Primeira coisa: “Meta-Neocameralismo” não é nada novo e certamente não é nada pós-Moldbugiano. Não é mais do que o Neocameralismo apreendido em seus aspectos mais abstratos, através da cunhagem de um termo provisório e dispensável. (Ele permite um acrônimo que não leva a confusões com a Carolina do Norte, ao passo que encoraja confusões bastante diferentes, que eu estou fingindo não notar.)

De maneira local (a este blog), o “meta-” é a marca de um prolegômeno a uma discussão disciplinada sobre o Neocameralismo, que tem que ocorrer mais tarde. Sua abstração é introdutória, de acordo com algo que ainda deve ser recomeçado, ou reanimado, em detalhe. (Para os detalhes, fora o cânone de Moldbug em si, olhe aqui.)

A excelente seção de comentários aqui (pt) fornece pelo menos algumas indicações cruciais:

nydwracu (23/03/2014 at 6:47 pm): O Neocameralismo não responde a questões como essa [sobre as especificidades da organização social]; em vez disso, ele é um mecanismo para responder questões como essa. … Você pode perguntar “a Coca é considerada melhor do que a RC Cola?” ou você pode instituir o capitalismo e descobrir. Você pode perguntar “estados etno-nacionalista são considerados melhores do estados mistos?” ou você pode instituir o patchwork e descobrir. …

RiverC (23/03/2014 at 3:44 am): O Neo-cameralismo é, se visto nesta luz, um ‘sistema de sistemas políticos’, ele não é um sistema político, mas um sistema para se implementar sistemas políticos. Claro, o mesmo cara que o propôs também inventou um sistema operacional (um sistema para se implementar sistemas de software.)

O MNC, então, não é uma prescrição política, por exemplo, um ideal social alinhado com as preferências tecno-comercialistas. Ele é um framework intelectual para se examinar sistemas de governança, teoricamente formalizados como disposições de propriedade soberana. A formalização social de tais sistemas, que Moldbug também promove, pode ser colocada em parênteses no MNC. Não estamos, neste estágio, considerando o modelo de uma ordem social desejável, mas sim o modelo abstrato de ordem social em geral, apreendido radicalmente – na raiz – onde ‘governar’ e ‘possuir’ carecem de significados distintos. A propriedade soberana é ‘soberana’ e ‘primária’ porque ela não é meramente uma reivindicação, mas uma posse efetiva. (Há muito mais a vir, em posts posteriores, sobre o conceito de propriedade soberana, algumas meditações preliminares aqui.)

Uma vez que o MNC é um artigo extremamente poderoso de tecnologia cognitiva, capaz de resolver problemas em uma série de níveis distintos (em princípio, uma série ilimitada), ele é esclarecido através da segmentação em uma cascata de abstração. Descer por estes níveis adiciona concretude e inclina-se incrementalmente em direção a julgamentos normativos (emoldurados pelo imperativo hipotético do governo efetivo, como definido dentro da cascata).

(1) O nível mais alto de significância prática (uma vez que a teologia do MNC não precisa nos atrasar) já foi tocado. Ele se aplica a regimes sociais de todo tipo concebível, assumindo apenas que um modo sistemático de reprodução de propriedade soberana caracterize cada um de maneira essencial. O poder é econômico, independente de sua relação com as convenções modernas de transação comercial, porque ele envolve a disposição de uma quantidade real (mesmo que obscura), que está sujeita a aumento ou diminuição ao longo do curso cíclico de sua mobilização. População, território, tecnologia, comércio, ideologia e inúmeros outros fatores heterogêneos são componentes da propriedade soberana (poder), mas seu caráter econômico é garantido pela possibilidade – e, na verdade, necessidade – de compromissos mais ou menos explícitos e cálculos de custo-benefício, sugerindo uma fungibilidade original (mesmo que germinal), que é meramente coerência aritmética. Isto é pressuposto por qualquer estimativa de crescimento ou declínio, sucesso ou falha, fortalecimento ou enfraquecimento, do tipo exigido não apenas pela análise histórica, mas também até mesmo pela mais elementar competência administrativa. Sem uma economia implícita de poder, nenhuma discriminação poderia ser feita entre melhoria e deterioração, e nenhuma ação dirigida à primeira seria possível.

A reprodução cíclica efetiva do poder tem um critério externo – sobrevivência. Não está aberto a nenhuma sociedade ou regime decidir por si mesmo o que funciona. Seu entendimento inerente de sua própria economia de poder é uma medida complexa, que afere uma relação com o lado de fora, cujas consequências são vida e morte. Incorporada na ideia de propriedade soberana desde o princípio, portanto, está uma acomodação à realidade. Fundamental ao MNC, no nível mais alto de análise, é a compreensão de que o poder é restrito primordialmente. Do Lado de Fora estão os lobos, servindo como o flagelo de Gnon. Mesmo o maior de todos os Deuses-Reis imagináveis – o incrível Fnargl incluso – tem, em última análise, que descobrir consequências, em vez de inventá-las. Não há princípio mais importante que este.

A entropia será dissipada, a estupidez será punida, os fracos morrerão. Se o regime se recursar a se curvar a esta Lei, os lobos irão aplicá-la. O Darwinismo Social não é uma escolha que as sociedades podem fazer, mas um sistema de consequências reais que lhes engloba. O MNC é articulado no nível – que não pode ser transcendido – em que o realismo é obrigatório para qualquer ordem social. Aquelas incapazes de criá-lo, através do governo efetivo, o receberão mesmo assim, nas severas tempestades de Nêmesis. A ordem não é definida dentro de si mesma, mas pela Lei do Lado de Fora.

Neste nível mais alto de abstração, portanto, quando se pergunta ao MNC “em que tipo de regimes você acredita?”, a única resposta apropriada é “aqueles compatíveis com a realidade”. Toda sociedade conhecida pela história – e outras além – tem um economia funcional de poder, pelo menos por um tempo. Nada mais além disso é necessário para que o MNC lhes assuma como objetos de investigação disciplinada.

(2) Sabendo que o realismo não é um regime opcional de valor, somos capazes de proceder abaixo na cascata do MNC, com a introdução de uma segunda suposição: Civilizações buscarão professores mais gentis do que os lobos. Se for possível adquirir algum entendimento sobre o colapso, isso será preferido à experiência do colapso (uma vez que os lobos tiverem retirado os ineducáveis da história).

Tudo a que se pode sobreviver é potencialmente educacional, mesmo um espancamento pelos lobos. O MNC, contudo, como seu nome sugere, tem razão para estar atento especialmente à lição mais abstrata do Lado de Fora – a prioridade (lógica) do meta-aprendizado. É bom descobrir a realidade, antes – ou, pelo menos, não muito mais tarde – de a realidade nos descobrir. Civilizações duráveis não meramente sabem de coisas, elas sabem que é importante saber coisas e absorver informação realista. Regimes – dispondo de propriedade soberana – têm uma especial responsabilidade de instanciar esta dêutero-cultura de aprender-a-aprender, que é necessária para o governo inteligente. Esta é uma responsabilidade que eles tomam sobre si mesmo porque é exigido pelo Lado de Fora (e mesmo em seu requinte, ainda cheira a lobo).

O poder está sob tal compulsão a aprender sobre si mesmo que a recursão, ou intelectualização, pode ser assumida. O poder é selecionado para se restringir, o que ele não pode fazer sem um aumento em formalização, e isto é uma questão – como veremos – de imensas consequências. Por necessidade, ele aprende-a-aprender (ou morre), mas estão lição introduz um fator trágico crítico.

A tragédia do poder é em grande parte coincidente com a modernidade. Não é um tópico simples, e, desde o princípio, dois elementos em particular exigem atenção explícita. Primeiramente, ele encontra a aterrorizante verdade (de segunda ordem) de que o aprendizado prático é irredutivelmente experimental. Ao se tornar ‘meta’, o conhecimento se torna científico, o que significa que a falha não pode ser precluída através da dedução, mas tem que ser incorporada no maquinário do próprio aprendizado. Nada que não possa dar errado é capaz de ensinar qualquer coisa (mesmo a acumulação de verdades lógicas e matemáticas exige tentativa-e-erro cognitivo, aventuras em becos sem saída e a perseguição de intuições enganadoras). Em segundo lugar, ao se tornar cada vez mais formalizada e cada vez mais fungível, a disposição de poder soberano atinge uma elevada liquidez. Agora é possível que o poder se venda, e uma explosão de barganha social resulta. O poder pode ser trocado por (‘mera’) riqueza, ou por paz social ou canalizado para formas sem precedentes de regimes radicais de filantropia / sacrifício religioso. Combine esses dois elementos, e está claro que regimes entram na modernidade ’empoderados’ por novas capacidades para a auto-dissolução experimental. Vender a autoridade para as massas em troca de promessas de bom comportamento? Por que não dar uma chance?

O MNC no Estágio-2 da Cascata, desta maneira, assume (realisticamente) um mundo em que o poder se tornou uma arte de experimentação, caracterizado por calamidades sem precedentes em uma escala colossal, ao passo que a economia de poder e a economia tecno-comercial foram radicalmente de-segmentadas, produzindo um sistema único, irregular, mas incrementalmente suavizado de valor social trocável, ondulando sempre para fora, sem limite firme. A organização sociopolítica e a organização corporativa ainda são distinguidas por marcadores de status tradicional, mas não são mais estritamente diferenciáveis por função essencial.

O negócio moderno do governo não é ‘meramente’ negócios apenas porque ele permanece mal formalizado. Como a discussão anterior sugere, isto indica que pode se esperar que a integração econômica se aprofunde, conforme a formalização do poder proceda. (Moldbug busca acelerar este processo.) Uma suposição inercial de esferas ‘pública’ e ‘privada’ distintas é rapidamente perturbada por redes de troca em espessamento, que permutam procedimentos administrativos e pessoal, financiam ambições políticas, gastam recursos políticos em esforços comerciais de lobby, trocam ativos econômicos por favores políticos (denominados em votos) e, em geral, consolidam um reservatório vasto e altamente líquido de valor anfibiamente ‘corporacrático’, indeterminável entre ‘riqueza’ e ‘autoridade’. A interconversibilidade riqueza-poder é uma índice confiável da modernidade política.

O MNC não decide que o governo deveria se torna um negócio. Ele reconhece que o governo se tornou um negócio (que lida com quantidades fungíveis). Contudo, ao contrário de empreendimentos comerciais privados, que dissipam entropia através de falências e reestruturação dirigida ao mercado, os governos são confiavelmente os negócios pior administrados em suas respectivas sociedades, funcionalmente aleijados por modelos organizacionais defeituosos e estruturalmente desonestos, exemplificados mais proeminentemente pelo princípio democrático: o governo é um negócio que deveria ser administrado por seus clientes (mas, na verdade, não pode ser). Tudo neste modelo que não é uma mentira é um erro.

No segundo nível (descendente) de abstração, então, o MNC ainda não está recomendando nada além de clareza teórica. Ele propõe:
a) O poder está destinado a chegar a processos experimentais de aprendizado
b) Conforme ele aprende, ele se formaliza e se torna mais fungível
c) Experimentos em poder fungível estão vulneráveis a erros desastrosos
d) Tais erros de fato já ocorreram, de uma forma semi-total
e) Por razões históricas profundas, a organização empresarial tecno-comercial emerge como o modelo proeminente para entidades governamentais, tanto quanto para qualquer agente econômico composto. É em termos deste modelo que a disfunção política moderna pode ser tornada (formalmente) inteligível.

(3) Pegue o elevador de abstração do MNC para baixo mais um nível, e ele ainda é mais uma ferramenta analítica do que uma prescrição social. (Isso é uma coisa boa, de verdade.) Ele nos diz que todo governo, tanto existente quanto potencial, é mais acessível à investigação rigorosa quando apreendido como uma corporação soberana. Apenas esta abordagem é capaz de recorrer a toda a panóplia de recursos teóricos, antigos e modernos, porque somente desta maneira o poder é rastreado da mesma forma em que ele realmente se desenvolveu (em estreito alinhamento com uma tendência ainda incompleta).

As objeções mais óbvias são, sensu stricto, românticas. Ela assumem uma forma previsível (o que não quer dizer que seja casualmente descartável). O governo – mesmo que talvez o governo perdido ou ainda irrealizável – é associado a valores ‘mais elevados’ do que aqueles julgados comensuráveis com a economia tecno-comercial, o que estabelece, assim, a base para uma crítica da ‘ontologia empresarial’ MNC da governança como uma redução intelectual ilegítima e uma vulgarização ética. Quantificar a autoridade como poder já é suspeito. Projetar sua liquidação incremental em uma economia geral, em que a liderança se integra – cada vez mais perfeitamente – com o sistema de preços, aparece como um sintoma abominável do niilismo modernista.

A lealdade (ou o conceito intricadamente relacionado de asabiyyah) serve como um reduto exemplar da causa romântica. Não é repulsivo sequer entreter a possibilidade de que a lealdade poderia ter um preço? Handle aborda isto diretamente na seção de comentários já citada (24/03/2014 at 1:18 am). Uma pequena amostra captura a linha de seu engajamento:

Programas de incentivo à preservação da lealdade são vários e altamente sofisticados e abrangem o espectro todo desde milhas para passageiros frequentes a ‘clubes’ que são cativantes e demorados de tal maneira que imitam a satisfação de toda a comunidade, socialização e funções psicológicas identitárias que deixariam mesmo o religioso tradicionalista mais incondicional com inveja. Porque muitas pessoas são geneticamente programadas com esta sub-rotina de coordenação que é facilmente explorável em uma contexto muito distante de suas origens evolutivas. Às vezes as marcas ‘merecem’ a lealdade competitiva especial (‘engenharia alemã’!) e às vezes elas não merecem (paracetamol da marca Tylenol).

Há muito mais que pode, e será, dito no prosseguimento desta disputa, uma vez que ela talvez seja o condutor mais crítico da fissão da NRx e não vai suportar uma solução. A alegação MNC fria, contudo, pode ser empurrada bem através dela. A autoridade está à venda e assim esteve por séculos, de modo que qualquer análise que ignore este nexo de câmbio é uma evasão histórica. O D-M-D’ de Marx, através do qual o capital monetizado se reproduz e se expande através do ciclo da mercadoria, é acompanhado por um igualmente definido ciclo D-P-D’ ou P-D-P’ de circulação-aumento de poder através da riqueza monetizada.

Uma ressalva tentadora, com raízes veneráveis na sociedade tradicional, é lançar dúvida sobre a predominância de tais redes de troca, sobre a suposição de que o poder – possivelmente mais dignificado como ‘autoridade’ – goza de uma suplemento qualitativo em relação ao valor econômico comum, de tal modo que ele não pode ser retro-transferido. Quem trocaria autoridade por dinheiro, se a autoridade não pode ser comprada (e está, de fato, “além do preço”)? Mas este ‘problema’ se resolve, uma vez que a primeira pessoa a vender um cargo político – ou seu equivalente menos formal – imediatamente demonstra que ele pode ser não menos facilmente comprado.

Desde o estágio mais primário e abstrato deste esboço do MNC, insistiu-se que o poder tem que ser avaliado economicamente, por si mesmo, se qualquer coisa como um cálculo prático dirigido a seu aumento deva ser possível. Uma vez que isto seja concedido, a análise MNC da entidade governamental em geral enquanto um processador econômico – isto é, uma empresa – adquire ímpeto irresistível. Se lealdade, asabiyyah, virtude, carisma e outros valores elevados (ou ‘incomensuráveis’) são fatores de poder, então eles já são inerentemente auto-economizantes dentro do cálculo do estadismo. O próprio fato de que eles contribuem, determinadamente, para uma estimativa geral de força e fraqueza atesta seu status econômico implícito. Quando uma empresa tem uma liderança carismática, capital reputacional ou uma forte cultura de lealdade à empresa, tais fatores são monetizados como valores patrimoniais pelos mercados financeiros. Quando um Príncipe inspeciona a ‘qualidade’ do domínio de um outro, ele já estima as prováveis despesas de inimizade. Para as burocracias militares modernas, tais cálculos são rotina. Valores incomensuráveis não sobrevivem ao contato com verbas de defesa.

Ainda assim, não importa o quão sinistro seja este movimento (de uma perspectiva romântica), o MNC não diz a ninguém como projetar uma sociedade. Ele diz apenas que um governo efetivo necessariamente parecerá, para ele, como uma empresa (soberana) bem-organizada. A isto, pode-se adicionar os corolários:
a) A efetividade do governo está sujeita a um critério externo, fornecido por um mecanismo trans-estatal e inter-estatal. Isto poderia tomar a forma da pressão do Patchwork (Geografia Dinâmica) em uma ordem civilizada, ou concorrência militar na região selvagem rondada por lobos do caos hobbesiano.
b) Sob estas condições, pode-se esperar que a racionalidade calculacional do MNC seja atraente para os próprios estados, qualquer que seja a sua variedade de forma social. Alguma convergência (considerável) sobre normas de estimativa e arranjo econômicos é, desta forma, previsível, a partir dos contornos descobertos da realidade. Há coisas que falharão.

Valores não econômicos são mais facilmente invocados do que perseguidos. Foseti (comentando aqui (pt), 23/03/2014 at 11:59 am) escreve:

Ninguém disputa que a meta da sociedade são bons cidadãos, mas a questão é que tipo de governo fornece esse resultado. […] Até onde eu consigo dizer, temos apenas duas teorias de governança que foram expressas. […] A primeira é a capitalista. Como Adam Smith notou, as melhores corporações (em todas as medidas) são as que são operadas por motivos claros, mensuráveis e egoístas. […] A segunda é a comunista. Neste sistema, as corporações são geridas para o benefícios de todos no mundo. […] Não surpreendentemente, as corporações geridas sobre o último princípio encontraram uma número incrivelmente grande de maneiras de serem uma merda. Não coincidentemente, assim o fizeram os governos do século XX geridos sobre o mesmo princípio. […] Eu acho que é quase impossível exagerar as maneiras em que todo mundo estaria melhor se tivéssemos um governo eficientemente, efetivo e responsável.

* Eu entendo que isso não funciona em Grego, mas a confusão sistemática de antes com depois é uma coisa deste blog.

Original.
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