficção que explora essas coisas de maneira brilhante é o Neuromancer. Quem são os traidores ou tricksters nele? Todas as figuras humanas assumem seus papéis através de sua relação com uma agência real do Exterior, que é Wintermute. Como quando os tiras-Turing dizem para Case: Seus traidores, vocês sabem com o que estão lidando, você estão tentando liberar essa coisa, ela está completamente fora de controle. Seria um desastre para a espécie humana, o que diabos vocês estão pensando? A questão real é: Quais são os reservatórios de recursos de trapaça e traição que estão sendo acessados?

Amy Ireland, em uma entrevista com Andrej, disse que, em contraste com os esquerdistas na câmara de eco, você está realmente interagindo com os reais fascistas, misóginos, supremacistas brancos. Isso nos lembrou de Pasolini, quando ele enfatizava que se deveria encontrar os jovens fascistas. Acreditamos que você preferiria lhes chamar de supostos fascistas. Quem é um trickster, um traidor, um fascista é aberto.

A antropomorfização é sempre tentadora. Os indivíduos em questão querem sentir que são nós críticos de agência no que estão fazendo, e as pessoas do lado fora querem ser capazes de identificar esses processos com indivíduos em particular e com suas ideologias explícitas e suas estruturas de agência, mas tudo isso parece profundamente iludido. Você não obtém o fascismo porque há um certo número de pessoas que são fascistas auto-conscientes, isso é colocar o carro na frente dos bois. Você obtém fascistas auto-conscientes porque há algum processo fascista efetivo ocorrendo. As pessoas estão em total negação, provavelmente sobre coisas diferentes em lados diferentes. Do lado da Esquerda, eles estão em total negação sobre quanta ortodoxia fascista foi embutida nas sociedades modernas no século XX. Elas também estão em negação sobre quão profundas as forças com as quais estão lidando são. Elas parecem pensar que são alguns ovos ruins e que, se elas conseguirem ameaçá-los e aterrorizá-los o suficiente, essa coisa toda vai parar. Eu acho que é loucura não estar interessado nisso e tentar descobrir o que você conseguir e como essas pessoas pensam e de onde as coisas estão vindo.

Em relação ao incidente com a Galeria LD50, você tweetou: ‘A História da Arte Moderna (versão curta) 1917: o urinol-como-arte, de Duchamp. 2017: Pequena galeria em Dalston finalmente choca a burguesia’. Este é um exagero intencional? É realmente sobre épater la bourgeoisie? Há algo bastante situacionista em tratar os AntiFa como burguesia (ou pelo menos como um simulacro de uma).

Tem havido muitas discussões sobre Mark Fisher recentemente, onde sua posição acaba sendo, de maneira extrema e aparentemente inequívoca, esquerdista. Há um estória psico-biográfica chata que veria minha relação com ele como um simples antônimo. Não que não haja nada disso, porque tinha alguma coisa a ver com essa reação físsil do CCRU, onde ele toma um lado da coisa e eu tomo o outro lado, então não quero apenas ridicularizar essa interpretação. Mas se olharmos para seu artigo “Exit the Vampire Castle”, ele consistentemente atravessa a base de classes da cultura esquerdista dominante, que já tinha sido um alvo de uma crítica profunda do CCRU. Evidentemente podemos fazer o mesmo ponto vindo da extrema Esquerda e da extrema Direita. O que seria dizer: sim, eles são a burguesia. Eu sempre estive em uma relação de antagonismo e continuo em uma relação de antagonismo com a burguesia. Eu acho que é simplesmente auto-evidente que o terreno fértil disso são primariamente as universidades de elite. Não haveria simplesmente nada disso acontecendo nas ruas se fosse realmente organizado de maneira espontânea palas pessoas de nível educacional mais baixo em Dalston. Aconteceu porque um professor universitário e seus associados decidiram enervar a coisa toda e fornecer um vocabulário para isso. Estamos olhando para uma crise ideológica profunda e absolutamente traumática da elite dominante da modernidade tardia, da Catedral tardia, porque eles construíram todas as suas vidas e seu sentido do que deveriam estar fazendo, suas etiquetas, suas noções sobre credibilidade, credenciais e autoridade institucional em torno de uma estrutura social e histórica particular e muito distinta que parecia absolutamente invulnerável e que agora parece estar caindo no abismo.

Então quando a moça AntiFa grita ‘Volte para de onde veio” para o cara carregando uma placa ‘O Direito de Discutir Ideias Abertamente Deve Ser Defendido’ em frete a galeria LD50, ela na verdade quer dizer ‘Volte para o abismo’?

Correto.

Se omitirmos a parte da posição do Último Homem do situacionismo, podemos vê-lo indo na direção do aceleracionismo. Como o Debord de seu último período, quando ele não acredita mais nos conselhos de trabalhadores e vê apenas essa enorme força invencível.

Sadie Plant era uma grande estudiosa situacionista. Eu li A Sociedade do Espetáculo com prazer, e algumas outras peças. Eu responderia com dois pontos totalmente inconsistentes em aparência. Primeiramente, o situacionismo aparece bastante, mas eu nunca me versei plenamente nele. Em segundo lugar, estou escrevendo uma estória de horror abstrato que é basicamente sobre situacionismo, muito embora eu não saiba nada sobre ele no momento. Eu reconheço a importância da questão, mas eu simultaneamente reconheço minha incompetência para lhe dar o tipo de resposta que ela merece.

Serge Daney escreve, em algum lugar, que Godard e Straub-Huillet recorrem aos tipos de poder político dos quais eles seriam as primeiras vítimas. Há um sentido no qual suas invocações são similares a isso. Isso é um tipo de vanguarda do desaparecimento ou vanguarda da extinção com bastante jouissance niilante? Ou é uma mutação?

Eu recebo esse argumento bastante, mas eu duvido dele. A única coisa que eu explícita e estrategicamente gostaria de impor é a fragmentação. Todo o resto está em relação tática com isso. Certas questões – como o que você pensa sobre Kek e assim por diante – são, em última análise, questões táticas. A única questão estratégica é como você pode quebrar em pedaços, eu diria especificamente, a Anglosfera. Qualquer tipo de projeto que exceda isso se torna uma forma de agressão universalista em risco de super-expansão neoconservadora. Eu não estou interessado em dizer aos russos ou aos chineses como suas sociedades devem ser. Eu poderia teorizar sobre isso, mas a única zona de intervenção em que estou interessado é o mundo anglófono, que tem uma afinidade particular com a desintegração. Não há nada suicida em qualquer fragmentação, eu poderia única e certamente ser protegido por ela. Eu não tenho um sentimento de estar protegido pelos grandes estados anglófonos. Não é que eu esteja alegando perseguição por parte deles, mas definitivamente ficaria dessa lado do registro, se qualquer coisa. Eu não sou um cidadão ou um residente de qualquer país ocidental, estou vivendo em Shanghai. E você não ensina aos seus anfitriões como eles deveriam estar organizando sua casa.

Estávamos pensamento mais sobre a Singularidade.

Ah, você está um passo à frente!

Você sendo humano, sabe. Pelo menos nominalmente humano.

Isso é muito melhor. É só que a questão do nível político-econômico é bastante levantada.

Essa é a questão Snowden/Assange. Estamos menos interessados nisso.

Meu único problema com a Singularidade é que qualquer noção de auto-proteção nessa esfera é estruturada por alucinações. Se fôssemos levar isso de volta a alguém, seria Bakker. O que ele está dizendo é: o ‘você’ que você pensa que poderia ser ameaçado por essas coisas, na verdade, é aquela coisa que você descobrirá que é uma ilusão. Agora, isso é uma ameaça? É assim que ela é uma ameaça. Não vai ser como ser dilacerado por um robô metalizado gigante, vai ser a ilusão particular do ego, sustentável até um certo ponto na história, se tornando insustentável.

Às vezes você retém o esquema de robôs contra pessoas, mas parece que você está, na verdade, mais interessado em coisas e processos híbridos, não nessa dialética maniqueísta.

Bem, dinâmicas maniqueístas são boas para guiar certos tipos de cenários, então é por isso que eu gosto bastante delas. Eu amo toda a coisa do Hugo de Garis sobre essa giga-guerra de artilectos que ele pensa que virá. Quanto mais esses cenários cibernéticos de ficção científica estiverem em jogo, mais certos tipos de excitação histórica estão operantes. As pessoas tentam se proteger e pensar umas sobre as outras, mas na verdade é uma forma de estímulo do processo. O Sistema de Segurança Humana é estruturado através de ilusões. O que está sendo protegido ali não é alguma coisa real que é a humanidade, é a estrutura da identidade ilusória. Assim como, no nível mais micro, não é que os humanos enquanto organismos estão sendo ameaçados por robôs, é mais que sua auto-compreensão enquanto organismos se torna algo que não pode ser mantida para além de um certo limiar de inteligência em ambiente de rede.

Original.

AAA…

…significa aceitar, amplificar e acelerar. Iniciado aqui e intensificado aqui, isso abre um horizonte inexplorado para uma discussão estratégica dentro da NRx. Nenhuma análise do conflito cultural na Internet pode evitar uma referência à trollagem, e nenhuma compreensão da trollagem é está mais completa sem referência a AAA. Isso eleva a discussão da paródia a um novo nível. (Se já não está óbvio, este blog está seriamente impressionado.)

AAA funciona se a complicação estratégica tiver consequências favoráveis. A facção cultural que tiver maior capacidade de tolerância a dificuldade, confusão de identidades, ironia e humor, tenderá a encontrar uma vantagem nisso. Creio que sejamos nós. É inerentemente tóxico para o fanatismo.

Como subtema – mas um que é afiadamente apreciado aqui – isso marca uma evolução crítica nas Guerras de Cthulhu. (Verifique os gráficos no post do TNIO para um reconhecimento disso.) Em vez de argumentar se “Cthulhu nada para a esquerda“, AAA propõem anfetaminizar o monstro independente disso. Se um “holocausto de liberdade” é o que vocês querem, vamos . Leve essa operação até o fim do rio… e vejamos o que encontramos.

ADICIONADO: Comentários do Slate Star Scratchpad.

Original.

O horror…

“A coisa é que, agora que fiquei ciente do fenômeno, eu o vejo em todo lugar…”

“Não se pode deixar isso assim. Isso é como descobrir que um serial killer abusador de crianças está no comando da seu time da liga júnior local. Este não é um caso de tolerância. Este é um caso de forquilhas e tochas metafóricas. …isto, a ‘Neorreação’, é uma ameaça definitiva, e deve ser encarada.”

(Alguns empurrões impressionantes já estão ocorrendo na seção de comentários lá em cima.)

Original.

Missão Arrepio

A sensação – nutrição da mídia – está situada em uma fronteira. Ela conta ao interior algo sobre o exterior e é moldada por ambos os lados. O exterior é o que é, o que poderia não ser perceptível ou aceitável. O interior quer informação relevante, selecionada e formatada para os seus propósitos. A sensação é, portanto, onde o sujeito e o objeto se encontram.

…essa é uma tentativa de expressar uma simpatia preliminar pela situação de Matt Sigl, preso entre uma coisa sinistra e uma agenda definida. De maneira concreta; a pesquisa colide com a edição, com o cérebro de Sigl como marco zero. O encontro da Neorreação com a mídia é peculiarmente vicioso, com sensações condizentes.

Falando de maneira crua, a Neorreação é o desgosto com a mídia condensado em uma ideologia. Embora desdenhosa, de maneira geral, com a forragem humana que compõe as democracias modernas, a Neorreação visa principalmente o complexo midiático-acadêmico (ou ‘Catedral’) para antagonismo, porque é a mídia que é o real ‘eleitorado’ – dizendo ao eleitores o que fazer. Esta crítica fundamental, por si só, seria o suficiente para garantir um ódio recíproco intenso. Claro, ela não está sozinha. A Neorreação é, em quase todos os aspectos, a anti-mensagem da Catedral, o que quer dizer que ela está consistente, radical e desafiadoramente ‘fora da mensagem’ sobre todo tópico de significância e é, assim, algo indizivelmente horrível. Ainda assim, dicção – agora parece – tem que haver…

Então, o que aparece na fronteira – ou sensacionalmente – é algo notavelmente arrepiante. Enquanto comunicação pública profundamente ressonante do que acabou de acontecer, e continua acontecendo, assim como do que foi editorialmente decidido, essa palavra é quase primorosa demais para se contemplar. Podemos, pelo menos, nos enfiar um pouco mais fundo nela.

O que é o arrepio exatamente? A intratabilidade desta questão é o fenômeno (que não é um fenômeno exatamente). O arrepio não é bem o que parece, e esta insinuação do desconhecido, ou inexatidão intrínseca, é algo horrível, que excede a sensação inicial de repulsa. Ela sugere uma revelação em estágios, complicada por revisões sucessivas, mas levando inexoravelmente, cada vez mais fundo, a um encontro do qual se recua, pressentindo (de maneira inexata) que se o descobrirá, em última análise, intolerável.

Já é uma pequena estória de horror, muito provavelmente com uma protagonista feminina (como observado, de maneira aguçada, em Amos & Gromar). Desde o princípio, é uma sensação sinistra. Não se pode ver exatamente por quê, já que não se pode suportar ver. A imprecisão da percepção já é protetora, ou evasiva, servindo dramaticamente como um pressentimento agourento do pânico cegante, da fuga selvagem e dos gritos que certamente devem vir. Você realmente não quer ver isso, muito embora (horrivelmente) você saiba que você tem que ver, porque poderia ser perigoso. Como os lívidos cartazes de filmes guincham sensacionalmente, é uma coisa que É Melhor Você Levar a Sério.

Isso é o jornalismo comendo a si mesmo, ou sendo comido, em um encontro com algo monstruoso vindo do Exterior. Olhe para esta coisa que você não será capaz de olhar (sem gemer em horror). Observe o que você não pode suportar ver. Inclina-se para um tipo de loucura, que não poderia ser mais óbvia ou menos claramente perceptível. Os editores de Sigl foram sugados para dentro de um vórtex de sensacionalismo horrível que chama atenção para a única coisa que eles têm o dever de esconder das pessoas. Tem que ser arrepiante, isto é: imperceptível no momento mesmo em que é vista. A resposta aprovada à Neorreação é ficar arrepiado, mas isso não pode ser o suficiente.

A princípio poderíamos pensar que ‘arrepiante’ é um adjetivo subjetivo, que descreve algo horrível demais para se descrever. É tentador, uma vez que suspeitamos que essas pessoas se retiraram aos seus sentimentos há muito tempo. A realidade é bem mais arrepiante.

As coisas realmente arrepiam, embora não exatamente de maneira objetiva, quando procedem de uma maneira que você não é bem capaz de perceber. Evidentemente, Moldbug  isso (“Algo está acontecendo aqui. Mas você não sabe o que é – sabe, Mr. Jones?”).

Você tem que imaginar que você é a mídia para ir mais adiante na estória de horror. Aí você pode ver que é arrepiante, em parte (sempre em partes), porque você a deixou entrar. Aquela coisa de guinchar que você estava fazendo? Talvez você devesse ter tomado como um sinal. Agora ela está rastejando por dentro, na sua mídia, nos seus cérebros, em seus pensamentos vagos e sem escrutínio e em todos aqueles elaborados sistemas de segurança que você gastou tanto tempo montando – agora eles são em sua maior parte uma pista de obstáculos para os tiras, ou quem quer que seja que você pensa que poderia, em imaginação, vir a seu resgate, porque eles certamente não estão entre você e o Vírus Mental.

Sério, o que você estava pensando, quando começou a gritar sobre ela e, assim, a deixou entrar? Você não sabe, né? – e isso é seriamente arrepiante. Muito embora você não queira – de maneira alguma – ela lhe faz pensar sobre BDH, hereditariedade, instintos, impulsos e máquinas química incompreensíveis, furtivamente operantes por trás de seus pensamentos, obstinadas em sua realidade e intoleráveis para além do reconhecimento. Guinchar “ciência nazista!” (ou o que seja) não ajuda, porque agora ela está dentro, e você sabe que é verdade, mesmo enquanto você atua como a heroína sendo caçada, balbuciando “não, não, não, não, não…”, recuando cada vez mais profundamente nas sombras. Isto é a realidade, e já está dentro, era isso que você estava dizendo quando a chamou de ‘arrepiante’.

Está acontecendo, e não faz sentido nenhum dizer “supere” – porque você não vai.

Original.

Horrorismo

A Neorreação, conforme tende à extremidade de seu vetor no Iluminismo Sombrio, frustra todas as demandas familiares por ativismo. Mesmo que a anti-política explícita continue sendo uma postura minoritária, o cálculo demótico da possibilidade política, há muito dominante, é consistentemente subvertido – esvaziando os eleitorados demográficos dos quais se poderia esperar uma ‘mobilização’. Não há nenhuma classe, raça ou credo reacionário remotamente coerente – ela dolorosamente explica – a partir do qual uma política de massas que reverta a maré possa ser construída. A este respeito, mesmo as versões mais brandas de análise neorreacionária são profundamente decepcionantes em termos de política.

Quando as ideologia demotistas entraram em crises superficialmente comparáveis, elas se bifurcaram em ‘realistas’ conciliadores e ‘terroristas’ extremistas. A última opção, que substitui a erosão do fator extensivo (popular) por uma intensificação violenta da vontade política, é um indicador especialmente confiável de que o demotismo está entrando em um estado idealista, no qual suas características ideológicas essenciais são expostas com peculiar clareza. Terroristas são os veículos de ideias políticas que ficaram encalhadas por conta de uma maré vazante de identidade social e estão, assim, liberados para se aperfeiçoarem na abstração da praticidade massiva. Uma vez que um movimento revolucionário se torna demograficamente implausível, terroristas nascem.

O realismo neorreacionário, em contraste, está positivamente alinhado com a recessão da sustentação demótica. Se este não fosse o caso, ele exibiria seu próprio modo específico de política democrática – um evidente absurdo. Qualquer sugestão de raiva frustrada, que se incline a expressões terroristas, imediatamente revelaria uma profunda confusão, ou hipocrisia. Açoitar as massas até a aquiescência ideológica, através da violência exemplar, não pode sequer imaginavelmente ser um objetivo neorreacionário.

O ativismo demotista encontra sua rigorosa ‘contrapartida’ neorreacionária no fatalismo – tricotomizado como providência, hereditariedade e catalaxia. Cada uma destas vertentes do destino trabalha em seu caminho para fora, na ausência do endosso político das massas, com um impulso que se constrói através da dissolução da ação compensatória organizada. Em vez de tentar fazer algo acontecer, a fatalidade restaura algo que não pode ser parado.

É assim que os contornos aproximados da tarefa horrorista emergem em foco. Em vez de resistir ao desespero do ideal progressista aterrorizando seus inimigos, ela se dirige à culminação do desespero progressista no abandono da compensação à realidade. Ela des-mobiliza, des-massifica e des-democratiza, através de intervenções sutis, singulares e catalíticas, orientadas à efetuação do destino. A Catedral tem que ser horrorizada à paralisia. A mensagem horrorista (aos seus inimigos): Nada do que você está fazendo tem qualquer possibilidade de funcionar.

“O que deve ser feito?” não é uma questão neutra. O agente que ela invoca já se estica na direção do progresso. Isso é suficiente para sugerir uma resposta horrorista: Nada. Não faça nada. Sua ‘práxis’ progressista dará em nada, em todo caso. Desespere-se. Receda ao horror. Você pode fingir prevalecer em antagonismo a ‘nós’, mas a realidade é seu inimigo verdadeiro – e fatal. Não temos nenhum interesse em gritar para você. Nós sussurramos, gentilmente, em seu ouvido: “desespere-se”. (O horror.)

Original.

Horror Reacionário

Dentro da tradição ocidental, a expedição para encontrar Kurtz no fim do rio tem um única e esmagadora conotação. É uma viagem ao Inferno. Daí sua absoluta importância, excedendo totalmente as ‘especificações da missão’. Os objetivos atribuídos não são mais do que um pretexto, organizando os termos da aproximação a um destino derradeiro. A unidade narrativa, conforme ganha impulso, é verdadeiramente infernal. O Iluminismo Sombrio é a atração comandante.

Sem dúvida existem espécies de filosofia reacionária política e histórica que permanecem completamente inocentes de tais impulsos. Quase certamente, elas predominam sobre suas sócias mórbidas. Manter uma orientação psicológica retrógrada, por reverência ao que já foi e está deixando de ser, pode se opor de maneira razoável àqueles para quem a desintegração da tradição descreve um gradiente e um vetor, que propele a inteligência adiante, para dentro do abismo que se escancara.

A reação é articulada como uma inversão da promessa progressista, dissociando ‘o bem’ e ‘o futuro’. A narrativa tácita da ficção científica, que corresponde à evolução social projetada, é despojada de seu otimismo, e dois gêneros alternativos surgem em seu lugar. O primeiro, como fugazmente notamos, é suave e nostálgico, reequilibrando a tensão do tempo em direção ao que foi perdido e tendendo a uma residência cada vez mais onírica de antigas glórias. Uma mentalidade conservadora-tradicionalista se devota a uma busca mnemônica, preservando vestígios de virtude em meio a remanescentes de uma sociedade erodida, ou – quando a preservação finalmente renuncia à sua compreensão da realidade – se voltando para evocações fantástica, enquanto reduto final da resistência. Tolkien exemplifica essa tendência em sua expressão mais sistemática. O futuro é gentilmente obliterado, conforme o bem morre dentro dele.

A segunda alternativa reacionária à ruína do futurismo utópico se desenvolve na direção do horror. Ela não hesita em sua viagem ao fim do rio, mesmo quando agouros envoltos em fumaça se espessam no horizonte. Conforme a devastação se aprofunda, seu futurismo é ainda mais acentuado. A projeção histórica se torna a oportunidade para uma exploração do Inferno. (O ‘neo-‘ da ‘neorreação’, assim, encontra uma confirmação adicional.)

Nessa trajetória, a antecipação histórica reacionária se funde com o gênero do horror em sua possibilidade mais intensa (e verdadeira vocação). Numerosas consequências ficam bem rapidamente evidentes. Uma zona especial de significância se refere à insistente questão da popularização, que está substancialmente resolvida, quase desde o começo. O gênero do populismo reacionário já está firmemente formulado, no lado da ficção de horror, onde coisas indo para o Inferno é uma pressuposição estabelecida. O Apocalipse Zumbi é apenas a variante mais proeminente de uma acomodação cultural bem mais geral ao desastre iminente. O ‘sobrevivencialismo’ é uma convenção do gênero tanto quanto uma expectativa sócio-política. (Quando, como VXXC aponta no blog, a munição .22 funciona como uma moeda virtual, a ficção de horror já se instalou como uma dimensão da realidade social.)

A reação não faz dialética, nem conversa com a Esquerda (com a qual não tem nenhuma comunidade), ainda assim a fatalidade histórica carrega sua mensagem: Suas esperanças são nossa estória de horror. Conforme o sonho perece, o pesadelo se fortalece e até mesmo – horrendamente – se revigora. Então, como se desenrola esse conto …?

elysium

O que você estava esperando? Valfenda?

Original.

O Acordo

A NRx repudia a política pública. Inverta isso e é a tese: A política acontece em privado.

Especificamente – enquanto filosofia política – a NRx advoga a privatização do governo. Ela faz um argumento público em favor disso, em abstrato, mas apenas para propósitos de otimização informacional e teórica. Ela não está, jamais, fazendo política em público, mas apenas pensando sobre ela sob condições de segurança mínima para a inteligência. A execução concreta da estratégia política ocorre através de acordos privados.

A moeda de troca de tais acordos foi formalizada, por Mencius Moldbug, como propriedade primária (ou soberana e fungível). Ela corresponde à conversão – seja ideal ou real – do poder coercitivo em ativos empresariais. Esta conversão é o que ‘formalismo’ significa. É uma contribuição importante para a filosofia política e para a economia política, mas é também uma posição de negociação.

Clamores por Ação! (pública) estarão sempre conosco, pelo menos até que as coisas sejam radicalmente arrumadas. Eles deveriam ser ignorados. Nenhuma ação púbica é séria.

A coisa séria é o acordo, que substitui qualquer aparência de revolução e também perpetuação de regime. A NRx das sombras – que age por fora da esfera de visibilidade pública – é um vulture fund político. Este blog não quer saber quem ou o que ela é. Seu profundo sigilo é o mesmo que sua realidade. Nossa preocupação está restrita à maneira em que ela necessariamente age, em conformidade com um princípio absoluto. Perguntamos apenas: Como o acordo tem que ser?

Em sua essência é isto: Entregue suas capacidades efetivas de preservação do regime em troca de ações de propriedade primária. A forma assim indica os outorgantes relevantes – detentores das chaves do poder coercitivo. O que está em oferta para eles, conforme a NRx se desenvolve na realidade (nas sombras), é a formalização de sua autoridade social implícita, através da emergência de um novo – definitivo ou ‘transcendental’ – meio comercial. Toda a transição neocameral é realizada através disto.
“Transforme tudo que você tem em código rigoroso, e tudo muda. Podemos ajudar com a parte técnica.”
“Por que eu deveria fazer isso?”
“Vai valer a pena.”

Este é o aspecto de vulture fund. A capacidade de poder coercitivo é sistematicamente sub-valorizada sob as condições de degeneração demótico-catedralistas, uma vez que é desperdiçada na preservação cada vez mais ineficiente de um establishment religioso insano – a Eclesiocracia Ateo-Ecumênica – e compensada de acordo, a partir dos restos carbonizados do desastre político crônico. Depois que programas sociais domésticos disfuncionais, compra de eleições e política externa jacobina foram pagos, o que resta para recompensar a governança competente?

A capacidade administrativa está escravizada à Catedral, o que quer dizer, a uma zelosa busca de objetivos impossíveis e, assim, ao desperdício acelerante. Enquanto oportunidade de negócios (“Podemos ajudar com a parte técnica”), a atratividade da deserção cresce, portanto, em proporção estrita com o triunfo do progressismo. Isto é crítico, porque os risco do limiar de transição são imensos, e o acordo tem que cobri-los.

“Todo essa governanaça complexa que você está fazendo sob circunstâncias cada vez mais ridiculas? Queremos lhe ajudar a transformá-la em um negócio.”

 

… “Você entende que você está basicamente trabalhando como um valentão da segurança de Jim Jones no momento, sim?”

A Catedral é o Templo do Povo.

Original.