Guerra é Deus

Via Landry, uma introdução à “nova geração de guerra irrestrita”

Os coronéis Qiao Liang e Wang Xiangsui argumentavam que a guerra não era mais sobre “usar forças armadas para compelir o inimigo a se submetir à sua vontade”, no sentido clausewitziano clássico. Em vez disso, eles afirmavam que que a guerra havia evoluído para, “usando todos os meios, incluindo força armada ou força não-armada, militar e não-militar e meios letais e não letais, compelir o inimigo a aceitar seus interesses”. A barreira entre soldados e civis seria fundamentalmente apagada, porque a batalha seria em todo lugar. O número de novos compos de batalha seria “virtualmente infinito” e poderia incluir guerra ambiental, guerra financeira, guerra comercial, guerra cultural e guerra legal, para nomear apenas algumas. Eles escreveram sobre assassinar especuladores financeiros para garantir a segurança financeira de uma nação, fazer caixa dois para influenciar as legislaturas e governos do oponente, e comprar quotas de controle de ações para converter os principais canais de televisão e jornal em ferramentas de guerra midiática. De acordo com a nota do editor, Qiao argumentou em uma entrevista subsequente que “a primeira regra da guerra irrestrita é que não existem regras, sem nada proibido”. Esta visão claramente transcende quaisquer noções tradicionais de guerra.

Quão ‘tradicional’ estamos falando? “A Guerra é o Pai de todas as coisas e, de todas as coisas, Rei” (πόλεμος πάντων μὲν πατήρ ἐστι, πάντων δὲ βασιλεύς), Heráclito afirma, na aurora da filosofia. Parece haver pouca indicação de ‘restrição’ aqui.

Quaisquer que sejam suas associações semânticas positivas acumuladas pela palavra ‘guerra’, seu significado mais rigoroso é negativo. Guerra é conflito sem restrição significativa. Como um jogo, ela corresponde à condição de de deserção ilimitada ou desconfiança sem limites. Este é o entendimento hobbesiano implícito na frase “guerra de todos contra todos” (bellum omnium contra omnes), no qual “o estado de natureza” é concebido – novamente, de maneira negativa – através de uma subtração imaginária de limitação. A traição, em seu sentido na teoria dos jogos, não é um tema secundário dentro da guerra, mas um horizonte ao qual a guerra tende – a aniquilação de todo acordo. A deslealdade mutual reciprocamente incitada, em afastamento de uma ‘humanidade comum’ implícita, é sua essência teleológica. Esta é uma conclusão explicitamente rejeitada por Carl von Clausewitz em seu tratado Da Guerra, mesmo ao passo em que ele reconhecia a inclinação cibernética à amplificação (ou “tendência a um limite”) que a impulsiona na direção de um absoluto. “A guerra é a continuação da política por outros meios”, ele insiste, porque ela é moldada pela negociação (delimitada por uma declaração de e um tratado de paz). De acordo com esta concepção, ela é um interlúdio de discordância, que, não obstante, continua sendo irredutivelmente comunicativo e fundamentalmente estruturado pelas decisões de agências políticas soberanas. Mesmo na medida em que ela se aproxima de seu polo de derradeira extremidade, ela nunca escapa de sua dependência teleológica, enquanto meio (ou instrumento) de estadismo racional.

A redução da guerra à instrumentalidade não está imune à crítica. A radicalização filosófica, por si só, é suficiente para liberar a guerra de sua determinação enquanto ‘jogo dos príncipes’. A fórmula clausiwitziana é notoriamente invertida por Michel Foucault na máxima “a política é a guerra por outros meios”. Se a soberania política está, em última análise, condicionada pela capacidade de prevalecer no campo de batalha, as normas da guerra podem não ter nenhum tribunal mais alto do que o desempenho militar. Nenhuma autoridade real pode transcender a sobrevivência, ou sobreviver uma derrota suficientemente radical. Há, desta forma, uma incoerência derradeira em qualquer apelo convencido às ‘leis da guerra’. A concepção realista de ‘guerra limitada’ subordina àquela da ‘guerra perseguida de maneira legal’ (com a última categorizada como uma limitação eletiva). As palavras de Qiao comportam uma enfática repetição: “a primeira regra da guerra irrestrita é que não existem regras, sem nada proibido”. O poder de proibir é – primeiro de tudo – poder, que (apenas) a guerra distribui.

Entre a paz e a guerra, não há nenhuma simetria verdadeira. A paz pressupõe pacificação e isto é um resultado militar. Não há nenhuma autoridade – moral ou política – que não possa primeiro se afirma sob condições cósmicas que são primordialmente indiferentes à normatividade. O que quer que não possa defender sua existência tem seu caso jogado no lixo.

O Judge Holden de Cormac McCarthy nos fornece uma reafirmação da antiga sabedoria:

Suponha dois homens jogando cartas, sem nada para apostar exceto suas vidas. Quem nunca ouviu um conto desses? Uma virada da carta. Todo o universo, para tal jogador, trabalhou tinindo para seu momento, que dirá se ele deve morrer na mão daquele homem ou aquele homem nas suas. Qual validação mais certeira do valor de um homem poderia haver? Esse aprimoramento do jogo até seu estado derradeiro não admite qualquer argumento em relação à noção de destino. A seleção de um homem sobre um outro é uma preferência absoluta e irrevogável, e é um homem maçante de fato aquele que pudesse considerar tão profunda decisão sem agência ou significância, qualquer uma. Em tais jogos, que têm como sua aposta a aniquilação do derrotado, as decisões são bastante claras. Este homem, segurando este arranjo particular de cartas em suas mãos, está, deste modo, removido da existência. Esta é a natureza da guerra, cuja aposta é, de uma só vez, o jogo e a autoridade e a justificativa. Vista assim, a guerra é a mais verdadeira forma de divinação. É o teste da sua vontade e da vontade de um outro, dentro daquela vontade mais ampla que, porque as vincula, é, portanto, forçada a selecionar. A guerra é o jogo derradeiro porque a guerra é, afinal, um forçar da unidade da existência. Guerra é deus.

“A guerra é a mais verdadeira forma de divinação”, ao que parece, é a Revelação do Éon.

Original.
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