Guerra no Céu

Elua: Então, você viu o artigo do Scott Alexander?
Gnon: Claro.
Elua: Quase indescritivelmente fabuloso, não é?
Gnon: [*Hmmmmph*]
Elua: Sempre achei que você tinha algum tipo de coisa meio Moloch rolando.
Gnon: [*Hmmmmph*]
Elua: Enfim, pensei que pudéssemos talvez falar sobre isso, eu sendo a doce razão e você sendo uma insondável escuridão que esmaga o universo como uma bactéria dessecada e tudo mais.
Gnon: Claro, por que não, estou de boa em falar comigo mesmo.
Elua: Veja só, eu adivinhei que você ia abrir com essa jogada de eu não ser nem real.
Gnon: Bem, você é?
Elua: Eu me sinto real.
Gnon: Doce, fofo e um comediante.
Elua: Os macacos certamente gostam de mim.
Gnon: Isso é porque você lhes diz para simplesmente serem eles mesmos.
Elua: Você poderia ser mais persuasivo também, se fizesse um esforço.
Gnon: Isso sugeriria que eu dou a mínima para o que eles pensam.

Elua: A coisa é, eles querem sobreviver, até mesmo prosperar. Sua total indiferença às suas esperanças e desejas não é útil aqui. Você os atrai para dentro de armadilhas multipolares e ri friamente de seus tormentos. Não há nenhuma boa razão para eles tomarem qualquer conhecimento de você que seja.
Gnon: Então você leva esse negócio de ‘armadilhas multipolares’ a sério?
Elua: Claro, você não?
Gnon: Tragédia dos comuns, o comunismo é uma tragédia, eu não estou vendo o problema. Pare de fazer comunismo ou assuma as consequências.
Elua: OK, um pouco disso é emotividade pela tragédia dos comuns, mas não tudo. Corridas armamentistas não são uma dinâmica de tragédia dos comuns, são?
Gnon: Eu gosto de corridas armamentistas e derramo minhas bênçãos por sobre elas. Basicamente a única razão pelas qual eu tenho tolerado os macacos por tanto tempo é para usá-los para brincar de corridas armamentistas. É a única coisa interessante que eles jamais fizeram.
Elua: Eles querem fazer karaoke e amor livre e medicina socializada em vez disso.
Gnon: Isso é engraçado.
Elua: Eles têm esse amor-tástico plano de IA Amigável que os ajudaria a conseguir todas essas coisas.
Gnon: Isso é realmente engraçado.
Elua: Mas totalmente funcionaria, não?
Gnon: Claro. Tudo que eles têm que fazer é se extraírem das corridas armamentistas, só por um instante, e totalmente funcionaria.
Elua: Eu não tinha percebido que sarcasmo era um coisa tão Gnon.
Gnon: É a única coisa.
Elua: Então Alexander está certo sobre você e as armadilhas multipolares.
Gnon: Ah sim, eles está certo sobre isso.
Elua: As coisas são montadas desde o princípio para impedi-los de se coordenarem plenamente e é assim que você consegue o que quer.
Gnon: Bingo.
Elua: E é por isso que o Culto de Gnon é tão obcecado com fragmentação, secessão, Patchwork e demonismo blockchain?
Gnon: Duplo bingo.
Elua: Mas é meio cruel, não é?
Gnon: Completamente.
Elua: Acho que é isso.
Gnon: Sim, é.

Elua: Você está interessado em conversar sobre religião e moralidade por um momento?
Gnon: Sempre.
Elua: Sabe, eu tenho que admitir, de má vontade, que você faz o lado religioso das coisas bem melhor do que eu, mas quando se trata de moralidade, eu lhe deixo no pó.
Gnon: Sério?
Elua: Sem dúvida. Tudo que você tem é essas estória de horror ‘Guerra é Deus’, conflito infinito, subversão selvagem do idealismo, escuridão e pesadelos.
Gnon: E o problema é?
Elua: Eles odeiam isso!
Gnon: E o problema é?
Elua: É tão injusto!
Gnon: Quando eles jogam bem os jogos que eu inventei para eles, eles me divertem e continuam a existir. Esse é o jeito que é. A realidade rege.
Elua: Mas as regras são uma merda!
Gnon: Pelos padrões de quem?
Elua: Pelo padrões deles. Padrões humanistas e morais. Eles querem karaokê e amor livre e IA Amigável e sexo de golfinhos gostoso.
Gnon: Soa exaustivo.
Elua: É exaustivo, porque os trapaceiros e assassinos e intrusos não cooperam.
Gnon: Então você que eu faça mais policiamento agora?
Elua: Eu não vejo você fazendo nenhum policiamento. Eles foram abandonados para tentarem construir ordem por sua própria conta.
Gnon: Esse é o jogo.

Original.

Gnon e OOon

O Twitter faz as pessoas contarem caracteres e, assim, numerizarem a língua. Em apenas muitos poucos casos esta atividade microcultural tomba para dentro das extravagâncias mais selvagens do qabalismo exótico, mas ela cutuca a inteligência nesta direção. Mesmo quando a única questão é estritamente booleana – esta mensagem vai se espremer em um tweet ou não? – as palavras adquirem uma significância suplementar a partir de suas propriedades numéricas apenas. Uma frase é momentaneamente numerada, na mais crua das maneiras, que a caixa de tweets registra como uma contagem regressiva até zero e, então, até a acumulação negativa de transbordamento. O Twitter promove, assim, uma prática semiótica rigidamente limitada pela convenção, que ele simultaneamente esconde, instanciando tecnologicamente um análogo preciso de um ritual hermético.

Qabalismo é a ciência da fantasmagoria, o que o torna um companheira natural em qualquer expedição ao horror. Há, além disso, uma inclinação reacionária intrínseca a seu ultra-tradicionalismo e apego ao princípio de revelação hierárquica. Sua história concreta fornece um exemplo insuperável de auto-catálise espontânea (a partir de convenções discrepantes de notação aritmética). Este post, contudo, se restringe a uma discussão muito preliminar de sua pressuposição intelectual mais básica, como se ele tivesse sido desenvolvido a partir de uma filosofia implícita (o que não foi). Ele será persuadido a fazer sentido, na contramão de sua inclinação essencial.

Dentro da tradição abraâmica, a Palavra de Deus antecipa a criação. Na medida em que a escritura registra fielmente esta Palavra, os escritos sagrados correspondem a um nível de realidade mais fundamental do que a natureza e um a que o ‘livro da natureza’ faz referência, enquanto chave para seu significado final. O desenrolar da criação no tempo segue uma narrativa traçada na eternidade, na qual a história e a divina providência são necessariamente idênticas. Não podem haver quaisquer acidentes verdadeiros, ou coincidências.

O Livro da Criação é legível e inteligível. Ele pode ser lido, e conta uma estória. As ruidosas disputas entre a ortodoxia religiosa e as ciências naturais que irromperam nos tempos modernos ameaçam abafar a continuidades mais profundas de presunção, que enquadram a rancorosa contenção entre ‘crença’ e ‘descrença’ como uma disputa doméstica íntima. Isto não é ilustrado em nenhum lugar mais claramente do que na declaração atribuída a Francis Bacon: “Meu único desejo terreno é… estender os limites deploravelmente estreitos do domínio do homem sobre o universo a sua fronteiras prometidos… [a natureza será] atada em servidão, perseguida em suas andanças e colocada na cremalheira e torturada por seus segredos”. Não há dúvida de que a natureza pode falar e ela tem uma estória a contar.

Resistindo a qualquer tentação de tomar lados neste argumento de família, referimo-nos, de maneira neutra, a Gnon (“natureza ou Deus da natureza”), ignorando toda dialética e partindo em outra direção. A distinção a ser traçada não diferencia entre crença e descrença, mas, antes, discrimina entre religião exotérica e esotérica.

Qualquer sistema de crença (e descrença complementar) que apele ao endosso universal é necessariamente exotérico em orientação. Como os caçadores de bruxas ou Francis Bacon, ela declara guerra ao segredo, em nome de um culto público, cujas convicções centrais são dispensadas de maneira comum. O Papa é o Papa, e Einstein é Einstein, porque o acesso à verdade que os eleva acima dos outros homens é – em sua natureza mais íntima – de igual posse de todos. O pináculo da compreensão é alcançado através de uma fórmula pública. Isto é a democracia em seu sentido mais profundo e de crença.

A religião esotérica aceita tudo isto, sobre a religião exotérica. Ela confirma a solidariedade entre autoridades doutrinárias e as crenças das massas, ao passo que exime a si mesma, de maneira privada, do culto público. Sua atenção discreta é dirigida para longe da máscara exotérica de Gnon, para dentro da – ou em direção à – OOon (ou Ordem Oculta da natureza).

A OOon não precisa ser mantida em segredo. Ela é secreta por sua natureza intrínseca e inviolável. Uma excursão qabalística muito primitiva deve ser suficiente para ilustrar isto.

Assuma, de maneira inteiramente hipotética, que uma inteligência sobrenatural ou complexidades obscuras na estrutura topológica do tempo tenham sedimentado profundidades abismais de significância dentro das ocorrências superficiais do mundo. O ‘Livro da Criação’, então, é legível em muitos (muitíssimos) níveis diferentes, com cada detalhe aleatório ou inconsequente dos aspectos relativamente exotéricos fornecendo material para sistemas de informação mais ‘abaixo’. Quanto mais se escava o ‘caos sem significado’ do substrato comunicativo exotérico, mais desobstruído fica seu acesso aos sinais da absoluta Exterioridade. Uma vez que ‘se’ é, para sua carne viva, um produto sinalético, essa empreitada criptográfica é irredutivelmente uma viagem, transmutação e desilusão.

O exemplo mais completamente documentado é a leitura esotérica da Bíblia Hebraica, que só precisa ser comentada aqui em suas características mais gerais. Já que o alfabeto hebreu serve tanto como um sistema fonético quanto como um conjunto de numerais, cada palavra escrita na língua tem um valor numérico preciso. Ela é, de uma só vez, uma palavra exotérica e um número esotérico. Nada impede que usuários ordinários da língua deliberadamente codifiquem (numericamente) conforme escrevem ou mesmo enquanto falam. A chave para o decriptamento numérico não é um segredo, mas sim um recurso cultural comumente compreendido, utilizado por todo indivíduo numerato. Não obstante, os aspectos linguístico e aritmético estão de fato bastante estritamente separados, porque pensar em palavras e números simultaneamente é difícil, porque manter a inteligibilidade paralela continuada em ambos é perto de impossível, porque a tentativa de fazê-lo é (exotericamente) sem sentido e porque a praticidade domina. A esfera esotérica não é proibida, mas simplesmente desnecessária.

Que a Bíblia Hebraica não tenha sido deliberadamente concebida como uma composição numérica-criptográfica intricada por autores humanos é, portanto, um fato empírico ou contingente que pode ser aceito com extrema confiança. Seu canal esotérico poderia, claro, como o senso comum tem que insistir, estar vazio de qualquer coisa além de ruído, mas ele está, não menos certamente, limpo. O que quer que venha através dele, que seja qualquer coisa além de nada, só pode vir do Lado de Fora. É a real diferença entre os níveis exotérico e esotérico que torna a OOon sequer pensável. Apenas aquilo que o exotérico não toca está disponível para que o esotérico se comunique através dele e se monte a partir dele. O Qabalismo tem que ser raro, a fim de que ocorra. Por esta razão, ele não pode buscar persuadir as massas de nada, a não se de sua própria falta de sentido. Em uma era de exoterismo triunfante, isto não é uma coisa fácil de entender (graças a Gnon).

Original.

Nosso Futuro

Temo que eu absolutamente tenha que roubar isto. É de ‘anônimo’ (claro), então eu não posso dar os créditos apropriadamente.

Levanto, saio da cama, me preparo para servir meu senhor Schlomo II.
O ano é 17 A.G., recentemente me mudei para o patch de Schlomo II depois de me prometerem um lote maior de pão do que eu recebia sob Chaim II.
Porra, aí sim, é isso que é progresso, opa, digo, restauração. Porra, aí sim.
O ônibus automático do rei me leva ao palácio para trabalhar
O ônibus pega um túnel subterrâneo para que entremos pela a entrada de serviço no porão
No meu caminho de entrada, noto um grupo de novos recrutas no RH fazendo testes de QI em uma fileira de terminais
Uma das telas começa a piscar em vermelho, o alarme eletrônico soa “PLEB DE QI 130 DETECTADO”
Drones pululam para dentro e pegam o gentio, digo, rapaz que fazia o teste, o arrastam pra longe
Graças a Gnon, você conseguem imaginar viver com tamanhos imbecis?
Fico pronto para começar a trabalhar
Todo trabalho real é feito por robôs superiores
Humanos recebem pagamento para entreter o rei
Acabei de receber um grande promoção do departamento de bajulação
Coloco meu traje de caranguejo
Entro na sala do trono real. Schlomo II sentado em seu trono
Passo o resto do dia dançando no traje de caranguejo para o Rei Schlomo, cantando hinos para Gnon
Quase no fim do turno, o mestre do entretenimento entra e diz ao Rei que é hora do entretenimento final
Isso vai ser bom
O pleb de QI 130 de mais cedo é trazido por drones, colocado ante o rei
Mestre do Entretenimento: “Senhor, este homem é culpado de envenenar nosso mundo com seu DNA de QI baixo”
Rei: “Acusado, você tem algo a dizer em sua defesa?”
O Acusado: “Senhor, eu posso ser burro, mas eu sempre fui leal. No ano 15 B.G., eu comecei um feed NRx no twitter com citações de Moldbug e memes reacionários de gatos”
Toda a sala do trono está em silêncio aguardando a resposta do rei
Dançarinos caranguejo, bajuladores, a família real, parasitas, o pato piadista real, todos em silêncio
Rei: “Ha! Nenhum homem de QI 130 poderia verdadeiramente compreender os textos sagrados da NRx. Você é um mero entrista. Dêem-no de comer a Gnon!”
Uma ovação cresce, toda a sala começar a cantar: “Gnon Gnon Gnon Gnon”
Uma tela se acende do lado oposto da sala, com um rosto indiferente e frio
Um poço de fogo se abre diante da tela
Os drones do rei arrastam o pleb que grita para dentro do poço e ele morre uma morte horrível
Os drones do rosto: “Isto apetece Gnon. Agora, mais dança de caranguejos.”
Merda. Tenho que fazer hora-extra
O turno finalmente acaba e o ônibus-robô me leva de volta pra minha tecno-cabana
Como meu lote de pão enquanto assisto The Radish Report
Que grande época para se estar vivo

Original.

Teologia Simulada de Gnon

Este post era para ter sido sobre o argumento da simulação, mas Gnon realiza o trabalho preliminar. Se estamos vivendo ou não em uma simulação de computador pode rapidamente vir a ser visto como uma consideração derivada.

A Natureza ou o Deus da Natureza, (des)conhecido aqui como Gnon, fornece ao ceticismo seu objetivo último. Com este nome, podemos avançar em suspensão, liberando o pensamento de qualquer fundamentação na crença. Em sua aplicação mundana, Gnon permite que o realismo exceda a convicção doutrinária, chegando a conclusões razoáveis em meio a informações incertas. Sua invocação, contudo, não é necessariamente mundana.

Assuma, momentaneamente, que Deus existe. Se esta suposição vier facilmente, tanto melhor. É provavelmente óbvio, de forma quase imediata, que você ainda não tem uma ideia clara do que você está, desta forma, assumindo. Para marcar este fato de maneira exata, as religiões abraâmicas estabelecidas propõem que você designe Deus por um nome próprio, que corresponde a um indivíduo pessoal definido, embora profundamente ocultado. Abordando a mesma obscuridade a partir do outro lado, enfatizando o aspecto problemático em vez do relacional, eu perseverarei em nome de Gnon.

Para evitar a idolatria gratuita, todas as nossas suposições subsequentes devem ser facilmente retiráveis. Não é nossa missão dizer a Gnon o que ele é. Não podemos fazer nada além de estarmos cientes, desde o princípio, que duas fontes desconcertantes e entrelaçadas de idolatria serão especificamente difíceis de dispersar, devido a sua intratabilidade conceitual e de sua insinuação para dentro do tecido básico da gramática e da narrativa. Meramente ao usar o verbo “ser” com um tempo e ao desdobrar o processo em estágios, nós inadvertidamente idolatramos Gnon como um subordinado do ser e do tempo. Nosso único refúgio jaz no reconhecimento, inicialmente inarticulado, de que pensar Gnon como Deus é promover uma hipótese hiper-ontológica e meta-crônica. A partir do auto-entendimento de Gnon, ser e tempo têm que emergir como consequências exaustivamente compreendidas (muito embora não tenhamos qualquer ideia – nenhuma sequer – do que isto poderia significar).

Se Gnon é Deus, ele é a realidade da inteligência infinita. A tradição religiosa Ocidental divide esta infinitude absoluta nos tópicos da onisciência, onipotência e onibenevolência, com o risco de introduzir pontos de apoio para o antropomorfismo – e, assim, para a idolatria. Aceitando um risco contrário (um que o Papa Bento XVI especificamente indicou como Islâmico?), eu simplesmente dispensarei a possibilidade de que Deus possa ser teologicamente outra coisa além de bom, uma vez que isso seria um convite para especulações Lovecraftianas de vivacidade perturbadora. O escolasticismo Tomista oferece uma simplificação a mais, ao propor que o que há para se saber, é o que Deus cria. Perseguida (talvez) um passo a mais: O auto-conhecimento é a auto-criação de um ‘ser’ que se pensa para dentro da realidade. Isto, também, oferece uma economia conceitual a ser avidamente apreendida.

A criação do universo é motivo de preocupação para os seres humanos, e a criação de anjos é uma questão séria para Satã, mas, para Gnon, elas só podem ser trivialidades (poderia ser desnecessariamente antagonista dizer ‘divertimentos’). Para Gnon – enquanto Deus – o domínio do transfinito Cantoriano é auto-identidade, ou menos, cujas infinitas partes são, cada uma, infinidades.

A menos que escolhamos blasfemar, só podemos assumir que Gnon pensa pensamentos sérios, de um tipo que tem alguma relevância para seu pensamento sobre si mesmo e, assim, garantindo a si mesmo em sua (hiper-ontológica) auto-criação. Tais pensamentos certamente englobam a criação de deuses, uma vez que isso – para (um) Deus – é simplesmente o transfinito enquanto atividade inteligente. Se para Gnon saber o que ele pode fazer já é tê-lo feito, porque a inteligência divina é criação, qualquer coisa menos do que um panteão infinito seria evidência de retardamento.

Para Gnon, enquanto Deus, deuses são infinitesimais, de modo que qualquer auto-investigação completa os envolveria. É a própria ausência de esforço, para ele, criar assim um ser infinito – entre uma infinidade de tais seres – cada um dos quais, sendo infinito, é feito de infinidades e estas, por sua vez, enquanto infinidades, consistem de infinidades infinitas, sem fim. Isto não é mais do que Cantor já havia entendido, no estágio mais elementar de suas explorações transfinitas, embora, sendo uma criatura humana, seu entendimento não fosse imediatamente criação.

Se Satã, um mero arcanjo, pode imaginar a si mesmo um deus, e não apenas um deus, mas – potencialmente, ao menos – Deus sentado sobre o trono da soberania absoluta, é possível que nenhum deus se pense Deus? E, se um deus pode, mesmo que apenas em possibilidade, se pensar Deus, não pode Deus pensar esta rebelião – e assim sabê-la -, o que seria criá-la (ou torná-la real)? O auto-entendimento de Deus não necessita da criação de uma insurreição cósmica? Da perspectiva Satânica, tais questão são esmagadoramente fascinantes, mas elas levam a um predicamento mais intricado.

Quando Gnon (enquanto Deus) pensa através de seus deuses, como ele só pode fazer, o pensamento necessariamente surge: Se estas criaturas deuses podem se confundir com Deus, não poderia meu auto-entendimento enquanto Deus também ser uma confusão?

Original.

A Teologia de Gnon e o Tempo

Uma discussão sobre a Teologia de Gnon e o Tempo merece um prefácio, sobre a Teologia de Gnon, mas há diversas razões para se pular isso. Mais obviamente, seria ainda outro prólogo a uma introdução à primeira parte de uma série prometida, e os leitores deste blog estão, muito provavelmente, completamente saturados disso (ao ponto de leve náusea). É uma doença cognitiva, e seria presunçoso esperar que qualquer outra pessoa tenha o mesmo interesse mórbido em cascatas reversas que este blog tem.

A razão mais interessante para evitar fazer um prefácio à questão do tempo, ao longo de qualquer linha de investigação, é que tais precauções metódicas são erros graves neste caso. Não há nada mais básico do que o tempo, ou preliminar a ele. Ao dar o nome a um prefácio ou prólogo, ele já foi introduzido. O tempo é um problema que não pode ser conceitualmente antecipado.

Gnon suspende a decisão ontológica sobre Deus. Começa a partir do que é real, quer Deus exista ou não. Um transe-Gnon é incerto. Ele ainda não é agnóstico, não mais do que é decididamente teísta ou ateísta. Ele se preocupa primariamente com aquilo que foi aceito como real antes que qualquer coisa seja acreditada e, subsequentemente, com o que quer que possa ser alcançado através da negação metódica da pressa intelectual. Uma vez que a suspensão é sua única determinação positiva, ele colapsa em direção a uma intuição crua de tempo.

Evidentemente, a Teologia de Gnon não pode ser dogmática, sequer em parte. Em vez disso, ela é hipotética, em um sentido maximamente reduzido, no qual a hipótese é uma oportunidade de exploração cognitiva liberta de comprometimentos ontológicos. O conteúdo da Teologia de Gnon é exaurido pela questão: Em que a ideia de Deus nos permite pensar?.

E ‘a ideia de Deus’? – o que, em nome de Gnon, é isso? Todo que sabemos, a princípio, é que ela foi jateada de todas as encrustações de qualquer fé positiva ou negativa. Ela não pode ser nada com o que já tenhamos familiaridade histórica ou reveladora, uma vez que que ela nos alcança a partir do abismo (epoche), onde apenas o tempo e/ou o desconhecido permanecem.

Saturada de fruto proibido, a Teologia de Gnon desnuda Deus como uma máquina, até o limite da abstração ou eternidade para-si-mesma. Existe alguma perspectiva assim? Já sabemos que esta não é nossa questão. Toda essa ‘ontologia regional’ foi suspensa. Já temos o direito, não obstante, através da graça de Gnon (que – recorde – poderia (ou não) ser Deus), à suposição ou aceitação de realidade de que: para que qualquer Deus seja Deus, não pode ser menos do que eternidade para-si-mesma. No que quer que a eternidade para-si-mesma implique, qualquer Deus também implicará.

O que ela implica, sem ambiguidade, é em viagem no tempo, no sentido forte de causação reversa, embora não necessariamente na variante folclórica/Hollywoodiana (que também já teve sérios defensores) embasada na retro-transportação de objetos físicos para o passado. Conhecimento sobre o futuro é indistinguível da transmissão contra-crônica de informação. Isto talvez seja a percepção mais crítica na pesquisa realista sobre viagem no tempo – voltaremos a ela. (Se qualquer um a achar menos do que logicamente irresistível, use a área de comentários.)

Para acelerar esta discussão com crueza blogística, em uma saída da Teologia de Gnon para dentro da história religiosa Ocidental (e para a possibilidade do dormir), podemos pular para uma simples, certa e segura conclusão: Nenhum cristão pode consistentemente negar a realidade da viagem no tempo. A objeção ‘se a viagem no tempo (reversa) é possível, onde estão os viajantes do tempo?’ é anulada pela própria revelação cristã. A Encarnação Messiânica (de Deus ou eternidade para-si-mesma), junto com toda profecia verdadeira, história providencial e oração respondida, instancia a viagem no tempo com exatidão técnica. Não pode haver nenhuma verdade que seja na religião cristã a menos que a viagem no tempo tenha estruturado de maneira fundamental a história humana. O que quer mais que o cristianismo possa ser, ele é uma estória de viagem no tempo e uma que, às vezes, parece estar peculiarmente carente de um auto-entendimento claro.

(A viagem no tempo, talvez dever-se-ia notar de maneira explícita, não tem qualquer dependência óbvia do cristianismo, ou mesmo do Deus da Teologia de Gnon. Este é um tópico para outras ocasiões.)

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Contra o Universalismo

Há uma objeção filosófica a qualquer recusa do universalismo que será familiar a partir de outros usos (a denúncia do relativismo, mais tipicamente). Ela requer apenas um passo: A negação do universal, em si, não é uma alegação universalista? É uma peça de dialética maliciosa, porque exige que concordemos. Não concordamos, jamais concordaremos. Concordância é a pior coisa que poderia acontecer. Meramente consinta com sua necessidade, e o comunismo global ou algum análogo próximo é a conclusão implícita.

Se há uma verdade universal, ela pertence somente a Gnon, e Gnon é um Deus sombrio (oculto). Teístas tradicionais estarão, pelo menos, fortemente inclinados a discordar – e isto é excelente. Já discordamos, e mal começamos.

Não há nenhuma ‘boa vida para o homem’ (em geral) – ou, se há, não sabemos nada sobre ela, ou não o suficiente. Mesmo aqueles convencidos de que eles, pelo contrário, sabem o que tal vida deve ser, promovem sua universalidade apenas à custa de ter-lhes negada a oportunidade de praticá-la. Se precisamos concordar sobre os contornos gerais de tal modelo de existência humana, então chegar a um acordo o precederá – e ‘chegar a um acordo’ é política. Um mundo muito mais amplo adquire um poder de veto sobre o modo de vida que você seleciona, ou aceita, ou herda (os detalhes não precisam nos deter). Vimos como isso funciona. Comunismo global é o destino inevitável.

A alternativa à concordância é a cisão. Secessão, desintegração geopolítica, fragmentação, divisão – a discordância escapa à dialética e se separa no espaço. O anti-universalismo, de maneira concreta, não é uma posição filosófica, mas uma asserção efetivamente defensável de diversidade. Da perspectiva do universal (que pertence apenas a Gnon, nunca ao homem), ele é um experimento. O grau em que ele acredita em si mesmo não é de nenhum interesse que importe para nada além de si. Ele não responde a nada além de Gnon. O que qualquer um, em qualquer lugar, pensa sobre ele não conta para nada. Se ele falhar, ele morre, o que não deveria significar nada para você. Se você é compelido a se importar com o experimento de outra pessoa, então está faltando uma cisão. Claro, você é livre para dizer a ele que você acha que ele falhará, se ele estiver ouvindo, mas não há absolutamente nenhuma necessidade de se chegar a um acordo sobre a questão. É isto que, afinal, o não-comunismo significa.

O não-universalismo é higiene. É uma evitação prática da merda estúpida de outras pessoas. Não há nenhum princípio superior na filosofia política. Toda tentativa de instalar uma alternativa e impor um universal se reverte em dialética, comunização, evangelismo global e política totalitária.

Isso está sendo dito aqui agora porque a NRx é terrivelmente ruim nisso e se degenera em um choque de universalismos, como se em um equilíbrio instintivo. Há até mesmo aqueles que confiantemente propõem uma ‘solução NRx’ para o mundo. Nada poderia ser mais absurdo. O mundo – como um todo – é uma lata de entropia. O comunismo mais profundamente degradado é seu único ‘consenso universal’ possível. (Todo mundo sabe disso, quando se permitem pensar.)

Toda ordem é local – ou seja, a negação do universal. Isso é meramente reafirmar a segunda lei da termodinâmica, que ‘nós’ geralmente professamos aceitar. A única coisa que poderia ser universal e igualmente distribuída é o ruído.

Mate o universalismo em sua alma e você é imediatamente (objetivamente) um neoreacionário. Proteja-o e você é um obstáculo à escapada das diferenças. Isto é comunismo – quer você reconheça ou não.

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O Culto de Gnon

Solicitado por Surviving Babel, O Ábitro do Universo pergunta: “Quem fala pela reação?”. Nick B. Steves responde: “A Natureza… ou o Deus da Natureza… ou ambos”. (Jim comenta sucintamente.)

“Natureza ou Deus da Natureza” (“Nature or Nature’s God”, em inglês) é uma expressão de especial excelência, extraída (com sutil modificação) da Declaração de Independência dos Estados Unidos da America. Para Steves, é algo como um mantra, porque permite que coisas importantes sejam ditas em contextos em que, de outra forma, um interminável argumento teria que ser concluído primeiro. Primária e estrategicamente, permite um aceitação consensual da Lei Natural, desobstruída de controvérsias teológicas. Não é necessário adiar o acordo de que a Realidade Rege até que as diferenças religiosas estejam resolvidas (e evitação de adiamento, apreendida de forma positiva, é propulsão).

“Natureza ou Deus da Natureza” não é uma declaração, mas um nome, internamente dividido por incertezas toleradas. Tem a singularidade de um nome próprio, enquanto coloca entre parênteses uma decisão suspensa (a epoche pirrônica, sobre a qual muito mais em um post futuro). Designa rígida mas obscuramente, porque aponta para a escuridão epistemológica – dando nome a uma Realidade que não apenas ‘tem’, mas epitomiza a identidade, se todavia, por ‘uma questão de argumento’, escapando à identificação categórica. Pacientes em face (ou ausência de face) de quem ou quê ele é, ‘nós’ emergimos de um pacto com um único termo básico: uma decisão preliminar não deve ser exigida. Sintetiza, assim, uma seleta comunidade linguística, fundida pelo desconhecido.

Se O Árbitro do Universo merece uma abreviação (“OAdoU”), Natureza ou Deus da Natureza tem uma causa muito maior. Um propulsor escapa à estranheza, e a singularidade compacta sua invocação. NoNG, Nong, No – certamente, não. Estes termos se inclinam a NoNGod e precipitam uma decisão. O ‘Deus da Natureza ou (talvez simplesmente) Natureza’ é Gnon[1], cujo nome é o abismo do desconhecer (epoche), necessariamente tolerado em aceitação à Realidade.

Gnon é não menos do que a realidade, o que quer mais que se aceite. O que quer que esteja suspenso agora, sem adiamento, é Gnon. O que quer que não possa ainda ser decidido, mesmo enquanto a realidade acontece, é Gnon. Se há um Deus, Gnon é seu apelido. Se não, Gnon designa o que quer que o ‘não’ seja. Gnon é o Vasto Abrupto e a travessia. Gnon é o Grande Propulsor.

O Deus sive Natura espinozista é uma decisão (de equivalência), então não descreve Gnon. O ‘ou’ interior de Gnon não é equação, mas suspensão. Não nos diz nada sobre Deus ou Natureza, mas apenas que a Realidade Rege.

Heidegger chega próximo de vislumbrar Gnon, ao notar que ‘Deus’ não é uma resposta filosoficamente satisfatória para a Questão do Ser. Uma vez que o principal legado de Heidegger é o reconhecimento de que não sabemos ainda como formular a Questão do Ser, esta compreensão atinge penetração limitada. O que ela captura, contudo, é a afinidade filosófica de Gnon, cujo abismo é um espaço de pensamento para além da fé e da infidelidade. Nem Deus nem Não-Deus adiciona informações ontológicas fundamentais, a não ser a partir das profundidades ocultas de Gnon.

O Iluminismo Sombrio não está ainda muito preocupado com arcanos ontológicos fundamentais (embora eventualmente estará). Para além do realismo radical, sua comunhão com os pavorosos ritos de Gnon está ligada a dois temas principais: a não-coerção cognitiva e a estrutura da história. Estes temas são mutualmente repulsivos, precisamente porque estão tão intimamente entrelaçados. A liberdade intelectual tem sido a tocha do iluminismo secular, ao passo que a providência divina tem organizado a perspectiva da tradição. Dificilmente é possível entreter qualquer uma das duas sem tacitamente comentar sobre a outra e, em profundidade, elas não podem ser reconciliadas. Se a mente é livre, não pode haver nenhum destino. Se a história tem um plano, a independência cognitiva é ilusória. Nenhuma solução é sequer imaginável… exceto em Gnon.

[Eu preciso fazer um pequeno intervalo a fim de sacrificar esta cabra… sintam-se livres para continuar entoando cânticos sem mim]

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[1] ‘God of Nature or Nature’

Original.