Como chegamos a esta confusão? Quando a neorreação entra no modo contemplativo, ela logo chega a uma questão parecida com essa. Algo evidentemente deu muito errado e, muito provavelmente, um número considerável de coisas.

O foco de interesse preferido decide a espécie particular de perdicionismo, dentro de uma taxonomia já luxuriante de crítica social. A base comum que existe na nova ultra-direita é lançada, como uma sombra, pela Catedral – que nenhum neorreacionário pode interpretar como algo além de uma calamidade histórica radical. O reconhecimento disto (ou ‘Iluminismo Sombrio’) é uma coalescência e, por isso mesmo, uma aglomeração físsil, como mesmo a turnê mais superficial pela ‘reactosfera’ deixa claro. (O blogroll de Outside in já representa uma distribuição específica de atenção,  mas dentro de três cliques, ele te levará a todo lugar, desde libertários desiludidos até tradicionalistas trono-e-altar, ou de hedonistas biorrealistas de gênero a conspirações neonazistas.)

Mas, de verdade, como chegamos a esta confusão? Uma variedade vertiginosa de pontos de parada históricos mais ou menos convincentes e mais ou menos distantes podem ser propostos, e o foram. A regressão explicativa leva a discussão para cada vez mais longe – pelo menos em princípio – até que, eventualmente, o salto para com Gnon, que nos largou nisso em algum lugar sombriamente remoto. É uma situação altamente condutiva ao contar de estórias, então eis aqui uma estória. É um conto de escala média, intermediário entre – digamos – a inauguração do Federal Reserve e o distúrbio estrutural de personalidade da Cabeça de Deus.

Como aviso preliminar, esta é uma descrição que só funciona – na medida em que funciona de alguma forma – para aqueles que acham que a crise de inteligência negativa está na raiz do problema. Aqueles neorreacionários, sem dúvida existentes entre nós, que tendem a ver o aumento de inteligência como uma faixa de alta velocidade em direção ao inferno poderiam, não obstante, achar esta narrativa sugestiva de outras maneiras.

Versão curta: foram os macacos.

Versão longa: há uma tentadora formula cósmica para a base biológica de civilizações tecnológicas, que os cetáceos enfraquecem. Eu encontrei a exceção antes da fórmula (cerca de 40 anos atrás), em um pequeno conto de Larry Niven chamado The Handicapped. Esta história – dragada agora de uma memória distante – é sobre golfinhos e seu papel em uma civilização trans-específica e interplanetária. O ponto central é que (ao contrário dos macacos), tais animais necessitam de uma doação externa de próteses antes que possam se tornar tecnológicos e, assim, aplicar sua inteligencia dentro do Oecumenon. Sua ‘deficiência’ é uma notável evolução da capacidade cognitiva além da competência manipulativa. As tendências naturais que geraram a inteligência continuam a trabalhar sobre eles, não sendo interrompidas pela interferência tecno-histórica.

A tese (falha) com que os cetáceos rompem ainda tem que ser ajustada em uma fórmula inteiramente satisfatória, mas é algo assim: toda espécie que entra no processo de desenvolvimento tecno-histórico é tão desinteligente quanto possa ser. Em outras palavras, tão logo a inteligência mal seja suficiente para ‘fazer’ história, a história começa, de modo que os habitantes de sociedades históricas (pré-singularidade) – onde quer que eles se encontrem – não serão mais do que minimamente inteligentes. Este nível de inteligência limiar é uma constante cósmica, em vez de uma peculiaridade das condições terrestres. O homem foi esperto o suficiente para iniciar a história registada, mas – necessariamente – não mais esperto do que isso.  Esta tese me parece importante e substancialmente informativa, muito embora esteja errada. (Não estou fingindo que seja nova.)

A ideia de inteligência limiar foi concebida para macacos, ou outras espécies ‘não-deficientes’, o que introduz um ingrediente a mais nesta discussão. Ela explica por que a neorreação articulada não pode nunca ser popular, já que ela relembra a Antiga Lei de Gnon, cuja severidade é tamanha que a mente humana se retrai em horrorizada repulsa. Apenas pessoas estranhas podem sequer tentativamente cogitá-la. A pena para a estupidez é a morte.

Gregory Clark está entre aqueles poucos a terem-na compreendido claramente. Qualquer tendência eugênica dentro da história é expressa por uma contínua mobilidade descendente. Para qualquer dado nível de inteligência, uma deterioração constante dos prospectos de vida jaz adiante, abatendo os menos aptos e os substituindo pelos mais aptos, que herdam sua situação socioeconômica miserável, até que eles também sejam empurrados do penhasco Malthusiano. O conforto relativo pertence apenas às anomalias e aberrações do avanço cognitivo. Para todos os outros, a história se inclina para baixo em direção ao empobrecimento, à desesperança e à eventual extinção genética. É assim que a inteligência é feita. Sem a Singularidade Tecnológica, é a única maneira. Quem quer um pedaço disso?

Ninguém quer, ou quase ninguém. Os ‘deficientes’ sem dúvida se revoltariam contra isso se pudessem, mas eles são incapazes de o fazer, então seu avanço cognitivo continua. Os macacos, por outro lado, são capazes de se revoltar, assim que flexionam delicadamente seus sórdidos polegarezinhos opositores. Eles não gostam da Antiga Lei, que lhes criou ao longo de incontáveis éons de abate implacável, então, em vez disso, eles fazem história. Se fizerem tudo ‘certo’, eles até se esgueiram até épocas de mobilidade social ascendente, e, com esta grande inovação, a disgenia semi-sustentável se inicia. Em seus fundamentos, é terrivelmente simples: o progresso social destrói o cérebro.

A estabilidade cíclica ou feedback negativo estrutura a história para manter a inteligência no limite tênue (como o limiar de inteligência é visto – ou, mais tipicamente, perdido – do outro lado). O desvio para dentro do desempenho tecnológico sufoca a tendência ao melhoramento biocognitivo e o reverte, perseguindo a homeostase com um alvo de inteligência mínima. Progrida e degenere ou retroceda e melhore. Essa é a ainda-a-ser-erradicada Antiga Lei, que gera a história cíclica como efeito colateral.

Os macacos se tornaram capazes de buscar a felicidade, e a ruína profunda começou.

Se a biosfera terrestre tivesse esperado alguns milhões de anos, deixado os primatas serem aniquilados por um cometa e encontrado uma maneira de fornecer aos cetáceos órgãos preênseis em algum momento estrada acima – depois que a seleção sexual sociolinguística e a inexorável carnificina Malthusiana tivessem feito a sintonia fina de seus cérebros – aí a tecno-história poderia ter tido mais 50 outros pontos de QI médio para brincar com sua população hospedeira. Ela não o fez, e aqui estamos nós. (Nunca aposte contra os feios.)

Original.

 

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3 thoughts on “A Armadilha do Macaco

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