O Iluminismo Sombrio, Parte 4f(inal)

Parte 4f: Aproximando-se do Horizonte Biônico

É hora de dar a esta longa digressão uma conclusão, esticando-se impacientemente em direção ao fim. O tema básico tem sido controle mental, ou supressão de pensamento, como demonstrado pelo complexo Midiático-Acadêmico que domina as sociedades ocidentais contemporâneas e ao qual Mencius Moldbug dá o nome de Catedral. Quando as coisas são esmagadas, elas raramente desaparecem. Pelo contrário, elas são deslocadas, fugindo para dentro de sombras acolhedoras e, às vezes, virando monstros. Hoje, conforme a ortodoxia supressora da Catedral se desfaz, de várias maneiras e em numerosos sentidos, um tempo de monstros está se aproximando.

O dogma central da Catedral tem sido formalizado como o Modelo Padrão das Ciências Sociais (SSSM, na sigla em inglês) ou ‘teoria da tábula rasa’. É a crença, completada em sua essência pela antropologia de Franz Boas, de que toda questão legítima sobre a humanidade está restrita à esfera da cultura. A natureza permite que ‘o homem’ seja, mas nunca determina o que o homem é. Questões direcionadas às características e variações naturais entre humanos são, elas mesmas, apropriadamente compreendidas como peculiaridades, ou mesmo patologias, culturais. Falhas de ‘educação’ (nurture) são a única coisa que temos permissão de ver.

Uma vez que a Catedral tem uma orientação ideológica consistente e peneira seus inimigos de acordo, uma avaliação científica comparativamente independente do SSSM facilmente vira antagonismo bruto. Como Simon Blackburn observa (em uma análise criteriosa do Tabula Rasa de Steven Pinker), “A dicotomia entre natureza e educação (nurture) rapidamente adquire implicações políticas e emocionais. Para colocar de maneira crua, a direita gosta de genes e a esquerda gosta de cultura…”.

No limite do ódio recíproco, o determinismo hereditário confronta o construtivismo social, com cada um deles comprometido com um modelo radicalmente reduzido de causalidade. Ou a natureza se expressa como cultura, ou a cultura se expressa em suas imagens (‘construções’) da natureza. Ambas estas posições estão presas em lados opostos de um circuito incompleto, estruturalmente cegas à cultura de naturalismo prático, o que seria dizer: à manipulação tecno-científica / industrial do mundo.

Adquirir conhecimento e usar ferramentas é um único circuito dinâmico, que produz a tecno-ciência como um sistema integral, sem divisibilidade real em aspectos teóricos e práticos. A ciência se desenvolve em loops, através da técnica experimental e da produção de uma instrumentação cada vez mais sofisticada, ao passo em que está incorporada dentro de um processo industrial mais amplo. Seu avanço é o aperfeiçoamento de uma máquina. Este caráter intrinsecamente tecnológico da ciência (moderna) demonstra a eficiência da cultura enquanto força natural complexa. Ela nem expressa uma circunstância natural pré-existente, tampouco meramente constrói representações sociais. Em vez disso, natureza e cultura compõem um circuito dinâmico, à beira da natureza, onde o destino é decidido.

De acordo com a pressuposição auto-reforçadora de modernização, ser compreendido é ser modificável. É de se esperar, portanto, que a biologia e a medicina evoluam em conjunto. A mesma dinâmica histórica que subverte abrangentemente o SSSM através de ondas inundantes de descoberta científica simultaneamente volatiliza a identidade biológica humana através da biotecnologia. Não há qualquer diferença essencial entre aprender o que realmente somos e nos redefinirmos como contingências tecnológicas, ou seres tecnoplásticos, suscetíveis a transformações precisas e cientificamente informadas. A ‘humanidade’ se torna inteligível conforme é subsumida na tecnosfera, onde o processamento de informação do genoma – por exemplo – coloca a leitura e a edição em perfeita coincidência.

Descrever esse circuito, conforme ele consome a espécie humana, é definir nosso horizonte biônico: o limiar de uma fusão conclusiva entre natureza e cultura, no qual uma população se torna indistinguível de sua tecnologia. Isto não é nem determinismo hereditário, nem construtivismo social, mas é ao que ambos teriam feito referência, tivessem eles indicado qualquer coisa real. É uma síndrome vividamente antecipada por Octavia Butler, cuja trilogia Xenogenesis é devotada ao exame de uma população de além do horizonte biônico. Seus ‘comerciantes de genes’ Oankali não têm nenhuma identidade separável do programa biotecnológico que eles perpetuamente implementam sobre si mesmos, conforme adquirem comercialmente, produzem industrialmente e reproduzem sexualmente sua população dentro de um único processo integral. Entre o que os Oankali são e a maneira em que eles vivem, ou se comportam, não existe nenhuma diferença firme. Uma vez que eles criam a si mesmos, sua natureza é sua cultura e (claro) reciprocamente. O que eles são é exatamente o que eles fazem.

Os tradicionalistas da Ortosfera Ocidental estão certos em identificar o iminente horizonte biônico com um evento teológico (negativo). A auto-produção tecno-científica suplanta de maneira específica a essência fixa e sacralizada do homem enquanto um ser criado, em meio à maior reviravolta na ordem natural desde o surgimento da vida eucarionte, há meio bilhão de anos. Não é meramente um evento evolutivo, mas o limiar de uma nova fase evolutiva. John H. Campbell anuncia a emergência do Homo autocatalyticus, enquanto argumenta: ‘De fato, é difícil imaginar como um sistema de herança poderia ser mais ideal para a engenharia do que o nosso é’.

John H. Campbell? – um profeta da monstruosidade e a desculpa perfeita para uma citação monstruosa:

Os biólogos suspeitam que novas formas evoluem rapidamente a partir de exogrupos bastante pequenos de indivíduos (talvez até mesmo uma única fêmea fertilizada, Mayr, 1942) à margem de uma espécie existente. Ali, a pressão de um ambiente praticamente inabitável, a endogamia forçada entre membros isolados da família, a “introgressão” de genes estranhos de espécies vizinhas, a falta de outros membros da espécie contra quem competir, ou o que seja, promove uma grande reorganização do programa genômico, possivelmente a partir de uma mudança modesta na estrutura genética. Quase todos esses fragmentos trasmutados de espécies se extinguem, mas ocasionalmente um deles é afortunado o suficiente para se encaixar em um novo nicho viável. Ele prospera e se expande até uma nova espécie. Sua conversão em um pool genético estatisticamente constrito então estabiliza a espécie contra maiores mudanças evolutivas. Espécies estabelecidas são bem mais notáveis por sua estase do que por mudanças. Mesmo produzir uma nova espécie filha não parece mudar uma espécie existente. Ninguém nega que as espécies possam gradualmente se transformar e o fazer em várias medidas, mas essa chamada “anagênese” é relativamente pouco importante, se comparada à grande saltação geologicamente súbita na geração de novidade.

Três implicações são importantes.

1. A maior parte das mudanças evolutivas estão associadas com a origem de novas espécies.

2. Diversos modos de evolução podem operar simultaneamente. Neste caso, o mais efetivo domina o processo.

3. Pequenas minorias de indivíduos fazem a maior parte da evolução, ao invés da espécie como um todo.

Uma segunda característica importante da evolução é a autorreferência (Campbell, 1982). A caricatura cartesiana de um “ambiente” externo autônomo que dita a forma de um espécie, como um cortador de biscoitos corta estêncis a partir de folhas de massa, está completamente errada. A espécie molda seu ambiente tão profundamente quanto o ambiente “evolui” a espécie. Em particular, os organismos causam as condições limitadoras do ambiente sobre o qual eles competem. Portanto, os genes desempenham dois papeis na evolução. Eles são os alvos da seleção natural e são eles também que, em última análise, induzem e determinam as pressões seletivas que agem sobre si. Esta causalidade circular submerge o caráter mecânico da evolução. A evolução é dominada pelo feedback das atividades evoluídas dos organismos sobre sua evolução.

A terceira percepção seminal é de que a evolução se estende para além da mudança nos organismos enquanto produtos da evolução, a uma mudança no próprio processo. A evolução evolui (Jantsch, 1976; Balsh, 1989; Dawkins, 1989; Campbell, 1993). Os evolucionistas sabem deste fato mas nunca concederam ao fato a importância que ele merece, porque é incomensurável com o darwinismo. Os darwinistas, e especialmente os neodarwinistas modernos, equacionam a evolução com a operação de um princípio lógico simples, que é anterior à biologia: A evolução é meramente o princípio darwiniano da seleção natural em ação e é disso que a ciência da evolução trata. Uma vez que princípios não podem mudar com o tempo ou as circunstâncias, a evolução tem que ser fundamentalmente estática.

Claro, a evolução biológica não é assim de forma alguma. Ela é um processo complexo real, não um princípio. A maneira em que ela ocorre pode mudar com o tempo e indisputavelmente o faz. Isto é de máxima importância, porque o processo de evolução avança conforme procede (Campbell, 1986). A matéria pré-viva na sopa primordial da terra era capaz de evoluir apenas através de mecanismos “químicos” sub-darwinianos. Uma vez que estes processos insignificantes criaram moléculas genéticas com informação para sua autorreplicação, então a evolução foi capaz de se engajar em seleção natural. A evolução então embrulhou os genomas auto-replicantes dentro de organismos auto-replicantes para controlar a maneira em que a vida responderia aos ventos da seleção vindos do ambiente.Mais tarde, ao criar organismos multicelulares, a evolução ganhou acesso à mudança morfológica enquanto alternativa a uma evolução bioquímica mais lenta e menos versátil. Mudanças nas instruções em programas de desenvolvimento substituíram mudanças nos catalisadores enzimáticos. Sistemas nervosos abriram caminho para uma evolução comportamental, social e cultural ainda mais rápida e mais potente. Finalmente, esses modos mais elevados produziram a organização necessária para uma evolução racional e propositada, guiada e propelida por mentes orientadas a metas. Cada um desses passos representou um novo nível emergente de capacidade evolutiva.

Desta forma, existem dois processos evolutivos distintos, mas entrelaçados. Eu os chamo de “evolução adaptativa” e “evolução geradora”. A primeira é a familiar modificação darwiniana de organismos para aumentar sua sobrevivência e sucesso reprodutivo. A evolução geradora é inteiramente diferente. Ela é a mudança em um processo, em vez de uma estrutura. Além disso, esse processo é ontológico. Evolução literalmente significa “se desdobrar” e o que está se desdobrando é a capacidade de evoluir. Animais superiores se tornaram cada vez mais hábeis em evoluir. Em contraste, eles não são nem um pouco mais aptos do que seus ancestrais ou as formas mais baixas de micróbios. Toda espécie hoje teve exatamente o mesmo histórico de sobrevivência; na média, todo organismo mais elevado vivo hoje ainda deixará apenas duas proles, como era o caso cem milhões de anos atrás, e as espécies modernas têm tanta probabilidade de serem extintas quanto aquelas do passado. As espécies não podem se tornar cada vez mais aptas porque o sucesso reprodutivo não é um parâmetro cumulativo.

Para os nacionalistas raciais, preocupados com que seus netos sejam parecidos consigo, Campbell é o abismo. Miscigenação não chega nem perto da questão. Pense em tentáculos faciais.

Campbell também é um secessionista, embora não tenha quaisquer distrações com as preocupações da política de identidade (pureza racial) ou do elitismo cognitivo tradicional (eugenia). Ao se aproximar do horizonte biônico, o secessionismo assume uma atitude completamente mais selvagem e mais monstruosa – em direção à especiação. O pessoal no euvolution captura bem o cenário:

Raciocinando que a maior parte da humanidade não vai voluntariamente aceitar políticas de gerenciamento populacional qualitativo, Campbell aponta que qualquer tentativa de elevar o QI de toda a raça humana seria tediosamente lento. Ele ainda ponta que o ímpeto geral do eugenia primordial não era tanto melhoria da espécie quanto prevenção do declínio. A eugenia de Campbell, portanto, advoga o abandono do Homo sapiens enquanto ‘relíquia’ ou ‘fóssil vivo’ e a aplicação de tecnologia genéticas para se intrometer no genoma, provavelmente escrevendo novos genes a partir do zero usando um sintetizador de DNA. Tal eugenia seria praticada por grupos da elite, cujas realizações ultrapassariam tão rápida e radicalmente o andamento comum da evolução que, dentro de dez gerações, os novos grupos terão avançado para além de nossa atual forma, no mesmo grau em que nós transcendemos os símios.

Quando visto do horizonte biônico, o que quer que venha a emergir da dialética do terror racial permanece preso em trivialidades. É hora de seguir em frente.

Original.
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O Iluminismo Sombrio, Parte 4e

Parte 4e: História transcodificada

Democracia é o oposto de liberdade, quase inerente ao processo democrático é que ele tende na direção de menos liberdade, em vez de mais, e a democracia não é algo que pode ser consertado. A democracia está inerentemente quebrada, assim como o socialismo. A única maneira de consertá-la é romper com ela.
Frank Karsten

O historiador (principalmente da ciência) Doug Fosnow pediu que os condados “vermelhos” dos EUA se separassem dos “azuis”, formando uma nova federação. Isso foi recebido com muito ceticismo pela audiência, que notou que a federação “vermelha” não ficaria com praticamente nenhum litoral. Doug realmente pensou que uma secessão dessas tinha alguma probabilidade de ocorrer? Não, ele admitiu alegremente, mas qualquer coisa seria melhor do que a guerra racial que ele acha provável que ocorra, e é dever dos intelectuais propor possibilidade menos horríveis.
John Derbyshire

Assim, em vez de por meio de uma reforma de cima para baixo, sob as atuais condições, sua estratégia deve ser a de uma revolução de baixo para cima. A princípio, a compreensão dessa visão pareceria tornar a tarefa de uma revolução social liberal-libertária impossível, pois isso não implica que ter-se-ia que persuadir uma maioria do pública a votar pela abolição da democracia e por um fim a todos os impostos e legislação? E isso não é pura fantasia, dado que as massas são sempre estúpidas e indolentes, ainda mais dado que a democracia, como explicado acima, promove a degeneração moral e intelectual? Como alguém pode esperar que uma maioria de pessoas cada vez mais degeneradas, acostumadas com o “direito” de votar, jamais renunciasse voluntariamente à oportunidade de saquear a propriedade alheia? Colocado desta maneira, tem-se que admitir que o prospecto de uma revolução social deve, de fato, ser considerado como virtualmente nulo. Em vez disso, é apenas com base em uma reconsideração, ao considerar a secessão como uma parte integral de qualquer estratégia de baixo para cima, que a tarefa de uma revolução liberal-libertária parece menos do que impossível, mesmo que ainda continue sendo intimidadora.
Hans-Herman Hoppe

Concebida de maneira genérica, a modernidade é uma condição social definida por uma tendência integral, resumida como taxas de crescimento econômico sustentadas que excedem os aumentos de população e, assim, marcam uma escapada da história normal, aprisionada dentro da armadilha malthusiana. Quando, no interesse da apreciação desapaixonada, a análise é restrita aos termos deste padrão quantitativo básico, ela suporta uma sub-divisão nos componentes positivo (crescimento) e negativo da tendência: contribuições tecno-industriais (científicas e comerciais) à aceleração do desenvolvimento, por um lado, e as contra-tendências sócio-políticas à captura do produto econômico por parte de interesses especiais de rent-seeking democraticamente empoderados (demosclerose), por outro. O que o liberalismo clássico dá (revolução industrial), o liberalismo maduro leva embora (por meio do cancerígeno estado de intitulações). Na geometria abstrata, isso descreve uma curva em S de fuga auto-limitante. Assim como um drama de liberação, é uma promessa quebrada.

Concebida de maneira particular, como uma singularidade ou coisa real, a modernidade tem características etno-geográficas que complicam e qualificam sua pureza matemática. Ela veio de algum lugar, se impôs de maneira mais ampla e levou os vários povos do mundo a uma extraordinária gama de novas relações. Estas relações eram caracteristicamente ‘modernas’ se envolviam um transbordamento dos limites malthusianos anteriores, permitiam a acumulação de capital e iniciavam novas tendências demográficas, mas elas reuniam grupos concretos em vez de funções econômicas abstratas. Pelo menos em aparência, portanto, a modernidade foi algo feito por pessoas de um certo tipo com – e não incomumente a (ou mesmo contra) – outras pessoas, que eram conspicuamente diferentes delas. No momento em que hesitava no declive de desvanecimento da curva em S, no começo do século XX, a resistência às suas características genéricas (‘alienação capitalista’) havia se tornado quase inteiramente indistinguível da oposição à sua particularidade (‘imperialismo europeu’ e ‘supremacia branca’). Como consequência inevitável, a auto-consciência modernista do núcleo etno-geográfico do sistema deslizou em direção ao pânico racial, em um processo que só foi reprimido pelo surgimento e imolação do Terceiro Reich.

Dada a tendência inerente da modernidade à degeneração ou auto-cancelamento, três prospectos amplos se abrem. Estes não são estritamente exclusivos e não são, portanto, verdadeiras alternativas, mas, para propósitos esquemáticos, é útil apresentá-los como tal.

(1) Modernidade 2.0. A modernização global é revigorada a partir de um novo núcleo etno-geográfico, liberado das estruturas degeneradas de seu predecessor eurocêntrico, mas sem dúvida confrontando tendências de longo prazo de um caráter igualmente mortuário. Este é de longe o cenário mais encorajante e plausível (de uma perspectiva pró-modernista) e, se a China permanecer, mesmo que aproximadamente, em seu curso atual, será certamente realizado. (A Índia, infelizmente, parece ter ido muito longe em sua versão nativa da demosclerose para competir à sério.)

(2) Pós-Modernidade. Equivalendo essencialmente a uma nova idade das trevas, na qual os limites malthusianos se reimpõem brutalmente, este cenário assume que a Modernidade 1.0 globalizou tão radicalmente sua própria morbidez que todo o futuro do mundo colapsa ao seu redor. Se a Catedral ‘vencer’, estas são as consequências.

(3) Renascença Ocidental. Para renascer é primeiro necessário morrer, então, quanto mais forte a ‘reinicialização forçada’, tanto melhor. Crise abrangente e desintegração oferecem as melhores chances (mais realisticamente como um sub-tema da opção #1).

Visto que a concorrência é boa, uma pitada de Renascença Ocidental apimentaria as coisas, mesmo que – como é extremamente provável – a Modernidade 2.0 seja a principal rodovia do mundo para o futuro. Isso depende do Ocidente parar e reverter basicamente tudo que vem fazendo há mais de um século, com exceção apenas de inovações científicas, tecnológicas e empresariais. É aconselhável manter a disciplina retórica dentro de um modo estritamente hipotético, porque a possibilidade de qualquer uma dessas coisas é profundamente colorida pela incredulidade:

(1) Substituição da democracia representativa pelo republicanismo constitucional (ou por mecanismos governamentais anti-políticos ainda mais extremos).

(2) Redução massiva do governo e seu confinamento rigoroso a funções centrais (no máximo).

(3) Restauração da moeda lastreada (moedas de metais preciosos e notas de depósito desses metais) e abolição do banco central.

(4) Desmantelamento da discrição monetária e fiscal do estado, abolindo assim a macroeconomia prática e liberando a economia autônoma (ou ‘catalática’). (Este ponto é redundante, uma vez que ele se segue rigorosamente do 2 & 3 acima, mas é o verdadeiro prêmio e, logo, digno de enfatização.)

Há mais – isto é, menos política – mas já está absolutamente claro que nada disso vai acontecer aquém de um cataclisma existencial da civilização. Pedir que os políticos limitem seus próprios poderes é um não-começo, mas nada a menos nem remotamente leva na direção certa. Este, contudo, não é sequer o problema mais amplo ou profundo.

A democracia poderia começar como um mecanismo procedural defensável para se limitar o poder do governo, mas ela rápida e inexoravelmente se desenvolve em algo bastante diferente: uma cultura de roubo sistemático. Tão logo os políticos tenham aprendido a comprar apoio político com o ‘dinheiro público’ e tenham condicionado os eleitorados a abraçar a pilhagem e o suborno, o processo democrático se reduz à formação das ‘coalizões distributivas’ (de Mancur Olson) – maiorias eleitorais cimentadas juntas pelo interesse comum em um padrão coletivamente vantajoso de roubo. Pior ainda, uma vez que as pessoas não são, na média, muito brilhantes, a escala de depredação disponível para o establishment político de longe excede até mesmo o saqueamento insano que está aberto ao escrutínio público. Pilhar o futuro, através de degradação monetária, acúmulo de dívidas, destruição do crescimento e retardamento tecno-industrial, é especialmente fácil de ocultar e, assim, confiavelmente popular. A democracia é essencialmente trágica porque fornece à população uma arma para se destruir, uma que sempre é avidamente aproveitada e usada. Ninguém jamais diz ‘não’ para coisas de graça. Quase ninguém sequer vê que não existem coisas de graça. A ruína cultural total é a conclusão necessária.

Dentro da fase final da Modernidade 1.0, a história americana se torna a narrativa mestra do mundo. É ali que o grande transmissor cultural abraâmico culmina no neo-puritanismo secularizado da Catedral, conforme estabelece sua Nova Jerusalém em Washington DC. O aparato do propósito messiânico-revolucionário é consolidado no estado evangélico, que está autorizado, por quaisquer meios necessários, a instalar uma nova ordem mundial de fraternidade universal, em nome da igualdade, dos direitos humanos, da justiça social e – sobretudo – da democracia. A confiança moral absoluta da Catedral garante a busca entusiasta de um poder centralizado irrestrito, otimamente ilimitado em sua penetração intensiva e em seu escopo extensivo.

Com uma ironia completamente escondida da própria prole dos queimadores de bruxas, a ascensão dessa corte de sombrios fanáticos morais a alturas previamente inescaláveis de poder global coincide com a decadência da democracia de massas a profundidades previamente inimagináveis de corrupção gulosa. A cada cinco anos, a América rouba-se de si mesma novamente e se revende em troca de apoio político. Essa coisa de democracia é fácil – você simplesmente vota no cara que lhe promete mais coisas. Um idiota conseguiria fazê-lo. Na verdade, ela gosta de idiotas, os trata com aparente gentileza e faz tudo o que pode para fabricar mais deles.

A tendência implacável da democracia à degeneração apresenta um caso implícito a favor da reação. Uma vez que cada um dos principais limiares de ‘progresso’ sócio-político levou a civilização ocidental em direção a uma ruína abrangente, um retraçamento de seus passos sugere uma reversão da sociedade de pilhagem a uma ordem mais antiga de auto-suficiência, indústria e comércio honestos, aprendizado pré-propagandístico e auto-organização cívica. As atrações desta visão reacionária são evidenciadas pela voga de vestuário, símbolos e documentos constitucionais do século XVII entre a minoria substancial (Tea Party) que claramente vê o curso desastroso da história política americana.

O alarme de ‘raça’ já soou na sua cabeça? Seria surpreendente se não tivesse. Cambaleie de volta, em imaginação, até antes de 2008, e o sussurro tenso da consciência já está questionando seus preconceitos contra revolucionários quenianos e professores marxistas negros. Continue em reverso até a era da Grande Sociedade / Direitos Civis e os avisos alcançam um tom histérico. É perfeitamente óbvio, neste ponto, que a história política americana progrediu ao longo de trajetórias gêmeas e entrelaçadas, que correspondem à capacidade e à legitimação do estado. Lançar dúvidas sobre sua escala e escopo é, simultaneamente, disputar a santidade de seu propósito e a necessidade moral-espiritual de que ele comande quaisquer recursos e imponha quaisquer restrições legais que possam ser requeridas para cumpri-lo. Mais especificamente, recuar da magnitude do Leviatã é demonstrar insensibilidade à imensidão – de fato, quase infinitude – de culpa racial herdada e ao único imperativo categórico sobrevivente da modernidade senescente – o governo precisa fazer mais. A possibilidade, de fato quase certeza, de que as consequências patológicas do ativismo governamental crônico tenham há muito suplantado os problemas que ele originalmente visava é uma contenção tão completamente mal-adaptada à época da religião democrática que sua insignificância prática é garantida.

Mesmo na esquerda, seria extraordinário encontrar muitos que genuinamente acreditam, após continuada reflexão, que o moto primário da expansão e centralização do governo tenha sido o desejo ardente de fazer o bem (não que intenções importem). Ainda assim, conforme as trajetórias gêmeas se cruzam, tamanho é o choque elétrico do drama moral, saltando o fosso entre o Gólgota racial e o Leviatã intrusivo, que o ceticismo é suspenso, e o grande mito progressista, instalado. A alternativa a mais governo, fazendo cada vez mais, era ficar lá, negligentemente, enquanto eles linchavam outro negro. Esta proposição contém todo o conteúdo essencial da educação progressista americana.

As trajetórias históricas gêmeas de capacidade e propósito estatal podem ser concebidas como um protocolo de tradução, que permite que qualquer restrição recomendada ao poder do governo seja ‘decodificada’ como obstrução maligna da justiça racial. Este sistema de substituições funciona tão suavemente que fornece todo um vocabulário de ‘code-words‘ ou ‘dog-whistles‘ (bipartidários) – ‘welfare’, ‘liberdade de associação’, ‘direitos dos estados’ – garantindo que qualquer elocução inteligível na Dimensão Política Principal (esquerda-direita) ocupe um registro duplo, semi-saturado de evocações raciais. A regressão reacionária cheira a frutos estranhos.

…e isso é antes de se sair do calamitoso século XX. Não foi a Era dos Direitos Civis, mas a ‘Guerra Civil Americana’ (nos termos dos vencedores) ou ‘Guerra entre os Estados’ (naqueles dos vencidos) que primeiro transcodificou indissoluvelmente a questão prática do Leviatã com a dialética racial (negro/branco), estabelecendo o centro de junção do antagonismo político e retórico subsequente. O passo primário indispensável em compreender esta fatalidade serpenteia ao longo de uma estranha diagonal entre os relatos estatista mainstream e revisionista, porque a conflagração que consumou a nação americana no início dos anos 1860 foi inteiramente, mas não exclusivamente, sobre a emancipação da escravidão e sobre direitos dos estados, sem nenhuma ‘causa’ sendo redutível a outra ou suficiente para suprimir as duradouras ambiguidades da guerra. Embora exista algum número de ‘liberais’ felizes em celebrar a consolidação de um poder governamental centralizado na triunfante União, e, simetricamente, um número (bem menor) de neo-confederados apologistas da instituição da escravidão nos estados do sul, nenhuma dessas posições não conflituosas capturam o legado cultural dinâmico de uma guerra através dos códigos.

A guerra é um nó. Ao dissociar, na prática, a liberdade em emancipação e independência e então arremessar uma contra a outra em meia década de carnificina, azul contra cinza, estabeleceu-se que a liberdade seria quebrada no campo de batalha, qualquer que fosse o resultado do conflito. A vitória da União determinou que o sentido emancipatório da liberdade prevaleceria, não apenas na América, mas ao redor do mundo, e o eventual reino da Catedral foi garantido. Não obstante, o esmagamento da segunda guerra de secessão da América fez piada da primeira. Se a instituição da escravidão deslegitimava uma guerra de independência, o que sobrevivia de 1776? A coerência moral da causa da União exigia que os fundadores fossem reconcebidos como proprietários de escravos brancos patriarcais politicamente ilegítimos e a história americana comburida na educação progressista e nas guerras culturais.

Se a independência é a ideologia dos donos de escravos, a emancipação requer a destruição programática da independência. Dentro de uma história transcodificada, a efetuação da liberdade é indistinguível de sua abolição.

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4d

Parte 4d: Casamentos Esquisitos

As origens da palavra ‘cracker’ enquanto termo de ridicularização étnica são distantes e obscuras. Ela parece já ter circulado, como um insulto contra brancos pobres sulistas, de ascendência predominantemente celta, no meio do século XVIII, derivada talvez de ‘corn-cracker’ (máquina de descascar milho) ou do escocês-irlandês ‘crack’ (gracejo). O rico aspecto semântico do termo, inextricável da identificação de elaboradas características raciais, culturais e de classe, é comparável àquela de sua imencionável prima obscura – “the ‘N-word” – e extrai do mesmo poço de verdades geralmente reconhecidas, mas proibidas. Em particular, e enfaticamente, ela atesta o truísmo ilícito de que as pessoas ficam mais excitadas e animadas com suas diferenças do que com seus pontos em comum, ‘apegando-se amargamente’ – ou pelo menos tenazmente – à sua não-uniformidade e resistindo obstinadamente às categorias universais da administração populacional iluminada. Os crackers são areia na engrenagem do progresso.

As características mais deleitáveis do insulto, contudo, são inteiramente fortuitas (ou Qabalísticas). ‘Crackers’ quebram códigos, cofres, compostos químicos orgânicos – sistemas selados ou delimitados de todos os tipos – com eventuais implicações geopolíticas. Eles antecipam um crack-up (rachadura), cisma ou secessão, confirmando sua associação com a corrente subterrânea desintegradora anatematizada da história anglófona. Não é nenhum surpresa, então – a despeito de saltos e falhas linguísticas – que a figura do cracker recalcitrante evoque um Sul ainda não pacificado, insubordinado ao destino manifesto da União. Isto o retorna, por cirto-circuito, às profundezas mais problemáticas de seu significado.

Contradições exigem resolução, mas cracks (rachaduras) podem continuar a se alargar, se aprofundar e se espalhar. De acordo com o ethos cracker, quando as coisas desmoronam – está OK. Não há qualquer necessidade de se chegar a um acordo, quando é possível se separar. Esta falta de educação, perseguida até seu limite, tende ao estereótipo do hill-billy firmado em uma choupana ou trailer enferrujado, nos confins de uma passagem nas montanhas Apalaches, onde todas as transações econômicas são conduzidas ao longo do cano de uma espingarda carregada, e a sabedoria antipolítica intemporal é resumida no reflexo do não-pise-em-mim: “Sai do meu quintal”. Naturalmente, este desdém pelo debate integrador (dialética) é codificado dentro do mainstream da história global anglocêntrica – isto é, do puritanismo evangélico ianque – como uma deficiência não apenas de sofisticação cultural, mas também de inteligência básica, e mesmo o mais escrupuloso adepto da retidão construtivista social imediatamente reverte a uma psicometria hereditária dura quando confrontado com a obstinação do cracker. Para aqueles a quem uma ampla tendência de progresso sociopolítico parece um fato simples e incontestável, a recusa de se reconhecer qualquer coisa do tipo é percebida como clara evidência de retardamento.

Uma vez que estereótipos geralmente têm um elevado valor de verdade estatística, é mais do que possível que os crackers estejam fortemente aglomerados à esquerda da curva de sino de QI dos brancos, concentrados ali por gerações de pressão disgênica. Se, como Charles Murray argumenta, a eficiência da seleção meritocrática dentro da sociedade americana tem crescido constantemente e conspirado com o acasalamento preferencial para transformar diferenças de classe em castas genéticas, seria extraordinariamente estranho se o estrato cracker fosse caracterizado por uma conspícua elevação cognitiva. Ainda assim, alguma questões estranhamente intrigantes intervém neste ponto, contanto que se persiga diligentemente o estereótipo. Acasalamento preferencial? Como isso pode funcionar quando os crackers se casam com seus primos? Ah sim, tem isso. Baseando-se em grupos populacionais de além do noroeste da Linha de Hajnal, os padrões de parentesco tradicionais dos crackers são notavelmente atípicos à norma exogâmica anglo-saxã (WASP).

A incansável ‘hbdchick‘ é o recurso crucial sobre este tópico. Ao longo do curso de uma série verdadeiramente monumental de posts no seu blog, ela emprega ferramentas conceituais hamiltonianas para investigar a zona fronteiriça onde natureza e cultura se interceptam, incluindo estruturas de parentesco, as diferenciações que elas requerem no cálculo da aptidão inclusiva e os perfis étnicos distintivos na psicologia evolutiva do altruísmo que daí resultam. Em particular, ela dirige atenção à anormalidade da história (do Noroeste) da Europa, onde a exogamia obrigatória – através de uma rigorosa proscrição do casamento entre primos – prevaleceu por 1600 anos. Esta distintiva orientação à exogamia, ela sugere, explica de forma plausível uma variedade de peculiaridades bio-culturais, a mais historicamente significativa das quais é uma singular preeminência do altruísmo recíproco (sobre o familial), como indicado pelo individualismo enfático, famílias nucleares, uma afinidade com instituições ‘corporativas’ (livres de parentesco), relacionamentos contratuais altamente desenvolvidos entre estranhos, níveis relativamente baixos de nepotismo / corrupção e formas robustas de coesão social independente de vínculos tribais.

A endogamia, em contraste, cria um ambiente selectivo que favorece o coletivismo tribal, sistemas estendidos de lealdade e honra familiar, desconfiança de não aparentados e instituições impessoais e – em geral – aqueles traços ‘clânicos’ que se entrosam desconfortavelmente com os principais valores da modernidade (eurocêntrica) e são, assim, denunciados por sua ‘xenofobia’ e ‘corrupção’ primitivas. Valores clânicos, claro, são criados em clãs, tais como aqueles que populam a franja celta da Grã-Bretanha e suas terras fronteiriças, onde o casamento entre primos persistiu, junto com suas formas sócio-econômicas e culturais associadas, em especial o pastoreio (em vez da agricultura) e uma disposição para a violência extrema e vingativa.

Esta análise introduz o paradoxo central da ‘identidade branca’, uma vez que os traços étnicos especificamente europeus que estruturaram a ordem moral da modernidade, inclinando-a para longe do tribalismo e em direção ao altruísmo recíproco, são inseparáveis de uma herança singular de exogamia que é intrinsecamente corrosiva para a solidariedade etnocêntrica. Em outras palavras: é quase exatamente o agrupamento étnico fraco que torna um grupo etnicamente modernista, competente na construção de instituições ‘corporativas’ (não familiais) e, assim, objetivamente privilegiado / favorecido dentro da dinâmica da modernidade.

Esse paradoxo é mais completamente expresso nas formas radicais do renascimento etnocêntrico europeu exemplificado pelo paleo- e neo-Nazismo, que confunde igualmente seu proponentes e antagonistas. Quando uma ‘traição da raça’ excepcionalmente avançada é sua característica racial quintessencial, a oportunidade para uma política etno-supremacista viável desaparece em um abismo lógico – mesmo que ocasiões para a criação de problemas em larga escala sem dúvida continuem a existir. Admitidamente, um Nazista, por definição, está disposto a (e ansioso por) sacrificar a modernidade no altar da pureza racial, mas isto é ou não entender ou tragicamente afirmar a consequência inevitável – que é ser superado na modernização (e, assim, derrotado). A política identitária é para perdedores, inerente e inalteravelmente, devido a um caráter essencialmente parasitário que só funciona vindo da esquerda. É porque a endogamia sistematicamente contra-indica o poder moderno que Übermenschen raciais não fazem qualquer sentido real.

Em todo caso, não importa o quão infinitamente fascinantes os nazistas possam ser, eles não são qualquer tipo de chave confiável para a história ou direção da cultura cracker, para além de estabelecer um limite lógico à construção e ao uso pragmáticos da política identitária branca. Tatuar suásticas em suas testas não faz nada para mudar isso. (Hetfields vs. McCoys é mais Pushtu do que Teutônico.)

A conjunção que tem lugar na Fábrica de Crackers é bastante diferente, e bem mais desconcertante, enredando os defensores urbanos e cosmopolitas da mercantilização hiper-contratariana com tradicionalistas românticos, etno-particularistas e nostálgicos da ‘Causa Perdida’. É primeiro necessário entender este enredamento em toda sua esquisitice fundidora de mentes, antes de explorar suas lições. Para isso, alguns dados pontuais simples e semi-aleatórios podem ser úteis:

* O Mises Institute foi fundado em Auburn, Alabama.

* Os boletins informativos de Ron Paul na década de 1980 contêm observações de uma matiz decididamente derbyshireana.

* Derbyshire ama Ron Paul.

* Murray Rothbard escreveu em defesa da BDH.

* Os contribuídores do lewrockwell.com incluem Thomas J. DiLorenzo e Thomas Woods.

* Tom Palmer não ama Lew Rockwell ou Hans-Herman Hoppe porque “Juntos Eles Abriram os Portões do Inferno e Acolheram os Mais Extremos Racistas, Nacionalistas e Charlatães Variados da Direita”

* Libertários / constitucionalistas representam 20% da lista de observação ‘Direita Radical’ do SPLC (Chuck Baldwin, Michael Boldin, Tom DeWeese, Alex Jones, Cliff Kincaid e Elmer Stewart Rhodes)

…talvez isso seja o suficiente para se prosseguir (embora haja bem mais de fácil alcance). Esses pontos foram selecionados, questionavelmente, cruamente e perniciosamente para emprestar um suporte impressionista a uma única tese básica: forças sócio-históricas fundamentais estão crackerizando o libertarianismo.

Se as conclusões preliminares da pesquisa tiradas pela hbdchick forem aceitas como um frame, a estranheza desse casamento entre temas libertários e neo-confederados é imediatamente aparente. Quando posicionados sobre um eixo bio-cultural, definido por graus de exogamia, a ausência de sobreposição – ou sequer proximidade – é dramaticamente exposta. Um polo é ocupado por uma doutrina radicalmente individualista, focada quase exclusivamente em redes mutáveis de intercâmbio voluntário de um tipo econômico (e notoriamente insensível à própria existência de vínculos sociais não negociáveis). Próximo do outro polo está um rica cultura de apego local, família estendida, honra, desprezo pelos valores comerciais e desconfiança de estranhos. A racionalidade destilada do capitalismo fluído é justaposta à hierarquia tradicional e ao valor não alienável. A priorização absoluta da saída é embaralhada em meio a comportamentos tradicionais dos quais nenhuma saída é sequer imaginável.

Grampear os dois juntos, contudo, é uma conclusão simples e cada vez mais irresistível: a liberdade não têm nenhum futuro no mundo anglófono fora do prospecto da secessão. A rachadura vindoura é o único caminho para fora.

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4c

Parte 4c: A Fábrica de Crackers

Em um certo sentido, viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, eles estavam assinando uma nota promissória da qual todo americano seria herdeiro. Esta nota era uma promessa de que todos os homens – sim, homens negros tanto quanto homens brancos – teriam garantidos os direitos inalienáveis da vida, da liberdade e da busca pela felicidade. É óbvio hoje que a América deu um calote nessa nota promissória, naquilo que concerne seus cidadãos de cor. Em vez de honrar essa obrigação sagrada, a América deu às pessoas Negras um cheque ruim, um cheque que voltou marcado “fundos insuficientes”.
Martin Luther King Jr.

O conservadorismo… é um movimento de pessoas brancas, não obstante uma dispersão de discrepantes. Sempre foi, sempre será. Eu já participei de pelo menos uma centena de encontros, conferências, cruzeiros e comemorações conservadoras: deixe eu lhe contar, não há muitas passas nesse pão. Eu entrei e saí dos escritórios da National Review por doze anos e a única pessoa negra que via lá, além de quando Herman Cain vinha chamar, era Alex, o cara que operava a sala de correspondência. (Ei, Alex!)
Isso não é porque o conservadorismo é hostil a negros e mestiços. Muito pelo contrário, especialmente no caso do Conservadorismo S/A. Eles bajulam o ocasional não-branco com uma deferência de filhote que, honestamente, enevoa o ar com embaraço. (P: Como você chama o cara negro num encontro de 1000 Republicanos? R: “Sr. Presidente.”)
É só que os ideais conservadores como autossuficiência e dependência mínima do governo não têm qualquer apelo com as minorias com baixo desempenho – grupos que, na generalidade estatística, estão aquém dos atributos que contribuem para o sucesso do grupo em uma nação comercial moderna.
De que lhes serviria adotar tais ideais? Eles acabariam ainda mais decisivamente reunidos na parte de baixo da sociedade do que estão atualmente.
Uma estratégia muito melhor para eles é se aliar a tantos subgrupos descontentes de brancos e asiáticos quanto conseguirem (homossexuais, feministas, sindicatos de fim de carreira), alcançar maiorias eleitorais e instituir grandes governos redistributivistas para lhes dar empregos de faz de conta e transferir riqueza de grupos bem-sucedidos para eles.
Que é o que, muito racional e sensatamente, eles fazem.
John Derbyshire

Neo-secessionistas estão em todo lugar ao nosso redor… e a liberdade de expressão lhes dá um cobertor confortável de proteção. Rick Perry insinuando que o Texas poderia se separar em vez de aderir à lei federal do sistema de saúde, Todd Palin pertencendo a uma associação política que advoga a secessão do Alaska, e Sharron Angle falando sobre ‘remédio da segunda emenda’ para lidar com disputas com autoridades federais são todos exemplos de uma retórica secessionista perigosa que permeia o discurso moderno. A mídia foca nossa atenção em reencenadores da Guerra Civil e picapes com bandeiras confederadas esvoaçando sobre elas. Mas figuras públicas são influenciadas também, por acadêmicos que lutam para perpetuar um tipo muito perigoso de revisionismo.
Practically Historical

Afro-Americanos são a consciência do nosso país.
– comentador ‘surfed’ no blog de Walter Russell Mead (editado pela ortografia)

O ‘pecado original’ racial da América foi fundacional, datando de antes do nascimento dos Estados Unidos, à limpeza dos povos aborígenes pelos colonizadores europeus e – de forma ainda mais saliente – à instituição da escravidão. Esta é a história do Velho Testamento das relações entre brancos e negros americanos, definida em uma narrativa providencial de escapada do cativeiro, na qual documentação factual e exortação moral estão indissoluvelmente fundidas. A combinação de um abuso social prolongado e intenso, em um padrão estabelecido pela Torá, recapitulando o mito moral-político primordial da tradição ocidental, instalou a estória de escravidão e emancipação como o quadro insuperável da experiência histórica americana: deixe meu povo ir.

‘Practically Historical’ (citado acima), cita Lincoln sobre a Guerra Civil:

Ainda assim, se Deus quiser que continue até que toda a riqueza pilhada pelos duzentos e cinquenta anos de trabalho não recompensado do escravo seja afundada e até que cada gota de sangue extraída com o chicote seja pega por uma outra extraída com a espada, como foi dito três mil anos atrás, assim ainda deverá ser dito “os julgamentos do Senhor são verdadeiros e inteiramente justos”.

O Novo Testamento da raça na América foi escrito nos anos 1960, revisando e especificando o modelo. A combinação do Movimento dos Direitos Civis, com a Lei de Imigração e Nacionalidade de 1965 e a Estratégia Sulista Republicana (apelar para brancos insatisfeitos nos estados da antiga Confederação) forjou um identificação partidária entre Negros e o Partido Democrata que equivalia a um renascimento liberal-progressista, estabelecendo os termos de uma polarização racial partidária que durou – e mesmo se fortaleceu – ao longo das décadas subsequentes. Para um movimento progressista comprometido por uma história de racismo eugenista sistemático, e um Partido Democrata tradicionalmente alinhado com obstinação sulista e com a Ku Klux Klan, a era dos direitos civis apresentou uma oportunidade de expiação, purificação ritual e redenção.

Reciprocamente, para o conservadorismo americano (e seu veículo cada vez mais sem direção que era o Partido Republicano), esta progressão significou uma morte prolongada, por razões que continuam a eludi-lo. A Ideia da América agora era inextricável de uma renúncia veemente do passado e mesmo do presente, na medida em que o passado ainda o moldava. Apenas uma ‘união cada vez mais perfeita’ poderia se conformar a ela. No nível mais superficial, as implicações partidárias mais amplas da nova ordem eram inequívocas, em um país que estava se tornando cada vez mais democrático e cada vez menos republicano, com a soberania efetiva concentrada nacionalmente no executivo, e a urgência moral de um governo ativista instalada como um princípio de fé. Para o que já havia se tornado a ‘Old Right’, não havia saída ou retorno, porque o caminho para trás cruzava o horizonte de eventos do movimento dos direitos civis, para dentro de tratos de impossibilidade política cujo significado derradeiro era escravidão.

A esquerda prospera na dialética, a direita perece através dela. Na medida em que há uma lógica pura da política, ela é essa. Uma consequência imediata (repetidamente enfatizada por Mencius Moldbug) é que o progressismo não tem inimigos à esquerda. Ele reconhece apenas idealistas, cujo tempo ainda não chegou. Conflitos faccionais na esquerda são politicamente dinâmicos, celebrados por seu potencial motriz. O conservadorismo, em contraste, está preso entre a cruz e a espada: espancado pela esquerda pelo rolo compressor do estatismo pós-constitucional e agitado pela ‘direita’ por tendências incoerentes que são tanto inassimiláveis (ao mainstream) quanto muitas vezes mutualmente incompatíveis, indo desde variedades extremas (austro-libertárias) de defesas capitalistas laissez-faire até estirpes de tradicionalismo social obstinado e teologicamente fundamentado, ultra-nacionalismo ou política identitária branca.

‘A direita’ não tem nenhuma unidade, real ou prospectiva e, assim, não tem nenhuma definição simétrica àquela da esquerda. É por esta razão que a dialética política (uma tautologia) que gira em apenas uma direção, previsivelmente, em direção à expansão do estado e a um ideal igualitário substancial cada vez mais coercitivo. A direita se move para o centro, e o centro se move para a esquerda.

Independentemente das fantasias conservadoras mainstream, o domínio liberal-progressista da providência americana se tornou incontestável, dominado por uma dialética racial que absorve contradições ilimitadas, ao passo que posiciona a subclasse afro-americana como a crítica encarnada da ordem social existente, o critério de emancipação e o único caminho para a salvação coletiva. Nenhuma estrutura alternativa de inteligibilidade histórica é politicamente tolerável ou mesmo – estritamente falando – imaginável, uma vez que a resistência à narrativa é anti-americana, antissocial e (claro) racista, servindo apenas para confirmar a existência de uma opressão racial sistemática através da violência simbólica manifesta em sua negação. Argumentar contra ela já é prová-la correta, ao demonstrar concretamente as mesmas forças ignorantes de atraso social que estão sendo verbalmente negadas. Ao resistir à demanda por reeducação social orquestrada, os boçais “amargurados” apenas demonstram o quando ainda há a se fazer.

Em sua forma mais abstrata e abrangente, a dialética liberal-progressista racial abole o seu exterior, junto com qualquer possibilidade de uma consistência de princípios. Ela afirma – a um e mesmo tempo – que a raça não existe e que sua pseudo-existência socialmente construída é um instrumento de violência interracial. O reconhecimento racial é tanto obrigatório quanto proibido. Identidades raciais são meticulosamente catalogadas para propósitos de remediação social, detecção de crimes de ódio e estudos de impacto desigual, que visam grupos para ‘discriminação positiva’, ‘ação afirmativa’ ou ‘promoção de diversidade’ (para listar estes termos em sua ordem aproximada de substituição histórica), mesmo enquanto são denunciadas como sem sentido (pelas Nações Unidas, não menos) e descartadas como estereótipos maliciosos, que não correspondem a nada real. Sensibilidade racial extrema e dessensibilização racial absoluta são exigidas simultaneamente. Raça é tudo e nada. Não há saída.

O conservadorismo é dialeticamente incompetente por definição e tão abjetamente sem noção que ele se imagina sendo capaz de explorar essas contradições, ou – em sua formulação iludida – dissonância cognitiva liberal. Os conservadores que triunfantemente apontam tais inconsistência parecem nunca ter passado os olhos na produção de um programa contemporâneo de humanidades, no qual grossas jangadas de vitimização internamente conflitante são amavelmente tecidas a partir de queixas incompatíveis, a fim de exultar na promessa progressista radical de suas lamentações discordantes. A inconsistência é combustível para a Catedral, exigindo argumentação ativista e realizações cada vez mais elevadas de unidade. O debate público integrador sempre movimenta as coisas para a esquerda – isso poderia não parecer um ponto especialmente difícil de se compreender, mas entendê-lo é expor a futilidade fundamental do conservadorismo mainstream, e isso não é do interesse de quase ninguém, então não será entendido.

O conservadorismo é incapaz de uma dialética funcional, ou contradição simultânea, mas isso não o impede de server ao progresso (pelo contrário). Em vez de celebrar o poder da inconsistência, ele tropeça por entre as contradições, descomprimido, em sucessão, à maneira de uma exibição de fósseis e de uma folha. Depois de “ficar na frente da história, gritando ‘Pare!'” durante a Era dos Direitos Civis e, assim, banindo-se eternamente à danação racial, o mainstream conservador (e Republicano) reverteu o curso, apoderando-se de Martin Luther King Jr como uma parte integral de seu cânone e buscando se harmonizar com “um sonho profundamente enraizado no senho americano”.

Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença: “Consideramos estas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais”.

Eu tenho um sonho que um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter.

Cativado pelo apelo de King ao tradicionalismo constitucional e bíblico, por sua rejeição da violência política e por seus hinos desinibidos à liberdade, o conservadorismo americano gradualmente veio a se identificar com seu sonho de reconciliação e cegueira racial e a aceitá-lo como o significado verdadeiro e providencial de seus próprios documentos mais sagrados. Pelo menos, esta veio a ser a ortodoxia conservadora mainstream e pública, muito embora ela tenha se consolidado tarde demais para neutralizar suspeitas de insinceridade, falhado quase inteiramente em convencer a própria demografia negra e continuasse aberta a um escárnio escalante vindo da esquerda por seu formalismo vazio.

Tão convincente foi a reafirmação de King do Credo Americano que, em retrospectiva, seu triunfo sobre o mainstream político parece simplesmente inevitável. Quanto mais o conservadorismo americanos se afastou do racionalismo maçônico dos fundadores, na direção da religiosidade bíblica, tanto mais indistinguível sua fé se tornou de uma experiência americana negra, miticamente articulada através do Êxodo, no qual o quadro básico da história era de uma escapada do cativeiro, levada em direção a um futuro em que “todos os filhos de Deus – homens negros e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos – poderão juntar as mãos e cantar na palavras do antigo hino negro: ‘Livre afinal! Livre afinal! Graças ao Deus Todo-Poderoso, somos livres afinal!”

A genialidade da mensagem de King está em seu extraordinário poder de integração. A fuga dos hebreus do Egito, a Guerra de Independência Americana, a abolição da escravidão na esteira da Guerra Civil Americana e as aspirações da era dos direitos civis foram miticamente comprimidas em um único episódio arquetípico, perfeitamente consoante com o Credo Americano e levado adiante não apenas por sua força moral irresistível, mas mesmo por um decreto divino. A medida desta genialidade integradora, contudo, é a complexidade que ela domina. Um século após a “alegre alvorada” da emancipação da escravidão, King declara, “o Negro ainda não é livre”.

Cem anos mais tarde, a vida do negro ainda é tristemente paralisada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. Cem anos mais tarde, o Negro vive em uma ilha solitária de pobreza, no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o Negro ainda está lânguido nos cantos da sociedade americana e se descobre um exilado em sua própria terra.

A estória do Êxodo é saída, a Guerra de Independência é saída e a emancipação da escravidão é saída, especialmente quando isto exemplificado pelo Underground Railroad e pelo modelo de auto-liberação, escapada, ou fuga. Ser ‘algemado’ pela segregação, ‘acorrentado’ pela discriminação, estar preso em uma ‘ilha solitária de pobreza’ ou ser ‘exilado’ em sua ‘própria terra’, em contraste, não tem qualquer relação que seja com a saída, além daquela que uma fascinante metáfora possa alcançar. Não há nenhuma saída para a integração e aceitação social, para a prosperidade igualmente distribuída, para a participação pública ou para a assimilação, mas apenas uma aspiração, ou um sonho, refém do fato e da fortuna. Como a esquerda e a direita reacionária foram rápidas em notar, na medida em que esse sonho se aventura significantemente para além de um direito à igualdade formal e para dentro do reino de um remédio político substancial, ele é um sonho a que a direita não tem nenhum direito.

Na sequência imediata do caso John Derbyshire, Jessica Valenti, no blog da The Nation faz o ponto de maneira clara:

… isso não é apenas sobre quem escreveu o que – é sobre as políticas intensamente racista que são típicas do conservadorismo. Algumas pessoas gostariam de acreditar que o racismo é apenas a discriminação explícita e dita em voz alta e o ódio que é facilmente identificável. Não é – é também empurrar políticas xenofóbicas e apoiar a desigualdade sistêmica. Afinal, o que é mais impactante – um racista singular como Derbyshire ou a lei de imigração do Arizona? Uma coluna ou a supressão de eleitores? Livrar-se de um racista de uma publicação não muda o fato de que a agenda conservadora é uma que pune desproporcionalmente e discrimina as pessoas de cor. Então, sinto muito, pessoal – você não pode apoiar a desigualdade estrutural e depois se dar um tapinha nas costas por não ser abertamente racista.

A ‘agenda conservadora’ não pode jamais ser sonhadora (esperançosa e inconsistente) o suficiente para escapar das acusações de racismo – isso é intrínseco à maneira em que a dialética racial funciona. Políticas amplamente compatíveis com o desenvolvimento capitalista, orientadas à recompensa da baixa preferência temporal e, assim, à punição da impulsividade, confiantemente terão um pacto desigual sobre os grupos sociais menos economicamente funcionais. Claro, a dialética demanda que o aspecto racial deste impacto desigual possa e deva ser fortemente enfatizado (para o propósito de condenar incentivos à formação de capital humano como racistas) e, ao mesmo tempo, forçosamente negado (a fim de denunciar exatamente a mesma observação como estereótipo racista). Qualquer um que espere que os conservadores naveguem este dilema com agilidade política e graça deve, de alguma forma, ter perdido o final do século XX. Por exemplo, os idiotas perdedores condenados conservadores do Washington Examiner, notando alarmados que:

Os Democratas da Câmara receberam treinamento esta semana sobre como abordar a questão da raça para defender programas governamentais… O conteúdo preparado de uma apresentação na terça-feira para o Caucus Democrata da Câmara e seu pessoal indica que os Democratas buscarão retratar a retórica de livre mercado aparentemente neutra como sendo carregada de viés racial, consciente ou inconsciente.

Não há versões alternativas a uma união cada vez mais perfeita, porque uma união é a alternativa às alternativas. Buscar onde as alternativas poderiam outrora terem sido encontradas, onde a liberdade ainda significava saída e onde a dialética era dissolvida no espaço, leva para dentro de uma casa de horrores de palhaços, fabricada como a sombra, ou cara-metade, da Catedral. Uma vez que a direita nunca teve uma unidade própria, deu-se uma a ela. Chame-a de Fábrica de Crackers.

Quando James C. Bennett, em The Anglosphere Challenge, buscou identificar as principais características culturais do mundo de língua inglesa, a lista resultante era geralmente familiar. Ela incluída, além da própria língua, tradições do direito comum, individualismo, níveis comparativamente altos de abertura econômica e tecnológica e reservas distintivamente enfáticas sobre o poder político centralizado. Talvez a característica mais impressionante, contudo, era uma tendência cultural marcante de se resolver discordâncias no espaço, em vez de no tempo, optando por cisma territorial, separatismo, independência e fuga, no lugar de transformação revolucionária dentro de um território integrado. Quando os anglófonos discordam, eles frequentemente buscaram se dissociar no espaço. Em vez de um resolução integral (mudança de regime), eles buscam uma irresolução plural (através da divisão de regimes), proliferando estados, localizando o poder e diversificando sistemas de governo. Mesmo em sua forma presente e altamente atenuada, esta predisposição anti-dialética e dessintetizadora à desagregação social encontra expressão em uma hostilidade teimosa e sussurrante aos projetos políticos globalistas e em uma atração vestigial ao federalismo (em seu sentido fissional).

Dividir-se, ou fugir, é tudo saída e anti-dialética (não recuperável). É a fonte básica da liberdade dentro da tradição anglófona. Se a função de uma Fábrica de Crackers é bloquear todas as saídas, há um único lugar para construí-la – bem aqui.

Como o Inferno, ou Auschwitz, a Fábrica de Crackers tem um slogan simples inscrito em seu portão: Escapar é racista. É por isto que a expressão ‘white flight’ – que diz exatamente a mesma coisa – nunca foi denunciada por ser politicamente incorreta, apesar do fato de que ela se baseia numa generalização estatística étnica do tipo que, em qualquer outro caso, provocaria paroxismos de indignação. O ‘white flight’ não é mais ‘branco’ do que a baixa preferência temporal, mas esta insensibilidade de pincel largo é considerada aceitável, porque apoia estruturalmente a Fábrica de Crackers e a indispensável confusão da antiga liberdade (negativa) com o pecado original (racial).

Você absolutamente, definitivamente, não deve ir lá … então, é claro, nós vamos … [a seguir].

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4b

Parte 4b: Observações Desagradáveis

Embora famílias negras e pais de garotos não sejam os únicos que se preocupam com a segurança dos adolescentes, Tillman, Brown e outros pais dizem que criar garotos negros é talvez o aspecto mais estressantes de ser pai, porque estão lidando com uma sociedade é temerosa e hostil em relação a eles, simplesmente por causa da cor de sua pele.

“Não acredita? Fique um dia em meu lugar”, disse Brown.

Brown disse que, aos 14, seu filho está naquela idade crítica em que ele está sempre preocupado com sua segurança por causa da criação de perfis.

“Eu não quero assustá-lo ou fazê-lo generalizar as pessoas, mas, historicamente, nós homens negros temos sido estigmatizados como os perpetradores de crimes e, onde quer que estejamos, somos suspeitos”, disse Brown.

Pais negros que não deixam esse fato claro, ele e outros disseram, o fazem arriscando seus filhos.

“Qualquer pai afro-americano que não esteja tendo essa conversa está sendo irresponsável”, Brown disse. “Eu vejo toda esta coisa como uma oportunidade para falarmos francamente, abertamente e honestamente sobre relações raciais.”
– Gracie Bonds Staples (Star-Telegram)

Quando as comunidades resistem a um influxo de titulares de vales-habitação do Seção 8 vindos do centro da cidade, digamos, eles estão reagindo esmagadoramente a comportamentos. A cor da pele é um indicador desse comportamento. Se os negros do centro da cidade se comportassem como Asiáticos – amontoando tanto conhecimento em seus filhos quanto eles conseguem colocar em seus crânios – a cautela persistente em relação aos negros de renda mais baixa que muitos americanos inquestionavelmente nutrem desapareceriam. Existem racistas irremediáveis entre os americanos? Por certo. Eles vêm em todas as cores, e deveríamos deplorar todos eles. Mas a questão da raça nos Estados Unidos é mais complexa do que a companhia educada geralmente tem permissão de expressar.
– Heather Mac Donald (City Journal)

“Vamos falar sobre o elefante na sala. Eu sou negra, OK?” disse a mulher, recusando-se a se identificar porque antecipou uma reação devido à sua raça. Ela se inclinou para olhar para o repórter direto nos olhos. “Haviam garotos negros roubando casas nesta vizinhança”, ela disse. “É por isto que George suspeitou de Trayvon Martin.”
— Chris Francescani (Reuters)

“Em suma, a dialética pode ser definida como a doutrina da unidade dos opostos. Isto incorpora a essência da dialética”, Lenin observa, “mas isso requer explicações e desenvolvimento”. Isto é: mais discussão.

A sublimação (Aufhebung) do Marxismo no Leninismo é uma eventualidade que é melhor compreendida de maneira crua. Ao forjar um política comunista revolucionária de ampla aplicação, quase inteiramente divorciada das condições materiais maduras ou das contradições sociais avançadas que foram anteriormente antecipadas, Lenin demonstrou que a tensão dialética coincidia, exaustivamente, com sua politização (e que toda referência a uma ‘dialética da natureza’ não é mais do que uma subordinação retrospectiva do domínio científico a um modelo político). Dialéticas são tão reais quanto são feitas ser.

A dialética começa com uma agitação política e não se estende para além de sua ‘lógica’ prática, antagonista, faccional e de coalizão. Ela é a ‘superestrutura’ por si só, ou contra a limitação natural, apropriando-se de maneira prática da esfera política, em sua extensão inteligível mais ampla, como uma plataforma para a dominação social. Onde quer que haja discussão, há uma oportunidade não resolvida para governar.

A Catedral encarna estas lições. Ela não tem qualquer necessidade de esposar o Leninismo, ou dialética operacional comunista, porque não reconhece nada mais. Dificilmente há um fragmento da ‘superestrutura’ social que tenha escapado da reconstrução dialética através de antagonismo articulado, polarização, estruturação binária e reversão. Dentro da academia, da mídia e mesmo das belas artes, a super-saturação política prevaleceu, identificando mesmo os elementos mais minúsculos da apreensão com uma ‘crítica social’ conflituosa e com a teologia igualitária. O comunismo é a implicação universal.

Mais dialética é mais política, e mais política significa ‘progresso’ – ou migração social para a esquerda. A produção de concordância pública leva apenas em uma direção e, dentro da discordância pública, tal ímpeto já existe em embrião. É apenas na ausência de concordância e de uma discordância publicamente articulada, ou seja, na não-dialética, no não-argumento, na diversidade sub-política ou iniciativa politicamente descoordenada que o refúgio ‘direitista’ da ‘economia’ (e, de maneira mais ampla, da sociedade civil) será encontrado.

Quando nenhuma concordância é necessária ou coercitivamente exigida, a liberdade negativa (ou ‘libertária’) ainda é possível, e este ‘outro’ não argumentativo da dialética é facilmente formulado (mesmo que, em uma sociedade livre, ele não precise ser): Faça suas próprias coisas. Bastante claramente, este imperativo irresponsável e negligente é politicamente intolerável. Ele coincide exatamente com a depressão esquerdista, retrocesso ou despolitização. Nada clama mais urgentemente por ser contra argumentado.

No extremo oposto está o êxtase dialético da justiça teatral, na qual a estrutura argumentativa dos procedimentos legais é associada à divulgação por meio da mídia. O entusiasmo dialético encontra sua expressão definitiva em um drama de tribunal que combina advogados, jornalistas, ativistas comunitários e outros agentes da superestrutura revolucionária na produção de um julgamento-show. Contradições sociais são encenadas, casos antagonistas articulados, e uma resolução, institucionalmente esperada. Isto é Hegel para o horário nobre da televisão (e agora para a Internet). É a maneira em que a Catedral compartilha sua mensagem com as pessoas.

Às vezes, em suas paixão impaciente pelo progresso, essa mensagem pode tropeçar em si mesma, porque, muito embora os agentes da Catedral sejam infinitamente razoáveis, eles são cada vez menos sensatos, muitas vezes surpreendentemente incompetentes, e estão propensos a cometer erros. Isto deve ser esperado com bases teológicas. Conforme o estado se torna Deus, ele se degenera em imbecilidade, no modelo do santo tolo. A política midiática do espetáculo de Trayvon Martin fornece um exemplo pertinente.

Nos Estados Unidos, como em qualquer outro país grande, muitas coisas acontecem todos os dias, exibindo inúmeros padrões de obscuridade variante. Por exemplo, em um dia médio, há aproximadamente 3400 crimes violentos, incluindo 40 assassinatos, 230 estupros, 1000 assaltos e 2100 agressões agravadas, ao lado de 25.000 crimes não violentos de propriedade (roubos e furtos). Muito poucos destes serão amplamente divulgados ou aproveitados como educacionais, exemplares e representativos. Mesmo que a mídia não estivesse inclinada a uma seleção baseada em narrativa das ‘boas estórias’, o simples volume de incidentes compeliria a algo do tipo. Dada esta situação, é quase inevitável que as pessoas perguntem: Por que estão nos contando isto?

Quase tudo sobre a morte de Trayvon Martin é controverso, exceto pela motivação da mídia. Sobre este tópico, há quase uma unanimidade. O significado ou mensagem pretendida da estória do caso dificilmente poderia ter sido mais transparente: A paranoia racista branca torna a América perigosa para pessoas negras. Ele assim ensaiaria a dialética do terror racial (seu medo é assustador), feita – como sempre – para converter o pesadelo social recíproco da América em uma peça de moralidade unilateral, alocando o pavor legítimo exclusivamente a um lado da divisão racial principal do país. Parecia perfeito. Um vigilante branco malignamente enganado atira em uma criança negra inocente, justificando o medo negro (‘a conversa’) enquanto expõe o pânico branco como um psicose assassina. Esta é uma estória de tamanho significado arquetípico progressista que não pode ser contada vezes demais. Na verdade, é boa demais para ser verdadeira.

Logo se tornou evidente, contudo, que a seleção da mídia – mesmo quando reforçada pela máquina de raiva de celebridades / ‘ativistas comunitários’ – não fora suficiente para manter a estória no script, e ambos os atores principais estavam se distanciando de seus papeis atribuídos. Se os estereótipos endossados pelos progressistas devessem ser sequer remotamente preservados, uma vigorosa edição seria exigida. Isso foi especialmente necessário porque certos leitores maus, racistas e preconceituosos do Miami Herald estavam começando a forjar uma conexão mental destruidora de narrativas entre ‘Trayvon Martin’ e ‘ferramenta de assalto’.

Quanto ao assassino, George Zimmerman, o nome dizia tudo. Ele claramente iria ser um cara pálida, desajeitado, parecido com um storm-trooper, com esperança algum tipo de cristão louco por armas e, talvez – se eles realmente achassem ouro, – um tipo dos movimentos de milícia, com um histórico de homofobia e ativismo anti-aborto. Ele começou ‘branco’ – por nenhuma razão óbvia além da incompetência midiática e da programação narrativa – e depois se viu transformado em um ‘hispânico branco’ (uma categoria que parece ter sido rapidamente inovada no momento), antes de ser gradualmente deslocado ao longo de uma série de complicações étnicas cada vez mais compatíveis com a realidade, culminando na descoberta de seu bisavô afro-peruano.

No coração da Catedral, estava bem na hora de coçar a cabeça. Aqui estava o grande réu amerikkkano, sendo preparado para seu julgamento-show, o Presidente havia contribuído emocionalmente em nome da sagrada vítima, e o jogo coordenado no solo havia sido avançado à beira fervilhante de revoltas raciais, quando a mensagem começou a cair aos pedaços, em tal medida que agora ameaçava a se degenerar em um caso irritantemente irrelevante de violência de negros contra negros. Não era apenas que George Zimmerman tinha uma ancestralidade negra – o que o tornava simplesmente ‘negro’ pelos padrões construtivistas sociais da própria esquerda – ele também havia crescido amigavelmente entre pessoas negras, com duas garotas afro-americanas como “parte do lar por anos”, havia entrado em um empreendimento em conjunto com um parceiro negro, era um democrata registrado e até mesmo algum tipo de ‘organizador comunitário’…

Então, por que Martin morreu? Foi por carregar chá gelado e um pacote de Skittles sendo negro (a versão ‘poderia ter sido o Obama filho’, aprovada pela mídia e por ativistas comunitários), por ir verificar alvos de assaltos (a versão do perfilamento racial kluxer) ou por quebrar o nariz de Zimmerman, derruba-lo, sentar em cima dele e golpear sua cabeça repetidamente contra o calçada (a ser decidido no tribunal)? Ele era um mártir da injustiça racial, um predador social de baixo nível ou um sintoma humano da crise urbana americana? A única coisa que estava realmente clara quando os procedimentos legais começaram, além da tristeza esquálida do episódio, era que ele não estava resolvendo nada.

Para uma sensação do quão desconcertantemente a lição aprovada havia se desintegrado no momento em que Zimmerman foi acusado de assassinato em segundo grau, só é necessário ler este post do blogueiro BDH oneSTDV, que descreve os distúrbios dialéticos da direita guerreira racial.

Apesar da natureza perturbadora das “acusações” contra Zimmerman, muitos da alt-right recusam conceder a Zimmerman qualquer simpatia ou sequer ver isto como um momento seminal no reino anarco-tirano do esquerdismo moderno. De acordo com estes indivíduos, os mestiço, falante de espanhol e democrata registrado, recebeu o que estava em seu caminho – a ira da multidão negra e da elite de esquerda indiretamente apoiada pelo próprio Zimmerman. Devido ao seu histórico de votação, antecedentes multiculturais e tutelagem de jovens de minorias, eles vêem Zimmerman como emblemático do ataque da esquerda à América branca, um tipo de soldado na campanha contra a brancura americana. [Negrito no original]

A política popular do politicamente correto estava pronta para seguir adiante. Com o grande julgamento-show colapsando em desordem narrativa, era hora de refocar na Mensagem, que se danem os fatos (que se danem duplamente). ‘Jezebel‘ melhor exemplifica o tom ameaçador e vagamente histérico:

Você sabe como dizer se as pessoas negras ainda são oprimidas? Porque as pessoas negras ainda são oprimidas. Se você alega que você não é uma pessoa racista (ou, pelo menos, que você está comprometido em trabalhar para caralho para não ser uma – o que, na verdade, é o melhor que qualquer um nós pode prometer), então você tem que acreditar que as pessoas são fundamentalmente nascidas iguais. Logo, se isso é verdade, então, em um vácuo, fatores como cor da pele não deveriam ter nenhum efeito sobre o sucesso de ninguém. Certo? E, portanto, se você realmente acredita que todas as pessoas são criadas iguais, então, quando você vê que desigualdades raciais drásticas existem no mundo real, a única coisa que você poderia concluir é que alguma força externa está segurando algumas pessoas. Como… o racismo. Certo? Então, parabéns. Você acredita em racismo! A menos que você não acredite realmente que as pessoas nasçam iguais. E, se você não acredita que as pessoas nascem iguais, então você é a p**** de um racista.

Alguém “realmente acredita que as pessoas nascem iguais”, da maneira que se entende isso aqui? Acredita, isto é, não apenas que uma expectativa formal de tratamento igual é um pré-requisito da interação civilizada, mas que qualquer desvio revelado da igualdade substancial de resultado é uma indicação óbvia e inequívoca de opressão? Que isso é “a unica coisa que você poderia concluir”?

No mínimo, Jezebel poderia ser parabenizada por expressar a fé progressista em sua forma mais pura, inteiramente descontaminada de sensibilidade à evidência ou à incerteza de qualquer tipo, casualmente desdenhosa de qualquer pesquisa relevante – quer existente ou meramente concebível – e supremamente confiante sobre sua própria invencibilidade moral. Se os fatos estão moralmente errados, tanto pior para os fatos – está é a única posição que poderia ser adotada, mesmo se for embasada em uma mistura de pensamento desejoso, ignorância deliberada e mentiras insultantemente infantis.

Chamar a crença na igualdade substancial humana de superstição é insultar a superstição. Pode ser injustificado acreditar em leprechauns, mas pelo menos a pessoa que mantém tal crença não está assistindo-os não existir, a cada hora de vigília do dia. A desigualdade humana, em contraste e em toda a sua multiplicidade abundante, está constantemente em exposição, conforme as pessoas exibem suas variações em gênero, etnia, atratividade física, tamanho e forma, força, saúde, agilidade, charme, humor, sagacidade, diligência e sociabilidade, ente outras inúmeras características, traços, habilidades e aspectos de sua personalidade, algumas de forma imediata e conspícua, algumas apenas lentamente, ao longo do tempo. Absorver mesmo a mais mínima fração disso tudo e concluir, da única maneira possível, que ou não é nada em absoluto, ou que é um ‘construto social’ e um índice de opressão, é puro delírio Gnóstico: um comprometimento, para além de toda evidência, com a existência de um mundo verdadeiro e bom, velado pelas aparências. As pessoas não são iguais, elas não se desenvolvem igualmente, suas metas e realizações não são iguais, e nada pode torná-las iguais. A igualdade substancial não tem qualquer relação com a realidade, exceto enquanto sua negação sistemática. Violência em uma escala genocida é necessária para sequer se aproximar do programa igualitário prático e, se qualquer coisa menos ambiciosa for tentada, as pessoas a contornam (algumas de maneira mais competente que as outras).

Para tomar apenas o exemplo mais óbvio, qualquer um com mais do que um filho sabe que ninguém nasce igual (exceto, talvez, gêmeos monozigóticos e clones). Na verdade, todo mundo nasce diferente, de inúmeras maneiras. Mesmo quando, – como normalmente é o caso – as implicações dessas diferenças para os resultados da vida são difíceis de prever com confiança, sua existência é inegável ou, pelo menos: sinceramente inegáveis. Claro, sinceridade, ou mesmo uma coerência cognitiva mínima, não é nem remotamente a questão aqui. A posição de Jezebel, embora impecável em sua correção política, não é apenas factualmente duvidosa, mas sim risivelmente absurda e, na verdade – estritamente falando – insana. Ela dogmatiza um negação da realidade tão extrema que ninguém poderia genuinamente manter, ou sequer entretê-la, muito menos plausivelmente explicá-la ou defendê-la. Ela é um princípio de fé que não pode ser entendido, mas apenas afirmado ou aceito, como loucura tornada lei, ou religião autoritária.

O mandamento político desta religião é transparente: Aceite a política social progressista como a única solução possível para o pecado problema da desigualdade. Este comando é um ‘imperativo categórico’ – nenhum fato possível jamais poderia miná-lo, complicá-lo ou revisá-lo. Se a política social progressista na verdade resultar em uma exacerbação do problema, a realidade ‘caída’ deve ser culpada, uma vez que o mal social é obviamente pior do que se vislumbrara anteriormente e apenas esforços redobrados na mesma direção podem esperar remediá-lo. Não pode haver nada a se aprender em questão de fé. Eventualmente, o colapso social sistemático ensina a lição que a falha crônica e a deterioração incremental não puderam comunicar. (Isso é o darwinismo social em escala macro para principiantes, e é a maneira em que a civilização acaba.)

Devido a sua excepcional correlação com uma variação substancial nos resultados sociais nas sociedades modernas, de longe a dimensão mais problemática da biodiversidade humana é a inteligência ou capacidade geral de resolução de problemas, quantificada como QI (que mede o ‘g’ de Spearman). Quando o ‘senso comum estatístico’ ou perfilamento é aplicado aos proponentes da Bio-Diversidade Humana, contudo, um outro traço significativo rapidamente é exposto: um déficit notavelmente consistente de condescendência. De fato, é amplamente aceito dentro da própria ‘comunidade’ amaldiçoada que a maior parte daqueles teimosos e esquisitos o suficiente para se educarem sobre o tópico da variação biológica humana são significantemente ‘retardados socialmente‘, com baixa inibição verbal, baixa empatia e baixa integração social, o que resulta em má adaptação crônica às expectativas do grupo. Os EQs típicos deste grupo podem ser extraídos como a raiz quadrada aproximada de seus QIs. Um autismo moderado é típico, suficiente para aproximar seus companheiros em um espírito de curiosidade natural-científica desprendida, mas não tão avançado ao ponto de compelir um desengajamento cósmico total. Estes traços, que eles próprios consideram – com base na copiosa informação técnica – como sendo substancialmente herdáveis, têm consequências sociais manifestas, que reduzem oportunidades de emprego, rendas e mesmo potencial reprodutivo. A despeito de todo o conselho terapêutico gratuito disponível no ambiente progressista, esta desagradabilidade não demonstra qualquer sinal de estar diminuindo e pode mesmo estar se intensificando. Como Jezebel mostra tão claramente, isto só pode ser um signal de opressão estrutural. Por que as pessoas desagradáveis não podem ter uma pausa?

A história é condenadora. Os ‘sociáveis’ sempre tiveram um rancor pelos desagradáveis, frequentemente declinando se casar ou fazer negócios com eles, os excluindo das atividades do grupo e de cargos políticos, os rotulando com insultos, os ostracizando e evitando. A ‘desagradabilidade’ foi estigmatizada e estereotipada em termos extremamente negativos, em tal medida que muitos dos desagradáveis buscaram rótulos mais sensíveis, tais como ‘deficientes sociais’, ou ‘sócioatípicos’. Não raro, pessoas foram verbal ou mesmo fisicamente agredidas por nenhuma outra razão além de sua desagradabilidade radical. Mais trágico de tudo, devido à sua completa incapacidade de se relacionarem uns com os outros, os desagradáveis nunca foram capazes de se mobilizar politicamente contra a opressão social estrutural que enfrentam ou de entrar em coalizações com seus aliados naturais, tais como cínicos, refutadores, contrarianistas e aqueles que sofrem com síndrome de Tourette. A desagradabilidade ainda tem que ser libertada, embora seja provável que a Internet ‘ajude’…

Considere o ensaio em infâmia de John Derbyshire, The Talk: Nonblack Version, que foca inicialmente em sua implacável desagradabilidade e está atento à correlação negativa entre sociabilidade e razão objetiva. Como Derbyshire observa em outros lugares, as pessoas geralmente são incapazes de se diferenciar de suas identidade de grupo ou de aplicar apropriadamente generalizações estatísticas sobre grupos a casos individuais, incluindo os seus próprios. Um reificação racionalmente indefensável, mas socialmente inevitável, dos perfis de grupo é psicologicamente normal – até mesmo ‘humana’ – com o resultado de que informação estatística ruidosa e não específica é erroneamente aceita como uma contribuição para o auto-entendimento, mesmo quando informações específicas estão disponíveis.

Da perspectiva da análise racional socialmente autista e de baixo QE, isto está simplesmente equivocado. Se um indivíduo tem certas características, o fato de pertencer a um grupo que tem características médias similares ou dissimilares não tem qualquer relevância que seja. Informações diretas e determinadas sobre o indivíduo não são, em nenhum grau, enriquecidas por informações indiretas e indeterminadas (probabilísticas) sobre os grupos aos quais o indivíduo pertence. Se os resultados individuais de um teste são conhecidos, por exemplo, nenhuma compreensão adicional é fornecida por inferências estatísticas sobre os resultados do teste que poderiam ter sido esperados com base no perfilamento do grupo. Um judeu asquenaze imbecil não é menos imbecil porque ele é um judeu asquenaze. É pouco provável que freiras chinesas idosas sejam assassinas, mas uma assassina que ocorra de ser um freira chinesa idosa não é nem mais nem menos assassina do que uma que não o seja. Isto é tudo extremamente óbvio, para as pessoas desagradáveis.

Para as pessoas normais, contudo, não é óbvio de maneira alguma. Em parte, isto é porque a inteligência racional é escassa e anormal entre humanos e, em parte, porque a ‘inteligência’ social funciona com o que o resto das pessoas está pensando, ou seja, com um sentimento irracional de grupo, pouca informação, preconceitos, estereótipos e heurística. Uma vez que (quase) todas as outras pessoas estão tomando atalhos, ou ‘economizando’ razão, é apenas racional reagir defensivamente a generalizações que provavelmente serão reificadas ou inapropriadamente aplicadas – superando ou substituindo percepções específicas. Qualquer um que antecipe ser predefinido através de um identidade de grupo tem um ego-investimento expandido naquele grupo e na maneira em que ele é percebido. Uma avaliação genérica, por mais objetivamente que tenha sido alcançada, se tornará imediatamente pessoal, sob condições (mesmo bastante remotamente) normais.

A razão desagradável pode teimosamente insistir que qualquer coisa na média não pode ser sobre você, mas a mensagem não será, em geral, recebida. A ‘inteligência’ social humana não é construída dessa maneira. Mesmo comentadores supostamente sofisticados tropeçam repetidamente nas exibições mais chocantes de incompreensão estatística, sem o menor embaraço, porque o embaraço foi feito para alguma outra coisa (e quase exatamente para o oposto). A falha em entender estereótipos em sua aplicação científica ou probabilística é um pré-requisito funcional da sociabilidade, uma vez que a única alternativa à idiotice, neste aspecto, é a desagradabilidade.

O artigo de Derbyshire é digno de nota porque é bem sucedido em ser definitivamente desagradável e tem sido reconhecido como tal, apesar da incoerência espumante da maioria das réplicas. Entre as coisas que ‘a conversa’ e ‘a contra-conversa’ compartilham está uma estrutura teatral de conversação pseudo-privada feita para ser ouvida. Em ambos os casos, uma mensagem que pais são compelidos a entregar a seus filhos é encenada como o veículo de uma lição social mais ampla, visando aqueles que, por ação ou inação, criaram um mundo que é intoleravelmente perigoso para eles.

Esta forma é intrinsecamente manipuladora, o que torna mesmo a conversa ‘original’ um alvo tentador de paródias. No original, contudo, um tom de sinceridade angustiada é projetado através de uma performance deliberada de inocência (ou ignorância). Ouça filho, eu sei que isso vai ser difícil de entender… (Ó, por quê, por que estão fazendo isto conosco?). A contra-conversa, em forte contraste, funde seu drama microssocial com o discuso clinicamente não-sociável de “pesquisas metódicas nas ciências humanas” – tratando populações como unidades biogeográficas vagas com características quantificáveis, em vez de como sujeitos jurídico-políticos em comunicação. Ela ridiculariza a inocência e – por implicação – o critério da própria sociabilidade. Concordância, condescendência, não contam para nada. As estatísticas rigorosa e redundantemente compiladas dizem o que dizem e, se não conseguimos viver com isso, tanto pior para nós.

Ainda assim, mesmo para uma leitura razoavelmente simpática, ou escrupulosamente desagradável, o artigo de Derbyshire fornece bases para críticas. Por exemplo, e desde o começo, é notável que o recíproco racial de “americanos não-negros” é “americanos negros”, e não “negros americanos” (o termos que Derbyshire seleciona). Esta inversão da ordem das palavras, trocando substantivos e adjetivos, rapidamente se assenta em um padrão. Tem importância que Derbyshire exija a extensão da civilidade para qualquer “negro individual” (em vez de aos ‘indivíduos negros’)? Certamente faz diferença. Dizer que alguém é ‘negro’ é dizer algo sobre ela, mas dizer que alguém é ‘um negro’ é dizer quem ela é. O efeito é sutilmente, mas distintivamente, ameaçador, e Derbyshire é bem treinado demais, algebraicamente, para ser desculpado de observar isso. Afinal, ‘John Derbyshire é um branco’ soa igualmente estranho, assim como o faz qualquer formulação análoga, que submerge o indivíduo no gênero, a ser recuperado como uma mera instância ou exemplo.

O aspecto mais intelectualmente substantivo deste logro de incivilidade gratuita foi examinado por William Saletan e Noah Millman, que fizeram pontos muito similares, dos dois lados da divisa liberal/conservador. Ambos os autores identificam um fissura ou incongruência metódica no artigo de Derbyshire, decorrente de seu comprometimento com a aplicação microssocial de generalizações estatísticas macrossociais. Estereótipos, por mais rigorosamente confirmados que sejam, são essencialmente inferiores ao conhecimento específico em qualquer situação social concreta, porque ninguém nunca encontra uma população.

Como um liberal de posições problemáticas, Saletan não tem escolha alguma além de recuar melodramaticamente das “conclusões de revirar o estômago” de Derbyshire, mas suas razões para fazê-lo não são consumadas por suas crise gastro-emocional. “Mas o quê, exatamente, é uma verdade estatística?” ele pergunta. “É uma estimativa de probabilidade a que você pode recorrer se você não souber nada sobre [um indivíduo em particular]. É o substituto fraco de uma pessoa ignorante para o conhecimento.” Derbyshire, com sua atenção de Aspergers à ausência de vencedores negros da Fields Medal, é “…um nerd matemático que substitui a inteligência social pela inteligência estatística. Ele recomenda cálculos de grupo em vez de se dar ao trabalho de aprender sobre a pessoas que está na sua frente”.

Millman enfatiza a inversão irônica que transforma o (desagradável) conhecimento científico social em ignorância imperativa:

Os “realistas raciais” gostam de dizer que eles são os que estão curiosos quanto ao mundo e que os tipos “politicamente corretos” são os que preferem ignorar a feia realidade. Mas o conselho que Derbyshire dá a seus filhos os encoraja a não serem curiosos demais sobre o mundo a seu redor, por medo de se machucarem. E, como regra geral, esse é conselho terrível para crianças – e não é o conselho que Derbyshire tem seguido em sua própria vida.

A conclusão de Millman também é instrutiva:

Então, por que eu sequer estou argumentando com Derb? Bem, porque ele é um amigo. E porque mesmo conversas preguiçosas e socialmente irresponsáveis precisam ser refutadas, não meramente denunciadas. O artigo de Derbyshire é racista? Claro que é racista. Todo o seu ponto é que é tanto racional quanto moralmente correto que seus filhos tratem pessoas negras de maneira significativamente diferente das pessoas brancas e tenham medo delas. Mas “racista” é um termo descritivo, não moral. A turma “realista racial” está fortemente convencida da precisão das principais premissas de Derbyshire, e eles não vão ser convencidos a abandonar essa convicção pela afirmação de que tal convicção é “racista” – tampouco, honestamente, eles deveriam ser. Por esta razão, eu sinto que é importante argumentar que as conclusões de Derbyshire não se seguem, de maneira simples, daquelas premissas e estão, na verdade, moralmente incorretas, mesmo que aquelas premissas sejam concedidas por bem do argumento.

[Breve intervalo…]

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4a

Parte 4a: Uma sub-digressão multiparte ao terror racial

Meu próprio sentimento da coisa é que, por debaixo de toda a conversa feliz, debaixo da adesão obstinada a ideias falhas e teorias mortas, debaixo da gritaria e do anátema contra pessoas como eu, há um desespero profundo e frio. Em nossos mais íntimos corações, não acreditamos que a harmonia racial possa ser alcançada. Daí a tendência à separação. Só queremos continuar com nossas vidas longe um dos outros. Ainda assim, para um povo moralista e otimista como os americanos, esse desespero é insuportável. Ele é empurrado para longe, para algum lugar em que não tenhamos que pensar sobre ele. Quando alguém nos força a pensar sobre ele, reagimos com fúria. Aquele menininho na estória de Andersen sobre as novas roupas do Imperador? O fim seria mais verdadeiro para com a vida se ele tivesse sido linchado por uma multidão uivante de cidadãos ultrajados.
– John Derbyshire, entrevistado na Gawker

Acreditamos na igual dignidade e na presunção de igual decência em relação a toda pessoa – não importa qual raça, não importa o que a ciência nos diga sobre inteligência comparativa e não importa o que possa ser obtido das estatísticas criminais. É importante que a pesquisa seja feita, que as conclusões não sejam fraudadas e que tenhamos liberdade de falar francamente sobre o que ela nos diz. Mas isto não é um argumento a favor de conclusões a priori sobre como pessoas individuais devem ser tradas em diversas situações – ou a favor de calcular medo ou amizade com base apenas na raça. Manter e ensinar de outra forma é prescrever a desintegração de uma sociedade pluralista, minar a aspiração de E Pluribus Unum.
– Andrew McCarthy, defendendo a expulsão de JD da National Review

“A Conversa”, da forma em que os americanos negros e os liberais a apresentam (a saber: necessitada pela malícia branca), é uma afronta cômica – porque ninguém tem permissão (vide Barro acima) de notar o contexto no qual os americanos negros estão tendo desentendimentos com a lei, uns com os outros e com outros. O contexto apropriado para entender isto, e a mania que é o Travyonicus aliás, é o medo razoável de violência. Este é o fato mais exigente aqui – e, ainda assim, você decreta que ele não pode ser falado.
– Dennis Dale, respondendo ao chamado de Josh Barro pela demissão de JD.

Tremenda experiência viver com medo, não é? É isso que é ser um escravo.
– Bladerunner

Não há nenhuma parte de Singapura, Hong Kong, Taipei, Xangai ou muitas outras cidades no Leste asiático em que seja impossível passear, com segurança, tarde da noite. Mulheres, sejam jovens ou velhas, sozinhas ou com crianças pequenas, podem ficar confortavelmente alheias aos detalhes do espaço e do tempo, pelo menos no que diz respeito à ameaça de agressão. Embora isto possa não ser bem suficiente para definir uma sociedade civilizada, chega extremamente próximo. É certamente necessário a qualquer definição dessas. O caso contrário é o barbarismo.

Essas cidades afortunadas do oeste do Círculo do Pacífico são tipificadas por localizações geográficas e perfis demográficos que ecoam de maneira conspícua as embaraçosamente bem-comportadas ‘minorias modelo’ dos países ocidentais. Elas são dominadas (de maneira não desagradável) por populações que – devido a herança biológica, profundas tradições culturais ou algum emaranhamento inextricável das duas – acham interações sociais educadas, prudentes e pacíficas comparativamente fáceis e dignas de reforço contínuo. Elas são também, importantemente, sociedades abertas e cosmopolitas, notavelmente desprovidas de arrogância chauvinista ou de um sentimento etno-nacionalista paranoico. Seus cidadãos não estão inclinados a enfatizar suas próprias virtudes. Pelo contrário, eles serão tipicamente modestos quanto aos seus atributos e realizações individuais e coletivas, anormalmente sensíveis às suas falhas e deficiências e estarão constantemente alertas para oportunidades de melhoria. A complacência é quase tão rara quanto a delinquência. Nessas cidades, toda uma dimensão – com consequências massivas – de terror social está simplesmente ausente.

Em muito do mundo ocidental, em um contraste gritante, o barbarismo foi normalizado. É considerado simplesmente óbvio que cidades tem ‘áreas ruins’ que não são meramente pobres, mas letalmente ameaçadoras, para estranhos assim como para residentes. Adverte-se os visitantes para que fiquem longe, ao passo que os locais fazem o seu melhor para transformar suas casas em fortalezas, evitam se aventurar nas ruas depois do anoitecer e – especialmente se forem homens jovens – voltam-se para gangues criminosas em busca de proteção, o que degrada ainda mais a segurança de todas as outras pessoas. Predadores controlam o espaço público, parques são armadilhas mortais, a ameaça agressiva é celebrada como ‘atitude’, a aquisição de propriedade é para caretas (ou assaltantes), a aspiração educacional é ridicularizada e a atividade empresarial não-criminosa é desprezada como uma violação das normas culturais. Todo mecanismo significativo de pressão sócio-cultural, desde heranças interpretadas e influências dos pares até a retórica política e incentivos econômicos, está alinhado com o aprofundamento da depravação complacente e da extirpação cruel de todo impulso de auto-melhoria. Bastante claramente, esses são lugares em que a civilização colapsou de maneira fundamental, e uma sociedade que os inclua, em uma medida substancial, falhou.

Dentro dos países mais influentes do mundo de língua inglesa, a desintegração da civilização urbana moldou profundamente a estrutura e o desenvolvimento das cidades. Em muitos casos, o padrão ‘natural’ (agora se poderia dizer ‘asiático’), no qual a urbanização intensiva e os valores imobiliários correspondentes são maiores no centro da cidade, foi destruído ou, pelo menos, profundamente deformado. A desintegração social do centro urbano levou a um êxodo dos (sequer moderadamente) prósperos para refúgios suburbanos e extra-urbanos, produzindo um padrão grotesco e historicamente sem precedentes de desenvolvimento estilo ‘rosquinha’, com cidades que toleram – ou meramente se acomodam a – interiores arruínados e podres, nos quais pessoas sãs temem pisar. ‘Centro da cidade’ veio a significar quase exatamente o oposto do que um curso não distorcido de desenvolvimento urbano produziria. Esta é a expressão geográfica de um problema social ocidental – e especialmente americano – que é, de uma só vez, basicamente imencionável e visível do espaço sideral.

Surpreendentemente, a síndrome da rosquinha com núcleo quebrado tem um nome notavelmente insensível e ainda assim comumente aceito, que a captura em linhas gerais – pelo menos de acordo com suas características secundárias – e em um grau razoável de aproximação estatística: White Flight (Fuga dos Brancos). Este é um termo que prende, por uma variedade de razões. Ele é marcado, primeiro de tudo, pela bipolaridade racial que – como um arcaísmo vital – ressoa com a crise social crônica da América, em uma série de níveis. Embora superficialmente datado, em uma era de questões multiculturais e de imigração de muitos matizes, ele reverte ao código morto-vivo herdado da escravidão e da segregação, perpetuamente identificada com as palavras de Faulkner: “O passado não está morto. Ele nem mesmo é passado.” Ainda assim, mesmo neste atípico momento de candura racial, a negritude é elidida e implicitamente desconectada da agência. É denotada apenas por alusão, como um resíduo, concentrado passiva e derivadamente pela função peneiradora de um pânico branco altamente adrenalinizado. O que não pode ser dito é indicado mesmo enquanto não é mencionado. Um silêncio distintivo acompanha a meia-expressão quebrantada de uma maré muda de separatismo racial, guiado por terrores e animosidades civilizacionalmente incapacitantes, cujas profundidades e estruturas de reciprocidade permanecem inconfessáveis.

O que o êxodo puritano do Antigo para o Novo Mundo foi para a fundação da modernidade anglófona global, o white flight é para o seu desgaste e dissolução. Assim como com a migração pré-fundadora, o que da ao white flight relevância inelutável aqui é seu caráter sub-político: tudo saída e nenhuma voz. Ela é o ‘outro’ sutil, não-argumentativo e não-exigente da democracia social e seus sonhos – o impulso espontâneo do iluminismo sombrio, da maneira em que é inicialmente vislumbrado, de uma só vez desilusivo e implacável.

A rosquinha com o núcleo quebrado não é o único modelo de síndrome da cidade doente (o fenômeno da favela marginal enfatizado no Planet of Slums de Mike Davis é muito diferente). Tampouco o urbanismo do desastre-rosquinha é redutível à crise racial, pelo menos em suas origens. Fatores tecnológicos desempenharam um papel crucial (mais proeminentemente, a geografia do automóvel), assim como o fizeram outras tradições culturais de longa data (tais como a construção de subúrbios enquanto idílios burguêses). Ainda assim, todas essas linhagens foram, em muito grande medida, suplantadas ou, pelo menos, subordinadas ao ‘problema racial’ herdado e que ainda emerge.

Então, o que é este ‘problema’? Como ele está se desenvolvendo? Por que alguém fora da América deveria estar preocupado com ele? Por que levantar o tópico agora (se jamais)? – Se o seu coração está afundando sob a sombria suspeita de que isto vai ser enorme, sinuoso, estressante e torturante, você está certo. Temos semanas nesta câmara de horrores pelas quais esperar.

As duas respostas mais simples, bastante amplamente mantidas e basicamente incompatíveis, para a primeira questão merecem ser consideradas como partes importantes do problema.

Questão: Qual é o problema racial americano?

Resposta-1: Pessoas negras.

Resposta-2: Pessoas brancas.

A popularidade combinada destas opções é significantemente expandida, muito provavelmente para englobar a grande maioria de todos os americanos, quando se considera que ela inclui aqueles que assumem que uma destas duas respostas domina o pensamento do outro lado. Entre si, as proposições “O problema estaria acabado se pudéssemos simplesmente nos livrar dos vadios negros / racistas brancos” e / ou “Eles pensão que somos todos vadios / racistas e querem se livrar de nós” consomem uma proporção impressionante do espectro político, estabelecendo uma fundação sólida de terror e aversão recíprocos. Quando projeções defensivas são adicionadas (“Não somos vadios, vocês são racistas” ou “Não somos racistas, você são vadios”), o potencial para uma dialética superaquecida e não-sintetizadora se aproxima do infinito.

Não que estes ‘lados’ sejam raciais (exceto na fantasia tribal-nacionalista negra ou branca). Para estereótipos crus, é bem mais útil se voltar para a dimensão política principal e suas categorias de ‘liberal’ e ‘conservador’ no sentido americano contemporâneo. Identificar o problema racial da América com o racismo branco é a posição liberal estereotípica, ao passo que identificá-lo com a disfunção social negra é o exato complemento conservador. Embora estas posições sejam formalmente simétricas, é sua assimetria política real que investe o problema racial americano com seu extraordinário dinamismo histórico e significância universal.

Que os brancos e negros americanos – considerados grosseiramente como agregados estatísticos – coexistem em uma relação de medo recíproco e vitimização percebida é atestado pelos padrões manifestos de desenvolvimento e navegação urbana, escolha de escolas, propriedade de armas, policiamento e encarceramento, e quase todas as outras expressões de preferência revelada (ao contrário da afirmada) que estejam relacionadas à distribuição social voluntária e à segurança. Um equilíbrio objetivo de terror reina, apagado da visibilidade por perspectivas complementares, mas incompatíveis, de supremacismo e negação vitimológicos. Ainda assim, entre as posições liberal e conservadora sobre raça não há qualquer equilíbrio que seja, mas algo próximo de uma derrota. Os conservadores estão completamente aterrorizados com a questão, ao passo que, para os liberais, ela é um jardim de delícias terrenas, cujos prazeres transcendem os limites da compreensão humana. Quando qualquer discussão política chega firme e claramente ao tópico da raça, o liberalismo vence. Esta é a lei fundamental da efetividade ideológica à sombra fragante meia-luz da Catedral. Em certos aspectos, este desequilíbrio político dinâmico é até mesmo o fenômeno primário sob consideração (e muito mais precisa ser dito sobre isso, mais á frente).

A humilhação regular, excruciante e esmagadora do conservadorismo na questão da raça não deveria ser nenhuma surpresa para ninguém. Afinal, o papel principal do conservadorismo na política moderna é ser humilhado. É para isto que uma perpétua e leal oposição, ou bobo da corte, serve. O caráter essencial do liberalismo, enquanto guardião e proponente da fé espiritual neo-puritana, o investe com domínio supremo sobre a dialética, ou invulnerabilidade à contradição. Aquilo que é impossível de se pensar deve, necessariamente, ser adotado através da fé. Considere apenas a doutrina fundamental ou primeiro artigo do credo liberal, conforme promulgado através de toda discussão pública, articulação acadêmica e iniciativa legislativa relevante ao tópico: Raça não existe, exceto enquanto construto social empregado por uma raça para explorar e oprimir uma outra. Meramente entreter isso é estremecer antes à incrível majestade do absoluto, onde tudo é simultaneamente seu preciso oposto, e a razão evapora extaticamente à beira do sublime.

Se o mundo fosse construído com ideologia, esta estória já estaria acabada ou, pelo menos, previsivelmente programada. Para além do aparente zigue-zague da dialética, há uma tendência dominante, que leva em uma direção única e inequívoca. Ainda assim, a solução liberal-progressista para o problema da raça – um ‘anti-racismo’ abrangentemente sistemático e dinamicamente paradoxal que se escala sem limites – confronta um obstáculo real que é apenas muito parcialmente refletido nas atitudes, retórica e ideologia conservadoras. O verdadeiro inimigo – glacial, incipiente e não-argumentativo – é o ‘white flight’.

Neste ponto, uma referência explícita ao Caso Derbyshire se torna irresistível. Há uma quantia muito considerável de contexto histórico complexo e recente que clama por introdução – a convulsão cultural que acompanhou ao incidente Trayvon Martin em particular – mas haverá tempo para isso mais tarde (ah sim, eu temo que sim). A intervenção de Derbyshire e a explosão de palavras que ela provocou, embora em alguma medida iluminada por tal contexto, de longe o excede. Isso porque o termo crucial não dito, tanto no agora notório artigo curto de Derbyshire, quanto também – aparentemente – nas respostas que ele gerou, é ‘white flight’. Ao publicar um conselho paternal para seus filhos (eurasiáticos) que foi – não inteiramente sem razão – resumido como ‘evite pessoas negras’, ele converteu a fuga dos brancos, de um fato muito lamentado, mas aparentemente inexorável, para um imperativo explícito, até mesmo uma causa. Não discuta, fuja.

A palavra que Derbyshire enfatiza, em sua própria penumbra de comentários e em escritos antecedentes, não é ‘fuga’ ou ‘pânico’, mas desespero. Quando perguntado pelo blogueiro Vox Day se ele concordava que a ‘race card’ (‘carta da raça’) havia se tornado menos intimidadora ao longo das últimas duas décadas, Derbyshire responde:

Um [fator], sobre o qual eu já escrevi mais de uma vez, eu acho, nos Estados Unidos, é simplesmente o desespero. Eu tenho uma certa idade e eu estava por aí 50 anos atrás. Eu lia os jornais e seguia o eventos mundiais e lembro do movimento dos direitos civis. Eu estava na Inglaterra, mas nós o acompanhávamos. Eu lembro dele, lembro do que sentíamos sobre ele e do que as pessoas estavam escrevendo sobre ele. Tinha muita esperança. A ideia na mente de todo mundo era que, se derrubássemos essas leis injustas e baníssemos toda essa discriminação, então seríamos curados. Então a América seria restaurada. Depois de um período intermediário de alguns anos, quem sabe, talvez 20 anos, com uma mão de coisas como a ação afirmativa, a América negra simplesmente se fundirá à população geral e a coisa toda simplesmente irá embora. Isso é o que todo mundo acreditava. Todo mundo pensava isso. E não aconteceu.

Aqui estamos, 50 anos mais tarde, e ainda temos essas tremendas disparidades de taxas de crimes, realizações educacionais e assim por diante. E eu acho que, embora eles ainda estejam declamando as banalidades, os americanos, em seus corações, sentem um tipo de desespero frio sobre isso. Eles sentem que Thomas Jefferson provavelmente estava certo e que não podemos viver juntos em harmonia. Acho que é por isso que você vê esse lento desagregamento étnico. Temos um sistema escolar muito segregado agora. Existem escolas a 10 milhas de onde estou sentado que são 98 por cento minorias. Na habitação residencial também é a mesma coisa. Então, eu acho que há um desespero frio e sombrio, à espreita no coração coletiva do América, sobre toda essa coisa.

Esta é uma versão da realidade que poucos querem ouvir. Como Derbyshire reconhece, os americanos são um povo predominantemente cristão, otimista, ‘dá pra fazer’, cujo ‘coração coletivo’ é incomumente mal-adaptado a um abandono da esperança. Esse é um país culturalmente programado para interpretar o desespero não meramente como erro ou fraqueza, mas como um pecado. Ninguém que entenda isto poderia ficar remotamente surpreso de encontrar o fatalismo hereditário desolador sendo rejeitado – tipicamente com hostilidade veemente – não apenas por progressistas, mas também pela esmagadora maioria dos conservadores. Na NRO, Andrew C. McCarthy sem dúvida falou por muitos ao observar:

Há um mundo de diferença, no entanto, entre a necessidade de ser capaz de discutir fatos desconfortáveis sobre QI e encarceramento, por um lado, e, por outro, insistir na raça como um fundamento para se abandonar a caridade cristã básica.

Outros foram muito além. No Examiner, James Gibson aproveitou “a torpe arenga racista de John Derbyshire” como uma oportunidade para ensinar uma lição mais ampla – “o perigo do conservadorismo divorciado do cristianismo”:

…uma vez que Derbyshire não acredita “que Jesus de Nazaré era divino …e que a Ressurreição foi um evento real”, ele não pode compreender o grande mistério da Encarnação, através da qual o Divino verdadeiramente assumiu carne humana na pessoa de Jesus de Nazaré e sofreu a morte nas mãos de uma humanidade caída, a fim de redimir essa humanidade de seu estado de queda.

Nisto jaz o perigo de uma filosofia sociopolítica conservadora divorciada de uma robusta fé cristã. Ela se torna uma ideologia morta, produzindo uma visão da humanidade que é tóxica, fatalista e (como Derbyshire prova de maneira abundante) pouco caridosa.

Foi, claro, na esquerda que os fogos de artifício realmente acenderam. Elspeth Reeve, no Atlantic Wire afirmou que Derbyshire se agarrara à sua relação com a National Review porque estava oferecendo aos “leitores menos iluminados” da revista o que eles queriam: “estereótipos raciais datados”. Assim como Gibson na direita, ela estava interessada em que as pessoas aprendessem uma lição mais ampla: não pense, nem por um minuto, que isto acaba em Derbyshire. (Vale a pena notar a seção de comentários incrivelmente pouco cooperativa de seu artigo.)

Na Gawker, Louis Peitzman diminui a qualidade (na direção aprovada) ao descrever a “horrível diatribe” de Derbyshire como “o artigo mais racista possível”, um julgamento que denuncia extrema ignorância histórica, uma vida protegida, inocência incomum e uma falta de imaginação, assim como faz o artigo soar bem mais interessante do que realmente é. Os comentadores de Peitzman são impecavelmente liberais e, claro, estão uniformemente, completamente, chocantemente assustados (ao ponto de um orgasmo). Para além do emocionar, Peitzman não oferece muito conteúdo, com exceção apenas de um pouco mais de emocionar – desta vez uma leve satisfação misturada com uma raiva residual – com as notícias de que a punição de Derbyshire havia pelo menos começado (“um passo na direção certa”) com seu “enxotamento” da National Review.

Joanna Schroeder (escrevendo em algo chamado Good Feel Blog) buscou estender o expurgo para além de Derbyshire, para incluir qualquer um que ainda não tenha irrompido em paroxismos suficientemente melodramáticos de indignação, a começar com David Weigel na Slate (que ela não conhece “na vida real, mas, ao ler este artigo, parece que você bem poderia ser um racista, cara”). “Há tantas… referências racistas e desumanizantes a pessoas negras no artigo de Derbyshire que eu tenho que me parar aqui, antes que reconte a coisa toda, ponto a ponto, fumegante de raiva”, ela compartilha. Ao contrário de Peitzman, contudo, pelo menos Schroeder tem um ponto – a dialética do terror racial – “…propagar a ideia de que deveríamos ter medo de homens negros, de pessoas negras em geral, torna este mundo perigoso para americanos inocentes”. Seu medo o torna assustador (embora aparentemente não com reciprocidade legítima).

Quanto a Weigel, ele entende o terror bem e arduamente. Em poucas horas, ele está de volta ao teclado, se desculpando por sua despreocupação anterior e pelo fato de que ele “acabou nunca dizendo o óbvio: Povo, o ensaio era repugnante”.

Então, o que Derbyshire realmente disse, de onde isso veio e o que isso significa para a política americana (e além)? Esta sub-série penteará por entre o espectro, da esquerda à direita, em busca de sugestões, com o pânico / desespero ‘branco’ socio-geograficamente manifesto como uma linha guia…

A seguir: O Ecstasy Liberal

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 4

Parte 4: Recorrendo a raça à ruína.

Os liberais estão confusos e furiosos que os brancos pobres votam em Republicanos, embora votar com fundamentos tribais seja uma característica de todas as democracias multi-étnicas, seja [na] Irlanda do Norte, no Líbano ou no Iraque. Quanto mais uma maioria se torna uma minoria, mais tribal se torna sua votação, de modo que cada vez mais os Republicanos se tornaram o “partido branco”; fazer este ponto de maneira indelicada mandou Pat Buchanan para o saco, mas muitos outros o fazem também.

O que vai acontecer aqui [no Reino Unido]? Os padrões não são dissimilares. Na eleição de 2010, os Conservadores conseguiram apenas 16 por cento do voto étnico minoritário, ao passo que o Labour conseguiu o apoio de 72 por cento dos bangladeshis, 78 por cento dos afro-caribenhos e 87 por cento dos africanos. Os Tories são ligeiramente mais fortes entre os hindus e sikhs britânicos – espelhando o apoio Republicano entre os ásio-americanos – que têm maior probabilidade de serem profissionais proprietários de imóveis e de se sentirem menos alienados.

A The Economist recentemente perguntou se os Tories tinham um “problema de raça”, mas pode ser só que a democracia tenha um problema de raça.
– Ed West (Aqui)

Sem um gosto pela ironia, Mencius Moldbug é praticamente insuportável e certamente ininteligível. Vastas estruturas de ironia histórica moldam seus escritos, às vezes mesmo os engolfando. De que outra maneira poderia um proponente de configurações tradicionais de ordem social – um auto-proclamado jacobita – compor um corpo de trabalho é que teimosamente dedicado à subversão?

A ironia é o método de Moldbug, assim como seu ambiente. Isto pode ser visto, de forma mais reveladora, em seu nome escolhido para o iluminismo usurpado, a fé dominante do mundo moderno: Universalismo. Esta é uma palavra de que ele se apropria (e que coloca em letra maiúscula) dentro de um diagnóstico reacionário cuja força inteira jaz em sua exposição de uma particularidade exorbitante.

Moldbug se volta continuamente para a história (ou, mais rigorosamente, para a cladística) para especificar de maneira acurada aquilo que afirma sua própria significância universal enquanto ascende a um estado de dominância geral que se aproxima do universal. Sob este exame, o que conta como razão Universal, determinando a direção e o significado da modernidade, é revelado como o ramo ou subespécie minuciosamente determinado de uma tradição cultual, descendente de ‘ranters’, ‘levelers’ e variantes intimamente relacionadas de fanatismo dissidente ultra-protestante e que deve infimamente pouco às conclusões dos lógicos.

Ironicamente, então, a fé democrática-igualitária Universalista reinante do mundo é um culto particular ou peculiar que irrompeu, ao longo de caminhos históricos e geográficos identificáveis, com uma virulência epidêmica que é disfarçada como iluminação global progressiva. A rota que ela tomou, através da Inglaterra e da Nova Inglaterra, Reforma e Revolução, é registrada por um acúmulo de traços que fornecem material abundante para a ironia e para variedades mais baixas de comédia. O desmascaramento do intelectual ‘liberal’ moderno ou do ‘contador de verdades’ ‘de mente aberta’ da mídia como um puritano pálido, fervoroso e estritamente doutrinário, reconhecivelmente descendente da espécie de zelotes queimadores de bruxas, é confiantemente – e irresistivelmente – divertido.

Ainda assim, conforme a Catedral se estende e intensifica seu controle sobre tudo, em todo lugar, de acordo com seu mandato divino, a resposta que ela desencadeia é apenas atipicamente cômica. Mais comumente, quando incapaz de extrair humilde complacência, ela encontra raiva inarticulada ou, pelo menos, um ressentimento incompreensível e fumegante, como convém à imposição de dogmas culturais paroquiais ainda envoltos na pompa de uma linhagem específica e alienígena, mesmo que confessem seriamente uma racionalidade universal.

Considere, por exemplo, as palavras mais famosas da Declaração de Independência da América: “Consideramos estas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis…”. Pode-se honestamente manter que submeter-se, de maneira escrupulosa e sincera, a tais verdades ‘auto-evidentes’ equivale a qualquer coisa além de um ato de reconfirmação ou conversão religiosa? Ou ser negado que, nestas palavras, razão e evidência são explicitamente colocadas de lado, para criar espaço para princípios de fé? Poderia qualquer coisa ser menos científica do que tal declaração, ou mais indiferente aos critérios do raciocínio genuinamente universal? Como poderia se esperar que alguém que não fosse já um crente consentisse com tais suposições?

Que a declaração fundante do credo democrático-republicano seja formulada como uma declaração de pura (e doutrinariamente reconhecível) fé é uma espécie de informação, mas ainda não é ironia. A ironia começa com o fato de que, entre as elites da Catedral de hoje, estas palavras da Declaração de Independência (assim como muitas outras) seriam consideradas – quase universalmente – curiosamente sugestivas, na melhor das hipóteses, talvez vagamente embaraçosas e, mais certamente, incapazes de sustentar um assentimento literal. Mesmo em meio a conservadores inclinados ao libertarianismo, é pouco provável que um compromisso firme com os ‘direitos naturais’ proceda confiante e enfaticamente para sua origem divina. Para os ‘liberais’ modernos, crentes do Estado concessor de direitos (ou intitulamentos), essas ideias arcaicas não estão apenas absurdamente datadas, mas são positivamente obstrutivas. Por esta razão, elas são associadas menos com predecessores venerados do que com o pensamento retardado e fundamentalista de inimigos políticos. Sofisticados do núcleo da Catedral entendem, como o fazia Hegel, que Deus não é mais do que o governo profundo apreendido por infantes e, como tal, um desperdício de fé (que os burocratas poderiam colocar em melhores usos).

Uma vez que a Catedral já ascendeu à supremacia global, ela não tem mais necessidade de Pais Fundadores, que desajeitadamente relembram sua ancestralidade paroquial e impedem suas relações públicas transnacionais. Em vez disso, ela busca revigoramento perpétuo através da difamação deles. O fenômeno do ‘Novo Ateísmo’, com suas transparentes afiliações progressistas, atesta isso abundantemente. O paleopuritanismo deve ser ridicularizado, a fim de que o neopuritanismo floresça – o meme está morto, vida longa ao meme!

No limite da auto-paródia, o parricídio neopuritano toma a forma da ridícula ‘Guerra ao Natal’, na qual os aliados da Catedral santificam a (radicalmente não ameaçada) separação entre Igreja e Estado, através da incômoda agitação contra expressões públicas da piedade cristã tradicional, e seus patetas dos ‘Red States’ respondem com dispéptica indignação em programas de TV à cabo. Como toda outra guerra contra substantivos indefinidos (seja ‘pobreza’, ‘drogas’ ou ‘terror’), o resultado é previsivelmente perverso. Se a resistência à Guerra ao Natal ainda não está estabelecida como o centro sólido das festividades natalinas, pode-se confiantemente esperar que se tornem no futuro. Os propósitos da Catedral são servidos, não obstante, através da promoção de um secularismo sintético que separa a fé progressista de seus fundamentos religiosos, ao passo que direciona a atenção para longe do conteúdo etnicamente específico e dogmático do credo em seu âmago.

Até onde vão os reacionários, os cristão tradicionais são geralmente considerados como sendo até bem fofinhos. Mesmo os fanáticos com os olhos mais arregalado da ortodoxia neopuritana têm dificuldades em ficarem genuinamente excitados com eles (embora ativistas do aborto cheguem perto). Para um pouco de carne realmente vermelha, com os nervos expostos e se contorcendo com os choques de forte estimulação, faz bem mais sentido se voltar para uma outra quadra descartada e cerimonialmente abominada da linhagem progressista: a Política Identitária Branca, ou (o termo pelo qual Moldbug opta) ‘nacionalismo branco’.

Assim como a catraca do progresso da democracia social neopuritana é radicalmente facilitada pela tortura orquestrada de suas formas religiosas embriônicas no pelourinho, assim também a sua tendência à economia política neo-fascista é suavizada pelo repúdio concertado de uma ameaça ‘neo-nazi’ (ou paleo-fascista). É extremamente conveniente, quando se constrói estruturas cada vez mais abertamente corporatista ou ‘de terceira posição’ de pseudo-capitalismo dirigido pelo estado, ser capaz de desviar a atenção para expressões irritadas de paranoia racial branca, especialmente quando estas são ornamentadas por insígnias nazistas desajeitadamente modificadas, capacetes com chifres, estética de Leni Riefenstahl e slogans livremente emprestados do Mein Kampf. Nos Estados Unidos (e, assim, com um lapso de tempo que se encolhe, internacionalmente) os ícones do Ku Klux Klan, de lençóis brancos, títulos semi-maçônicos e cruzes em chamas até cordas de linchamento, têm adquirido um valor teatral comparável.

Moldbug oferece uma lista higienizada de leitura de blogs nacionalistas brancos, que consiste de autores que – com diferentes graus de sucesso – evitam uma reversão imediata à auto-paródia paleo-fascista. O primeiro passo para além da fronteira da opinião respeitável é representado por Lawrence Auster, um cristão, anti-darwinista e ‘Conservador Tradicionalista’ que defende uma identidade nacional ‘substancial’ (etno-racial) e se opõe ao princípio-mestre liberal de não discriminação. No momento em que chegamos a ‘Tanstaafl‘, na dilacerada borda exterior do espectro cuidadosamente truncado de Moldbug, já entramos em uma órbita decadente, que se espirala para dentro do grande buraco negro que está escondido no centro morto da possibilidade política moderna.

Antes de seguir os tipos de Tanstaafl para dentro do abismo esmagador onde a luz morre, há alguma observações preliminares a serem feitas sobre a perspectiva nacionalista branca e sobre suas implicações. Ainda mais do que os cristãos tradicionalistas (que, mesmo no meio de seu inverno cultural, podem se aquecer no calor do endosso sobrenatural), a política identitária branca se considera sitiada. Uma preocupação moderada ou comedida não oferece qualquer equilíbrio para aqueles que cruzam a linha e começam a se auto-identificar nesses termos. Em vez disso, o caminho de envolvimento demanda uma rápida aceleração até um estado de alerta extremo, ou pânico racial, que se conforma a uma análise focada na maliciosa substituição populacional nas mãos de um governo que, nas palavras frequentemente citadas de Bertold Brecht, “decidiu dissolver o povo e apontar um outro”. A ‘branqueza’ (quer seja concebida de maneira biológica, mística ou ambas) é associada com vulnerabilidade, fragilidade e perseguição. Este tema é tão básico, e tão multifário, que é difícil de abordar de maneira sucinta. Ele engloba tudo, desde predação criminosa (especialmente assassinatos, estupros e espancamentos racialmente carregados), exações econômicas e discriminação inversa, agressão cultural por parte de sistemas acadêmicos e midiáticos hostis até, em última análise, ‘genocídio’ – ou destruição racial definitiva.

Tipicamente, a aniquilação prospectiva da raça branca é atribuída à sua própria vulnerabilidade sistemática, que seja devido a traços culturais característicos (altruísmo excessivo, susceptibilidade à manipulação moral, hospitalidade excessiva, confiança, reciprocidade universal, culpa ou desdém individualista pela identidade de grupo), ou a fatores biológicos mais imediatos (genes recessivos que suportam os frágeis fenótipos arianos). Embora seja improvável que este senso de ameaça de extinção única seja redutível à fórmula cromática ‘Branco + Cor = Cor’, a estrutura fundamental é deste tipo. Em sua descrição abstrata da vulnerabilidade não recíproca, ela reflete a ‘regra da uma gota’ (e a combinação genética mendeliana recessivo / dominante). Ela descreve a mistura como essencialmente anti-branca.

Uma vez que ‘branqueza’ é um limite (pura ausência de cor), ela desliza suavemente da factualidade biológica da subespécie caucasiana para ideias metafísicas e místicas. Em vez de acumular variação genética, uma raça branca é contaminada ou poluída por misturas que comprometem sua negatividade definidora – escurecê-la é destruí-la. A densidade mitológica destas associações – predominantemente subliminares – investe a política identitária branca de uma resiliência que frustra os esforços iluminados de denúncia racionalista, ao passo que contradiz sua própria auto-representação paranoica. Ela também enfraquece as promoções nacionalistas brancas recentes de uma ameaça racial que é estritamente comparável àquela que enfrentam os povos indígenas, de maneira universal, e descreve os brancos como ‘nativos’ cruelmente privados de igual proteção contra a extinção. Não há nenhuma rota de retorno para a inocência tribal ou para a diversidade biológica rasa. A branqueza foi compactada indissoluvelmente com a ideologia, seja qual for a estrada tomada.

“Se os negros podem ter, e os hispânicos podem ter, e os judeus podem ter, por que não podemos ter?” – Esse é o alicerce final do agravo nacionalista branco, a maldição do lobisomem que significa que ele só pode ser, para sempre, um monstro. Há exatamente um único caminho de saída para os caras pálidas perseguidos, e ele leva direitamente para dentro de um buraco negro. Prometemos que voltaríamos a Tanstaafl, e aqui estamos, no final do verão de 2007, logo depois que pegou ‘a coisa judia‘. Não há nada de muito original quanto à sua epifania, o que é exatamente o ponto. Ele cita a si mesmo:

Não é absurdo que alguém sequer pensasse em culpar o cristianismo ou os WASPs pelo surgimento do politicamente correto e de suas consequências catastróficas? Isto, na verdade, não é uma inversão da verdade? O surgimento e disseminação do PC não erodiu o poder do cristianismo, dos WASPs e dos brancos em geral? Culpá-los é, com efeito, culpar a vítima.
Sim, existem cristãos, WASPs e brancos que caíram na lavagem cerebral do PC. Sim, existem alguns que o levaram tão a fundo no coração que trabalham para expandi-lo e protege-lo. Esta é a natureza do PC. Este é seu propósito. Controlar as mentes das pessoas que ele busca destruir. A esquerda, em sua raiz, é totalmente sobre destruição.
Você não tem que ser um anti-semita para notar de onde essas ideias se originam e quem se beneficia. Mas você têm que violar o PC para dizer: Judeus.

Este é o labirinto, a armadilha, com seu circuito lamentavelmente restrito e estereotipado. “Por que não podemos ser preservacionistas raciais fofinhos, como os índios amazônicos? Como é que sempre viramos os Neo-Nazis? É algum tipo de conspiração, o que significa que tem que ser os Judeus.” Desde o meio do século XX, a intensidade política do mundo globalizado tem corrido, quase exclusivamente, a partir da pilha de cinzas craterada do Terceiro Reich. Até que você entenda o padrão, parece misterioso que não haja maneira de fugir dele. Depois de listar alguns blogs que caem sobre a categoria relativamente distinta de ‘nacionalismo branco’, Moldbug adverte:

A Internet também é lar de muitos blogs inquestionavelmente racistas. A maioria é simplesmente ilegível. Mas alguns são mantidos por escritores relativamente capazes. …Nestes blogs racistas, você encontrará, epítetos raciais, anti-semitismo (veja why I am not an anti-Semite) e coisa do tipo. Obviamente, eu não posse recomendar nenhum desse blogs e tampouco eu os linkarei. Contudo, se você estiver interessado na mente do racista moderno, o Google lhe levará lá.

Google é um exagero. Um pouco de pesca de links lhe levará lá. É um problema de ‘seis graus de separação’ (e mais algo como dois, ou menos). Comece a cavar na ‘reactosfera’ realmente existente, e as coisas ficam bastante assombrosamente feias muito rápido. Sim, realmente existe ‘ódio’, pânico e nojo, assim como uma abundância morbidamente viciante de sagacidade sombria e mordaz e um peso desconcertantemente impressionante de fatos críveis (esses caras simplesmente amam estatísticas de morrer). Acima de tudo, logo além do horizonte, há o buraco negro. Se a reação jamais se tornasse um movimento popular, suas poucas linhas esguias de civilidade burguesa (ou talvez sonhadoramente ‘aristocrática’) não segurariam a besta por muito tempo.

Conforme a decência liberal se separou da integridade intelectual e exilou verdades duras, estas verdades encontraram novos aliados e se tornaram consideravelmente mais duras. O resultado é mecânica e monotonamente previsível. Toda ‘guerra de causa’ liberal democrática fortalece e torna mais selvagem aquilo contra o que luta. A guerra à pobreza cria uma subclasse cronicamente disfuncional. A guerra às drogas cria super-drogas cristalizadas e mega-mafias. Adivinha? A guerra ao politicamente incorreto cria lobisomens empoderados por dados, coordenados via web, paranoicos e poli-conspiratórios, soberbamente posicionados para tirar vantagem do iminente encontro da democracia liberal com a ruinosa realidade e, então, desempenhar sua parte na deflagração de dissabores que mal são imagináveis (exceto por uma analogia histórica perturbadora). Quando uma negociação sã, pragmática e embasada em fatos das diferenças humanas é proibida por decreto ideológico, a alternativa não é um reino de paz perpétua, mas uma putrefação de crimideias cada vez mais auto-conscientes e militantemente desafiadoras, nutridas por realidades publicamente inconfessáveis e energizada por mitologias poderosas, atávicas e palpavelmente dissidentes. Isso é óbvio na ‘Net.

Moldbug considera que o perigo do nacionalismo branco foi tanto exagerado quando minimizado. Por um lado, a ‘ameaça’ é simplesmente ridícula e meramente reflete o dogma espiritual neopuritano em sua forma mais histericamente opressiva e teimosamente estúpida. “Deveria ser óbvio que, embora eu não seja um nacionalista branco, eu não sou exatamente alérgico à coisa”, Moldbug observa, antes de descrevê-la como “o sistema de crença mais marginalizado e socialmente excluído na história do mundo …um irritante social obnóxio em qualquer círculo que não inclua motoqueiros tatuados viciados em anfetamina”.

Ainda assim, o perigo permanece, ou melhor, está em construção.

Eu consigo imaginar uma possibilidade que poderia tornar o nacionalismo branco genuinamente perigoso. O nacionalismo branco seria perigoso se houvesse alguma questão sobre a qual os nacionalistas brancos estivessem certos, e todo o resto estivesse errado. A verdade é sempre perigosa. Ao contrário da crença popular, ela nem sempre prevalece. Mas é sempre uma má ideia virar as costas para ela. …Ao passo que a evidência para a biodiversidade cognitiva humana é, de fato, discutível, o que não é discutível é que ela é discutível …[muito embora] todo mundo que não seja um nacionalista branco tenha passado os últimos 50 anos nos informando que não é discutível…

Há bem mais no ensaio de Moldbug, como sempre há. Eventualmente, ele explica porque ele rejeita o nacionalismo branco, por razões que não devem nada aos reflexos convencionais. Mas o coração sombrio do ensaio, que o eleva, para além do brilhantismo, à beira da genialidade, é encontrado logo no início, na borda de um buraco negro:

Por que o nacionalismo branco nos parece mau? Porque Hitler era um nacionalista branco, e Hitler era mau. Nenhuma dessas afirmações é remotamente controversa. Há exatamente um grau de separação entre o nacionalismo branco e o mal. E esse grau é Hitler. Deixe-me repetir: Hitler.

O argumento parece à prova d’água. (À prova de Hitler?) Mas ele não segura qualquer água que seja.

Por que o socialismo nos parece mau? Porque Stalin era um socialista, e Stalin era mau. Qualquer um que queira seriamente argumentar que Stalin era menos mau do que Hitler tem trabalho horrivelmente grande pela frente. Não apenas Stalin ordenou mais assassinatos, sua máquina de assassinatos teve seu auge em tempos de paz, ao passo que a de Hitler pode pelo menos ser vista como um crime de guerra contra civis inimigos. Se isso faz alguma diferença pode ser debatido, mas se faz, coloca Stalin no topo.

E, ainda assim, eu nunca tive, nem vi, nada parecido com as respostas de “alerta vermelho” ao socialismo [“o sentimento da presença do mal”]. Se eu visse uma multidão de pessoas jovens e elegantes fazendo fila na bilheteria de uma cinebiografia hagiográfica de Reinhard Heydrich, arrepios subiriam e desceriam pelo meu pescoço. De Ernesto Guevara, eu não tenho qualquer resposta emocional. Talvez eu achasse que é estúpido e triste. De fato, eu acho que é estúpido e triste. Mas não me assusta.

Qualquer tentativa de ser nuançado, equilibrado ou proporcional no caso moral contra Hitler é interpretar inteiramente mal a natureza do fenômeno. Isto pode ser notado, com bastante regularidade, nas sociedades asiáticas, por exemplo, porque o fantasma do Terceiro Reich não ocupa uma posição central em sua história, ou melhor, em sua religião, embora – enquanto sacrário interno da Catadral – esteja determinado a fazê-lo (e mostra quase todo sinal de estar sendo bem sucedido). Uma breve digressão sobre o mal-entendido transcultural e a cegueira recíproca poder ser merecida neste ponto. Quando os ocidentais prestam atenção no estilo ‘Deus-Imperador’ de devoção política que tem acompanhado o totalitarismo moderno no Leste Asiático, a conclusão tipicamente tirada é que este padrão de sentimento político é exoticamente alienígena, morbidamente divertido e, em última análise, – arrepiantemente – incompreensível. Comparações contemporâneas com líderes democráticos ocidentais risivelmente não-numinosos apenas aprofundam a confusão, assim como o fazem referência semi-marxistas a sensibilidades ‘feudais’ (como se a monarquia absolutista não tivesse sido uma alternativa ao feudalismo, e como se os monarcas absolutos tivessem sido adorados). Como uma figura histórica e política jamais poderia ter sido investida com a dignidade transcendente do significado religioso absoluto? Parece absurdo…

“Olha, eu não estou dizendo que Hitler era um cara particularmente legal…” – imaginar tais palavras já é ver muitas coisas. Poderia até mesmo provocar a questão: Alguém dentro do mundo globalizado (da Catedral) ainda pensa que Adolf Hitler era menos mau do que o próprio Príncipe da Escuridão? Talvez apenas alguns paleo-cristãos espalhados (que teimosamente insistem que Satã é realmente, realmente, mau) e um número ainda menor de ultra-neo-nazis (que pensam que Hitler era meio legal). Para basicamente todo o resto, Hitler personifica perfeitamente a monstruosidade demoníaca, transcendendo a história e a política para alcançar a estatura de um absoluto metafísico: o mal encarnado. Para além de Hitler é impossível ir, ou pensar. Isto certamente é interessante, uma vez que indica uma erupção do infinito dentro da história – uma revelação religiosa, de tipo abraâmico, invertida, mas ainda estruturalmente familiar. (A ‘Teologia do Holocausto’ já implica nisso.)

A este respeito, em vez de Satã, seria mais útil comparar Hitler ao Anticristo, isto é: a um espelho do Messias, de polaridade moral invertida. Houve até mesmo uma tumba vazia. O Hitlerismo, concebido de forma neutra, portanto, é menos uma ideologia pró-nazi do que uma fé universal, especiada dentro da super-família abraâmica e unida no reconhecimento da vinda do puro mal sobre a terra. Embora não seja exatamente adorado (fora dos círculos extraordinariamente vergonhosos em que já nos aventuramos), Hitler é sacramentalmente abominado, de uma maneira que toca em teológicas ‘coisas primeiras’. Se abraçar Hitler como Deus é um sinal de uma confusão político-espiritual altamente lamentável (na melhor das hipóteses), reconhecer sua singularidade histórica e significado sagrado é quase obrigatório, uma vez que ele é afirmado por todos os homens de fé sólida como o exato complemento do Deus encarnado (o anti-Messias revelado, ou Adversário), e esta identificação tem a força de uma ‘verdade auto-evidente’. (Alguém já precisou perguntar por que a reductio ad Hitlerum funciona?)

Convenientemente, assim como o neopuritanismo secularizado que ele engole, o Hitlerismo (aversivo) pode ser seguramente ensinado nas escolas americanas, com um notável alto nível de intensidade religiosa. Na medida em que a história progressiva ou programática continua, isto sugere que a Igreja da Sagrada Abominação Hitlerista eventualmente suplantará suas predecessoras abraâmicas, para se tornar a fé ecumênica triunfante do mundo. Como ela poderia não o fazer? Afinal, ao contrário do deísmo padrão, esta é uma fé reconcilia completamente o entusiasmo religioso com a opinião iluminada, igualmente adaptada, com capacidade anfíbia consumada, aos êxtases convulsivos do ritual popular e às páginas de cartas do New York Times. “O mal absoluto já andou por entre nós, e vive ainda…” Como esta já não é a principal mensagem religiosa de nossos tempos? Tudo que permanece inacabado é a consolidação mitológica e isso há muito tem estado a caminho.

Há ainda algum catar de ossos fragmentados a ser feito entre as cinzas e destroços [na Parte 5], antes de nos voltarmos para coisas mais saudáveis…

Original.