Dentro da tradição ocidental, a expedição para encontrar Kurtz no fim do rio tem um única e esmagadora conotação. É uma viagem ao Inferno. Daí sua absoluta importância, excedendo totalmente as ‘especificações da missão’. Os objetivos atribuídos não são mais do que um pretexto, organizando os termos da aproximação a um destino derradeiro. A unidade narrativa, conforme ganha impulso, é verdadeiramente infernal. O Iluminismo Sombrio é a atração comandante.

Sem dúvida existem espécies de filosofia reacionária política e histórica que permanecem completamente inocentes de tais impulsos. Quase certamente, elas predominam sobre suas sócias mórbidas. Manter uma orientação psicológica retrógrada, por reverência ao que já foi e está deixando de ser, pode se opor de maneira razoável àqueles para quem a desintegração da tradição descreve um gradiente e um vetor, que propele a inteligência adiante, para dentro do abismo que se escancara.

A reação é articulada como uma inversão da promessa progressista, dissociando ‘o bem’ e ‘o futuro’. A narrativa tácita da ficção científica, que corresponde à evolução social projetada, é despojada de seu otimismo, e dois gêneros alternativos surgem em seu lugar. O primeiro, como fugazmente notamos, é suave e nostálgico, reequilibrando a tensão do tempo em direção ao que foi perdido e tendendo a uma residência cada vez mais onírica de antigas glórias. Uma mentalidade conservadora-tradicionalista se devota a uma busca mnemônica, preservando vestígios de virtude em meio a remanescentes de uma sociedade erodida, ou – quando a preservação finalmente renuncia à sua compreensão da realidade – se voltando para evocações fantástica, enquanto reduto final da resistência. Tolkien exemplifica essa tendência em sua expressão mais sistemática. O futuro é gentilmente obliterado, conforme o bem morre dentro dele.

A segunda alternativa reacionária à ruína do futurismo utópico se desenvolve na direção do horror. Ela não hesita em sua viagem ao fim do rio, mesmo quando agouros envoltos em fumaça se espessam no horizonte. Conforme a devastação se aprofunda, seu futurismo é ainda mais acentuado. A projeção histórica se torna a oportunidade para uma exploração do Inferno. (O ‘neo-‘ da ‘neorreação’, assim, encontra uma confirmação adicional.)

Nessa trajetória, a antecipação histórica reacionária se funde com o gênero do horror em sua possibilidade mais intensa (e verdadeira vocação). Numerosas consequências ficam bem rapidamente evidentes. Uma zona especial de significância se refere à insistente questão da popularização, que está substancialmente resolvida, quase desde o começo. O gênero do populismo reacionário já está firmemente formulado, no lado da ficção de horror, onde coisas indo para o Inferno é uma pressuposição estabelecida. O Apocalipse Zumbi é apenas a variante mais proeminente de uma acomodação cultural bem mais geral ao desastre iminente. O ‘sobrevivencialismo’ é uma convenção do gênero tanto quanto uma expectativa sócio-política. (Quando, como VXXC aponta no blog, a munição .22 funciona como uma moeda virtual, a ficção de horror já se instalou como uma dimensão da realidade social.)

A reação não faz dialética, nem conversa com a Esquerda (com a qual não tem nenhuma comunidade), ainda assim a fatalidade histórica carrega sua mensagem: Suas esperanças são nossa estória de horror. Conforme o sonho perece, o pesadelo se fortalece e até mesmo – horrendamente – se revigora. Então, como se desenrola esse conto …?

elysium

O que você estava esperando? Valfenda?

Original.
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