Quando se trata da corrida suicida libertária, Bryan Caplan deixa Don Boudreaux no pó. Caplan assume o Princípio da Não Agressão e corre com ele por todo caminho até alcançar um culto de morte auto-dirigido de máxima velocidade. (Auto-dirigido unicamente no sentido ideológico, claro.) Dados os consideráveis méritos deste livro em particular, é uma coisa triste de se ver.

O libertarianismo americano sempre esteve vulnerável à extravagância espiritual neo-puritana. Caplan sistematicamente empurra esta tendência ao seu limite, divorciando seus argumentos de qualquer estimativa realista das consequências e o transformando em uma forma de fanatismo moral deontológico, no qual auto-defesa, retaliação e fronteiras estão estritamente proibidas. Ele vislumbra um mundo de jogos no qual apenas o altruísmo unilateral é permissível ao jogador libertário. Seria engraçado jogar algumas rodadas do dilema do prisioneiro com ele.

Naturalmente, quando se trata do apoio incondicional para as fronteiras abertas, independente das consequências políticas, Caplan se apressa para defender Boudreaux. Prestativamente, ele linka para seu próprio extenso arquivo sobre o tópico, através de um portal para uma série de posts extremamente repetitivos (aqui, aqui e aqui – ler qualquer um será o suficiente).

Talvez Caplan realmente creia em seus próprios argumentos, mas se é assim, ele se deixou louco. Se você duvidar disso por um momento, vai ser apenas por um momento – tente isto:

Se você se importa tanto com imigrantes quanto com nativos, não há nenhuma razão para se opor à imigração. Considere o seguinte exemplo:

Suponha que existem dois países com populações iguais. A qualidade das políticas vai de 0 a 10, 10 sendo a melhor. No país A, os pontos de felicidade (a primeira escolha de políticas das pessoas) estão uniformemente distribuídos de 2 a 6. No país B, os pontos de felicidade estão uniformemente distribuídos de 4 a 8.

O que a concorrência democrática entrega? Quando os países são independentes, o país A fica com uma qualidade política de 4 ( a mediana da distribuição uniforme de 2 a 6), e o país B fica com uma qualidade política de 6 (a mediana da distribuição uniforme de 4 a 8). A política média sob a qual as pessoas vivem: 50%*4+50%*6-5.

Agora suponha que você abra as fronteiras, e todo mundo se mude para o país B (o país mais rico). A mediana de toda a distribuição é 5. Resultado: Os imigrantes vivem sob políticas melhores, os nativos vivem sob políticas piores. A média (5) continua inalterada.

Já está sem palavras? (Estou na metade de um post, então não posso me dar ao luxo de estar.) O argumento: Qualquer tentativa de viver sob um regime que é qualquer coisa além da idiotice política média da humanidade como um todo é uma grave violação dos direitos humanos.

Você não gosta da maneira em que os paquistaneses administram seus assuntos nacionais? Que pena. O libertarianismo (no estilo Caplan) insiste que é seu dever promover a homogeneização das culturas políticas do mundo porque, afinal, se há qualquer coisa boa que seja acontecendo do seu lado, pense o quão feliz ela deixará os paquistaneses quando ela for compartilhada. Ir de cabeça na direção de um mingau mexido de capitalismo liberal profundamente degenerado e islamo-feudalismo é o melhor para todo mundo, tomado em média. Se não está com o gosto certo, é porque você ainda não jogou guerra tribal africana e caça de cabeças polinésia o suficiente para conseguir o impacto moral completo. Ou que tal misturar Singapura e Bangladesh em uma pasta humana? Qualquer coisa a menos é equivalente a genocídio.

Este argumento é tão ruim que a própria ideia de responder a ele me faz vomitar um pouco na minha boca, mas o dever me chama. Uma vez que Caplan alega ser um libertário, vamos começar com um princípio irrepreensível – a concorrência. Se qualquer instituição funciona, é porque a concorrência a mantém na linha. Isto requer uma série de coisas, todas elas incompatíveis como a homogeneização: variação experimental, suporte diferencial à comparação, absorção local das consequências e seleção através da eliminação da falha.

Considere duas companhias. Effective Inc. e Loserbum Corp. Ambas têm culturas corporativas muito diferentes, adequadamente refletidas em seus nomes. Sob condições de mercado, a Loserbum Corp. ou aprende algumas lições da Effective Inc., ou vai à falência. Benefício líquido ou nenhuma grande perda para o mundo em ambos os casos.
Mas lá vem o Caplan, para maldizer os acionistas, a administração e outros empregados da Effective Inc. “Seus monstros! Vocês não se importam mesmo com os caras da Loserbum Corp.? Eles têm o mesmo status moral que vocês, vocês não sabem? Eis aqui o verdadeiro plano radical de livre mercado: Todos os administradores e trabalhadores da Loserbum entram na sua companhia, trabalham ali, introduzem suas estratégias de negócio e práticas de trabalho, até que alcancemos um equilíbrio. Mercados são sobre equilíbrio, sabe? Claro, a Effective Inc. se degenerará de maneira significativa, mas imagine todos os ganhos de utilidade para os pobres Loserbums! Lavou, está novo.”
Mas… mas… países não são empresas. Bem, talvez não exatamente, mas eles são instituições competitivas ou, pelo menos, quanto mais o forem, melhor funcionam. A coisa mais importante é igualmente verdadeira sobre ambos – na medida em que forem capazes de externalizar e reunir sua falha, menos eles aprenderão.
Em um mundo que tem qualquer chance de funcionar, a cultura Loserbum tem uma escolha: aprender ou falir. Caplan introduz uma terceira possibilidade – compartilhar (calcular a média ou homogeneizar). Sua matemática é idiota. A contribuição que Singapura faz ao mundo não tem quase nada a ver com os ganhos de utilidade de sua minúscula população. Em vez disso, é um modelo – Effective Inc. – cuja contribuição para o mundo é mostrar para todos os Loserbums o que eles são. Inunde-a com Loserbums, a destrua, e essa função se vai. Se isso tivesse acontecido antes do final dos anos 1970, a RPC provavelmente ainda seria um buraco infernal neo-maoista. Ela não inundou Singapura com 300 milhões de camponeses pobres, em vez disso, ela aprendeu com o exemplo de Singapura. É assim que o mundo realmente funciona (quando funciona). Exemplos institucionais importam. O mundo de Caplan aniquilaria todos eles, deixando os três quartos de Loserbums razoavelmente na média, grunhindo uns com os outros em um pântano libertário-comunista. Nada funcionaria em lugar nenhum. Não poderia haver nenhuma lição.

Ainda assim, Caplan tem outros argumentos. O melhor, de longe, é que naufragar uma sociedade ao ponto da detestação mútua generalizada é a melhor maneira de reduzir o estado de bem-estar social. Ele segue assim:

Embora imigrantes pobres sejam mais propensos a apoiar um estado de bem-estar social maior do que os nativos, a presença de imigrantes pobres faz os nativos se voltarem contra o estado de bem-estar social. Por que seria assim? Via de regra, as pessoas estão feliz em votar para “tomar conta dos seus”; o estado de bem-estar social é todo sobre isso. Então, quando os pobres são culturalmente muito similares aos ricos, como eles são em lugares como a Dinamarca e a Suécia, o apoio ao estado de bem-estar social tende a ser uniformemente forte.

Conforme os pobres se tornam mais culturalmente distantes dos ricos, contudo, o apoio ao estado de bem-estar social se torna mais fraco e menos uniforme.

Este argumento é tão incrivelmente Mad Max que, na verdade, eu gosto até bastante dele. Queime o mundo e você leva o estado de bem-estar social com ele. Yeaaaaaahhhhh! (Deixarei que vozes mais responsáveis apontem quaisquer possíveis falhas.)

Depois tem o argumento “não nativos são marcadamente menos propensos a votar do que os nativos” (do mesmo post, e todo o resto). Faz você pensar o que uma grande população de anti-capitalistas com direito ao voto mas não votantes engendra. Algo bom, por certo?

O melhor de tudo é a analogia contorcionista de cobertura: “Eleitores nativos abaixo dos 30 são mais hostis aos mercados e à liberdade do que os imigrantes jamais foram. Por que não apenas expulsá-los?” Ah sim, ah sim, podemos? Ou, pelo menos, impedi-los de votar. Sem algum arranjo para a remoção em massa do direito de voto dos eleitores esquerdistas, não há qualquer chance de nada além da decadência continua, e a restrição de idade poderia ser um lugar tão bom quanto qualquer outro para se começar.

Minha posição em uma frase… é que as restrições de imigração são um crime vastamente maior contra os mercados e a liberdade do que qualquer coisa que os eleitores imigrantes têm probabilidade de fazer.

Graças a Gnon, ninguém ouve os libertários.

ADICIONADO: Caplan redobra, com algumas hipóteses de dar água na boca. Se os Estados jamais fizessem esse tipo de escolhas, seria divertido mantê-los por perto, mas todo o ponto é que é claro que eles nunca as fariam. (Não perca a seção de comentários sombriamente infiltrada.)
… e ainda mais hipóteses contra-democráticas atraentes. Na hora em que os libertários deontológicos tiverem acabado com isso, eles terão desenhado uma plataforma política neorreacionária minuciosamente detalhada para nós.

Original.
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One thought on “Libertarianismo Suicida (Parte D’oh)

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