História Zerocêntrica

A Reação – e até mesmo a Neorreação – tende a ser dura com a Modernidade. Deus sabe (por assim dizer) que existem inúmeras razões para isso.

Se o critério de julgamento for estabelecido pelo Ocidente, quer determinado através de sua fé outrora dominante ou por seu povo outrora dominante, o caso contra a Modernidade talvez seja irrespondível. A civilização ocidental em que a Modernidade se inflamou foi, em última análise, consumida por suas chamas. De uma perspectiva Tradicionalista Ocidental, a Modernidade é um suicídio complexo e prolongado.

Um Ultra-Modernista, que afirma a destruição criativa de qualquer coisa no caminho da modernização, assume um critério alternativo, inerente à própria Modernidade. Pergunta: O que teve que ocorrer ao Ocidente para que ele se tornasse moderno? Qual foi o evento essencial? A resposta (e nosso postulado básico): O zero chegou.

Sabemos que o zero aritmético não cria o capitalismo por si só, porque ele pré-existiu a catálise da Modernidade durante diversos séculos (embora menos do que um milênio). A Europa foi necessária, enquanto matriz, para sua ativação histórica explosiva. Este blog está persuadido de que a condições críticas encontradas pela numeracia embasada-em-zero no norte do mundo Mediterrâneo pré-Renascentista incluíram decisivamente uma fragmentação sociopolítica extrema, acompanhada por uma susceptibilidade cultural à dinâmica ordem espontânea. (Este é um tópico para uma outra ocasião.)

Na Europa, o zero era um alienígena e, da perspectiva da tradição paroquial, uma infecção. A resistência cultural era explícita, com bases teológicas, entre outras. Implícito no Argumento Ontológico para a existência de Deus estava a definição do não-ser como uma imperfeição derradeira e a ‘cifra’ – cujo nome era Legião – a evocava. O críptico ‘algarismo’ oriental era um estrangeiro indesejável.

O zero pegou, porque a emergência do capitalismo era inseparável dele. Os cálculos que ele facilitou, através do portal da contabilidade de partidas dobradas, se provaram indispensáveis para os empreendimentos comerciais e científicos sofisticados, prendendo os incentivos do lucro e do poder no lado de sua adoção. A vantagem prática de sua notação técnica se sobrepôs a todas as objeções teóricas, e nenhuma autoridade no quebra-cabeça despedaçado da Europa estava em posição de suprimi-lo. O mundo havia encontrado seu ponto morto, ou havia sido encontrado por ele.

The Nothing That Is: A Natural History of Zero de Robert Kaplan é um excelente guia para esses desenvolvimentos. Ele observa que, no despontar da Renascença:

Assim como o espaço pictórico, que houvera sido ordenado hierarquicamente (o tamanho da figura correspondia à importância), em breve seria colocado em perspectiva através do dispositivo de um ponto de fuga, um zero visual; também assim o zero da notação posicional foi o precursor de um reordenamento do espaço social e político.

O capitalismo – ou explosão tecno-comercial – promovia de maneira massiva o cálculo, o que normalizou o zero enquanto número. Kaplan explica:

[O crescimento de] uma linguagem para a aritmética e para a álgebra… teria consequências de longo alcance. A incômoda lacuna entre números, que representavam coisas, e o zero, que não o fazia, se estreitaria conforme o foco passou do que eles eram para como eles se comportavam. Tal comportamento ocorria em equações – a solução de uma equação, o número que a fazia se equilibrar, tinha tanta probabilidade de ser zero quanto qualquer outra coisa. Uma vez que os valores que x ocultava eram todos de um tipo, isso significava que a lacuna entre zero e os outros números se estreitou ainda mais.

É assim que o zero, enquanto número em vez de mero marcador sintático, rastejou para dentro. Em três das operações aritméticas elementares, o comportamento do zero é regular e rapidamente aceito como ordinário. Ele é, claro, um número extremo, perfeitamente elusivo nas operações de adição e subtração, ao passo que demonstra uma soberania aniquiladora na multiplicação, mas em nenhum desses casos ele perturba o cálculo. A divisão por zero é diferente.

O zero denota uma dinamização vinda do Exterior. É um sinal de fronteira, marcando a borda, onde o calculável cruza o insolúvel. Consolidado dentro da Modernidade como uma quantidade indispensável, ele retém uma qualidade liminar, que eventualmente seria explorada (embora não resolvida) pelo cálculo diferencial e integral.

A pura concepção do zero sugere uma reciprocidade estrita com o infinito, tão convincente que os maiores matemáticos da Índia antiga foram completamente seduzidos por ela. Bhaskara II (1114-1185) confiantemente afirmou que n/0 = infinito, e, no Ocidente, Leonhard Euler concordou. (A sedução persiste, com John D. Barrow escrevendo em 2001: “Divida qualquer número por zero e temos infinito.”)

Ainda assim, essa equação, que aparece como a mais profunda conclusão acessível à inteligência rigorosa, não se obtém sem contradição. “Por que?” [Kaplan novamente]

Nossos matemáticos indianos nos ajudam aqui: qualquer número vezes zero é zero – de modo que 6×0 e 17×0 = 0. Logo, 6×0 = 17×0. Se você pudesse dividir por zero, você teria (6×0)/0 = (17×0)/0, os zeros se cancelariam e 6 seria igual a 17. …Esse tipo de prova por contradição era conhecido desde a Grécia antiga. Por que ninguém na Índia deu de cara com ela neste momento, quando era necessário?

A prova de Kaplan demonstra que, para o zero, peculiarmente, a multiplicação e a divisão não são operação recíprocas. Elas ocupam um eixo que corta transversalmente um limite absoluto, perfeitamente solúvel de um lado, problemático do outro. O zero é revelado como uma porta obscura, uma junção que conecta a precisão aritmética com predicamentos filosóficos (ou religiosos), intratável para os procedimentos estabelecidos. Ao tentar reverter, de maneira normal, uma operação aritmética mundana, um sinal liminar é acionado: acesso negado.

Original.

Alfanomia

O antigo (2007?) mecanismo qabalístico dA Urbanomic – a ‘gematrix’ – está de volta on-line (2) após um petulante desaparecimento. Apenas a numerização AQ é recomendada – as alternativas são randomizações digitais degeneradas. (Concentre-se nas numerizações intactas – os valores digitalmente reduzidos são normalmente rudimentares demais para compreensões significantes.)

Para entender imediatamente uma série de coisas (simultaneamente) digite a Lei da Telema: Do what thou wilt shall be the whole of the Law.

Esta ferramenta e, mais especialmente, o método – ou gematria específica – que ela encarna são a consumação da rigorosa Tradição Oculta Anglófona. Embora seu valor esteja quase certamente perdido nos modernos, ela está uma vez mais livremente disponível para ser usada.

Ela agora é um Segredo Aberto.

ADICIONADO: DARK ENLIGHTENMENT = 333. (Isto precisa estar aqui para referência.)

Original.

Gnon e OOon

O Twitter faz as pessoas contarem caracteres e, assim, numerizarem a língua. Em apenas muitos poucos casos esta atividade microcultural tomba para dentro das extravagâncias mais selvagens do qabalismo exótico, mas ela cutuca a inteligência nesta direção. Mesmo quando a única questão é estritamente booleana – esta mensagem vai se espremer em um tweet ou não? – as palavras adquirem uma significância suplementar a partir de suas propriedades numéricas apenas. Uma frase é momentaneamente numerada, na mais crua das maneiras, que a caixa de tweets registra como uma contagem regressiva até zero e, então, até a acumulação negativa de transbordamento. O Twitter promove, assim, uma prática semiótica rigidamente limitada pela convenção, que ele simultaneamente esconde, instanciando tecnologicamente um análogo preciso de um ritual hermético.

Qabalismo é a ciência da fantasmagoria, o que o torna um companheira natural em qualquer expedição ao horror. Há, além disso, uma inclinação reacionária intrínseca a seu ultra-tradicionalismo e apego ao princípio de revelação hierárquica. Sua história concreta fornece um exemplo insuperável de auto-catálise espontânea (a partir de convenções discrepantes de notação aritmética). Este post, contudo, se restringe a uma discussão muito preliminar de sua pressuposição intelectual mais básica, como se ele tivesse sido desenvolvido a partir de uma filosofia implícita (o que não foi). Ele será persuadido a fazer sentido, na contramão de sua inclinação essencial.

Dentro da tradição abraâmica, a Palavra de Deus antecipa a criação. Na medida em que a escritura registra fielmente esta Palavra, os escritos sagrados correspondem a um nível de realidade mais fundamental do que a natureza e um a que o ‘livro da natureza’ faz referência, enquanto chave para seu significado final. O desenrolar da criação no tempo segue uma narrativa traçada na eternidade, na qual a história e a divina providência são necessariamente idênticas. Não podem haver quaisquer acidentes verdadeiros, ou coincidências.

O Livro da Criação é legível e inteligível. Ele pode ser lido, e conta uma estória. As ruidosas disputas entre a ortodoxia religiosa e as ciências naturais que irromperam nos tempos modernos ameaçam abafar a continuidades mais profundas de presunção, que enquadram a rancorosa contenção entre ‘crença’ e ‘descrença’ como uma disputa doméstica íntima. Isto não é ilustrado em nenhum lugar mais claramente do que na declaração atribuída a Francis Bacon: “Meu único desejo terreno é… estender os limites deploravelmente estreitos do domínio do homem sobre o universo a sua fronteiras prometidos… [a natureza será] atada em servidão, perseguida em suas andanças e colocada na cremalheira e torturada por seus segredos”. Não há dúvida de que a natureza pode falar e ela tem uma estória a contar.

Resistindo a qualquer tentação de tomar lados neste argumento de família, referimo-nos, de maneira neutra, a Gnon (“natureza ou Deus da natureza”), ignorando toda dialética e partindo em outra direção. A distinção a ser traçada não diferencia entre crença e descrença, mas, antes, discrimina entre religião exotérica e esotérica.

Qualquer sistema de crença (e descrença complementar) que apele ao endosso universal é necessariamente exotérico em orientação. Como os caçadores de bruxas ou Francis Bacon, ela declara guerra ao segredo, em nome de um culto público, cujas convicções centrais são dispensadas de maneira comum. O Papa é o Papa, e Einstein é Einstein, porque o acesso à verdade que os eleva acima dos outros homens é – em sua natureza mais íntima – de igual posse de todos. O pináculo da compreensão é alcançado através de uma fórmula pública. Isto é a democracia em seu sentido mais profundo e de crença.

A religião esotérica aceita tudo isto, sobre a religião exotérica. Ela confirma a solidariedade entre autoridades doutrinárias e as crenças das massas, ao passo que exime a si mesma, de maneira privada, do culto público. Sua atenção discreta é dirigida para longe da máscara exotérica de Gnon, para dentro da – ou em direção à – OOon (ou Ordem Oculta da natureza).

A OOon não precisa ser mantida em segredo. Ela é secreta por sua natureza intrínseca e inviolável. Uma excursão qabalística muito primitiva deve ser suficiente para ilustrar isto.

Assuma, de maneira inteiramente hipotética, que uma inteligência sobrenatural ou complexidades obscuras na estrutura topológica do tempo tenham sedimentado profundidades abismais de significância dentro das ocorrências superficiais do mundo. O ‘Livro da Criação’, então, é legível em muitos (muitíssimos) níveis diferentes, com cada detalhe aleatório ou inconsequente dos aspectos relativamente exotéricos fornecendo material para sistemas de informação mais ‘abaixo’. Quanto mais se escava o ‘caos sem significado’ do substrato comunicativo exotérico, mais desobstruído fica seu acesso aos sinais da absoluta Exterioridade. Uma vez que ‘se’ é, para sua carne viva, um produto sinalético, essa empreitada criptográfica é irredutivelmente uma viagem, transmutação e desilusão.

O exemplo mais completamente documentado é a leitura esotérica da Bíblia Hebraica, que só precisa ser comentada aqui em suas características mais gerais. Já que o alfabeto hebreu serve tanto como um sistema fonético quanto como um conjunto de numerais, cada palavra escrita na língua tem um valor numérico preciso. Ela é, de uma só vez, uma palavra exotérica e um número esotérico. Nada impede que usuários ordinários da língua deliberadamente codifiquem (numericamente) conforme escrevem ou mesmo enquanto falam. A chave para o decriptamento numérico não é um segredo, mas sim um recurso cultural comumente compreendido, utilizado por todo indivíduo numerato. Não obstante, os aspectos linguístico e aritmético estão de fato bastante estritamente separados, porque pensar em palavras e números simultaneamente é difícil, porque manter a inteligibilidade paralela continuada em ambos é perto de impossível, porque a tentativa de fazê-lo é (exotericamente) sem sentido e porque a praticidade domina. A esfera esotérica não é proibida, mas simplesmente desnecessária.

Que a Bíblia Hebraica não tenha sido deliberadamente concebida como uma composição numérica-criptográfica intricada por autores humanos é, portanto, um fato empírico ou contingente que pode ser aceito com extrema confiança. Seu canal esotérico poderia, claro, como o senso comum tem que insistir, estar vazio de qualquer coisa além de ruído, mas ele está, não menos certamente, limpo. O que quer que venha através dele, que seja qualquer coisa além de nada, só pode vir do Lado de Fora. É a real diferença entre os níveis exotérico e esotérico que torna a OOon sequer pensável. Apenas aquilo que o exotérico não toca está disponível para que o esotérico se comunique através dele e se monte a partir dele. O Qabalismo tem que ser raro, a fim de que ocorra. Por esta razão, ele não pode buscar persuadir as massas de nada, a não se de sua própria falta de sentido. Em uma era de exoterismo triunfante, isto não é uma coisa fácil de entender (graças a Gnon).

Original.