Zack

Zumbis reduzem o tom, de inúmeras maneiras. A decadência sócio-biológica é seu elemento natural, levando a vida em direção a uma afetividade de grau zero, sem neutralizar um animação agora repulsiva. Eles existem para serem chacinados – em retaliação – o que, por sua vez, promove sua descida, por entre o darwinismo pulp da mídia de entretenimento, às profundezas da insensatez, onde a vitória está praticamente assegurada. Conforme o mundo desmorona em um lodo dinâmico, o horror popular fica cada vez mais infestado de zumbis.

Quando conjeturados como um antagonista militar em escala global, Max Brooks ‘os’ chama de Zack (entre outras coisas). Se ‘Charlie’ abrevia ‘Victor Charlie’ enquanto substantivo do jargão casual para Viet Cong, como se deriva ‘Zack’? Brooks não oferece nenhuma resposta específica. Parece pelo menos plausível que ‘Zombie Apocalypse‘ seja o termo que sofreu compressão. Em todo caso, ‘Zack’ é um nome com um futuro, fornecendo um substantivo coletivo – ou denso – conciso para uma síndrome monstruosa que assoma além do horizonte histórico.

‘Zack’, assim como ‘Charlie’, é o inimigo, apelidado com um informalidade projetada para enfatizar a redução. A intensidade do rótulo é associada com sua ambivalência, como um cognome que libera ou legitima a matança irrestrita. ‘Zack’ soa como se ‘ele’ pudesse ser nosso camarada, de modo que possamos desencadear violência contra ‘ele’ sem escrúpulos ou inibição. Por mais estranha que pareça essa fórmula psicológica, Brooks a herda, em vez de inventá-la.

Charlie já é uma abstração da familiaridade ética, mas nada como Zack. Onde acabamos, Zack se inicia, recrutando nossos cadáveres em enxames mortos-vivos. Nossas calamidades são ‘sua’ munição, porque Zack é puro armamento, a primeira verdadeira instanciação da guerra total, encarnando perfeitamente o antagonismo à sobrevivência humana. Zack não é nada além do inimigo, ‘que’ – inteiramente desprovido de propósitos ou interesses não beligerantes – não pode ser aterrorizado, intimidado ou dissuadido. Assustar Zack? Não se tem chance menor de assustar um vírus de resfriado. Então as coisas sempre retornam à mesma conclusão básica: Zack tem que ser morto, como nada foi antes (muito embora – ou especialmente porque – já esteja morto).

Brooks é um neo-tradicionalista zumbi. Seus mortos-vivos re-animados se arrastam (lentamente). Propagam-se através de contágio canibal. Apenas ferimentos na cabeça os exterminam. Mas os zumbis não são os monstros. Zack é o monstro. É a síndrome – a onda convergente – que realiza o fenômeno, como uma questão de espalhar enxames, ou populações irredutíveis.

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Taticamente, a força de Zack é o número, a resistência esmagadora e se reabastecer com as baixas que inflige. Estrategicamente, ele prevalece através de um choque sistêmico, no padrão de epidemia e registrado não como o vampiro humanoide ‘individual’, mas como um surto emergente e global. Não há qualquer prospecto de neutralização racional ou ‘desapaixonadamente’ efetiva até que seja entendido que Zack não é uma mera horda vampiresca, mas um trauma planetário singular. Zack é tensão total.

Brooks insiste no realismo de seus métodos:

Os zumbis podem ser falsos, mas eu queria que todo o resto em “Guerra Mundial Z” fosse real. Assim como com “O Guia de Sobrevivência a Zombies”, eu queria que a estória estivesse enraizada em fatos concretos. É por isso que eu pesquisei a geopolítica real do mundo no início do século XXI, a ciência militar, a macroeconomia e as peculiaridades culturais de cada país sobre o qual eu estava escrevendo. Por mais criativo que eu pense que sou, eu também sei que não consigo inventar nada tão interessante (ou assustador) quanto o planeta real em que vivemos. Como um nerd historiador, eu também queria embasar o livro na estória de vida de nossa espécie. Nada em “Guerra Mundial Z” foi inventado, tudo realmente aconteceu: Yonkers foi Isandlwana; o encobrimento chinês foi a SARS. Não há nada que os zumbis possam fazer conosco que já não tenhamos feito uns aos outros.

Pegue o mundo, exatamente como ele é, e postule um tensionador como destinação histórica. Projete, com toda precisão possível, uma colisão especulativa com um desastre absoluto – uma guerra mundial total que também é uma praga, um precipício de degeneração biossocial e um episódio psicótico universal – isso é Zack. Compreensivelmente, as pessoas ficarão relutantes em descrever este método como realismo derradeiro. Não obstante, conforme as coisas desordeiramente se desenrolam, vamos ouvir muito mais sobre ele.

Original.
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