À Beira da Loucura

Uma incitação de @hugodoingthings a se explorar as criptas densa de fantasmas do Basilisco de Roko (que, inexplicavelmente, nunca pegou antes) levou direto a este cativante relato na RationalWiki. Todo o artigo é excitante, mas o seguintes pequenos parágrafos se destacam por sua extraordinário intensidade dramática:

O basilisco de Roko é notável por ter sido completamente banido das discussões no LessWrong, onde qualquer menção a ele é deletada. Eliezer Yudkowsky, fundador do LessWrong, considera que o basilisco não funciona, mas não explica por quê, pois não considera que a discussão aberta sobre a noção de comércio acausal com possível superinteligências seja demonstravelmente segura.

Super-extrapolações bobas de memes, jargões e conceitos locais são bastante postados no LessWrong; quase todas apenas recebem votos negativos e são ignoradas. Mas a esta, Yudkowsky reagiu a ela imensamente e depois redobrou sua reação. Graças eu efeito Streisand, discussões sobre o basilisco e os detralhes sobre o caso logo se espalharam para fora do LessWrong. Na verdade, ele agora é frequentemente discutido fora do LessWrong, em quase qualquer lugar em que o LessWrong sequer seja discutido. Todo o caso constitui um exemplo real de um falha espetacular de gerenciamento comunitário e controle de informações supostamente perigosas.

Algumas pessoas familiares com o memeplexo do LessWrong sofreram distúrbios psicológicos graves após contemplarem ideias afins à do basilisco – mesmo quando elas estavam razoavelmente seguras intelectualmente de que ele é um problema bobo. A noção é levada suficientemente a sério por alguns postadores do LessWrong para que eles tentem descobrir como apagar evidências de si mesmos, de modo que uma futura IA não possa reconstruir uma cópia deles para torturar.

“…Quer dizer, uma infiltração retrocrônica de IAs está realmente deixando as pessoas loucas, agora mesmo?”. Ah, sim. No Less Wrong, o comentador ‘rev’ clama por ajuda:

Existe algum mecanismo neste site para lidar com questões de saúde mental desencadeadas por posts/tópicos (especificamente, o post proibido do Roko)? Eu realmente apreciaria que qualquer postador interessado entrasse em contato por MP para uma conversa. Eu não realmente sei a quem recorrer. …

Vagando pela ala psiquiátrica, passando por fileiras de Tiras Turing neurologicamente destruídos, violados no fundo de suas mentes por algo indizível vindo até eles do futuro próximo… Estou completamente viciado. Alrenous foi notavelmente bem sucedido em me desmamar desse lixo de ontologia estatística, mas uma dose de EDT concentrada, e volta tudo de novo, como a maré do destino.

Pesadelos se tornam peças de máquina projetadas com precisão. Desta forma, somos conduzidos um pouco mais ao fundo, ao longo do caminho das sombras…

Original.
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Teleologia e Camuflagem

A vida parece estar saturada de finalidades. É por isso que, antes da revolução darwinista na biologia, elas foram a provocação primária de argumentos (teleológicos) de desígnio e anteriormente nutriram apelos aristotélicos a causas finais (teleologia). Mesmo pós-Darwin, as ciências biológicas continuaram a perguntar para quê as coisas são e a investigar as estratégias que as guiam.

Esta resiliência da inteligibilidade propositada é tão marcada que um neologismo foi cunhado especificamente para esses fenômenos – em grande parte coextensivos ao campo do estudo biológico – que simulam a teleologia em um grau extremo de aproximação. ‘Teleonomia’ é mecanismo camuflado como teleologia. O disfarce é tão profundo, difundido e convincente que legitima a perpetuação de descrições baseadas em propósitos, dado apenas o reconhecimento formal de que os termos de sua redutibilidade última sejam – em princípio – entendidos.

Quando organismos são camuflados, ‘a fim de’ parecerem como algo além daquilo que são, uma explicação propositada e estratégica ainda parece (quase) inteiramente apropriada. Seus padrões são enganações – ‘projetadas’ para desencadearem falsos reconhecimentos em predadores e presas e talvez, igualmente, em um nível mais profundo, entre os naturalistas que não conseguem deixar de ver desígnio estratégico na aparência de galho de um inseto (não menos claramente do que um pássaro vê um galho). Ao reduzir a vida ’em verdade’ a mecanismo, a biologia redefine a vida como simulação, que sistematicamente esconde o que ela realmente é. O darwinismo continua sendo contra-intuitivo, mesmo entre darwinistas, porque a enganação é inerente à vida.

A ciência natural moderna concebe o tempo como a dimensão assimétrica. Suas duas grandes ondas – de causação mecânica (a partir do século XVI) e de causalidade estatística (a partir do século XIX) – ambas orientam a linha do tempo como uma progressão de condições para condicionados. Estados posteriores são explicados pela referência a estados anteriores, com a explicação equivalendo a uma elucidação de dependência do que veio antes.

É notável e inteiramente previsível, portanto, que, como tópico científico moderno, a origem do universo seja esmagadoramente privilegiada à sua destinação. Como o universo acaba é dificilmente mais do que uma reflexão tardia, anuviada em incerteza liberalmente tolerada e até mesmo em uma pitada de não-seriedade. Origens são o santo graal da investigação de espirito mecanicista, ao passo que Fins são suspeitos, medievais, especulativos… e enganadores.

Não se poderia esperar que ciência empírica adotasse qualquer outra atitude, dada a assimetria temporal da evidência. O passado deixa traços, em memórias, memorandos, registros e restos, ao passo que o futuro não nos diz nada (a menos que fortemente disfarçado). Do passado-para-o-presente, há uma cadeia de evidências que pode ser laboriosamente reconstruída. Do futuro-para-o-presente, há uma trilha sem marcas ou mesmo (como a racionalidade moderna tipicamente supõe) nenhuma trilha que seja.

Quando a ciência moderna cede à sua tendência de interpretar a linha do tempo como um gradiente de realidade, ela não está inovando, mas metodicamente sistematizando uma antiga intuição. O passado tem que parecer mais real do que o futuro, porque ele realmente aconteceu, ele nos alcança, e nós herdamos seus sinais. Da perspectiva da filosofia, contudo, este viés é insustentável. O tempo em si mesmo não é nenhum pouco ‘mais denso’ no passado ou no presente do que no futuro, suas bordas não podem pertencer a qualquer momento no tempo, e o que ele ‘é’ só pode ser perfeitamente trans-temporal. O tempo em si mesmo não pode ‘vir’ de uma ‘origem’ cujo sentido todo pressupõe a ordem do tempo.

A filosofia está inteiramente, eternamente e rigorosamente confiante de que o Lado de Fora do tempo não foi simplesmente antes. Ela é compelida a ficar hesitante quanto a qualquer ‘história do tempo’. Da realidade nua do tempo (como aquilo que não pode simplesmente ter começado), se ‘segue’ que causas últimas – aquelas consistentes com a natureza do tempo em si mesmo – não podem ser nenhum pouco mais eficientes do que finais. A supressão assimétrica da teleologia na modernidade começa a parecer como se fosse uma ilusão bem mais profundamente enraizada, ou – abordada a partir do outro lado – uma ocultação, decorrente da maneira em que o tempo ordena a si mesmo. O tempo (em si mesmo) é camuflagem.

O mito do Exterminador do Futuro explora esse complexo de suspeita, de forma popular. O tempo não funciona como parecera. O Fim pode chegar de volta à nós, mas quando o faz, se esconde. Mecanismos malignos são paradoxalmente alinhados com a causação final, na auto-realização da Skynet. O maquinário robótico é mascarado por carne falsa, simultaneamente ocultando sua vitalidade não-biológica e a reversão do tempo. Ele simula a vida a fim de exterminá-la. Através da auto-produção, ou ‘paradoxo de bootstrap‘, ele imita o limite da não-linearidade cibernética, levando a teleonomia à perturbação radical do tempo.

Em todas estas maneiras, O Exterminador do Futuro explora as tensões insolúveis na formação moderna do tempo, como condensadas por um ‘impossível’ mecanismo estratégico, nativo do auto-produtivo tempo-em-si-mesmo e que termina em eficiência final. Ele nos mostra, confusamente, o que somos incapazes de ver. Para citar erroneamente Lênin: Vocês modernos podem não estar interessados no Fim, mas o Fim está interessado em vocês.

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A Teologia de Gnon e o Tempo

Uma discussão sobre a Teologia de Gnon e o Tempo merece um prefácio, sobre a Teologia de Gnon, mas há diversas razões para se pular isso. Mais obviamente, seria ainda outro prólogo a uma introdução à primeira parte de uma série prometida, e os leitores deste blog estão, muito provavelmente, completamente saturados disso (ao ponto de leve náusea). É uma doença cognitiva, e seria presunçoso esperar que qualquer outra pessoa tenha o mesmo interesse mórbido em cascatas reversas que este blog tem.

A razão mais interessante para evitar fazer um prefácio à questão do tempo, ao longo de qualquer linha de investigação, é que tais precauções metódicas são erros graves neste caso. Não há nada mais básico do que o tempo, ou preliminar a ele. Ao dar o nome a um prefácio ou prólogo, ele já foi introduzido. O tempo é um problema que não pode ser conceitualmente antecipado.

Gnon suspende a decisão ontológica sobre Deus. Começa a partir do que é real, quer Deus exista ou não. Um transe-Gnon é incerto. Ele ainda não é agnóstico, não mais do que é decididamente teísta ou ateísta. Ele se preocupa primariamente com aquilo que foi aceito como real antes que qualquer coisa seja acreditada e, subsequentemente, com o que quer que possa ser alcançado através da negação metódica da pressa intelectual. Uma vez que a suspensão é sua única determinação positiva, ele colapsa em direção a uma intuição crua de tempo.

Evidentemente, a Teologia de Gnon não pode ser dogmática, sequer em parte. Em vez disso, ela é hipotética, em um sentido maximamente reduzido, no qual a hipótese é uma oportunidade de exploração cognitiva liberta de comprometimentos ontológicos. O conteúdo da Teologia de Gnon é exaurido pela questão: Em que a ideia de Deus nos permite pensar?.

E ‘a ideia de Deus’? – o que, em nome de Gnon, é isso? Todo que sabemos, a princípio, é que ela foi jateada de todas as encrustações de qualquer fé positiva ou negativa. Ela não pode ser nada com o que já tenhamos familiaridade histórica ou reveladora, uma vez que que ela nos alcança a partir do abismo (epoche), onde apenas o tempo e/ou o desconhecido permanecem.

Saturada de fruto proibido, a Teologia de Gnon desnuda Deus como uma máquina, até o limite da abstração ou eternidade para-si-mesma. Existe alguma perspectiva assim? Já sabemos que esta não é nossa questão. Toda essa ‘ontologia regional’ foi suspensa. Já temos o direito, não obstante, através da graça de Gnon (que – recorde – poderia (ou não) ser Deus), à suposição ou aceitação de realidade de que: para que qualquer Deus seja Deus, não pode ser menos do que eternidade para-si-mesma. No que quer que a eternidade para-si-mesma implique, qualquer Deus também implicará.

O que ela implica, sem ambiguidade, é em viagem no tempo, no sentido forte de causação reversa, embora não necessariamente na variante folclórica/Hollywoodiana (que também já teve sérios defensores) embasada na retro-transportação de objetos físicos para o passado. Conhecimento sobre o futuro é indistinguível da transmissão contra-crônica de informação. Isto talvez seja a percepção mais crítica na pesquisa realista sobre viagem no tempo – voltaremos a ela. (Se qualquer um a achar menos do que logicamente irresistível, use a área de comentários.)

Para acelerar esta discussão com crueza blogística, em uma saída da Teologia de Gnon para dentro da história religiosa Ocidental (e para a possibilidade do dormir), podemos pular para uma simples, certa e segura conclusão: Nenhum cristão pode consistentemente negar a realidade da viagem no tempo. A objeção ‘se a viagem no tempo (reversa) é possível, onde estão os viajantes do tempo?’ é anulada pela própria revelação cristã. A Encarnação Messiânica (de Deus ou eternidade para-si-mesma), junto com toda profecia verdadeira, história providencial e oração respondida, instancia a viagem no tempo com exatidão técnica. Não pode haver nenhuma verdade que seja na religião cristã a menos que a viagem no tempo tenha estruturado de maneira fundamental a história humana. O que quer mais que o cristianismo possa ser, ele é uma estória de viagem no tempo e uma que, às vezes, parece estar peculiarmente carente de um auto-entendimento claro.

(A viagem no tempo, talvez dever-se-ia notar de maneira explícita, não tem qualquer dependência óbvia do cristianismo, ou mesmo do Deus da Teologia de Gnon. Este é um tópico para outras ocasiões.)

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