Neorreacionários têm uma coisa com o Puritanismo. Se esse traço é conceitualmente essencial ou não é uma questão para uma outra hora. O ponto importante, agora, é que ele serve como um marcador cladístico. O que quer que possa ser aquilo em que a neorreação se especie, carrega esse traço como uma indicação de ancestralidade cultural, favoritando o arquivo de código raiz de Mencius Moldbug.

Quando reconstruído como um argumento, o clade moldbuggiano propõem uma espécie de categorização etnográfica em um modelo vagamente darwiniano (e fortemente evolutivo), de acordo com o qual os fenômenos culturais estão logicamente aninhados, na forma de uma árvore, revelando um padrão de descendência. Quando considera um evolucionista darwiniano inglês, que também é um exemplo de progressismo político contemporâneo, Moldbug deixa esse modo de análise explícito:

Minha crença é que o Professor Dawkins não é apenas um ateu cristão. Ele é um ateu protestante. E ele não é apenas um ateu protestante. Ele é um ateu calvinista. E ele não é apenas um ateu calvinista. Ele é um ateu anglo-calvinista. Em outras palavras, ele também pode ser descrito como um ateu puritano, um ateu dissidente, um ateu não conformista, um ateu evangélico, etc, etc.

Esta taxonomia cladística remonta a ancestralidade intelectual do Professor Dawkins até cerca de 400 anos atrás, à era da Guerra Civil Inglesa. Exceto, claro, pelo tema do ateísmo, o cerne do Professor Dawkins é uma combinação notável para as tradições Ranter, Leveller, Digger, Quaker, Quintomonarquista ou qualquer uma das mais extremas tradições dissidentes inglesas que floresceram durante o interregno cromwelliano.

Se houvesse Trinta e Nova Artigos da neorreação, alguma versão adequadamente comprimida deste cladograma constituiria um princípio primário da crença. Entre os galhos logicamente mais atenuados deste esquema, sub-especiados ao limite da definição cladística, se encontra a instância soberana globalmente dominante da modernidade avançada – a Catedral (o inimigo).

Não é surpreendente, portanto, que a ‘questão Puritana’ continue sendo a preocupação central do Iluminismo Sombrio neorreacionário. Isto foi ilustrado com consumada clareza por um artigo postado por J. M. Smith em The Orthosphere, que constesta a genealogia cristã da Catedral, e pelas réplicas subsequentes de descendentes do clade neorreacionário – de convicções religiosas variadas – Jim (aqui), Foseti (aqui) e Nick B. Steves (aqui, aqui e aqui). Foseti reage com um pouco de desconcerto ao enquadramento polêmico do texto de Smith, porque o que ele encontra é um argumento sem discordância:

No The Orthosphere, tem um post com a intenção de argumentar que a Catedral não foi construída por Cristãos. Presumivelmente, o título foi alterado por alguém que não o autor do texto, porque o post habilmente demonstra que cristão de fato construíram a Catedral. Na verdade, o post é recomendado.

O método cladístico contribui significantemente para um entendimento desses relacionamentos. Em particular, é essencial compreender a lógica da nomenclatura taxonômica, que corresponde perfeitamente à genealogia pura, e a reconstrução ideal do parentesco evolutivo. O ponto crucial: Um nome cladístico se refere a tudo que é englobado por uma cisão, especiação ou cisma.

Correndo o risco de uma explicação supérflua, poderia valer a pena ensaiar esta lógica com um exemplo biológico coloquializado (usando descritores taxonômicos familiares ao invés de técnicos). Paleontólogos estão supremamente confiantes de que os anfíbios evoluíram a partir de peixes ósseos e de que os répteis evoluíra a partir dos anfíbios. Isto pode ser formulado, sem perda de informação, como uma série cladística (de ramificações), com os peixes ósseos incluindo os anfíbios que, por sua vez, incluem os répteis. Em outras palavras, enquanto nome cladístico, um ‘peixe ósseo’ descreve uma cisão especiadora inicial a partir de um clade ancestral que – projetada adiante – engloba todas as especiações subsequentes, neste caso anfíbios e répteis. Tanto anfíbios quanto répteis são peixes ósseos. Também o são os mamíferos, símios e seres humanos. Peixe ósseos, enquanto clade, compreende todas as espécies descendentes que tenham uma ancestralidade de peixes ósseos, quer estejam extintas, ainda existam ou ainda estejam por vir. Nada que tenha uma ancestralidade de peixes ósseos, não importa o quão distante, jamais pode deixar de ser um peixe ósseo (o que quer mais que se torne além disso). Cladisticamente, é óbvio que humanos são peixes ósseos, assim como coisas bem mais simples e mais primordiais.

Smith escreve:

…um Grande Cisma despedaçou o protestantismo americano no começo do começo do século XIX, com uma fissura esfaceladora rasgando por entre denominações e mesmo congregações. Os protestantes de um lado da fissura se chamavam de “liberais”, aqueles do outro lado se chamavam de “ortodoxos”. …O protestantismo liberal é uma religião nova e pós-cristã que, em seus estágios iniciais, oportunisticamente falou em um idioma cristão, mas que, ainda assim, pregava um novo evangelho.

Vimos, contudo, que, de um ponto de vista cladista, nada que surge como um cisma a partir de X jamais se torna ‘pós-X’. Não há coisa tal como um pós-peixe ósseo, um pós-réptil ou um pós-símio. Nem, por analogia lógica estrita, pode jamais haver coisas tais como monoteístas pós-abraâmicos, pós-cristãos, pós-católicos, pós-protestantes, pós-puritanos ou pós-progressistas. É uma impossibilidade lógica que clades ancestrais jamais sejam evolutivamente suplantados. Ter o cristianismo como ancestral cultural é permanecer cristão para sempre. Isso não é mais do que precisão terminológica, de uma perspectiva cladista-neorreacionária.

Steven elucida o mesmo ponto em um vocabulário intimamente relacionado: “…existem católicos ateus. Por quê? Porque ser católico é cultural. Não é apenas isso, mas é isso também, pelo menos isso”. As culturas estão genealógica ou cladisticamente organizadas – está é a pressuposição neorreacionária. (Complicações laterais não são inteiramente inconcebíveis – link para uma entrada da Wikipédia verdadeiramente medonha sobre um pensamento importante: a rede não arbórea. Isto é tudo por ora.)

E, no entanto, quanto à própria neorreação? Do que ela se separou? Como tudo o mais sob investigação aqui, a menos que seja compreendida como um cisma, ela não é compreendida de forma alguma.

Quando abordada cladisticamente, a cisão primordial é a questão inelutável da identidade, ou ancestralidade persistente. Podemos, talvez, adiá-la momentaneamente, mas ela eventualmente nos levará em direções que são mais do que um pouco lovecraftianas.

Qual foi a última coisa dentro da qual a neorração estava submersa, antes de surgir através do cisma? (Esta investigação tem que aguardar um outro post.)

Original.
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4 thoughts on “Meditações Cladísticas

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