Algumas passagens de definição de cena da resenha Supernatural Horror in Literature de H. P. Lovecraft:

A mais antiga e mais forte emoção da humanidade é o medo, e a mais antiga e mais forte forma de medo é o medo do desconhecido. Estes fatos poucos psicólogos disputarão, e sua verdade admitida deve estabelecer para todo o tempo a genuinidade e dignidade do conto esquisitamente horrível enquanto forma literária.

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O apelo do espectralmente macabro é geralmente restrito porque ele demanda do leitor um certo grau de imaginação e uma capacidade de distanciamento da vida cotidiana. Relativamente poucos são livres o suficiente do feitiço da rotina diária para responder às batidas do lado de fora…

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Uma vez que lembramos da dor e da ameaça de morte mais vividamente do que do prazer e uma vez que nossos sentimentos em relação aos aspectos benéficos do desconhecido foram, desde o princípio, capturados e formalizados pelos rituais religiosos convencionais, ficou para o lote do lado mais sombrio e mais maléfico do mistério cósmico figurar de maneira principal em nosso folclore popular sobrenatural. Esta tendência, também, é naturalmente realçada pelo fato de que a incerteza e o perigo estão sempre intimamente aliados; tornando, assim, qualquer tipo de mundo desconhecido um mundo de perigo e possibilidades malignas. Quando, a este sentido de medo e maleficência, o inevitável fascínio do maravilhamento e da curiosidade é acrescentado, nasce um corpo composto de aguda emoção e provocação imaginativa, cuja vitalidade deve, por necessidade, durar tanto quanto a própria raça humana. As crianças sempre terão medo do escuro, e homens com mentes sensíveis ao impulso hereditário sempre estremecerão com o pensamento de mundos ocultos e insondáveis, de vida estranha, que podem pulsar nos golfos além das estrelas ou se imprimir horrendamente sobre o nosso próprio globo, em dimensões profanas que apenas os mortos e os lunáticos podem vislumbrar.

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O verdadeiro conto esquisito tem algo mais do que um assassinato secreto, ossos sangrentos ou uma forma envolta em lençóis tinindo correntes, de acordo com a regra. Uma certa atmosfera de pavor ofegante e inexplicável de forças exteriores e desconhecidas deve estar presente; e deve haver uma pista, expressa com uma seriedade e portentosidade que se torna seu assunto, daquela mais terrível concepção do cérebro humano – uma suspensão ou derrota maligna e particular daquelas leis fixas da Natureza que são nossa única salvaguarda contra os ataques do caos e dos demônios do espaço insondável.

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O único teste do realmente esquisito é simplesmente este – se foi ou não excitado, no leitor, um profundo sentido de temor e contato com esferas e poderes desconhecidos; uma sutil atitude de escuta aterrorizada, como se fosse pelo bater de asas negras ou pelo arranhar de formas e entidades exteriores sobre a orla mais remota do universo conhecido.

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Antes de Poe, a maior parte dos escritores esquisitos houvera trabalhado no escuro; sem um entendimento da base psicológica do apelo do horror e prejudicados por mais ou menos da conformidade a certas convenções literárias vazias, tais como o final feliz, a virtude recompensada e, em geral, um didatismo moral oco, aceitação de padrões e valores populares e um esforço do autor de intrometer suas próprias emoções na estória e tomar lados com os partidários das ideias artificiais da maioria. Poe, por outro lado, percebeu a impessoalidade essencial do real artista; e sabia que a função da ficção criativa é meramente expressar e interpretar eventos e sensações como elas são, independente de ao que elas tendem ou do que elas provam – boas ou más, atraentes ou repulsivas, estimulantes ou depressivas – com o autor sempre agindo como um cronista vívido e distanciado, em vez de como um professor, simpatizador ou vendedor de opinião. Ele via claramente que todas as fases da vida e do pensamento são igualmente elegíveis como assunto para o artista e, sendo inclinado por temperamento à estranheza e à melancolia, decidiu ser o interpretador daquele poderoso sentimento e frequentes acontecimentos que tratam da dor ao invés do prazer, da decadência ao invés do crescimento, do terror ao invés da tranquilidade e que são fundamentalmente adversos ou indiferentes aos gostos e sentimentos extrínsecos tradicionais da humanidade e à saúde, sanidade e bem-estar expansivo normal da espécie.

Os espectros de Poe, desta forma, adquiriram uma malignidade convincente, não possuída por nenhum de seus predecessores, e estabeleceram um novo padrão de realismo nos anais do horror literário.

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O público para quem Poe escrevia, embora tivesse grosseiramente pouco interesse em sua arte, não estava de forma alguma pouco acostumado com os horrores com os quais ele lidava. A América, além de herdar o folclore sombrio usual da Europa, tinha um fundo adicional de associações esquisitas no qual se basear… dos agudos interesses espirituais e teológicos dos primeiros colonos, mais a natureza estranha e proibitiva da cena na qual eles foram mergulhados. As vastas e sombrias florestas virgens em cuja penumbra perpétua todos os terrores poderiam bem espreitar; as hordas de índios acobreados cujas fisionomias estranhas e saturninas e costumes violentos insinuavam fortemente traços de origem infernal; a rédea livre, dada sob a influência da teocracia puritana, a todo tipo de noções a respeito da relação do homem com o Deus severo e vingativo dos calvinistas e com o adversário sulfuroso desse Deus, sobre quem tanto se trovejava nos púlpitos a cada domingo; a a mórbida introspecção desenvolvida por uma vida isolada no interior, desprovida dos divertimentos normais e do humor recreativo, assediada pelas ordens de auto-exame teológico, afinada para a repressão emocional antinatural e que formava, sobretudo, uma mera luta severa pela sobrevivência – todas estas coisas conspiravam para produzir um ambiente no qual os sussurros negros de anciãs sinistras eram ouvidos bem além do canto das chaminés, e no qual contos de bruxaria e monstruosidades secretas inacreditáveis perduraram muito depois dos dias de pavor do pesadelo de Salem.

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Dos criadores vivos de medo cósmico elevado a seu tom mais artístico, poucos se quaisquer podem esperar se igualar ao versátil Arthur Machen; autor de uma dúzia de contos, longos e curtos, nos quais os elementos de horror oculto e susto chocante atingem uma sustância e uma agudeza realista quase incomparáveis. …Dos contos de horror do Sr. Machen, o mais famoso talvez seja “The Great God Pan” (1894), que conta sobre um experimento singular e terrível e suas consequências. …O melodrama está inegavelmente presente, a coincidência é estendida a uma distância que parece absurda sob análise; mas, na bruxaria maligna do conto como um todo, essas ninharias são esquecidas, e o leitor sensível chega ao fim com apenas um arrepio apreciativo e uma tendência a repetir as palavras de um dos personagens: “É incríveis demais, monstruoso demais; tais coisas não podem nunca existir neste mundo quieto… Ora, homem, se tal caso fosse possível, nossa terra seria um pesadelo”.

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Para aqueles que apreciam especulações em relação ao futuro, o conto de horror sobrenatural fornece um campo interessante. Combatido por uma onda crescente de realismo laborioso, leviandade cínica e desilusão sofisticada, ele ainda é encorajado por uma maré paralela de crescente misticismo, da forma como foi desenvolvido tanto através da reação fatigada de “ocultistas” e fundamentalistas religiosos contra a descoberta materialista, quanto através da estimulação do maravilhamento e da fantasia por panoramas ampliados e barreiras quebradas tais quais a ciência moderna nos deus, com sua química intra-atômica, astrofísica avançada, doutrinas da relatividade e sondagens na biologia e no pensamento humano.

Original.
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