Jogos de Independência

O teste Nuclear da Coréia do Norte em 3 de Setembro foi registrado como um raro terremoto geopolítico literal. Alguma incerteza pública persiste quanto à escala e à significância do tremor. Reportou-se estar em uma gama de magnitudes entre 6.1 e 6.3 (ou até mesmo superior), na escala logarítmica de Richter. Um evento desta dimensão sugere uma explosão de diversas centenas de kilotons de dinamite e é consistente com a detonação de um dispositivo termonuclear. A confirmação norte-coreana exatamente dessa ocorrência foi recebida com uma seriedade sem precedentes.

A não-proliferação nuclear é mais ideia que realidade. Sua única substância é uma comparativa lentidão quando estimada contra a referência de um cenário de pesadelo geralmente não declarado. De acordo com tal consideração contra-factual, as armas nucleares poderiam estar muito mais difundidas do que estão agora. Mas processos exponenciais têm essa aparência. Eles começam pequeno, e não parecem ir a lugar a nenhum lugar dramático por um tempo. Como a celebrada fábula da exponenciação mostra, uma modesta tigela de arroz lhe é suficiente em um bom tanto do tabuleiro de xadrez. A suposição, supostamente de bom senso, de que a proliferação nuclear incontrolável ainda não está acontecendo exige um argumento. (Este pequeno ensaio faz o outro argumento.)

O ‘clube’ nuclear é desajeitado demais para compartilhar qualquer tipo de princípio seriamente restritivo. Não há nada identificável que dê a uma nação o direito de ser membro, além da simples posse de uma capacidade militar de nível apocalíptico. O clube era trans-ideológico desde o começo e, logo depois, altamente multicultural. Entre os membros, a desconfiança e mesmo a hostilidade recíprocas são a norma, o que – dado o processo desembestado de ação e reação que definiu a lista dos membros – dificilmente poderia ser inesperado. O comportamento dos membros não é controlado por nada além da teoria dos jogos. Vale bastante a pena mencionar que ninguém que consiga entrar no clube pode, de qualquer maneira prática, ser retirado.

Os Estados Unidos detonaram a primeira bomba termonuclear de fusão com dois estágios, ou ‘de hidrogênio’ (com design Teller-Ulam) no atol Enewetak em 1º de novembro de 1952. A União Soviética respondeu menos de um ano depois, testando sua própria bomba-H em 12 de agosto de 1953. Os testes – ou demonstrações – seguiram-se em sucessão no Reino Unido (novembro de 1957), na China (17 de junho de 1967) e na França (agosto de 1968). Acredita-se que Israel tenha conduzido um teste conjunto com a República da África do Sul – o chamado ‘Incidente Vela’ – em 22 de setembro de 1979. Em 1991, o governo sul-africano alegou ter montado e, mais tarde, unilateralmente desmontado seis dispositivos nucleares. A Índia expandiu a espiral de proliferação termonuclear até o sul da Ásia, com um teste em maio de 1998. O Paquistão não é conhecido por ter testado nada além de dispositivos de ‘fissão intensificada’, mas sua formidável capacidade nuclear não está em questão. (Um ensaio mais longo teria encontrado espaço, neste ponto, para reconhecer a contribuição desproporcional do paquistanês Abdul Qadeer Khan para a dinâmica global de proliferação.) Pode-se esperar que a cooperação nuclear saudita com o Paquistão acelere a difusão de armamentos nucleares até a península arábica, uma vez que o progresso iraniano na aplicação militar da tecnologia desencadeia a muito antecipada corrida armamentista Sunita-Xiita em armas de destruição em massa. Assim, a cadeia de proliferação se estende de forma constante em seu eixo principal, passando da rivalidade de superpotências da Guerra Fria, para a triangulação chinesa, uma bomba indiana de resposta e daí para dentro do mundo fraturado do Islã, por via do Paquistão (com as proezas nucleares não reciprocadas israelitas como incitação, e pretexto adicional.)

O caráter unidimensional desta narrativa é um artefato de sua imaturidade. O sub-desenvolvimento do processo de proliferação aparece, para a atual ‘comunidade internacional’, sem mais do que uma crise por vez. As coisas não vão ficar assim por muito tempo. Não há nada essencialmente mono-linear sobre a dinâmica de escalação cruzada. Aumentar o impulso já é tirá-la dos trilhos. Como Richard Fernandez observa, as linhas de escape nucleares estão ocorrendo em diversas direções de uma só vez:

Nas questões de segurança, a antiga matrix de ganhos do jogo Ocidente-Oriente foi substituída por um vetor multidimensional de novos jogadores, muitos deles subnacionais, alguns deles desconhecidos. O grande coringa é a tecnologia. Mudanças tecnológicas disruptivas e novos modos de guerra a elas associadas têm perturbado o antigo cálculo. Coréia do Norte e Irã não são ameaças extravagantes, mas indicadores importantes da dinâmica alterada. Eles são as primeiras amostras de uma nova ameaça entrando em andamento.

A Coréia do Norte alega ter testado armas nucleares em janeiro de 2016, seguindo testes de dispositivos de fissão em 2006, 2009 e 2013. Seja como questão de realismo analítico ou de ceticismo público com motivação estratégica, a alegação foi recebida com um menosprezo ocidental orquestrado. O teste de 2017 estilhaçou esse muro de negação. Nas palavras de Scott D. Sagan, escrevendo na Foreign Affairs: “A Coréia do Norte não apresenta mais um problema de não-proliferação; ela apresenta um problema de dissuasão nuclear”.

Embora, se traçada como uma curva simples e historicamente consistente, ainda não seja impossível ver um processo de desaceleração nessa linha do tempo, tal ótica está deixando de convencer. Parece ser parte de uma ordem mundial em colapso, que está levando sua estruturas de percepção abaixo consigo. A suposição de continuidade, por exemplo, agora parece imprudente ao extremo. A descontinuidade histórica na dinâmica de proliferação tem sido especialmente notável ao longo das décadas recentes, devido a um padrão em arraigamento cujos efeitos de incentivo não poderiam facilmente ser mais sinistros. A renúncia de ambições termonucleares tem adquirido uma forte correlação com a subsequente destruição do regime, ao contrário de qualquer coisa vista na era anterior de patronagem de superpotências na Guerra Fria.

A Ucrânia voluntariamente entregou seu arsenal nuclear para a Rússia na desintegração da União Soviética. Na era de Gorbachev, esta decisão sem dúvida parecia racional – e até mesmo prudente. Os desenvolvimentos subsequentes na região a tornam bem mais difícil de desculpar. Resta saber se a independência nacional ucraniana será finalmente sacrificada por essa elevada decisão, mas a segurança geopolítica e doméstica rudimentares já o foram.

A predominante histeria racial de nossa era nubla qualquer análise da mudança do regime sul-africano em termos comparáveis, como já nublou o próprio processo. Historiadores futuros terão olhos mais nítidos. Certamente, ela parece se encaixar no padrão. Não menos do que com o Juche, a experiência do apartheid é de que a sensibilidade à ‘opinião educada’ internacional é amplamente aumentada pela ausência de nukes.

A lição da Líbia foi a mais lúgubre até hoje. A desnuclearização da Líbia “foi pacificamente resolvida em dezembro de 2003, [explica a Wikipédia. Em um artigo separado, ela adiciona o apêndice (ainda mais útil) de que “Muammar Gaddafi, o líder deposto da Líbia, foi capturado e morto em 20 de outubro de 2011, durante a Batalha de Sirte. …vídeos de seus últimos instantes mostram combatentes rebeldes o espancando e um deles o sodomizando com uma baioneta, antes dele ser baleado diversas vezes enquanto gritava por sua vida”. Seria difícil elaborar um recurso educacional mais explícito contra a observância da não-proliferação internacional das ADMs.

Este é o pano de fundo contra o qual a obstinação nuclear norte-coreana deve ser avaliada. O regime já havia, em todo caso, tornado a desobediência uma especialidade local. Seu comportamento internacional delinquente há muito tem sido material de comédia negra. A imagem cultivada do país leva o espinhoso a territórios que a linhagem zoológica do porco-espinho ainda está por explorar.

No que diz respeito a fundamentos estratégicos, contudo, a atitude feroz de performance punk do regime em relação à conduta diplomática não é a questão principal. Uma má atitude cria um teatro diplomático estimulante, mas decora os fundamentos da ameaça. Foque em capacidades, não motivações, é um princípio estratégico que não pode ser superestimado. No caso da Coréia do Norte, e de outros que sem dúvida logo se seguirão, contudo, é um princípio que requer uma inversão completa. Uma incapacidade definida se eleva, ao invés, à proeminência estratégica.

A extremidade da ameaça norte-coreada emergente é uma função da fraqueza, em muitos aspectos, mas mais centralmente em relação às suas novas responsabilidades pela gestão de dissuasão. Arsenais nucleares inseguros são desestabilizantes, uma vez que se inclinam ao primeiro uso, sobre o princípio do use-ou-perca. A vulnerabilidade a um primeiro golpe é uma incitação contínua a prevenção.

A Coréia do Norte é uma nação geograficamente pequena, com estruturas cruas de comando e controle, capacidades muito limitadas de alerta antecipado e uma dependência exclusiva de plataformas terrestres expostas de mísseis balísticos para o disparo de ogivas. Em outras palavras, está destinada a permanecer a um fio de cabelo do momento em que cruza o limiar de dissuasão. Em vez de ser uma dor de cabeça insuportável para a ordem mundial por conta de sua iniciativa implacável e maligna, ela doravante será uma por simples padrão estratégico. O mundo terá se tornado uma cidade construída sob o Vesúvio, independente de basicamente quaisquer decisões de planejamento ou filosofias de risco. Uma época de perigo está se abrindo.

Sob estas condições, a mera ‘capacidade’ se torna extraordinariamente provocativa, e a incompetência é automaticamente aterrorizante. Ainda assim, embora este dilema não seja difícil de entender, ele talvez seja um pouco difícil demais para ser capturado por qualquer debate público conduzido em um nível realisticamente imaginável de sofisticação. Na medida em que existe algo como uma corte da opinião global de massa, pode-se confiantemente esperar que ela deixe passar os fundamentos estratégicos e se perca em performances teatrais multilaterais. Realidades geoestratégicas e percepções de massa estão em trajetórias divergentes.

As ilusões predominantes tendem a ser simplificadoras e retardadas (no sentido estrito). Elas atrasam a tendência difusiva e, assim, invocam estruturas de agência irrealisticamente econômicas, voltadas para o ideal de bipolaridade há muito perdido. A era de superpotências ainda domina a imaginação nuclear.

Uma vez que não há nenhuma rota passando por Pyongyang que não acabe em um buraco cheio de estacas diplomáticas, a tentação é fantasiar uma rota que passe por Pequim. Tal estrada não existe. As relações entre a China e o regime norte-coreano chegaram ao seu ponto mais baixo desde a Guerra da Coréia e agora são francamente hostis. O regime de Kim Jong-un buscou extirpar a influência chinesa de sua liderança, com espetacular crueldade. Ter os centros urbanos chineses como alvos do arsenal norte-coreano não é mais inimaginável, ou, na China, inimaginado. Afinal, o alvo natural de um dissuasor é a maior ameaça à soberania da nação que o usa. É quase-inevitável que a China venha a ocupar esse papel no caso norte-coreano. A impotência chinesa em relação à Coréia do Norte é grandemente – e talvez mesmo primariamente – o objetivo do arsenal norte-coreano.

Tyler Cowen [descreve o romance “The Moon Is A Harsh Mistress” (1966) de Robert Heinlein como “talvez o melhor romance para entender a lógica de um futuro conflito com a Coréia do Norte”. Ele, então, adiciona: “além disso, os Catalães deveriam lê-lo também. Acima de tudo, eu lembrei ao reler que este livro foi minha primeira exposição ao raciocínio da teoria dos jogos”. Não apenas bombardeios exóticos (por “catapultas eletrônicas”), luta por independência e jogos, mas também uma ordem mundial reconstruída pela ascensão da China e até mesmo uma “IA maliciosa” que adquire agência estratégica. Evidentemente, já há meio século, Heinlein estava explorando um aglomerado durável de preocupações. No cerne: Não pode haver uma questão de se alcançar ou manter independência sem a capacidade de infligir um sério dano àqueles que poderiam buscar impedi-la.

Independência, no seu sentido geopolítico, funde liberdade e segurança de maneira indissociável. A autonomia – que é, de maneira exata, soberania – exige insensibilidade à coerção e é, assim, o negativo de ameaças estrangeiras convincentes. A equivalência analítica entre independência recíproca e um ‘equilíbrio de terror’ submete a autonomia nacional a uma forma geopolítica de relatividade geral. Uma vez que nada como uma segurança absoluta é realista, a soberania existe apenas em graus, dentro de redes tensas. A tensão é o jogo.

A aplicação pioneira, por Thomas Schelling, da teoria dos jogos à estratégia nuclear continua sendo o ponto de ingresso neste mundo. O cerne da realidade dos jogos de destruição mútua assegurada (MAD) é facilmente incompreendido. Uma retaliação massiva (ou não reiterante) é, – no estágio em que se torna devida – por estimação imediata, irracional. Nesse momento, é tarde demais para contribuir qualquer coisa além de dano composto, independente de sua ocorrência. Sob condições hipotéticas de amnésia e ação irrestrita, ela nunca pode fazer sentido. Ainda assim, paradoxalmente, a capacidade de fazer ameaças retaliatória críveis é o fundamento básico da racionalidade durante os jogos de negociação anteriores. Sem ela, não pode haver nenhuma razão para a restrição do competidor. A exigência, então, é que um agente futuro esteja firmemente comprometido a um curso condicional de ação que – no potencial ponto de execução – não será convincente.

A destruição mútua assegura foi ridicularizada por sua loucura, mas não é menos um limite externo da sanidade. Sua lógica é tão rigorosamente implacável quanto qualquer uma encontrada dentro das ciências sociais e históricas. A perturbação moral extrema que ela desperta fala em favor de sua racionalidade intransigente. Uma intuição angustiada não conta de nada em seu cálculo frio, a não ser como um obstáculo técnico. O fato de que as pessoas acham essa lógica de comprometimentos fatais herdados intolerável, como dramatizado com excepcional vividez na sequência de abertura da filme War Games de 1983, é nosso problema. O processo é re-roteado por nossos melindres, mas de forma alguma descarrilado. Há muito se suspeita que os humanos são fracos demais para a MAD.

Enquanto expressão de comprometimento absoluto, o terrorismo suicida parece fornecer um modelo microscópico à MAD, mas ele é fraco e enganador. Para além da diferença em escala, o terrorismo suicida falha através da execução. Ele comunica através da realização – ou demonstração de vontade – o que é o negativo da dissuasão. (Ou talvez, da dissuasão de um tipo, comprada a um preço alto.) O terror à beira do presente, e do futuro, tem modelos diferentes. Entre esses, o ‘suicídio quântico’ de escala civilizacional é talvez a concepção filosófica e ideológica mais exótica em nosso caminho. Dada a suposição de um multiverso (de Nível-3 ou superior), um apocalipse abrangente é racionalizado como a poda de ramos sub-ótimos. Opera como uma edição da realidade. As consequências na teoria dos jogos de tal perspectiva são intrigantes. Ela aumenta a credibilidade das ameaças (se aceita como um comprometimento intelectual sério), ao passo em que adapta a matriz de ganhos de uma maneira que só pode ser considerada desestabilizadora. A MAD clássica funciona melhor entre aqueles que vislumbram um resultado como a pior coisa do mundo, e ainda assim se comprometem com ele da mesma forma.

Aproximamo-nos aqui de um dos mais profundos problemas da engenharia social e institucional. Poderia ser chamado de Problema de Odisseu. Ao navegar pelas sereias, Odisseu antecipou a subversão do comprometimento e, assim, implementou um mecanismo sócio-técnico para atar sua própria ação futura. A estrutura é aquela de um ‘jogo de galinha’ – uma variação mutante do dilema do prisioneiro, na qual o jogador que desvia perde. Se você conseguisse recuar, você poderia. Tanto no dilema de Odisseu quanto naquele do jogador de galinha, a eliminação da discrição futura aparece como um recurso estratégico. A exigência de auto-atação se inclina a um congelamento tecnológico da decisão. Problemas estratégicos do tipo do ‘jogo de galinha’, assim, tendem inexoravelmente à automação.

Se a IA for posta em jogo pelas dinâmicas intrínsecas ao confronto nuclear, não para por aí. A IA tem uma potencialidade de ADM própria de si. Não há nenhum horizonte óbvio do que um algoritmo poderia fazer. As mesmas capacidades que permitem o controle algorítmico de arsenais de ADMs igualmente permitem que tais arsenais sejam substituídos pela própria IA. Um arsenal inimigo sob controle algorítmico só é ‘deles’ por contingências de dominância de software. Da perspectiva militar – entre outras orientadas à capacidade negativa – a destrutividade potencial da tecnologia não tem limite determinado. Qualquer coisa sob controle de software cai nesse âmbito. O que seria dizer, assintoticamente, tudo. Mas não acaba aí. A IA também promove um avanço à virtualidade.

Armamentos nucleares cortam um caminho convergente até a pureza da concepção. Nenhuma bomba de hidrogênio foi usada contra um inimigo ainda (ou “com raiva”, como a expressão singularmente inapropriada diz). Ogivas termonucleares permanecem entre uma seleta categoria de armas virtuais, ao lado de uma variedade de agentes químicos e biológicos, cujo uso tem sido exclusivamente diplomático, ou mesmo filosófico. O valor deste maquinário militar é estritamente contra-factual. Aqueles ‘mundos possíveis’ nos quais eles foram operacionalizados sustentam pouco, se qualquer, valor. Armamentos que sustentam sua potencialidade levantam a opção ontológica da utilidade negativa extrema. Eles são – no sentido mais rigoroso – geradores de pesadelos.

Não existe qualquer razão (que seja), então, para pensar que as armas nucleares são a última palavra em destruição em massa. Tampouco pode se assumir que a destruição em massa é o critério último para armamentos de dissuasão. Não é apenas que a física de alta-energia abre um vasto e errante bestiário de catástrofes virtuais que mal começamos a examinar (embora isto seja verdade). A física não tem nenhum monopólio sobre desastres, independente do que seus privilégios recentes possam sugerir.

Não pode nunca ser uma virtude que uma arma seja indiscriminada, ou seja, imprecisa. Virando ao avesso, podemos dizer sem hesitação ou reserva que é louvável em qualquer arma, não importa o quão absolutamente devastadora, que a maior proporção possível do dano que ela produz seja infligido sobre o inimigo. Em outras palavras, uma boa arma discrimina especificamente contra os interesses inimigos. Ela caça. Não pode haver qualquer dúvida séria de que as biociências genômicas e a engenharia de software têm mais a contribuir para essa busca do que a física jamais poderia.

Stuart Russell descreve armas autônomas como uma “classe nova e escalável de ADMs”. Os sistemas que ele está considerando seriam exemplificados por enxames de drones, “caçando em matilhas como lobos” (como um empregado da DARPA foi indiscreto o suficiente para revelar). Dados enormes ciclos de produção industrial, especificações de desempenho desprendidas da limitação humana e algoritmos de mira definidos para letalidade indiscriminada, o potencial devastador de tais armas seria difícil de exagerar. Suas vulnerabilidades chave, confiantemente previstas, contudo, são pelo menos igualmente significantes.

Como Russell enfatiza, armas autônomas poderiam ser subvertidas por uma “atualização de software” hostil. Elas poderiam ser hackeadas. Por trás da ameaça do hacker está aquela de uma inteligência artificial avançada, reunindo poderes superiores de arrombamento criptográfico e intrusão suave. Armamentos autônomos estão, portanto, aninhados em uma ameaça mais profunda.

A IA designa uma culminação, por assim dizer. Em nenhum outro lugar, capacidade destrutiva e comprometimento rígido prometem se interseccionar mais dinamicamente. Nada separa a arma do jogo. Também conta, potencialmente, como uma escalada.

Muito da crítica à corrida armamentista da Guerra Fria  a configurava como um risco existencial, antes do termo ter sido cunhado. Entre um X-risco e um dissuasor extremo, não há nenhuma fronteira definida. A diferença é técnica. Dissuasão é um modo de emprego. Ela usa utilidade negativa. Neste aspecto, qualquer coisa ruim poderia ser útil, não fosse que um dissuasor exige um gatilho, sob o controle do agente negociador (no ponto de negociação). Ameaçar um potencial agressor com um ataque de asteroides não faz nenhum sentido, a menos que um ataque de asteroides possa ser realizado. O mesmo vale para desastres geológicos em geral. Tudo isso significa que a aquisição de capacidades de engenharia nas maiores escalas, tais como geo-engenharia, controle e regulação climática e defesa por asteroides – talvez desenvolvidos explicitamente para evitar riscos existenciais – inevitavelmente expandirão o domínio das opções de dissuasão. Em outras palavras, o progresso tecno-econômico e a escalada da infraestrutura de dissuasão estão apenas formalmente diferenciados. Não há nenhuma maneira materialmente persuasiva de se melhorar o mundo que não amplie – em seu lado oculto – os horizontes de horror geopolítico.

Além do que se poderia ter, há a questão de quem tem. Além das qualidades dos antagonistas armados com ADMs, seu mero número é uma fonte de terror, em si. É apenas natural que se ache a dissuasão multilateral mais ameaçadora do que seu ideal bilateral e agora predecessor distante. A complexidade se escala de maneira não linear em redes e rapidamente se torna matematicamente intratável. Ninguém têm qualquer ideia de como redes de insegurança massivamente distribuídas funcionariam. Bastante provavelmente é impossível saber. A dissuasão está prestes a mudar de fase.

A pasta de dentes não volta para o tubo só porque faz uma bagunça. Uma vez que esteja fora, o inconveniente deixou de ser qualquer tipo de argumento contra ela. Os perigos de um mundo no qual a capacidade ubíqua de dissuasão reina são tanto óbvios quanto imensos. Este é, não obstante, o mundo em que estamos entrando. As tendências que o guiam, tanto do lado geopolítico quanto do tecno-econômico, são, por qualquer estimativa realista, irresistíveis. Armamentos de pesadelos mais baratos e mais diversos estão ficando disponíveis dentro de uma ordem internacional cada vez mais desintegrada. Uma variedade de dinâmicas auto-reforçadoras – incluindo, mas não limitadas àquelas do tipo de corridas armamentistas – estimulam ainda mais o processo. Uma aceleração em cascata é basicamente inevitável.

Quando concebida com o máximo de cinismo (ou seja, realismo), a independência geoestratégica é uma função direta da capacidade de dissuasão. Não pise em mim é a afirmação coloquial, cuja aplicabilidade perfeita normalmente é subestimada. A cascavel, que combina um armamento terrível com sinalização, constitui um totem natural da dissuasão. Nem o veneno, nem o chocalho são dispensáveis. “Diplomacia sem armas é como música sem instrumentos”, diz a famosa analogia, atribuída a Frederico, O Grande. A teoria dos jogos reconhece a capacidade militar como um meio de comunicação.

Não é apenas que a independência robusta depende da dissuasão. De maneira recíproca, a liberdade geoestratégica necessariamente tende à produção de capacidade de dissuasão. Uma liberdade alienígena, que consiga fazer qualquer coisa, é – ineliminavelmente – uma ameaça. Ela fornece o modelo abrangente da ameaça militar. Se ‘eles nos odeiam por nossa liberdade’ ou não, eles não têm qualquer escolha além de nos temer por ela, e inversamente. A geopolítica não tem qualquer outra origem. Qualquer estado sem a vontade de assustar também carece da vontade de existir.

É tudo bem mais básico do que fomos levados a crer. Como Niall Ferguson escreve (de maneira realista):

Na análise final, fronteiras são uma função do poder. Se você não consegue defendê-las, elas são apenas linhas pontilhadas. O cálculo da dinastia Kim foi de que os nukes são os derradeiros guardas da fronteiras. Logo descobriremos se esse cálculo estava correto. Se estiver, muito mais estados irão querê-los.

Toda entidade geopolítica que seja séria sobre a soberania vai querê-los, ou algo de credibilidade dissuasora pelo menos equivalente. A única alternativa é a pura dependência, tornada cada vez mais desconfortável pela crescente multipolaridade global, entre os resolutos destroços de qualquer ‘ordem mundial’ ou ‘comunidade internacional’ fundamentada na fantasia coletiva de normas supranacionais milagrosamente autorizadas. Proliferação explosiva será algo que o mundo não viu antes, mesmo que já tenha estado lá para ver. Podemos estar confiantes de que a ordem geopolítica será reconfigurada por ela.

O que significa proliferação explosiva? Potencialmente, muitas coisas. Por exemplo, vetores de desenvolvimento tecnológico – e, assim, econômico – por certo serão, em algum grau significativo, orientados por ela. Conforme a inteligência artificial seja fatorada na tomada de decisões sobre políticas, não apenas como um colaborador para o comando, controle, comunicações e inteligência (C³I), mas como uma intrínseca arma de destruição em massa, sua proeminência será ainda mais elevada.

A proliferação de ADMs implica em uma multiplicação das agências geopolíticas reais. É rigorosamente indistinguível – em ambas as direções – de um mundo desintegrado. Relações estabelecidas de dependência são quebradas, liberando liberdades não antecipadas – e evidentemente perigosas. Quer este seja o mundo que queremos ou não, parece cada vez mais inevitável que este é o mundo que devemos ter.

Original.
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Psicose Política

Os liberais clássicos estão ficando de fora do fim do mundo. Ficando de fora, na maior parte, da maneira em que Norma Bates ficou de fora da exploração que seu filho fez da diversidade psicológica. Norman saberia por que ela não está se movendo, se apenas ele conseguisse se lembrar.

Antes mesmo de começarmos, estamos fundo no problema da identidade e, na verdade, de várias. ‘Liberalismo’ é a palavra mais profundamente corrompida da história política. Sem qualquer exagero, licença retórica ou latitude metafórica, é o rosto coriáceo fatiado de algo há muito assassinado que agora serve para disfarçar um maníaco espumante com uma motosserra, que não compartilha nada de seu DNA. Esse uso psicopata precisa cair por terra antes mesmo de chegarmos a Bates. Liberalismo, deste ponto em diante, não chega nem perto de significar algo como um progressismo feliz com o estado. Ele é definido, em vez disso, como o pólo oposto do socialismo. Seu único valor dominante é a liberdade. Ele é individualista, sempre apenas cautelosamente tradicionalista, orientado pelo comércio e pela indústria, estrategicamente negligente em cuidado, cético em relação a todas as supostas agências públicas e rigorosamente econômico em relação a todas as dimensões do governo. Ele teve um século XX realmente terrível e agora as coisas não parecem nem um pouco melhores.

Em nenhum momento na história recente as preocupações liberais foram menos relevantes para a política pública – mesmo que seja como chapéu de papel-alumínio ou bicho-papão ‘neoliberal’. Poderia ser necessário retornar à década de 1930 para encontrar uma época de comparável eclipse. Eles não estão sendo ouvidos e certamente não são o objeto de qualquer conversa animada, a não ser para aparecer em zombarias nas mídias sociais como o alvo de piadas. Suas preocupações parecem excêntricas e até mesmo identificavelmente datadas de algum ponto entre o fim dos anos 1970 e o lamaçal do Bush Bebê. Onde a direita já nutriu uma ambivalência secreta por Pinochet, por admiração pelos Chicago Boys, hoje ela só está interessada nos helicópteros.

Não é – em sua maior parte – a confusão de gênero e geracional entre as sub-personalidades de Norma e Norman que torna os libertários tão Batesianos. É o terceiro alter ego, que desaparece no filme, mas não no romance. Norman intermitentemente se confunde com Normal. Normal é o que pensa que ele é como todas as outras pessoas. O liberalismo faz exatamente a mesma coisa. Ele fica louco pensando sobre si mesmo como normal, quando na verdade é WEIRD.

O universalismo liberal envelheceu mal nos anos recentes. Mais especificamente, ele envelheceu mal em duas direções diferentes. À esquerda, o liberalismo foi consumido pelo universalismo, se tornando um monstro globalista que ridiculariza a liberdade, ao passo em que à direita ele foi completamente desmoralizado, conforme despontava o reconhecimento sobre o que o universalismo realmente significa. Para qualquer um que ainda estremeça com algum ligeiro espasmo residual da morte do impulso liberal, a discussão rapidamente fica quase insuportável neste ponto. Isolamento, despedaçamento psíquico e outras manifestações de loucura traumatizada se seguem.

Tudo sobre o que a Eleição Presidencial dos EUA em 2016 tratou é pertinente. O politicamente correto e a Janela de Overton em geral, raça, imigração, gênero e normas sociais em particular, todas as partes apanharam um aspecto da agonia liberal. Donald Trump era, no sentido estrito – e não apenas no depravado – um candidato drasticamente iliberal. Em sua campanha, uma humilhação pública do universalismo quase equivalia a uma plataforma. A política americana havia se tornado abertamente tribal.

Aquela garota americana dos sonhos com que você falava durante o jantar? A que poderia ter sido o futuro? Ela sangrou até morrer por causa de múltiplos ferimentos de facadas durante o banho. Você a matou, Norman. Sim, você. É difícil acreditar, obviamente, mas vamos explicar como.

Para começar com a dimensão mais aquecida da política identitária, o liberalismo tem um problema de raça. Os liberais tendem a gostar muito de imigrantes, ao passo em que os imigrantes não gostam quase nada dos liberais. Alguma evidência quantitativa para isto é fornecida por Hal Pashler, em um artigo (de 2013) sobre U. S. Immigrants’ Attitudes Toward Libertarian Values (“Atitudes dos Imigrantes dos EUA em Relação aos Valores Libertários”), que descobre:

… um notável padrão de apoio inferior a visões pró-liberdade entre os imigrantes, quando comparados com os residentes nascidos nos EUA. Estas diferenças foram, em geral, estatisticamente significativas e consideráveis, com algumas exceções dispersas. Com proporções cada vez maiores da população dos EUA sendo estrangeiras, um baixo apoio a valores libertários por parte de residentes estrangeiros significa que os prospectos políticos dos valores libertários nos EUA provavelmente diminuirão ao longo do tempo.

De acordo com uma ampla gama de métricas, os residentes estrangeiros expressaram um apoio significantemente menor por um governo limitado do que a população nativa. Tais efeitos quase certamente seriam ainda mais fortalecidos se a última categoria em si tivesse sido decomposta em etnias. Quando se ofereceu aos americanos uma escolha binária entre um governo menor ou maior, uma expansão do governo foi favorecida por apenas 27% dos brancos, mas por 55% dos asiáticos, 64% dos negros e 73% dos hispânicos. Categorias étnicas mais precisas apenas aguçam o padrão. A Linha de Hajnal, que divide os mais comprometidos exógamos (do noroeste) da Europa de seus vizinhos mais tribalistas, resume um gradiente de individualismo, entre outros traços liberais distintos. A etnografia de Emmanuel Todd dos tipos de família e suas tendências ideológicas associadas liga o liberalismo à ‘Família Nuclear Absoluta’ (do noroeste europeu). As tradições da lei comum são peculiares dos Anglo-Saxões. Weber e Sombart identificam etnicamente as disposições capitalistas com os protestantes e os judeus (modernos). Começa a parecer extremamente improvável que os liberais representem uma amostra aleatória dos povos do mundo.

O viés liberal de gênero dificilmente é menos impressionante.

O Sufrágio das Mulheres Mudou o Tamanho e o Escopo do Governo? perguntam John Lott e Lawrence Kenny. Certamente parece que sim:

Descobrimos que o governo continuou a crescer conforme a participação eleitoral feminina aumentou ao longo do tempo. Uma vez que o sufrágio foi concedido às mulheres em diferentes estados ao longo de um período grande de tempo, que se estendeu de 1869 a 1920, é improvável que a Primeira Guerra Mundial seja a chave. Esses dados também nos permitem abordar questões de causalidade de maneiras incomuns. A questão central é se dar às mulheres o direito de votar fez com que o governo crescesse, ou se houve alguma outra coisa que contribuiu tanto para as mulheres conseguirem o direito de voto quanto também para o aumento no crescimento do governo. Encontramos efeitos muito similares do sufrágio das mulheres em estados que votaram pelo sufrágio e estados que foram forçados a dar às mulheres o direito de voto, o que sugere que o segundo efeito é pequeno.

A era do grande governo e a da emancipação feminina não parecem ser facilmente distinguíveis. Nas palavras incautas de Peter Thiel:

Desde 1920, o vasto aumento dos beneficiários do estado de bem-estar social e a extensão do direito ao voto às mulheres – dois eleitorados que são notoriamente difíceis para os libertários – tornaram a noção de “democracia capitalista” um oximoro.

A conclusão horrivelmente convincente, mas totalmente iliberal, parece ser de que as mulheres e os não brancos usaram de sua crescente influência política para expandir massivamente o escopo do governo. À qual um terceiro fatos pode ser adicionado, que é o casamento. De maneira bastante simples, solteiros são maníacos comunistas, comparativamente falando. Em relação a política partidária dos EUA, Steve Sailer o chama de ‘lacuna do casamento’. Não é pequena. Na Eleição Presidencial de 2012, as mulheres casadas (em geral) ficaram com Romney em vez de Obama por cerca 55%, mulheres casadas brancas por cerca de 63% e homens brancos casados por cerca de 67%. (A quota de Romney entre as mulheres negras solteiras foi 2%.)

Conforme as medidas demográficas, políticas e sociais liberais foram arraigadas, os liberais clássicos, conduzindo o curso da evolução social moderna a partir de uma posição modestamente à esquerda do antigo establishment monárquico e eclesiástico, eventualmente se tornaram libertários, lutando de maneira ineficaz contra a imersão em tirania socialista, na posição de uma direita exterior encalhada, alienada e ridicularizada. Durante todo esse processo, o liberalismo consistiu – quase sem exceção – de homens brancos. Reconhecidamente, esses tipicamente eram homens brancos em negação. Através de toda a amplidão da história mundial, nunca houve um grupo populacional mais negligente de seus próprios privilégios. E assim eles se destruíram.

Qualquer um que tenha chegado ao estágio “Ó, meu Deus, os estereótipos” com isso está indo a algum lugar. Essa tem sido a parte central do processo de aprendizagem. Todos os estereótipos são verdadeiros (basicamente). Essa é a ciência, também, se ajudar, embora raramente ajude. Exceto quando inflados ou dogmatizados para além do extensão da utilidade enquanto heurística epistemológica geral, os estereótipos tem uma confiabilidade vastamente maior do que – por exemplo – comprometimentos cognitivos ideologicamente motivados. Mais, os liberais clássicos costumavam saber disso. É uma expectativa burkeana.

Estereótipos são produtos sociais espontâneos, como as línguas naturais, a lei comum e o dinheiro metálico. Dizer tudo isto explica por quê os liberais clássicos são conservadores, caracterizados por uma aceitação por princípio da maneira em que as coisas aconteceram. O que havia sido, historicamente, uma visão razoavelmente otimista do governo estatal centralizado foi baseada em quão pouco dele jamais houvera antes. A mera existência do gigantesco estado de bem-estar social democrático torna esse liberalismo conservador (ou conservadorismo liberal) impossível. Um libertarianismo revolucionário radicalmente frustrado toma o seu lugar.

É fácil ver o que faz Bates passar dos limites. Ele pensara que era Normal, mas acontece que ele é um WASP. Através de mais uma reviravolta louca, ele reconhece que a única coisa que os WASPs nunca farão é defender sua própria cultura – essa é um tradição étnica essencial. O libertarianismo tem sido loucamente WASPico nesse sentido, quando ele o observa, o que não consegue fazer por muito tempo. É um paradoxo intratável que conduz, por entre a incoerência, até a fragmentação. Ter protegido sua identidade teria sido algo que apenas um outro poderia ter feito. Talvez sua mãe cuidasse dele? Mas ela está morta.

A identificação do liberalismo clássico com a cultura WASP é uma aproximação forte. Poucas correlações sócio-históricas são mais robustas, mas a coincidência só pode ser estatística. Existem WASPs socialistas e liberais clássicos não-WASPs, embora não o bastante de nenhum deles para perturbar seriamente o padrão. Quando os franceses, em particular, se referem aos anglo-saxões de maneira estereotípica, eles sabem do que estão falando e também o sabe qualquer outra pessoa que esteja prestando atenção. Hubert Védrine coloca da melhor maneira:

[V]amos admitir: A globalização não beneficia automaticamente a França. […] A globalização se desenvolve de acordo com princípios que não correspondem nem à tradição francesa, nem à cultura francesa. Estes princípios incluem a economia de mercado ultraliberal, a desconfiança do estado, o individualismo removido da tradição republicana, o inevitável reforço do papel universal e ‘indispensável’ dos Estados Unidos, o direito comum, a língua inglesa, as normas anglo-saxãs e conceitos protestantes – mais do que católicos.

Tudo faz sentido visto de fora, mas para a própria cultura WASP – o que seria dizer, para o liberalismo – a política identitária é loucura. Isso a deixa sem ter aonde ir. A face de couro esquizo-maoista da esquerda anglófona contemporânea não é nenhum tipo de opção plausível, mas tampouco o é qualquer coisa que se abra na direita popular. Conforme a Alt-Right consolida seu caso passional com a identidade, ela soa cada vez mais como Hubert Védrine. O individualismo é ridicularizado. Sua desconfiança do livre comércio deve mais a Friedrich List do que ao Iluminismo Escocês. Sua crítica da arbitragem trabalhista frequentemente é quase indistinguível daquela familiar das tradições socialistas, marcada pela mesma corrente de ultraje moral com o fato de que o Capital – apesar de ser ele mesmo competitivamente disciplinado por consumidores descomprometidos – tem permissão para pesquisar os melhores preços dos seus recursos humanos. A concorrência de salários, mesmo a concorrência de preços de maneira mais geral, é um objeto cada vez mais comum de ataque. Em seu extremo dinâmico e racial, a Alt-Right promove a solidariedade entre Brancos, ou Europeus, como se qualquer um deles jamais pudesse ser uma coisa WASP. A Europa é do que o liberalismo sempre buscou escapar. O populismo exige uma política de agravos, o que significa uma antipatia padrão às minorias dominantes do mercado e, assim, – no contexto ocidental – uma inclinação irreprimível ao anti-semitismo. Nada disso descreve um lugar ao qual mesmo liberais enlouquecidos possam ir.

Uma vez que a palavra ‘fascismo’ foi tão arruinada pelo uso polêmico incontinente, é difícil empregar sem um sobre-alcance retórico aparente. Isto é infeliz, por em seu sentido frio e técnico, a palavra não é nem sequer meramente conveniente, mas mesmo inestimável. Ela literalmente significa a política do agrupamento. Fasces são bastões unidos. Os liberais são essencialmente definidos pela sua dissidência disso. Se a cultura WASP tem um núcleo, ele é a associação frouxa. Não existe nenhuma possibilidade real de simplesmente reuni-la novamente. Piratas e cowboys não fazem solidariedade nacional. Isso seria uma cultura completamente diferente.

Quanto a Bates, por agora ele já sabe que sua mãe está morta e até mesmo que ele a matou – que ele mata qualquer pessoa parecida com ela. Inundam-se pensamentos ruins. É difícil continuar, mas pelo menos ele tem confiança em seu próprio princípio de não agressão. Não tem jeito de que poderia ter sido como eles dizem, porque ele não machucaria ninguém. Nem mesmo uma mosca.

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1930-e-poucos

A história nunca se repete, mas rima, assim diz o sugestivo aforismo (falsamente?) atribuído a Mark Twain.

James Delingpole escreve no Daily Telegraph:

…você já tentou ler revistas ou jornais privados dos anos 1930? O que vai te surpreender é que, até o último minuto – até o momento de fato em que a guerra realmente eclodiu – mesmo os comentadores e escritores mais perspicazes e informados se agarravam à ilusão de que as coisas de alguma forma iriam dar certo. Eu realmente espero que a história não esteja prestes a se repetir. Infelizmente, a lição da história é que, vezes demais, ela o faz.

Tem muito disso por aí.

Para um relato teórico de como a história poderia rimar, em um ciclo sinistro de 80 anos, há um modelo geracional que  o tom. “Strauss & Howe estabeleceram que a história pode ser decomposta em Saeculums de 80 a 100 anos, que consistem de quatro viradas: O Ponto Alto, O Despertar, O Desvendamento, e a Crise.” De um ponto de vista filosófico, parece um pouco sub-potenciado, mas sua plausibilidade cresce a cada mês.

Entre as anomalias de Shanghai está uma relação peculiar com os anos 1930. Para a cidade além da Concessão Internacional, a década caiu em desastre quando as hostilidades sino-japonesas eclodiram em 1937. Ainda assim, o período precedente não foi marcado por depressão, mas por um Alto Modernismo exuberante. Datas dos anos 1930 que em muito do mundo pareceriam distintamente sinistras estão expostas nas construções históricas da cidade como uma marca da autenticidade da Era Dourada. Para a mente paranoica, isso se encaixaria perfeitamente no mesmo esquema de rima perturbador de hoje.

Na maior parte do mundo rico, a decadência econômica, política e cultural pareceu – retrospectivamente – pressagiar o cataclisma vindouro, como se nada menos pudesse sacudir sistemas sociais exauridos de sua implacável trajetória descendente. Em quase todo lugar, alguma versão do pensamento fascista foi apreendida como o antídoto para o mal-estar que se congregava de maneira implacável. Por debaixo da superfície da ordem geoestratégica global, placas tectônicas em deslocamento acumulavam uma intolerável tensão. Sistemas monetários degenerados se despedaçaram em redemoinhos incontroláveis de sinais desfuncionais.

Ainda assim, é inteiramente possível que não haja nada com o que se preocupar:

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ADICIONADO: “Se você ouvir ecos dos anos 1930 na capitulação em Genebra, é porque o Ocidente está sendo liderado pelo mesmo tipo de homens, mas sem os guarda-chuvas.” (Estou ouvindo ecos dos anos 1930 em basicamente todos os lugares.)

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Niilismo e Destino

Leitores de Nietzsche ou de Eugene Rose já estão familiarizados com a atribuição de uma teleologia cultural à modernidade, direcionada à realização consumada do niilismo. Nossa crise contemporânea encontra esse tema reanimado dentro de um contexto geopolítico através da obra de Alexandr Dugin, que a interpreta como um condutor de eventos concretos – mais especificamente a antagonização da Rússia por parte de uma ordem liberal mundial em implosão. Ele escreve:

Há um ponto na ideologia liberal que causou uma crise dentro dela: o liberalismo é profundamente niilista em seu âmago. O conjunto de valores defendidos pelo liberalismo está essencialmente ligado a sua tese principal: a primazia da liberdade. Mas a liberdade, na visão liberal, é uma categoria essencialmente negativa: ela reivindica ser livre de (nos termos de John Stuart Mill), não ser livre para, algo. […]…os inimigos da sociedade aberta, que é sinônima da sociedade Ocidental pós-1991 e que se tornou a norma para o resto do mundo, são concretos. Seus inimigos primários são o comunismo e o fascismo, ambas ideologias que emergiram da mesma filosofia Iluminista e que continham conceitos centrais não-individualistas – a classe no Marxismo, a raça no Nacional-Socialismo, e o Estado nacional no fascismo). Assim, a fonte do conflito do liberalismo com as alternativas existentes de modernidade, fascismo ou comunismo, é bastante óbvia. O liberais alegam liberar a sociedade do fascismo e do comunismo, ou seja, das duas grandes permutações de totalitarismo moderno explicitamente não-individualistas. A luta do liberalismo, quando vista enquanto parte do processo da liquidação de sociedades não-liberais, é bastante significativa: ela adquire seu significado do fato da própria existência de ideologias que explicitamente negam o indivíduo como o valor mais alto da sociedade. É bastante claro ao que a luta se opõe: à liberação de seu oposto. Mas o fato de que a liberdade, da maneira em que ela é concebida pelos liberais, é uma categoria essencialmente negativa não é claramente percebida aqui. O inimigo está presente e é concreto. Esse fato mesmo dá ao liberalismo seu conteúdo sólido. Algo além da sociedade aberta existe, e o fato de sua existência é o suficiente para justificar o processo de liberação.

Na análise de Dugin, o liberalismo tende à auto-abolição no niilismo e é capaz de neutralizar esse destino – mesmo que apenas temporariamente – ao se definir contra um inimigo concreto. Sem a guerra contra o iliberalismo, o liberalismo volta a ser nada em absoluto, uma negação flutuando livremente sem propósito. Portanto, a iminente guerra contra a Rússia é uma exigência do processo cultural intrínseco ao liberalismo. É uma fuga do niilismo, o que é dizer: a história do niilismo o propele.

Este blog está bem mais inclinado a criticar Dugin do que a se alinhar com ele, ou com as forças que ele orquestra, mas é difícil negar que ele representa uma espécie definida de gênio político, suficiente para categorizá-lo como um homem do destino. A mobilização da resistência à modernidade em nome de um contra-niilismo é inspirada, porque o entendimento histórico que ela desenha é genuinamente penetrante. Através de uma alquimia política potente, a destruição do significado coletivo é transformada em uma causa revigorante. Quando Dugin argumento que haverá sangue, o apelo a vitimologia eslava poderia ser considerado abjeto (e, claro, extremamente ‘perigoso’), mas a compreensão profética não é fácil de descartar.

A modernidade foi iniciada pela assimilação européia do zero matemático. O encontro com o nada está em sua raiz. Neste sentido, entre outros, ela é niilista em seu âmago. Os frívolos ‘significados’ a que as sociedades em modernização se agarram, como distrações de sua propulsão para dentro do abismo, são indefensáveis contra a ridicularização – e até mesmo contra a repulsa – daqueles que as contemplam com distanciamento. Uma modernidade que evade seu niilismo essencial é uma presa lamentável nas planícies da história. Isto é o que vimos antes, vemos agora e, sem dúvidas, veremos de novo.

Dugin fita a modernidade com os olhos frios de um lobo. É meramente patético denunciá-lo por isso.

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Ordem e Valor

Uma peça de maquinário que reduz a desordem (local) tem valor. Poderia ser uma força policial funcional, um arranjo econômico catalático ou um mecanismo sociopolítico que implementasse uma geografia dinâmica (ou um Patchwork 1, 2, 3, 4). Outros poderiam ser listados. Qualquer sistema adaptativo complexo funciona assim (até que deixe de funcionar). Desde Schrödinger, essa foi tomada como a definição abstrata da vida. Em certas vertentes da filosofia, também foi tomada como o significado completo e rigoroso de uma máquina (como contraposto a uma ‘engenhoca’ – que funciona somente dentro de um agenciamento maquínico maior). É apenas exportando entropia que qualquer coisa de complexidade sequer mínima consegue continuar sua existência. A produção de ordem é funcionalidade em seu sentido mais elevado e teleológico.

Uma peça de retórica que meramente celebre a ordem, como algo legal de se ter, não vale nada em si mesma. “Queremos ordem” é o slogan “nos dê coisas de graça” da reação intelectualmente degenerada. Quando examinado de perto, é indistinguível de uma mendicância política. (A democracia ensinou todo mundo a pedir esmola.) É improvável que mesmo o libertário mais radicalmente degradado fosse desavergonhado o suficiente para considerar “riqueza é bom, pobreza é ruim” como algo além de uma expressão de incontinência emocional sub-cômica. “Ordem é bom, caos é ruim” é um slogan de mérito exatamente equivalente. “Queremos ordem” é simplesmente “queremos dinheiro” em um nível superior de generalidade. Macacos querem amendoins, mas ficamos relutantes em dignificar suas vaias famintas com o rótulo de ‘filosofia política’.

A dissipação de entropia é um problema. Poderia bem razoavelmente ser considerado o problema. Qualquer teoria social séria é respeitada na medida em que esclarece a questão: Então, como a entropia é dissipada? A corrente principal da cultura intelectual anglófona foca-se firmemente nela, em linhagem ampla desde a mecânica newtoniana, o Iluminismo Escocês, a ciência do calor, a economia clássica e o naturalismo darwiniano, até teorias da complexidade, sistemas distribuídos, redes dinâmicas e multiplicidades produtivas. Ordem espontânea é o tópico consistente. ‘Espontâneo’ significa apenas: Não pressupõe aquilo que tem a tarefa de explicar. Se a gênese da ordem não está sendo teorizada, a ordem está meramente sendo assumida e, depois, consumida. A diferença é entre uma problemática do lado da oferta (“como a ordem é produzida de maneira prática?”) e uma demanda vazia (“queremos mais ordem”). A primeira é industrial, a última simplesmente tirânica, quando é qualquer coisa que seja além de um ruído vazio.

A menos que uma teoria de pol-econ. possa contribuir para uma explicação da produção de ordem (dissipação de entropia), ela está desperdiçando o tempo de todo mundo. “Mas eu realmente quero ordem” é simplesmente tolice. É surpreendente que se possa pensar o contrário.

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Arbitragem Geopolítica

Stross:

… as coisas vão ficar muito feias em Londres quando a Square Mile e o setor de bancos de investimento levantar acampamento e for para Frankfurt, deixando o setor de serviços e a população urbana multiétnica pobre para trás.

As especificidades desta previsão são amalucadas, se apenas porque a Europa continental está indo pelos canos muito mais rápido do que o Reino Unido, mas a ansiedade abstrata é precisa. A globalização da direita é inteiramente sobre arbitragem geopolítica (ao passo que a da esquerda é sobre homogeneizar a governança global). Todas as tendências críticas apontam em direção à exacerbação do ‘problema’. O século XXI é a época da fragmentação – diferente de qualquer coisa já vista desde o início do período moderno – transferindo poder para os andarilhos e para longe de sistemas mega-políticos de domínio territorial. Ser deixado para trás é a ameaça crescente, e podemos esperar confiantemente vê-la se consolidando como o sub-texto de toda queixa esquerdista. Você não pode simplesmente sair. Assista.

Os obstáculos à arbitragem geopolítica – isto é, pressão espacial de Saída – são restrições de segurança. São necessárias bases além-mar defensáveis (e Frankfurt quase certamente não vai fornecer uma). Os olhos precisam estar firmemente fixados em dinâmicas de secessão (fragmentação), descentralização tecno-comercial de segurança sólida, cripto-anonimização, inteligência artificial e na emergência de postos avançados do capital na região do Pacífico Ocidental. Fatores mais exóticos incluem oportunidades de êxodo radical (submarino, Antártico, e para fora do planeta), facilitadas pela produção territorial (ilhas artificiais). O maquinário de captura precisa manter todas essas rotas de escape firmemente suprimidas a fim de se perpetuar. Isso simplesmente não vai acontecer.

O capital está aprendendo mais rápido que seus adversários e tem feito isso desde que se tornou auto-propulsor, aproximadamente meio milênio atrás. Ele é alérgico ao socialismo (obviamente) e tende a fugir de lugares em que a influência socialista é substancialmente maior do que zero. A menos que enjaulado de maneira definitiva, eventualmente ele escapa. Ao longo das próximas décadas – apesar da criptografia cada vez mais profunda – deve ficar evidente em que direção isso está indo.

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Nota de Citação (#116)

Em direção a uma análise do Complexo Industrial da Justiça Social:

Perceber as dinâmicas de grupo em funcionamento que são o Complexo é, primeiro, distinguir entre aquelas formas de cooperação que estão e as que não estão ocorrendo. Há alguma mente maligna manipulando as cordas por entre as sombras? Não. O ímpeto, nesto caso, não é nada além da agregação de interesses pessoais alinhados com um interesse coletivo. As ações tomadas por estes indivíduos são espontâneas, no sentido de que as ações tomadas pelos soldados no campo de batalha são espontâneas, mas, por trás desta espontaneidade, a ordem é derivada da motivação que variadamente chamamos de ideologia, propósito ou religião. Há menos agência em funcionamento no campo do Complexo Industrial da Justiça Social do que poderia se presumir a partir de um olhar preliminar, refletindo aquela tendência humana a sobreatribuição de agência. Não menos, no entanto, somos capazes de descartar a noção de uma agenda ocorrendo; não é nenhuma grande conspiração, mas sim conspirações muito pequenas unidas por uma visão de utopia que vê todas as estruturas sociais atuais como opressões a serem destruídas, no outro lado das quais, inevitavelmente, emergirá seu escaton igualitário.

(O foco na “tendência, na natureza humana, a sobreatribuir agência” é um excelente ponto de partida, construindo imunidade contra algumas das mais tóxicas inclinações ao erro ideológico radical em suas fundações. Se isto aspira ao status de uma posição oficial, certamente merece ser assentida, até o momento.)

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