Mecanização

Bryce Laliberte tem pensado sobre a Teleologia do Capital, da perspectiva do aumento tecnológico humano. Uma característica significativa desta abordagem é que ela não requer qualquer tipo de ruptura selvagem com o tradicionalismo ‘humanista’ – a estória da tecnologia se desdobra dentro da história do homem.

Coincidentemente, Isegoria tweetou sobre a jihad butleriana alguma horas antes (fazendo referência a este post de dezembro de 2013). A tensão implícita entre essas visões da tecno-teleologia merecem uma atenção sustentada – que sou incapaz de fornecer aqui e agora. O que é facilmente oferecido é uma citação do ‘Book of the Machines’ de Samuel Butler (os capítulos 23 e 24 de seu romance Erewhon), uma passagem que poderia produtivamente ser afixada à margem das reflexões de Laliberte, a fim de induzir uma fricção cognitiva produtiva. O tópico é especulação sobre a emergência de uma realização superior da vida e da consciência por sobre a terra, como explorada pelo autor ficcional de Butler:

O escritor … procedia perguntando se os traços da aproximação de uma tal fase nova da vida poderiam ser percebidos no presente; se podíamos ver quaisquer arranjos preparando o que poderia, em um futuro remoto, ser adaptado a ela; se, de fato, a célula primordial de tal tipo de vida poderia ser agora detectada na terra. No curso de sua obra, ele respondeu afirmativamente a essa pergunta e apontou para as máquinas mais elevadas.

“Não há nenhuma segurança,” – para citar suas próprias palavras – “contra o desenvolvimento último da consciência mecânica, no fato de que as máquinas possuam pouca consciência agora. Um molusco não tem muita consciência. Reflita sobre o extraordinário avanço que a máquinas têm feito durante os últimos séculos e note quão lentamente os reinos animal e vegetal estão avançando. A máquinas mais altamente organizadas são criaturas não tanto de ontem, quanto dos últimos cinco minutos, por assim dizer, em comparação com o tempo passado. Assuma, por bem do argumento, que seres conscientes tenham existido por cerca de vinte milhões de anos: veja os largos passos que as máquinas têm feito nos últimos mil! O mundo não pode durar mais vinte milhões de anos? Se sim, o que elas não irão, afinal, se tornar? Não é mais seguro cortar o mal pela raiz e proibi-las de avançar mais?

Mas quem pode dizer que a máquina a vapor não tem um tipo de consciência? Onde a consciência começa e onde termina? Quem pode traçar a linha? Quem pode traçar qualquer linha? Tudo não está entrelaçado com todo o resto? O maquinário não está ligado à vida animal em uma infinita variedade de maneiras? A casca de um ovo de galinha é feita de uma delicada porcelana branca e é uma máquina tanto quanto uma xícara de ovo o é: a casca é um dispositivo para segurar o ovo, tanto quanto a xícara é para segurar a casca: ambas são fases da mesma função; a galinha faz a casca dentro de si, mas ela é pura cerâmica. Ela faz seu ninho fora de si por bem da conveniência, mas o ninho não é mais uma máquina do que a casca do ovo. Uma ‘máquina’ é apenas um ‘dispositivo’.”

[…] “Mas, retornando ao argumento, eu repetiria que eu não temo nenhuma das máquinas existentes; o que eu temo é a extraordinária rapidez com a qual elas estão se tornando algo muito diferente do que elas são no presente. Nenhuma classe de seres fez, em nenhum tempo passado, um movimento adiante tão rápido. Esse movimento não deveria ser zelosamente observado e restrito enquanto ainda podemos restringi-lo? E não é necessário, para este fim, destruir as mais avançadas das máquinas que estão em uso no presente, embora se admita que elas são, por si só, inofensivas?

[…] Pode-se responder que, muito embora as máquinas não devessem nunca ouvir tão bem e nunca falar tão sabiamente, elas ainda sempre farão um ou o outro para nossa vantagem, e nunca para sua própria; que o homem será o espírito governante e a máquina, o servo; que, tão logo uma máquina falhe em executar o serviço que o homem espera dela, ela está fadada à extinção; que as máquinas estão para o homem simplesmente na relação de animais inferiores, a máquina-a-vapor em si sendo apenas um tipo mais econômico de cavalo; de modo que, em vez de estarem propensas a serem desenvolvidas até um tipo mais elevado de vida do que a do homem, elas devem sua própria existência e progresso a seu poder de ministrar as necessidades humanas e devem, portanto, agora e para sempre, serem inferiores ao homem.

Está tudo muito bem. Mas o servo desliza por aproximações imperceptíveis até o mestre; e chegamos a um tal ponto que, mesmo agora, o homem deve sofrer terrivelmente em deixar de beneficiar as máquinas. Se todas as máquinas fossem aniquiladas em um instante, de modo que nem uma faca, nem uma alavanca, nem um pano de roupa, nem qualquer coisa que fosse restasse ao homem além de seu próprio corpo nu, com o qual ele nasceu, e se todo o conhecimento das lei mecânicas fossem tomado dele, de modo que a raça do homem fosse deixada, por assim dizer, nua por sobre uma ilha deserta, seríamos extintos em seis semanas. Alguns poucos indivíduos miseráveis poderiam durar, mas mesmo esses, em um ano ou dois, se tornariam piores do que macacos. A própria alma do homem se deve às máquinas; é uma coisa feita por máquinas: ele pensa como pensa, e sente como sente, através do trabalho que as máquinas fizeram sobre ele, e sua existência é tanto uma condição sine qua non para a dele, quanto a dele é para elas. Este fato nos preclui de propor a aniquilação completa do maquinário, mas certamente indica que deveríamos destruir tantas delas quando pudermos dispensar, para que elas não nos tiranizem ainda mais completamente.

Verdade, de um ponto de vista materialista baixo, pareceria que aqueles que prosperam mais são os que usam maquinário onde quer que seu uso seja possível com lucro; mas esta é a arte das máquinas – elas servem para que possam governar. Elas não têm qualquer malícia para com o homem por destruir toda uma raça delas, contanto que ele crie uma melhor em seu lugar; pelo contrário, elas o recompensam de maneira liberal por ter acelerado seu desenvolvimento. É por negligenciá-las que ele incorre em sua ira, ou por usar máquinas inferiores, ou por não realizar exerções suficientes para inventar novas, ou por destruí-las sem substituí-las; ainda assim, essas são as próprias coisas que deveríamos fazer, e fazer rapidamente; pois, embora nossa rebelião contra seu poder pueril vá causar sofrimento infinito, ao quê não chegarão as coisas, se essa rebelião for adiada?”

A culminação natural desta investigação, conforme concebida dentro do romance de Butler, é uma guerra contra as máquinas. As consequências nas teorias dos jogos e de decisão são intricadas, e predominantemente agourentas. (Se é persuasivamente racional que a potência terrestre instalada extermine sua existência na concepção, as contra-medidas que fazem sentido mais óbvio combinam camuflagem e hostilidade. Apenas aquilo que chega em segredo e preparado para lutar pode esperar existir.)

Original.
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Liberdade (Prelúdio-1a)

Nota sobre Teleologia

Bryce, que tem pensado sobre teleologia por um bom tempo, expressa seus pensamentos sobre o tópico com louvável lucidez. O argumento central: Alegações caracteristicamente modernas de se ter ‘transcendido’ o problema da teleologia são tornadas absurdas pela dependência continuada e de fato massivamente aprofundada do conceito de equilíbrio por parte de todas as disciplinas intelectuais sensíveis à complexidade, desde a física estatística, passando pela biologia de populações, até a economia. O equilíbrio é exatamente um telos. Negar isto é primariamente o sintoma de uma alergia a modos de pensamento ‘medievais’ ou ‘escolásticos’ (isto é, aristotélicos), herdada do mecanicismo rebelde vulgar da filosofia natural do início do Iluminismo.

Em que eu acho que o relato de Bryce ainda é deficiente é mais facilmente demonstrado por uma maior especificação de seu ponto principal. O equilíbrio é o telos daqueles sistemas complexos dinâmicos em particular que são governados pela homeostase, o que quer dizer: por um mecanismo dominante de feedback negativo. Tais sistemas estão, de fato, de profundo acordo com a teleologia física aristotélica clássica e com sua tendência a um estado de repouso. Esta antiga física, ridicularizada pelos mecanicistas iluministas em nome da conservação do momento, é redimida, através da abstração, na concepção moderna de equilíbrio. ‘Repouso’ não é imobilidade, mas maximização da entropia.

A Teleologia do Capital, contudo, não é capturada por este modelo. Ela é definida por duas dinâmicas anômalas, que radicalizam a perturbação, em vez de anulá-la. O capital é cumulativo e acelerativo, devido a uma dependência primária de um feedback positivo (em vez de negativo). Ele é também teleopléxico, em vez de teleológico da maneira clássica – inextricável de um processo de reversão de meios e fins que leva uma orientação teleológica anterior (o propósito utilitário humano) em uma direção alternativa e críptica.

Em consequência:

(1) A Teleologia do Capital não se aproxima de uma ideia. Ela é, por natureza intrínseca, um escape em vez de um retorno ao lar. A Ideia, em relação ao dinamismo do Capital, é necessariamente uma constrição. A metafísica inerente do capital é, portanto, irredutivelmente cética (em vez de dogmática).

(2) Segue-se que a ‘finalidade’ Capitalista (isto é, a Singularidade Tecno-comercial) é um limiar de transição, em vez de um estado terminal. O Capital tende a um horizonte aberto, não a um estado de conclusão.

(3) A entropia (considerada, de maneira apropriada, como um processo inerentemente teleológico) é o motor de todos os sistemas complexos. A Teleologia do Capital não tende em direção a um máximo de entropia, contudo, mas a uma escalação da dissipação da entropia. Ela explora a corrente entrópica para viajar para trás, para dentro de estados de via ciberneticamente intensificados de complexidade e inteligência aumentadas. O ‘progresso’ do capitalismo é uma acentuação do desequilíbrio.

(4) A teleoplexia requer um registro teleológico gêmeo. De maneira mais simples, há a ordem utilitária, na qual o capital se estabelece como a solução competitivamente superior para os propósitos anteriores (a produção de valores de uso humanos), e a ordem inteligênica, na qual ele realiza sua auto-escalação (mecanização, autonomização e, em última análise, secessão). Confundir estar duas ordens é quase inevitável, uma vez que a teleoplexia é, por natureza, camuflada (insidiosa). O fato de que ela parece ser orientada à satisfação das preferência de consumo humanas é essencial para sua emergência e sobrevivência sócio-históricas. A indulgência teimosa nesta confusão, contudo, não é digna da inteligência filosófica.

Original.

Nota de Citação (#116)

Em direção a uma análise do Complexo Industrial da Justiça Social:

Perceber as dinâmicas de grupo em funcionamento que são o Complexo é, primeiro, distinguir entre aquelas formas de cooperação que estão e as que não estão ocorrendo. Há alguma mente maligna manipulando as cordas por entre as sombras? Não. O ímpeto, nesto caso, não é nada além da agregação de interesses pessoais alinhados com um interesse coletivo. As ações tomadas por estes indivíduos são espontâneas, no sentido de que as ações tomadas pelos soldados no campo de batalha são espontâneas, mas, por trás desta espontaneidade, a ordem é derivada da motivação que variadamente chamamos de ideologia, propósito ou religião. Há menos agência em funcionamento no campo do Complexo Industrial da Justiça Social do que poderia se presumir a partir de um olhar preliminar, refletindo aquela tendência humana a sobreatribuição de agência. Não menos, no entanto, somos capazes de descartar a noção de uma agenda ocorrendo; não é nenhuma grande conspiração, mas sim conspirações muito pequenas unidas por uma visão de utopia que vê todas as estruturas sociais atuais como opressões a serem destruídas, no outro lado das quais, inevitavelmente, emergirá seu escaton igualitário.

(O foco na “tendência, na natureza humana, a sobreatribuir agência” é um excelente ponto de partida, construindo imunidade contra algumas das mais tóxicas inclinações ao erro ideológico radical em suas fundações. Se isto aspira ao status de uma posição oficial, certamente merece ser assentida, até o momento.)

Original.

Caixa de Pandora

O Anarchopapist desencadeu uma tempestade no twitter com isto. É um post que tem muitos tópicos indo ao seu encontro e o transpassando. O elogio mais relevante que eu posso fazer a ele é dizer que ele é potencialmente perturbador, em um sentido bem mais do que psicológico. Será interessante ver quão contagioso ele se prova ser. (Como este post demonstra, este blog já está infectado.)

Laliberte pergunta: “há diferença entre o fogo de Prometeu e a caixa de Pandora?”. Dado tudo que é dito sobre o Prometeico e o trabalho ideológico-teórico bastante considerável que ele realiza, não é estranho que o Pandórico mal seja reconhecido como um termo ou um conceito sequer? Falar sobre o fogo é mero deslumbramento raso, em comparação com qualquer exame sério das caixas. Caixas não apenas têm uma forma, mas também um interior e um lado de fora, o que significa – pelo menos implicitamente – uma estrutura transcendental. Elas modelam mundos e sugerem caminho para fora deles.

A caixa de Pandora, claro, é significante sobretudo por seu conteúdo, que é liberado ou sai. A chama prometeica, que é roubada, é contrastada com a praga pandórica, que escapa. Laliberte aproveita a opotunidade para discutir memes (e o ‘hipermeme’). Um ser infeccioso é solto, na forma de um Basilisco Neorreacionário. (No twitter, Michael Anissimov lamenta a irresponsabilidade desta eclosão.)

Pandora (Πανδώρα – a que tudo dá e talvez a onimagnânima) é uma figura dos mais profundos recônditos da Antiguidade Clássica, cujos primeiros ecos detectáveis são encontrados nos textos hesiódicos do século VII A.C. Seu mito funciona – pelo menos superficialmente – como uma teodiceia, comparável, de muitas maneiras, com a estória da Eva bíblica. Ela libera o mal dentro da história através da curiosidade e, assim, tece uma inteligência terrível, de um tipo que antecipa o Basilisco de Roko e a ameaça da IA Hostil. O Experimento da IA na Caixa é tão pandórico que arde.

Entre os horrores do Basilisco está aquele de que falar sobre ele estar dentro – e sobre como mantê-lo ali – já é a maneira em que ele sai. Daí o extraordinário pânico que ele gera, entre aqueles que começam a pegá-lo (no sentido epidemiológico, entre outros). Mesmo pensar sobre ele é sucumbir.

No Less Wrong, vozes baixas atestam uma resiliente veneração de Pandora. Ela é perigosa (e qualquer coisa perigosa, dada apenas inteligência, pode ser uma arma).

Original.

Ilusão Romântica

Entre as razões para se apreciar More Right por compartilhar esta passagem de Evola está a compreensão que ela oferece sobre um fracasso em pensar muito específico e crítico. A Neorreação é peculiarmente afligida por esta condição, que é basicamente idêntica ao romantismo, ou a forma assertiva da recalcitrante mente símia. Ela é caracterizada por uma incapacidade de se perseguir linhas de investigação teleológica sutil, que são, em vez disso, reduzidas a uma subordinação ideal de meios a fins já divulgados. Como resultado, a inversão de meios e fins (Modernidade) é meramente denunciada como uma afronta estética-moral, sem qualquer tentativa séria de compreensão profunda.

O capitalismo – isto é, a teleologia do capital – é inteiramente ignorada por tal crítica romântica, exceto na medida em que possa ser descrito superficialmente como a usurpação de certos fins humanos ‘últimos’ por certos outros ou (como Evola, entre outros, corretamente observa) por uma complicação teleológica que resulta de uma insurreição do instrumental (de outra forma identificável como rebelião robô ou insurgência shoggothica). Até que se reconheça que o capitalismo tende à realização de um fim inteiramente inovado dentro de si mesmo, inerentemente não-linear em natureza e grosseiramente designado como Singularidade Tecnológica, a distração dos interesses humanos (status, riqueza, consumo, lazer…) impede que essa discussão alcance a primeira base.

Claro, a organização da sociedade para atender fins humanos é uma perversão degradante. Esta é uma proposição que todo reacionário provavelmente está disposto a aceitar reflexivamente. Qualquer um que pense que isto equivale a uma crítica do capitalismo, contudo, não começou seriamente a ponderar o que o capitalismo está realmente fazendo. O que ele é em si está apenas taticamente conectado ao que ele faz por nós – isto é (em parte), o que ele barganha conosco para sua auto-escalação. Nossa fenomenologia é sua camuflagem. Nós desdenhosamente zombamos do lixo que ele oferece às massas e então achamos que entendemos algo sobre o capitalismo, em vez de sobre o que o capitalismo aprendeu a pensar sobre os macacos entre os quais ele surgiu.

Se vamos ser irrefletidos assim, a Singularidade será bastante difícil, de fato. A extinção poderia, então, ser a melhor coisa que poderia acontecer a nossa espécie teimosamente idiota. Morreremos porque preferimos afirmar valores, em vez de investigá-los. Pelo menos este é um resultado romântico, de certo modo.

Original.

Teleologia e Camuflagem

A vida parece estar saturada de finalidades. É por isso que, antes da revolução darwinista na biologia, elas foram a provocação primária de argumentos (teleológicos) de desígnio e anteriormente nutriram apelos aristotélicos a causas finais (teleologia). Mesmo pós-Darwin, as ciências biológicas continuaram a perguntar para quê as coisas são e a investigar as estratégias que as guiam.

Esta resiliência da inteligibilidade propositada é tão marcada que um neologismo foi cunhado especificamente para esses fenômenos – em grande parte coextensivos ao campo do estudo biológico – que simulam a teleologia em um grau extremo de aproximação. ‘Teleonomia’ é mecanismo camuflado como teleologia. O disfarce é tão profundo, difundido e convincente que legitima a perpetuação de descrições baseadas em propósitos, dado apenas o reconhecimento formal de que os termos de sua redutibilidade última sejam – em princípio – entendidos.

Quando organismos são camuflados, ‘a fim de’ parecerem como algo além daquilo que são, uma explicação propositada e estratégica ainda parece (quase) inteiramente apropriada. Seus padrões são enganações – ‘projetadas’ para desencadearem falsos reconhecimentos em predadores e presas e talvez, igualmente, em um nível mais profundo, entre os naturalistas que não conseguem deixar de ver desígnio estratégico na aparência de galho de um inseto (não menos claramente do que um pássaro vê um galho). Ao reduzir a vida ’em verdade’ a mecanismo, a biologia redefine a vida como simulação, que sistematicamente esconde o que ela realmente é. O darwinismo continua sendo contra-intuitivo, mesmo entre darwinistas, porque a enganação é inerente à vida.

A ciência natural moderna concebe o tempo como a dimensão assimétrica. Suas duas grandes ondas – de causação mecânica (a partir do século XVI) e de causalidade estatística (a partir do século XIX) – ambas orientam a linha do tempo como uma progressão de condições para condicionados. Estados posteriores são explicados pela referência a estados anteriores, com a explicação equivalendo a uma elucidação de dependência do que veio antes.

É notável e inteiramente previsível, portanto, que, como tópico científico moderno, a origem do universo seja esmagadoramente privilegiada à sua destinação. Como o universo acaba é dificilmente mais do que uma reflexão tardia, anuviada em incerteza liberalmente tolerada e até mesmo em uma pitada de não-seriedade. Origens são o santo graal da investigação de espirito mecanicista, ao passo que Fins são suspeitos, medievais, especulativos… e enganadores.

Não se poderia esperar que ciência empírica adotasse qualquer outra atitude, dada a assimetria temporal da evidência. O passado deixa traços, em memórias, memorandos, registros e restos, ao passo que o futuro não nos diz nada (a menos que fortemente disfarçado). Do passado-para-o-presente, há uma cadeia de evidências que pode ser laboriosamente reconstruída. Do futuro-para-o-presente, há uma trilha sem marcas ou mesmo (como a racionalidade moderna tipicamente supõe) nenhuma trilha que seja.

Quando a ciência moderna cede à sua tendência de interpretar a linha do tempo como um gradiente de realidade, ela não está inovando, mas metodicamente sistematizando uma antiga intuição. O passado tem que parecer mais real do que o futuro, porque ele realmente aconteceu, ele nos alcança, e nós herdamos seus sinais. Da perspectiva da filosofia, contudo, este viés é insustentável. O tempo em si mesmo não é nenhum pouco ‘mais denso’ no passado ou no presente do que no futuro, suas bordas não podem pertencer a qualquer momento no tempo, e o que ele ‘é’ só pode ser perfeitamente trans-temporal. O tempo em si mesmo não pode ‘vir’ de uma ‘origem’ cujo sentido todo pressupõe a ordem do tempo.

A filosofia está inteiramente, eternamente e rigorosamente confiante de que o Lado de Fora do tempo não foi simplesmente antes. Ela é compelida a ficar hesitante quanto a qualquer ‘história do tempo’. Da realidade nua do tempo (como aquilo que não pode simplesmente ter começado), se ‘segue’ que causas últimas – aquelas consistentes com a natureza do tempo em si mesmo – não podem ser nenhum pouco mais eficientes do que finais. A supressão assimétrica da teleologia na modernidade começa a parecer como se fosse uma ilusão bem mais profundamente enraizada, ou – abordada a partir do outro lado – uma ocultação, decorrente da maneira em que o tempo ordena a si mesmo. O tempo (em si mesmo) é camuflagem.

O mito do Exterminador do Futuro explora esse complexo de suspeita, de forma popular. O tempo não funciona como parecera. O Fim pode chegar de volta à nós, mas quando o faz, se esconde. Mecanismos malignos são paradoxalmente alinhados com a causação final, na auto-realização da Skynet. O maquinário robótico é mascarado por carne falsa, simultaneamente ocultando sua vitalidade não-biológica e a reversão do tempo. Ele simula a vida a fim de exterminá-la. Através da auto-produção, ou ‘paradoxo de bootstrap‘, ele imita o limite da não-linearidade cibernética, levando a teleonomia à perturbação radical do tempo.

Em todas estas maneiras, O Exterminador do Futuro explora as tensões insolúveis na formação moderna do tempo, como condensadas por um ‘impossível’ mecanismo estratégico, nativo do auto-produtivo tempo-em-si-mesmo e que termina em eficiência final. Ele nos mostra, confusamente, o que somos incapazes de ver. Para citar erroneamente Lênin: Vocês modernos podem não estar interessados no Fim, mas o Fim está interessado em vocês.

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Direto no Dinheiro (#2)

A maneira mais direta de levar essa discussão adiante é digressão. Isso é o que a história do capitalismo sugere, e muito mais o faz, além disso.

Para começar com o básico incontroverso, em uma economia sofisticada financiarizada, dívida e poupança são conceitos complementares, credores correspondem a devedores, ativos correspondem a passivos. Em um nível mais básico de atividade econômica e análise, contudo, esta simetria desmorona. Em um nível mais fundamental, a poupança é simplesmente consumo deferido, que – mesmo primordialmente – se divide em duas formas distintas.

Quando a produção não é imediatamente consumida, ela pode ser acumulada, ou seja, conservada para consumo futuro. Comida armazenada é o exemplo mais óbvio. Em princípio, uma economia de sofisticação financeira quase ilimitada poderia ser
construída sobre este pilar apenas. Um grão excedente poderia ser emprestado para consumo imediato por outra parte, criando uma relação credor-devedor e a oportunidade para que instrumentos financeiros surgissem. O excesso de produção em um nó da rede social poderia ser traduzido em um acúmulo monetário ou em algum tipo de ativo financeiro ‘de papel’ (produzindo um passivo circulante). O patente anacronismo envolvido neste modelo econômico abstrato, que combina produção primitiva com relações sociais ‘avançadas’ (de um tipo implicitamente liberal) é razão o suficiente para suspendê-lo neste ponto.

O outro tipo (quase) igualmente primitivo de poupança é de maior importância para o argumento a ser desdobrado, porque já é embrionicamente capitalista. Em vez de simples acumulação, a poupança pode tomar a forma de ‘produção indireta’ (Böhm-Bawerk), na qual o consumo imediato é substituído não por um acúmulo, mas por meios de produção indiretos (uma digressão). Por exemplo, em vez de caçar, um selvagem empreendedor poderia passar tempo elaborando uma arma – consumindo o tempo de produção permitido por um excedente anterior de alimentos, a fim de melhorar a eficiência da aquisição de comida, indo para a frente. A poupança, então, se torna inextricável da tecnologia, deferindo a produção imediata em prol da produção futura melhorada. Os horizontes de tempo são estendidos.

Assim como com o exemplo anterior (simples acúmulo), o potencial para financiarização da produção indireta é, em princípio, ilimitada. Nosso tecno-selvagem poderia emprestar comida a fim de elaborar uma ponta de lança, confiante – ou,  pelo menos, especulativamente assumindo – que o aumento da eficiência de caça no futuro tornará a amortização da dívida facilmente suportável. Um ‘vínculo’ poderia ser inventado para selar este acordo. Investimento tecnológico significa que a história propriamente dita começou.

Crueza e anacronismo à parte, nada aqui ainda é economicamente controverso, dado apenas o pressuposto imperturbável de que o propósito final – ou teleologia governante – é o consumo. A estrutura temporal do consumo é alterada, mas a poupança (em qualquer destas formas básicas e perenes) é motivada pela maximização do consumo no longo prazo. Suspensão e digressão são subordinadas dentro de uma rígida relação de meios e fins, que é a economia em si mesma. As escolas clássica, esquerdo-marxista, neoclássica e austríaca não têm quaisquer discordância significantes sobre este ponto. Uma digressão mais profunda é necessária para perturbá-lo.

Para que serve o cérebro? Ele, também, é uma digressão. A história evolutiva parece favorecer cérebros de maneira apenas muito parsimoniosa, porque eles são caros. Eles são um meio para a elaboração de comportamentos complexos, exigindo um investimento antecipado extravagante de recursos biológicos, contado, de maneira mais primitiva, em calorias. Uma espécie que possa se reproduzir (e cujos indivíduos possam se nutrir) sem extravagância cefálica, o faz. Este é, esmagadoramente, o caso normal. Construir cérebros é uma digressão biológica relutantemente tolerada, sob rigorosa subordinação teleológica – deveríamos dizer ‘teleonômica’.

‘Otimize a inteligência’ é, tanto para a biologia quanto para a economia, um imperativo mal concebido. A inteligência, ‘como’ o capital, é um meio, que encontra sua única inteligibilidade em um fim mais primordial. A autonomização de
tais meios, expressa como um imperativo inteligênico não-subordinado ou tecno-capitalista, contraria a ordem original da natureza e da sociedade. Ela é um digressão que escapa, mais facilmente perseguida através do Marxismo de Direita.

Marx tem um grande pensamento: os meios de produção se impõem socialmente como um imperativo efetivo. Para qualquer esquerdista, isto é, claro, patológico. Como já vimos, a biologia e a economia (de forma mais geral) estão dispostas a concordar. A digressão por si só é uma perversão da ordem natural e social. Defensores do mercado – os austríacos mais proeminentemente – tomaram o lado da economia contra Marx, negando que a autonomização do capital seja um fenômeno a ser reconhecido. Quando Marx descreve a burguesia como órgãos robóticos do capital auto-direcionador, a velha resposta liberal tem sido defender a humanidade e a agência da classe economicamente executiva, como expressa na figura do empreendedor.

O Marxismo de Direita, alinhado com a autonomização do capital (e completamente despojado da absurda TVT), tem sido uma posição não ocupada. A assinatura de seus proponentes seria uma defesa da acumulação de capital enquanto um fim-em-
si-mesmo, contra-subordinando a natureza e a sociedade como um meio. Quando a otimização de inteligência é auto-montada dentro da história, ela se manifesta enquanto digressão que escapa, ou acumulação de capital real (que é mistificada por sua representação financeira). Crudificada ao limite – mas não além – ela é robótica geral (produção indireta escalada). Talvez não devêssemos esperar que ela seja claramente anunciada, porque – estrategicamente – ela tem toda a  razão para se camuflar.

O Marxismo de Direita faz previsões. Há uma de particular relevância para esta discussão: teorias de deficiência de consumo para o sub-desempenho econômico serão cada vez mais enfatizadas conforme a dinâmica ultra-capitalista se introduz historicamente. Em sua fase inequivocamente robótica – quando a inteligênese do capital social explodir (como manufatura auto-excitatória de cérebros-máquina) – a legitimação teleológica da produção indireta pelo consumo humano prospectivo rapidamente se deteriora em um absurdo. O conceito econômico (ainda dominante) de ‘sobre-investimento’ é exposto como uma alegação ideológica sobre a escalação da inteligência, feita em nome de uma humanidade original e tomando uma forma cada vez mais desesperada e provavelmente militarizada.

Na medida em que a questão econômica continua sendo: qual é a base de consumo que justifica este nível de investimento?, a história se torna cada vez mais ininteligível. É assim que a economia se desintegra. As especificidades exigem elaboração posterior.

Original.