[V]amos admitir: A globalização não beneficia automaticamente a França. […] A globalização se desenvolve de acordo com princípios que não correspondem nem à tradição francesa, nem à cultura francesa. Estes princípios incluem a economia de mercado ultraliberal, a desconfiança do estado, o individualismo removido da tradição republicana, o inevitável reforço do papel universal e ‘indispensável’ dos Estados Unidos, o direito comum, a língua inglesa, as normas anglo-saxãs e conceitos protestantes – mais do que católicos.
– Hubert Védrine, 9 fevereiro, 2002[1]

Ser francês é entender – com peculiar lucidez – o que é ter sido derrotado pela modernidade. A primeira nação moderna do mundo, encantada para além de todas as outras pelo chamado de do universal, foi cortada de volta a um nexo de caminhos não tomados, ao longo do curso de dois séculos. Se Hubert Védrine diz isto mais claramente do Alain Badiou, Badiou o diz não obstante. Our Wound is Not So Recent (“Nossa Ferida Não É Tão Recente”). O título já diz quase tudo. Para antecipar: ‘…nossa ferida vem da derrota histórica do comunismo’.

Comparados a este infortúnio primário, crônico e, por ora, essencial, desastes ocasionais são meros acidentes. O recente massacre em Paris por soltados da Jihad fornece um exemplo incomumente dramático (ou ‘particularmente espetacular’). Ainda assim, apesar de seu caráter colorido e ricamente afetivo, a pertubação da segurança de estado representada pelo massacre de algumas dezenas de parisienses é um assunto menor, quando comparado à conquista da propria modernidade – e, assim, do mundo – por um adversário bem mais ameaçador. Qualquer dignidade filosófica que seja encontrada na reflexão sobre o incidente de 13 de novembro jaz em sua adoção cognitiva como um retransmissor, levando de volta à estória principal, ‘o triunfo do capitalismo globalizado’.

É compreensível, portanto, que a elegância da apresentação de Badiou seja incapaz de ocultar completamente sua irritabilidade estrutural. ‘Nós’ fomos distraídos, que é como adultos entendem o ‘terror’. É uma distração de ‘pensamento’ que ocorreu aqui, Badiou insiste, e, assim, um aborrecimento, em múltiplos sentidos, incluindo aquele da simples condescendência. Como convém a um membro da elite sócio-cultural, a resposta de Badiou toma a forma de uma pensativa meta-irritação – uma irritabilidade dirigida à irritação como tal. Este é um reflexo anti-empírico e, portanto, de uma maneira definitiva, ‘francês’ – mas chegaremos a isto em breve. Aquelas dezenas de jovens mortos espalhados por Paris demandam algum reconhecimento afetivo, o que é indigno (e aborrecedor). Bem mais significantemente, a atrocidade incomoda as pessoas. É – precisamente como pretendido pelos perpetradores e também no sentido mais neutro da palavra – excitante. A resposta pública que extrai não é apenas filosoficamente inútil, mas positivamente deletéria ao trabalho do universal. ‘Então, para enfrentar estes riscos, creio que devemos conseguir pensar no que aconteceu.’

Eu também acho. Temos um dever para com a filosofia – o que é dizer, com nosso único modelo crível de nobreza – de sermos frios. Espasmos emocionais em resposta a respingos de sangue seriam impróprios. Seriam também uma contribuição integral para a realização do terror ‘fascista’. Pior de tudo, distraem. O terror excita a identidade, ao concentrá-la e empacotá-la em uma falsa simplicidade. Badiou não está preocupado em disfarçar o fato de que, para a Esquerda européia, em particular, a ‘identidade’ é o verdadeiro terror.

Existem, contudo, outras distrações – para ‘nós’. Quando Badiou proclama que ‘Nossa ferida não é tão recente’, somos compelidos a perguntar: Até onde se estende este pronome coletivo? Uma resposta a esta questão poderia ser prolongada sem limite definido. Tudo que poderíamos querer dizer, em última análise, se enrola nela, a ‘identidade’ mais obviamente. Qualquer significado que ‘comunismo’ possa ter tem seu lugar aqui, conforme ‘nós’ alcançamos a periferia do universal e, assim (concebivelmente), o fim da filosofia. A ‘francesidade’ é, de alguma maneira complexa, envolta por ele, entre outros conjuntos sociais de menor ou maior obscuridade. Esse ‘nós’ é o todo, mesmo quando está escondido na margem. É também estrategicamente não negociável. (Ninguém pergunta ‘quem?’ – como Badiou sabe que não o farão). Contrabandeado para dentro da gramática, ele diz tudo de consequência derradeira antes de qualquer resposta possível, enquadrando a controvérsia subsequente em seus termos. Um antagonismo soberano ou transcendental – estabelecido seguramente para além da discussão – assim anuncia a si mesmo, em um sussurro.

De maneira comparável, então, nós só podemos propor um outro ‘nós’ fora dele. Como já prometido, o detalhe – mesmo que só um pouco – logo se seguirá. Para o momento, é necessário apenas ser notado que a identidade ‘deles’ não pode ser assumida ser a ‘nossa’, não mais do que compartilhamos de seus problemas, seus sucessos ou suas derrotas. O pronome é remexido, despedaçado. Nós não somos ‘feridos’ pelo que lhes machuca, a não ser acidentalmente e, muito menos, pela falha de seu projeto coletivo. Seja qual for a malícia que possa aparecer nestas palavras, nos parece pura retaliação. Isto é apenas dizer que o ‘nós’ de Badiou já foi um projeto de mobilização e uma declaração de guerra, mesmo que apenas como recordação, e um gesto de desafio. A bruma que ‘nos’ envolve é a névoa da guerra. Ninguém pode ficar sinceramente chocado com isso. (Não somos crianças.) Nosso conflito não é tão recente.

‘Deve-se ver que a vitória objetiva do capitalismo globalizado é uma prática destrutiva e agressiva’, afirma Badiou. Podemos apenas dar de ombros, uma vez que, claro, para vocês (coletivamente), isso é simplesmente verdade. Os sucessos dele são suas derrotas, e reciprocamente. Ninguém está sendo educado por nada disso. Há não muito tempo, nos ameaçamos uns aos outros com ogivas termonucleares e carbonizamos estados ainda mais recentemente. As apostas, de ambos os lados, são absolutas. Não há – muito provavelmente – nada que não faríamos, se ainda fosse necessário, a fim de prevalecer um contra o outro. ‘Vitória’, ‘derrota’ – estão são as palavras de Badiou, mesmo que – por nenhuma razão que seja – guerra não seja, a princípio, embora logo será.

Deixe-nos explicar, então, aquilo que Badiou ainda deixa parcialmente implícito. Nós não nos importamos com o Islã. Ninguém se importa – pelo menos ninguém com que nos importemos, mas apenas ‘fascistas’. Para o mundo industrializado, ele nunca é mais do que um aborrecimento e, mais tipicamente, uma oportunidade complexa a ser explorada, uma arma a ser dirigida àqueles cujo antagonismo é respeitado. Tendo falhado na modernidade com uma abrangência que se aproxima do cômico, já faz séculos desde que o Islã teve qualquer tipo de reivindicação séria à história para perder – de modo que ‘toda uma seção da população global não conta para nada’, inevitavelmente. Podemos parasitar o desprezo superficialmente enterrado de Badiou sem qualificação: ‘é a fascização que islamiza, não o Islã que fasciza’. Nós decidiremos sobre a maneira de categorizar sua recusa de nossas categorizações. Sua frieza é testada por esta piada.

Não é que a religião seja exatamente nada, claro, mesmo para Badiou em seu momento mais francês. Não originalmente, em todo caso. ‘A religião pode perfeitamente bem agir como um molho identitário para tudo isto, precisamente na medida em que é um referente adequadamente anti-ocidental. Mas como vimos, na análise final, a origem desses jovens não importa muito, sua originam espiritual e religiosa, como dizem, e assim por diante.’ (Ela ‘não conta para nada’.) ‘O que conta é a escolha que eles fizeram sobre sua frustração’ (nós decidimos). ‘E eles se mobilizarão em torno da mistura de corrupção e heroísmo sacrificial e criminoso por causa da subjetividade que é sua, não por causa de sua convicção islâmica. Mais ainda, fomos capazes de ver que, na maioria dos casos, a islamização é terminal em vez de inaugural.’ Indivíduos niilistas, seduzidos para dentro do ‘fascismo’, articulando suas motivações em palavras que não contam para nada, patéticos comunistas existencialistas com falsa consciências, vadios maliciosos… se existem alguns recursos de desprezo a mais que poderiam ser adicionados a esta análise, eles não serão fáceis de encontrar. O que não é, de forma alguma, sugerir que encontraremos qualquer problemática aqui ou algo que precise de retificação.

Poderia facilmente ter sido alguma outra fé que fornecesse este ‘término’, espera-se que aceitemos (a menos que a concessão a ‘um referente adequadamente anti-ocidental’ seja a pista para uma alegação mais persuasiva – e decorosamente não dita). Tudo bem, nós aceitamos. Pelo bem de se seguir adiante, nós o aceitamos, apesar da extraordinário deformação de evidência história necessária para fazê-lo. Vamos fingir que nossos ‘fascistas’ jihadi são apenas aleatoriamente diferenciados dos budistas ou confucionistas, a fim de proceder às identidades que mais imediatamente nos preocupam.

Aqueles jovens parisienses mortos não podem ser ‘contados para nada’ tão facilmente. Eles certamente teriam feito um pouco de capitalismo, mesmo a despeito de si mesmos, e também – sendo jovens e franceses – bastante provavelmente um pouco de comunismo além disso, de modo que eles importam para ‘nós’, pelo menos um pouco. Os jovens ‘fascistas’ jihadi que os massacraram, em contraste – com nada para fazer além de uma distração – não são absolutamente nada, para nenhum de nós. Isto entristece Badiou, retórica e taticamente. ‘Sua própria vida não contava. E, uma vez que sua próprias vidas não contavam, as vidas dos outros não significavam nada para eles tampouco.’ Olha o que o capitalismo globalizado fez com eles. Talvez devêssemos voltar nossa atenção para esta monstruosidade historicamente produtiva bem mais séria, antes que incomodemos as pessoas – gratuitamente – com nossa insondável e inteiramente mútua indiferença.

Vamos recapitular. Temos uma estrutura mundial contemporânea dominada pelo triunfo do capitalismo globalizado. Temos um enfraquecimento estratégico dos estado e mesmo um processo contínuo do murchamento capitalista dos estados. E, em terceiro lugar, temos novas práticas de imperialismo que toleram e mesmo encorajam, em certas circunstâncias, a destruição e a aniquilação dos estados.

A estória principal dos tempos recentes tem sido ‘a liberação do liberalismo’ – a libertação do capitalismo – insiste Badiou. (Sua identidade preferida está em insistir nisto.)

Essa Coisa – o Grande Inimigo – não está desprovida de identidade, não importa o quão embaraçoso possa ser reconhecer explicitamente esse fato (isto é, sua factualidade como tal). Sucumbir à excitação quanto à empiricidade da ‘globalização capitalista’, em sua escandalosa singularidade, é se emocionar com seu vasto aborrecimento, em vez de seu desastre universal. Ainda assim, ela é, como todo mundo claramente reconhece, uma aflição global anglófona que ‘nos’ perturba e uma negligência ideológica anglófona que não ‘contou para nada’ aqueles sem qualquer parte produtiva a desempenhar em sua expansão. O maior inimigo é anglófono, anglo-saxão, anglo-americano – ‘anglo-judeu’, inevitavelmente será dito, se não por Badiou, então por inúmeros outros, incluindo especialmente os ‘fascistas’ islâmicos cujas sensibilidades se recusam a ser embotadas sobre o ponto. É, em todo caso, a circunscrição étnica positiva primariamente identificada com a ‘liberação do liberalismo’, quando isto é reconhecido com grosseiro realismo. Ninguém chega a ver quão peculiar está coisa é a partir de lugar nenhum. Seus críticos, podemos confiantemente – mesmo que indelicadamente – especular, foram ofendidos de maneira concreta. Eles foram ‘feridos’ – e não apenas tão recentemente.

Claro, não poderia haver nada mais sem tato do que articular a crítica ideológica na voz do ressentimento nacional. Da perspectiva da filosofia, falar em nome de qualquer identidade positiva – mesmo uma bem mais elegante do que a nação e suas categorias étnicas associadas – é uma simples desgraça. Identidades selecionadas poderiam ser exaltadas à distância, na proporção aproximada de seu status transgressor ou vitimológico, mas todo intelectual da elite entende profundamente – mesmo que apenas implicitamente – que a definição ôntica é sujeita.

Badiou é fastidioso, portanto, em evitar toda tentação de auto-identificação em termos menos do que universais. Sua ‘posição discursiva’ depende de sua identidade enquanto orgulhoso comunista, que meramente ocorre de ser francês. Há um custo a ser pago por isso, em honestidade – ou realismo – primeiro de tudo. Um utopismo coletivista necrótico não constitui um local plausível de enunciação, e ninguém acredita que o faça. Talvez seja por esta razão que Badiou se abstém de fechar completamente a porta para um certo ‘patriotismo’ nuançado, mesmo que sua narrativa catastrofista exija que ela seja mantida entreaberta apenas em um modo de nostalgia (e um que não esteja completamente desprovido de amargura). O que a França foi, enquanto potência revolucionária, ainda é afirmado, em um tom de uma só vez trágico e filosófico, extraindo a quantidade necessária de desapego de ambos:

A França, o que é singular sobre a França – porque, se existem valores franceses, devemos perguntar o que é singular sobre eles – é a tradição revolucionária. Republicana, em primeiro lugar, desde a revolução de ’89. E, então, socialista, anarco-sindicalista, comunista e, finalmente, esquerdista, tudo isto entre 1789 e, digamos, 1976. […] Mas tudo isso acabou. Acabou. A França não pode mais ser representada hoje, de nenhuma maneira crível, como o local privilegiado de uma tradição revolucionária. Antes, ela é caracterizada por uma coleção singular de intelectuais identitários.

A rendição da França ao vício identitarista não é nada além de parte da derrota mais abrangente. Ainda assim, a qualidade dramática da posição de Badiou aqui não deveria nos cegar para o que ela evade. O sotaque francês no que ele tem a dizer – tanto antes quanto depois desta passagem – se estende bem além de seu lamento pela vocação revolucionária murcha da nação. A identidade étnica que fala em sua palavras engloba, entre muitas outras coisas, um modo específico de aspiração universal, uma fé secular ‘libertada’ – desdenhosamente – da pompa religiosa e uma firme confiança na dignidade moral do Estado. Houve apenas uma única ‘revolução’ do tipo que ele herda como modelo, e ela foi Francesa. Ela identificava a razão com a inovação revolucionária – em um grau usualmente considerado divertido para além da esfera cultural gálica, apesar de sua encarnação ameaçadora em uma re-originação armada do estado a partir de princípios fundamentais. Naturalmente, estes ‘princípios fundamentais’ já eram uma rejeição da antiga religião, através de sua própria originalidade, e também uma exaltação da filosofia – como fundida nas chamas da insurreição. Eles eram os monstros nascidos do pesadelo metodicamente exacerbado e artificial de Descarte, liberado por uma passagem através do zero (dúvida radical), na qual a tradição orgânica foi imolada no altar do universal. Eles teriam – por exemplo – decimalizado o tempo e a geometria, e lutado fervorosamente para o fazer, repetidamente, sem sequer um momento de reserva piedosa ou dúvida residual… mas eles falharam. A história moderna, de um ângulo particular, mas iluminador, tem sido esta falha, esta derrota. Nossa Ferida Não É Tão Recente.

A identidade francesa, concebida de maneira radical, corresponde a um projeto nacional falido. Ela não é, na realidade, o exemplo supremo da derrota coletiva no período moderno e, assim, – de maneira concreta – da humilhação pelo capital? É a forma em que a ‘alternativa’ morre: de maneira local e não persuasiva, sem engajamento dialético, caindo – negligenciada – na dilapidação. Ela pode ser inserida em uma série limitada, embora não desconsiderável, de identidades que fazem uma reivindicação veemente à universalidade sem o fornecimento de qualquer critério efetivo através do qual estabelecê-la. Quando frustradas pela indiferença do exterior, tais pretensões objetivas tendem a virar ‘fascistas’, exatamente no sentido em que Badiou emprega. Sua reivindicações são mostradas – demonstravelmente – serem inconvincentes além de seu próprio domínio que encolhe. Elas são ignoradas, então eles ‘agem’. Uma certa loucura violenta é facilmente desovada. Ainda assim, raramente é mais do que uma distração.

Aquilo de que estamos sofrendo é de uma ausência, na escala global, de uma política que estivesse inteiramente desapegada da interioridade do capitalismo. É a ausência, na escala global, desta política que significa que um jovem fascista aparece, é criado. Não é o jovem fascista, o banditismo e a religião que criam a ausência de uma política de emancipação capaz de construir sua própria visão e definir suas próprias práticas. É a ausência desta política que cria a possibilidade do fascismo, do banditismo e das alucinações religiosas./

Esta é a análise de Badiou. As alfinetadas até agora – e os sofrimentos bem maiores por vir – resultam de uma derrota etno-política, em um longo conflito ainda relembrado por seus teimosos sobreviventes como um drama global do Universal. É uma derrota que eles imaginam – ou, pelo menos, ainda alegam imaginar – que poderia um dia ser desfeita. Quem os privaria de suas antigas canções, e estranhas bandeiras, e sonhos feridos?

Despeito ou triunfalismo são confusões identitárias, extravagâncias e também simplesmente erros que nós não podemos nos permitir. Nossa guerra está bem menos abrangentemente ganha do que a deles está perdida. Os adversários que importam – fascistas reais – têm controlado os altos comandos de nossas sociedades desde o New Deal. A dispersão tecno-econômica do poder permanece radicalmente incompleta. O sino-capitalismo – momentaneamente trêmulo – ainda tem que refazer o mundo. A ‘liberação do liberalismo’ mal começou. Nada disso é uma preocupação para Badiou, contudo, ou para os islamistas. Ela pertence a uma outra estória, e – pois esta é a ferida derradeira e septicamente inflamada – conforme ela corre adiante, cada vez mais rápido, ela não é remotamente deles.

Original.
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