O Que é Filosofia? (Parte 2a)

Por mais estranho que o reconhecimento possa ser, não se pode evitar o fato de que a filosofia, quando apreendida dentro da tradição Ocidental, é o pecado original. Entre a árvore da vida e a árvore do conhecimento, ela não hesita. Seu nome é indistinguível de uma lascívia pelo proibido. Embora queimar filósofos não seja mais socialmente aceitável, nossa ordem canônica de proibição cultural – em sua raiz – só pode considerar tal punição obrigatória. Uma vez que se permita que filósofos vivam, a civilização estabelecida está acabada.

Para a filosofia, o sussurro da serpente não é mais uma tentação resistível. Ela é, pelo contrário, um princípio constitutivo, ou fundação. Se há uma diferença entre um daemon socrático e um demônio diabólico, não é uma que importa filosoficamente. Não pode haver nenhuma recusa de qualquer informação acessível. Esta é uma suposição tão básica que a filosofia não pode existir até que ela tenha passado para além de questão. Transgressão religiosa derradeira é a iniciação.

Não deveria ser nenhuma surpresa para os Tradicionalistas Cristãos, portanto, encontrar as extremidades do esforço filosófico misturadas, intimamente, nas cinzas do Terceiro Reich. O absoluto religioso negativo, ou mal infinito, do experimento Nacional-Socialista, que suplanta toda a revelação positiva sob as condições socioculturais da Catedral madura, é, ‘coincidentemente’, o lugar em que o limite da filosofia foi traçado. Isto é, claro, introduzir o pensamento de Martin Heidegger.

Como a perfeita negação de Cristo, ou realização consumada do Anti-Cristo, Adolf Hitler fecha – ou completa de maneira essencial – a história do Ocidente. Não importa se acreditamos nisso. A Catedral o faz, absolutamente, ao ponto de doutrina selada. Heidegger antecipou lucidamente esta conclusão. Em um comício eleitoral, realizado por acadêmicos alemães em 11 de novembro de 1933, ele declarou:

Declaramos nossa independência do ídolo do pensamento que não tem fundamento, nem poder. Vemos o fim da filosofia que serve a tal pensamento. …E, assim, nós, a quem a preservação da vontade de saber de nosso povo será no futuro confiada, declaramos: A revolução Nacional-Socialista não é meramente a assunção do poder, da forma em que ele existe atualmente no Estado, por outro partido, um partido que ficou suficientemente grande em números para ser capaz de fazê-lo. Antes, esta revolução está realizando a total transformação de nossa existência alemã. …O Führer despertou essa vontade [de auto-responsabilidade nacional] em todo o povo e a fundiu em uma única resolução. Ninguém pode ficar longe das urnas no dia em que esta vontade for manifestada.
Heil Hitler!

Naturalmente, enquanto pronunciamento democrático (endereçado a comparativos imbecis), apenas algumas pistas da profunda modulação de Heidegger da “vontade de saber” germânica se infiltram. A [reconstrução, por parte da Wikipédia, do pano de fundo visionário oculto, extraída da obra de Michael Allen Gillespie, é excelente:

Heidegger acreditava que o mundo ocidental estivesse em uma trajetória em direção à guerra total e à beira de um niilismo profundo (a rejeição de todos os princípios religiosos e morais), que seria a revelação mais pura e elevada do Ser em si mesmo, oferecendo uma horrível encruzilhada de salvação ou do fim da metafísica e da modernidade; fazendo do Ocidente: um deserto populado por brutos que usam ferramentas, caracterizado por uma ignorância sem precedentes e por um barbarismo em que tudo é permitido. Ele pensava que a última possibilidade degeneraria a raça humana, de maneira geral, em: cientistas, trabalhadores e brutos; vivendo sob o último manto de uma de três ideologias: Americanismo, Marxismo ou Nazismo (que ele considerava metafisicamente idênticas; enquanto avatares de subjetividade e do niilismo institucionalizado) e sob uma tecnologia mundial totalitária irrestrita. Supostamente, esta época seria ironicamente celebrada como a mais iluminada e gloriosa da história humana. Ele vislumbrava este abismo como sendo o maior evento na história do Ocidente; porque ele permite que a Humanidade compreenda o Ser mais profunda e primordialmente do que os Pré-Socráticos.

É errôneo sugerir que Heidegger via qualquer distinção entre “salvação” e “o fim da metafísica e da modernidade”, ou que não via nenhuma distinção significativa entre a díade tecnológica irrefletida do Americanismo/Marxismo e o despertar Nacional-Socialista da existência alemã, mas nos outros aspectos essa descrição é penetrante. Ao trazer a história da ocultação do Ser à sua ruinosa conclusão, o niilismo consumado proclamaria um retorno à origem da filosofia, abrindo o caminho para um encontro cru com o abismo escondido e inominável (o Ser em sua própria verdade). Como porta para o fim do mundo, Hitler liderava o caminho ao historicamente impensável.

Sim, isso é altamente – de fato, singularmente – arcano. Antes d’O Evento, não pode haver qualquer formulação adequada do problema, muito menos a solução. Por volta de 1927, com a publicação de Ser e o Tempo (Parte I), Heidegger havia completado o que é alcançável antes da calamidade, que é esclarecer a insuficiência da Questão do Ser, como ela foi formulada dentro da história da ontologia.

Os recursos cognitivos de Heidegger são basicamente kantianos, o que é dizer que ele empreende um crítica transcendental da ontologia, produzindo não uma filosofia crítica, mas um esboço de uma ‘ontologia fundamental’. Onde Kant diagnostica o erro da metafísica especulativa como uma confusão entre objetos e suas condições de possibilidade (o que então interpreta as últimas como objetos de um discuso insustentável), Heidegger ontologiza a abordagem transcendental, distinguindo entre ‘seres’ e sua base (o Ser), ao passo que diagnostica o concomitante erro de interpretar a base dos seres como ela mesma um ser (de algum tipo). Uma vez que o ser mais dignificado – e, assim, exemplar – conhecido da tradição Ocidental é Deus, Heidegger se refere à má apreensão estrutural do Ser – que define e ordena a história da filosofia – como ‘Onto-Teologia’.

Criticamente (ou ‘destrutivamente’) concebida, a ontologia fundamental é aquela investigação que não apresenta a Questão do Ser de tal maneira que ela possa ser respondida pela invocação de um ser. Nenhuma formulação adequada, compatível com este critério transcendental (ou ‘diferença ontológica’), é concebível, porque não importa como ‘o Ser’ seja nomeado, sua concepção permanece presa dentro da esfera ‘ôntica’ dos (meros) seres. Não podemos, através de um ato de vontade filosófica – não importa o quão estrênuo – deixar de pensar sobre o Ser como se ele fosse algum tipo de coisa, mesmo depois de entender a inadequação de tal apreensão. É assim, quebrada por sobre um problema derradeiro que não pode ser nem dispensado, nem resolvido, que a filosofia alcança seu fim, aguardando a ruína do clímax d’O Evento.

[Breve intervalo – e depois tempo, linguagem e mais apocalypse ontológico nazista]

Original.
Advertisements

O Que é Filosofia? (Parte 1)

A agenda deste blog é persuadir a nova reação à exerção filosófica. Então, o que é filosofia? A resposta mais crua a esta questão é provavelmente a mais robusta.

A filosofia é o polo de máxima abstração de qualquer cultura, ou inteligência intrinsecamente experimental, expressando a liberação das capacidades cognitivas da aplicação prática imediata e seu teste contra problemas ‘últimos’ no horizonte do entendimento. Historicamente, ela é um empreendimento cultural distintivo – e apenas depois uma instituição – com aproximadamente 2500 anos de idade, e está firmemente enredada, em sua origem, com o aspecto ‘místico’ ou problemático das religiões pagãs. Foi dentro desta matriz primordial que ela encontrou seu desafio mais básico e duradouro: a borda do tempo (sua natureza, limites e ‘exterior’, sobre os quais muito mais depois). Os primeiro filósofos eram místicos pagãos cognitivamente auto-disciplinados – e, assim, comparativa e socialmente irrestritos – consistentemente encantados pelo enigma do tempo.

Normalmente é um erro ficar pendurado em palavras, esquecendo sua função como índices puros (‘nomes’) que simplesmente marcam coisas, antes de descrevê-las ricamente. Nomes pessoais tipicamente têm significados, mas é raro permitir que isso distraia de sua função enquanto nomes, ou ponteiros, que fazem muito mais referência do que sentido. ‘Filosofia’ não é nenhuma exceção. Que ela ‘signifique’ o amor à sabedoria é uma irrelevância comparado ao que ela designa, que é algo que estava acontecendo – antes de ter um nome – na Grécia antiga (e, talvez, através de uma extensão plausível, na China, na Índia e até mesmo no Egito). O que a filosofia ‘é’ não pode ser deduzido por meio de análise linguística, não importa o quão sutil essa possa ser.

Platão resumiu e institucionalizou a filosofia (Ocidental), traçando a borda do tempo na doutrina das Ideias (ἰδέαι). O tempo foi concebido como o domínio do inessencial, dentro do qual as coisas apareciam, ao passo que apenas davam pistas de sua verdade. “A caracterização geral mais segura da tradição filosófica européia é que ela consiste de uma série de notas de rodapé a Platão”, A. N. Whitehead notavelmente observou (em seu aptamente intitulado Process and Reality). Ainda assim, uma vez que a Ideia do tempo necessariamente eludia a filosofia platônica, o esforço permaneceu irresoluto em seus fundamentos.

O pensamento de Aristóteles, que dominou a pré-modernidade cristã, guiou a filosofia primordial ainda mais a um eclipse. Sua derivação do tempo a partir da mudança e – de maneira mais promissora – do número abriu o caminho para avanços técnicos posteriores, mas ao custo de tornar o enigma do tempo ininteligível e até mesmo invisível. O problema foi relegado à teologia e, assim, ao tópico do temporal e do eterno, que foi atravancado com elementos doutrinários estranhos (criação, encarnação, o emaranhado inconsistente dos três ‘omni’s), tornando-o inapropriado para uma investigação rigorosa.

A filosofia primordial não foi reativada no Ocidente até o final do século XVIII, sob o nome de crítica ‘transcendental’, na obra de Immanuel Kant. A filosofia crítica kantiana limita o escopo do entendimento ao mundo da experiência possível, sempre já estruturado por formas de apreensão (conceitual e sensível), que produz objetos. A confusão dos objetos com suas formas de apreensão, ou ‘condições de possibilidade’, ele argumenta, é a raiz de todo erro filosófico (por exemplo – e de maneira mais pertinente – a tentativa ‘metafísica’ de compreender o tempo como alguma coisa, em vez de como uma estrutura ou quadro de aparência). Ao contrário das formas ou ideias de Platão, a formas de Kant são aplicadas e, assim, ‘imanentes’ à experiência. Elas são acessíveis, embora ‘transcendentais’, em vez inacessivelmente ‘transcendentes’.

O tempo, ou ‘a forma do sentido interior’, é a pedra fundamental do sistema de Kant, organizando a integração dos conceitos com as sensações e, desta forma, descrevendo as fronteiras do mundo (da experiência possível). Além dele jazem tratos ‘numenais’eternamente inacessíveis – problematicamente pensáveis, mas nunca experienciados – habitados pelas coisas-em-si-mesmas. A borda do tempo, portanto, é o horizonte do mundo.

No começo do século XX, a física cosmológica retornou à borda do tempo e à questão: o que ‘veio antes’ do Big Bang? Para a cosmologia, não menos do que para a filosofia transcendental – ou mesmo para a teologia especulativa – esse ‘antes’ não poderia ser precedência (no tempo), mas apenas uma exterioridade (não espacial), para além da singularidade. Ele indicava um não-lugar atemporal, cripticamente adjacente ao tempo e até mesmo inerente a ele. O tempo cuidadosamente desmistificado da ciência natural, calculável, mensurável e contínuo, agora apontava para além de si mesmo, reativado nas bordas.

Assim como o platonismo não consegue pensar a Ideia do tempo, o kantianismo não consegue pensar o Tempo-em-si-mesmo. Estas concepções são impedidas pelos próprios sistemas de filosofia que as provocam. Ainda assim, todos aqueles que se encontram imediatamente tentados a dispensar Kant sobre bases naturalistas – a esmagadora maioria dos modernos contemporâneos, sem dúvida – tacitamente evocam exatamente essa noção. Se o tempo for liberado de sua constrição dentro do idealismo transcendental, onde ele não é nada além do que é para nós, então ele não pode deixar de ser ‘algo’ em si mesmo. É dificilmente imaginável que um físico cosmológico pudesse duvidar disto sequer por um momento, e o caminho da ciência não pode ser recusado por muito tempo.

O Tempo-em-si-mesmo, portanto, é agora o único e singular problema da filosofia primordial, por onde a borda do tempo corre. Ele decide o que é filosofia e o que a filosofia não pode deixar de ser. O que permanece além disso ou está subordinado em princípio, ou é mera distração. Instituições insistirão em sua autoridade para responder esta questão, mas, em última análise, elas não têm nenhuma. É o problema – a borda do tempo – que faz seu caminho.

Original.

Horror Malthusiano

O post é lançado assim porque é sexta-feira à noite, mas funciona. Um post mais atencioso poderia ter sido intitulado simplesmente ‘Malthus’ e envolvido muito trabalho. Isso vai ser necessário em algum ponto. (Eis aqui a 6ª edição de An Essay on the Principle of Population, para qualquer um que queira começar agora.) Uma abordagem mais minuciosamente técnica teria sido marcado como ‘neo-malthusianismo’. Embora simpatize com lamentações sobre um outro prefixo ‘neo-‘, neste caso ele teria sido solidamente justificado. É apenas através da expansão da compreensão malthusiana, de acordo com uma lei de conservação mais geral, que sua relevância atual completa pode ser apreciada. O Malthus clássico ainda faz bem mais trabalho do que lhe é creditado, mas contém um princípio de bem aplicação bem mais penetrante.

O ‘neo-‘, em sua forma mais frívola, é meramente uma marca da moda. Quando empregado de maneira mais séria, ele denota um elemento de inovação. Seu sentido mais significante inclui não apenas novidade, mas também abstração. Algo é levado adiante de tal maneira que seu núcleo conceitual é destilado através da extração de um contexto específico, alcançando uma generalidade mais elevada e uma formalidade mais exata. Malthus antecipa isto parcialmente, em uma frase que aponta para além de qualquer concretude excessivamente restritiva:

malthus00

“O poder da população é tão superior ao poder da terra em produzir subsistência ao homem que a morte prematura deve, de uma forma ou outra, visitar a raça humana.”
– Reverendo Thomas Malthus

A qualificação “de uma forma ou outra” poderia ter sido extraída do horror abstrato, e “morte prematura” só a restringe vagamente. Ainda assim, essa formulação permanece demasiado estreita, uma vez que tende a excluir o resultado disgênico que, desde então, descobrimos ser uma dimensão da expressão malthusiana, pouco menos imponente do que a crise de recursos. Uma descrição neo-malthusiana do “X”, que, de uma forma ou outra, faz uma sombria perversidade de todos os esforços da humanidade para melhorar sua condição, o compreende como um destino matematicamente conservado, plástico ou abstrato, funcionando tão sem remorso através de reduções da mortalidade (‘relaxamentos’ malthusianos) quanto através de aumentos (‘pressões’ malthusianas). Ambos contariam igualmente como “restrições à população” – cada um conversível, através de um cálculo complexo, ao termos do outro. Uma população disgenicamente deteriorada através do relaxamento malthusiano ‘iluminado’ descobre, uma vez mais, como passar fome.

O Iluminismo Sombrio (ensaio) foi claramente catalizado pelo trabalho de Mencius Moldbug, mas deveria ter tido dois pilares histórico-intelectuais anglo-Thomistas ou Thomas céticos (e nenhum deles era Thomas Carlyle). O primeiro era Thomas Hobbes, no qual pelo menos se tocou. O segundo deveria ter sido Thomas Malthus, mas a série foi desviada para dentro da corrente espumante do caso Derbyshire e dos ultrajes da política racial esquerdista. A integridade da concepção foi perdida. Não tivesse sido, poderia ter sido menos tentador ler a corrente-333 como um Anti-Iluminismo, em vez de como um Contra-Iluminismo, no sentido de um alternativa eclipsada à calamidade rousseauista que prevaleceu. Teria certamente anexado o Iluminismo Escocês, mas apenas sob a condição definitiva de que ele fosse acorrentado seguramente ao cadafalso duramente realista do Iluminismo Sombrio (Hobbes e Malthus), desiludido de todo idealismo. Estórias bonitas são para criancinhas (sendo criadas por liberais).

Malthus subtrai todo o utopismo do iluminismo. Ele demonstra que a história é montada – necessariamente – em um jardim de açougueiro. Através de Malthus, Ricardo descobriu a Lei de Ferro dos Salários, desconectando as ideias de avanço econômico e redenção humanitária. Darwin efetuou um revisão comparável (e mais importante) na biologia, também sobre bases malthusianas, dissipando toda a sentimentalidade das noções de ‘progressão’ evolutiva. É a partir de Malthus que sabemos que, quando qualquer coisa parece se mover adiante, é por ser moída contra um fio de corte. É quando Marx tenta colocar Malthus na história, em vez da história em Malthus, que a demência utópica foi ressuscitada dentro da economia. O anti-malthusianismo dos libertários os estigmatiza como tolo sonhadores.

Com a NRx, a questão talvez seja mais instável, mas o Iluminismo Sombrio é inequivocamente malthusiano. Se você encontrar seu olho ficando úmido, arranque-o fora.

Original.

Antecâmara do Horror

Tenho planejado um expedição ao horror, para a qual o Kurtz de Conrad e de Coppola é um ponto de parada essencial – talvez até mesmo um ponto terminal. A missão é articular o horror como uma ‘realização’ funcional e cognitiva – uma calma catástrofe de toda inibição intelectual – que tende ao realismo em sua possibilidade derradeira. O horror é o verdadeiro fim da filosofia. Assim, conta como um momento de sincronicidade tropeçar em Richard Fernandez citando Kurtz (o de Coppola) – e tinha que ser repassado imediatamente. Há, claro, apenas uma passagem que importa, então não é nenhuma coincidência que Fernandez a selecione:

Eu vi horrores… horrores que você viu. Mas você não tem nenhum direito de me chamar de assassino. Você tem o direito de me matar. Você tem o direito de fazer isso… mas você não tem nenhum direito de me julgar. É impossível que palavras descrevam o que é necessário para aqueles que não sabem o que horror significa. O horror… o horror tem uma face… e você tem que fazer do horror um amigo. O horror e o terror moral são seus amigos. Se eles não forem, então são inimigos a serem temidos. Eles são verdadeiros inimigos! Eu lembro quando estava com as Forças Especiais… parece que faz mil séculos. Fomos a um campo para inocular algumas crianças. Deixamos o campo depois de termos inoculado as crianças contra a pólio, e este velho veio correndo atrás de nós e ele estava chorando. Ele não podia ver. Voltamos lá, e eles haviam vindo e decepado cada um dos braços inoculados. Eles estavam em uma pilha. Uma pilha de bracinhos. E eu lembro… eu… eu… eu chorei, eu chorei como uma avó. Eu queria arrancar meus dentes; eu não sabia o que eu queria fazer! E eu quero lembrar disso. Eu não quero esquecer disso nunca …. Eu não quero esquecer nunca. E então eu percebi…. como se eu tivesse sido baleado… como se eu tivesse sido baleado por um diamante… uma bala de diamante atravessando minha testa. E eu pensei, meu Deus… a genialidade daquilo! A genialidade! A vontade de fazer aquilo! Perfeita, genuína, completa, cristalina, pura. E então eu percebi que eles eram mais fortes que nós, porque eles poderiam aguentar aquilo […] estes não eram monstros, estes eram homens… quadros treinados. Estes homens que lutavam com seus corações, que tinham famílias, que tinham filhos, que estavam repletos de amor… mas eles tinham a força… a força… de fazer aquilo. Se eu tivesse dez divisões daqueles homens, nossos problemas aqui acabariam bem rapidamente. Você tem que ter homens que são morais… e, ao mesmo tempo, que são capazes de utilizar seus instintos primordiais para matar sem sentir… sem paixão… sem julgamento… sem julgamento! Porque é o julgamento que nos derrota.

Para arrancar uma frase para repetição: “É impossível que palavras descrevam o que é necessário para aqueles que não sabem o que o horror significa”. Como, então, aprender o que ‘o horror significa’… (mesmo em uma poltrona)?

Original.

Liberdade (Prelúdio-1a)

Nota sobre Teleologia

Bryce, que tem pensado sobre teleologia por um bom tempo, expressa seus pensamentos sobre o tópico com louvável lucidez. O argumento central: Alegações caracteristicamente modernas de se ter ‘transcendido’ o problema da teleologia são tornadas absurdas pela dependência continuada e de fato massivamente aprofundada do conceito de equilíbrio por parte de todas as disciplinas intelectuais sensíveis à complexidade, desde a física estatística, passando pela biologia de populações, até a economia. O equilíbrio é exatamente um telos. Negar isto é primariamente o sintoma de uma alergia a modos de pensamento ‘medievais’ ou ‘escolásticos’ (isto é, aristotélicos), herdada do mecanicismo rebelde vulgar da filosofia natural do início do Iluminismo.

Em que eu acho que o relato de Bryce ainda é deficiente é mais facilmente demonstrado por uma maior especificação de seu ponto principal. O equilíbrio é o telos daqueles sistemas complexos dinâmicos em particular que são governados pela homeostase, o que quer dizer: por um mecanismo dominante de feedback negativo. Tais sistemas estão, de fato, de profundo acordo com a teleologia física aristotélica clássica e com sua tendência a um estado de repouso. Esta antiga física, ridicularizada pelos mecanicistas iluministas em nome da conservação do momento, é redimida, através da abstração, na concepção moderna de equilíbrio. ‘Repouso’ não é imobilidade, mas maximização da entropia.

A Teleologia do Capital, contudo, não é capturada por este modelo. Ela é definida por duas dinâmicas anômalas, que radicalizam a perturbação, em vez de anulá-la. O capital é cumulativo e acelerativo, devido a uma dependência primária de um feedback positivo (em vez de negativo). Ele é também teleopléxico, em vez de teleológico da maneira clássica – inextricável de um processo de reversão de meios e fins que leva uma orientação teleológica anterior (o propósito utilitário humano) em uma direção alternativa e críptica.

Em consequência:

(1) A Teleologia do Capital não se aproxima de uma ideia. Ela é, por natureza intrínseca, um escape em vez de um retorno ao lar. A Ideia, em relação ao dinamismo do Capital, é necessariamente uma constrição. A metafísica inerente do capital é, portanto, irredutivelmente cética (em vez de dogmática).

(2) Segue-se que a ‘finalidade’ Capitalista (isto é, a Singularidade Tecno-comercial) é um limiar de transição, em vez de um estado terminal. O Capital tende a um horizonte aberto, não a um estado de conclusão.

(3) A entropia (considerada, de maneira apropriada, como um processo inerentemente teleológico) é o motor de todos os sistemas complexos. A Teleologia do Capital não tende em direção a um máximo de entropia, contudo, mas a uma escalação da dissipação da entropia. Ela explora a corrente entrópica para viajar para trás, para dentro de estados de via ciberneticamente intensificados de complexidade e inteligência aumentadas. O ‘progresso’ do capitalismo é uma acentuação do desequilíbrio.

(4) A teleoplexia requer um registro teleológico gêmeo. De maneira mais simples, há a ordem utilitária, na qual o capital se estabelece como a solução competitivamente superior para os propósitos anteriores (a produção de valores de uso humanos), e a ordem inteligênica, na qual ele realiza sua auto-escalação (mecanização, autonomização e, em última análise, secessão). Confundir estar duas ordens é quase inevitável, uma vez que a teleoplexia é, por natureza, camuflada (insidiosa). O fato de que ela parece ser orientada à satisfação das preferência de consumo humanas é essencial para sua emergência e sobrevivência sócio-históricas. A indulgência teimosa nesta confusão, contudo, não é digna da inteligência filosófica.

Original.

Liberdade (Prelúdio-1)

A forma mais provocadora de começar isso seria dizer: A recepção de investigações metafísicas da liberdade e do destino é frequentemente similar àquela da BDH. Estas questões não são desejadas. Elas desestabilizam demais. As réplicas que elas evocam normalmente são concebidas para acabarem com uma agitação angustiante, em vez de aproveitar as oportunidades de exploração. Não que isto seja de qualquer forma surpreendente. Tais problemas tendem a fazer pender as fundações mais básicas da existência teológica, cultural e psicológica para dentro de um abismo insondável. Se não podemos estar certos de onde elas levarão – e como poderíamos? – elas apostam o mundo, sem deixar restos. Desista de tudo e talvez algo possa sair disso.

Quando interpretada como uma consideração de causalidade, que relaciona uma concepção de “livre arbítrio” com modelos naturalistas de determinação física, as linhas de batalha parecem dividir a tradição religiosa da ciência moderna. Ainda assim, a tensão mais profunda está enraizada dentro da própria tradição religiosa Ocidental, que estabelece as ideias indispensáveis de eternidade e agência em uma relação de subversão recíproca tácita. A abominação intelectual do calvinismo – que não pode ser pensada sem ruína – é idêntica a este tormento cultural que irrompe à proeminência. É também o motor sombrio da modernidade Ocidental (e, assim, global): o paradoxo central que faz da história uma estória de horror.

Se o futuro (já) é real, que é o que a eternidade implica, então a agência finita ou ‘intra-temporal’ só pode ser uma ilusão. Se a agência é real, como qualquer apelo à liberdade e à responsabilidade metafísicas exigem, a eternidade está abolida pela indeterminação absoluta do tempo futuro. Eternidade e agência não podem ser reconciliadas fora do berço de uma obscuridade reconfortante. Esta, pelo menos, é a indicação a ser extraída da história Ocidental da convulsão teológica e da crise filosófica em curso. Agostinho, Calvino, Espinoza estão entre as ondas de choque mais óbvias de um envolvimento despedaçador de almas na eternidade, que funde tradição e catástrofe como destruição.

“Você acha que foi predestinado a se tornar um filósofo?” se pergunta ao filósofo católico Peter Kreeft:

Sim, claro. A predestinação está na Bíblia. Um bom autor dá liberdade às suas personagens, de modo que somos livres precisamente porque fomos predestinados a sermos livres. Não há qualquer contradição entre predestinação e livre arbítrio.

Este blog ainda tem algumas questões a perseguir…

Original.

Realismo Neorreacionário

O lugar mais fácil para se começar é com o que o realismo neorreacionário não é, que é isto:

Para se estabelecer um estado reacionário no Ocidente durante nossas vidas, precisaremos articular a necessidade de um em uma linguagem que milhões de pessoas possam entender. Se não para produzir nacionalistas, para pelo menos produzir um grande contingente de simpatizantes. A questão “O que é exatamente que vocês propõem fazer?” deve ser respondida, primeiro em termos simples, e depois em termos detalhados que apoiem de forma direta os argumentos simples. A ânsia de desenvolver teorias esotéricas de causas e circunstâncias deveria ser deixada de lado e substituída por propostas concretas para uma nova forma de governo que harmonize com princípios perenes. Isto pode ser alcançado ao se produzir teorias positivas para uma nova ordem, em vez de analizar as porcas e parafusos de uma ordem decadente.

Começar com um modelo de uma sociedade ideal é um procedimento que já tem um nome, e um que é diferente: Utopismo. Não é uma maneira difícil de pensar. Por exemplo, imagine um regime embasado na política fiscal comutativa. No que concernem considerações econômicas, o problema político está resolvido. Escolhas de políticas estão alinhadas com incentivos práticos, e o impulso democrático manifestamente irresistível em direção à violação redistributiva dos direitos de propriedade é imediatamente exterminado. O problema com esta ideia? – Não há nenhuma maneira prática de consegui-la. O problema real da filosofia política não está no esforço conceitual de modelar uma sociedade ideal, mas em sair de onde estamos, em uma direção que tenda à otimização de um valor selecionado (igualdade é uma merda, utilidade não funciona, liberdade é OK, inteligência é o melhor).

Aonde podemos chegar a partir daqui? A menos que esta questão controle a teoria política, o resultado é irrelevância utópica. O problema inicial real é escapar. Em consequência, duas amplas avenidas de reflexão neorreacionária realista estão abertas:

(1) Elabore a escapada. Este tópico naturalmente se bifurca, por sua vez, em identificação e investimento em instituições embasadas em saída e na promoção de opções secessionistas (desde o federalismo fissional até o seasteading). Uma sociedade baseada em escapar, ao contrário de uma utopia, é estruturada da mesma maneira em que é alcançada. Ao se chegar em um mundo feito do tipo certo de fragmentos – estilhaçado por filosofia política, em vez de variedade tribal – todos os tipos de possibilidades reais surgem. (Tribos são uma distração inútil, porque elas ressoam com filosofias defeituosas – um mundo de social-democracias fracassadas, diferenciadas no esquema Benetton, é no que estamos sendo arrebanhados agora.)

(2) Defenda a diversidade. Mais uma vez, a diversidade étnica – como tal – não significa quase nada (na melhor das hipóteses). Todo ‘povo’ se mostrou capaz de idiotice política. O que merece preservação é a fratura, definida em posição ao universalismo da Catedral. Qualquer lugar que possa contar, de maneira prática, como ‘offshore’ é uma base para o futuro. Em particular, a tradição tecnocapitalista antidemocrática do Leste Asiático merece uma defesa ideológica feroz contra a subversão catedralista. Dentro do Ocidente, enclaves domésticos que resistiram à absorção macrossocial – de comunidades Amish à movimentos de milícias sobrevivencialistas – têm valor comparável. Onde quer que o globalismo político falhe, a neorreação vence.

A última coisa que a neorreação tem para declarar de maneira útil é Eu tenho um sonho. A promoção de sonhos é o inimigo. O único futuro pelo qual vale a pena lutar está estilhaçado em miríades, frouxamente reunidas por conexões de saída livre, e que conduza a inúmeros experimentos de governo, a vasta maioria dos quais falhará.

Não sabemos e não podemos saber o que queremos, não mais do que podemos saber como serão as máquinas do próximo século, porque potenciais reais precisam ser descobertos, não imaginados. O realismo é o negativo de uma pretensão infundada de conhecimento, não menos na sociologia política do que na tecnologia da informação. Invenção não é planejamento, e castelos no céu não oferecem nenhum refúgio contra a Catedral. Se há uma coisa que precisamos ter aprendido, e nunca esquecer, é isso.

Original.