Turbilhões

Esta aplicação emotiva, mas ainda assim largamente convincente da teoria geracional de Strauss & Howe dos ciclos históricos às recentes manchetes jornalísticas é um lembrete da inevitabilidade do contar de estórias. (Este blog tocou neste conto em particular antes.)

A Catedral é sobretudo uma meta-estória, uma usurpação secular-revolucionária da ‘Grande Narrativa‘ tradicional do Ocidente (herdada do monoteísmo escatológico), e sua sobrevivência é inseparável da preservação da credibilidade da narrativa. Conforme ela se desgasta, estórias alternativas obtém um nicho. A descrição de Strauss & Howe do padrão histórico rítmico é altamente competitiva em um ambiente desses. Eventos que subtraem da plausibilidade das expectativas progressistas são exatamente aqueles que fortalecem agouros de um iminente ‘inverno’ cíclico. O inverno está chegando, como popularizado pelo Game of Thrones, poderia ter sido projetado como uma ferramenta promocional para A Quarta Virada.

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O Anarchopapist começa suas mais recentes reflexões sobre ‘O Projeto Neorreacionário’ se perguntando “O que é um meme?”. É um ponto de partida melhor, neste contexto do que a questão Quão corretos Strauss & Howe estão?. A memética subsume questões de aplicação factual (enquanto aspectos do fitness adaptativo), mas se estende para além delas. O meme bem sucedido é caracterizado por traços estéticos irredutíveis à adequação representacional, desde a elegância da construção até a forma dramática. De maneira ainda mais importante, ele é capaz de operar como um fator causal em si e, assim, produzir os próprios efeitos aos quais se acomoda. Uma sociedade fascinada por sua passagem pelo portão de inverno de uma quarta virada estaria, em grande medida, encenando a mesma produção teatral que suas “crenças” haviam antecipado.

Entre as maiores forças meméticas da estória de Strauss & Howe está seu senso notavelmente concreto de cronometragem. Ela oferece datas prospectivas, dentro de uma gama preditiva estreita que narrativas alternativas estão sob grande pressão de igualar, em consonância com a sua pretensão de ter identificado ‘estações’ históricas. As antecipações dos enredos contemporâneos marxistas, singularitários ou eco-catastróficos são inequivocamente nebulosas em comparação. (Notavelmente – a NRx não tem, até o momento, qualquer teoria formulada que seja para apoiar predições com datas.)

Entre as funções de travamento meméticas mais significantes está um enxerto de confiança. Qualquer vírus cultural que comunique um sentido definitivo do que está por vir descobre que a tolerância do hospedeiro é relativamente fácil de se obter. A história do milenarianismo (precisamente datado) atesta isso de maneira esmagadora, com o corolário de que uma vulnerabilidade à falsificação subsequente está necessariamente implicada. Em alguma medida definitiva, tal sensibilidade à contradição empírica também tem que se aplicar no caso de Strauss & Howe, apesar dos fatores complicadores da auto-confirmação contagiosa já notados.

Como S&H profetizam no livro:

Em algum momento antes do ano 2025, a América passará por um grande portal na história, comensurável com a Revolução Americana, com a Guerra Civil e com as emergências gêmeas da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial. […] O risco de uma catástrofe será muito alto. A nação poderia irromper em insurreição ou violência civil, rachar-see geograficamente ou sucumbir a um governo autoritário. Se houver guerra, provavelmente será uma de riscos e esforços máximos – em outras palavras, uma GUERRA TOTAL.

É esta previsão admiravelmente determinada, em combinação com o conteúdo agourento, que empresta a esta obra sua influência sobre a imaginação apocalíptica de nosso tempo.

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Reunir expectativas para a ‘Quarta Virada’ é parte da paisagem memética na qual a NRx se encontra e, assim, é um fato intricado e estrategicamente relevante. Um estória consistente e convincente sobre elas seria valiosa – e, quase certamente, no prazo relativamente curto pelo menos, cada vez mais valiosa.

Original.

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A história nunca se repete, mas rima, assim diz o sugestivo aforismo (falsamente?) atribuído a Mark Twain.

James Delingpole escreve no Daily Telegraph:

…você já tentou ler revistas ou jornais privados dos anos 1930? O que vai te surpreender é que, até o último minuto – até o momento de fato em que a guerra realmente eclodiu – mesmo os comentadores e escritores mais perspicazes e informados se agarravam à ilusão de que as coisas de alguma forma iriam dar certo. Eu realmente espero que a história não esteja prestes a se repetir. Infelizmente, a lição da história é que, vezes demais, ela o faz.

Tem muito disso por aí.

Para um relato teórico de como a história poderia rimar, em um ciclo sinistro de 80 anos, há um modelo geracional que  o tom. “Strauss & Howe estabeleceram que a história pode ser decomposta em Saeculums de 80 a 100 anos, que consistem de quatro viradas: O Ponto Alto, O Despertar, O Desvendamento, e a Crise.” De um ponto de vista filosófico, parece um pouco sub-potenciado, mas sua plausibilidade cresce a cada mês.

Entre as anomalias de Shanghai está uma relação peculiar com os anos 1930. Para a cidade além da Concessão Internacional, a década caiu em desastre quando as hostilidades sino-japonesas eclodiram em 1937. Ainda assim, o período precedente não foi marcado por depressão, mas por um Alto Modernismo exuberante. Datas dos anos 1930 que em muito do mundo pareceriam distintamente sinistras estão expostas nas construções históricas da cidade como uma marca da autenticidade da Era Dourada. Para a mente paranoica, isso se encaixaria perfeitamente no mesmo esquema de rima perturbador de hoje.

Na maior parte do mundo rico, a decadência econômica, política e cultural pareceu – retrospectivamente – pressagiar o cataclisma vindouro, como se nada menos pudesse sacudir sistemas sociais exauridos de sua implacável trajetória descendente. Em quase todo lugar, alguma versão do pensamento fascista foi apreendida como o antídoto para o mal-estar que se congregava de maneira implacável. Por debaixo da superfície da ordem geoestratégica global, placas tectônicas em deslocamento acumulavam uma intolerável tensão. Sistemas monetários degenerados se despedaçaram em redemoinhos incontroláveis de sinais desfuncionais.

Ainda assim, é inteiramente possível que não haja nada com o que se preocupar:

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ADICIONADO: “Se você ouvir ecos dos anos 1930 na capitulação em Genebra, é porque o Ocidente está sendo liderado pelo mesmo tipo de homens, mas sem os guarda-chuvas.” (Estou ouvindo ecos dos anos 1930 em basicamente todos os lugares.)

Original.

Exumação

Eles o haviam enterrado fundo, tremendo o tempo todo, espalhando seus encantamentos de proteção sobre o túmulo amaldiçoado, como se para sepultar suas memórias ali, enterrando tudo que haviam sabido no barro infinitamente indulgente. O que eles imploravam silenciosamente para esquecer, acima de tudo, era profecia de que, quando as estrelas estivessem certas, ele – aquilo – retornaria para alguma conclusão horrível. O tempo passou, na medida exata que sempre fora necessária, até que a noite sem lua veio, sem anúncio e sem o agito da menor das brisas, quando as estrelas estavam – em fato gelado e brilhante – perfeita e impiedosamente certas

Original.

Nota Fragmentada (#9)

Estou de volta ao Oeste Chinês, desta vez com a família (nuclear mais sogra). Enquanto escrevo, estou no trem de Lanzhou para Dunhuang, fabulosamente renomada por suas cavernas budistas. É hora de uma recriação de vínculos com o tablet, então, o que é um desafio mecânico – na maior parte devido ao controle incrivelmente disfuncional do cursos, sobre o que eu sei que todo mundo super apreensivo para ouvir mais…

…então, 24 horas mais tarde, não tem muito de notícias emocionantes da viagem para relatar. Vamos para as Cavernas de Mongao amanhã, o que deve ser digno de se falar. Até agora tem sido deserto, e carne de burro, e a esquisitice geral do Oeste Chinês, mas com uma mente escorrendo inutilmente como lama arenosa, não se somam a algo sequer remotamente profundo. Talvez mais tarde.

A coisa que eu quero introduzir de maneira tentativa aqui, porque tem que se re-introduzida de maneira mais completa bem em breve, é a hiperstição e, em particular, o método hipersticional. Estou com o forte sentimento de que existem coisas que simplesmente não serão possíveis de se fazer de outra maneira. (Tentarei explicar.)

Há uma variedade de maneiras plausíveis de se explicar a ‘ideia’ básica da hiperstição. A mais pertinente dessas, aqui, agora, é que é uma tentativa de sistematizar o uso filosófico da ficção. Ao enquadrar a discussão filosófica dentro da ficção, em vez de dentro de um entendimento consensual assumido, ela é promovida como uma perturbação da descrença, em vez de uma modificação da crença. Como proceder filosoficamente da suposição artificial de fundo de que tudo é uma mentira? Esta é a questão hipersticional (cujas ressonâncias pirrônicas e gnósticas são imediatamente evidentes).

Falando de maneira prática – a que sempre tem que ser – a bifurcação tomada é formular pensamentos dentro da ‘voz’ de um sujeito sintético (ficcional), em vez de propô-los em nome de um sujeito privada e socialmente acreditado. A hipótese preliminar: uma diversidade experimental maior de pensamento deve ser esperada quando ele é conduzido no modo ‘do que poderia ser pensado’ – comparativamente livre de ego-comprometimento e jogos sociais de primeira ordem. (O ‘pensi-parar’ orwelliano é a confirmação desta hipótese a partir do outro lado.)

Começar com um eu ficcional tem uma inclinação budista, a ser discutida em algum ponto posterior. Estar em Dunhuang é o que fazer isso ser digno de sequer ser mencionado.

Embora tudo isto seja relevante ao problema em desenvolvimento enquanto ‘fragmentos sub-cognitivos’ (isto é, como pensar), o retorno à questão do método hipersticional, para mim, veio principalmente na outra direção. Meu retardo filosófico é enfurecedor, mas meu bloqueio literário é completamente intolerável. Não há nada de que eu esteja mais certo do que que a literatura abstrata, ou ficção de horror metafísico perseguida de maneira radical, é o empreendimento que me reivindica, mas não há igualmente nada que invoque forças mais titânicas de procrastinação. A obstrução, bem obviamente, sou ‘eu’ – e a hiperstição sugere uma solução para isso ou, pelo menos, um método dirigido de maneira decisiva a uma solução. Encontre a maneira de falar em nome da coisa que pode falar o que você não pode (ou algo assim).

O que a hiperstição ainda tem a fazer de maneira completa (eu ainda acredito), é fechar o ciclo, se subsumindo definitivamente na ficção. Ela tem que se tornar uma estória, em vez de uma teoria das estórias, antes que possa se dizer que alcançou consistência.

Original.

O horror…

“A coisa é que, agora que fiquei ciente do fenômeno, eu o vejo em todo lugar…”

“Não se pode deixar isso assim. Isso é como descobrir que um serial killer abusador de crianças está no comando da seu time da liga júnior local. Este não é um caso de tolerância. Este é um caso de forquilhas e tochas metafóricas. …isto, a ‘Neorreação’, é uma ameaça definitiva, e deve ser encarada.”

(Alguns empurrões impressionantes já estão ocorrendo na seção de comentários lá em cima.)

Original.

Notas de Citação (#26)

Otimize a inteligência não é um grito de guerra ao qual Chip Smith está sucumbindo:

… a alta inteligência pode muito bem ser um beco evolutivo sem saída. Eu certamente fico sem saber como apresentar uma boa razão de por que um traço outrora adaptativo, que ocorre de eu e você valorizarmos, deveria gozar de uma defesa especial ante ao ruído algorítmico cego que é a seleção natural.

Mas mesmo que os musculosos em cérebro de fato descubram uma maneira de desafiar a gravidade antes que o sol exploda, eu acho que ainda existem razões para se questionar se a ascensão galopante da mente é realmente digna de aplauso. Nerds futuristas nos informarão de que existe uma miríade de revoluções tecnológicas em andamento – todas encabeçadas por sabichões, podemos estar certos. E eu sugeriria que, dessas, as que convergem na promessa dourada de computação quântica e nanotecnologia poderia aconselhar uma segunda pausa reflexiva – uma que vem por meio do “Não tenho boca e preciso gritar” de Harlan Ellison e se resolve no consolo solene que resta nas explicações mais sombrias que sempre cercaram o Enigma de Fermi.

Talvez eu esteja sendo críptico. O que eu quero considerar é simplesmente que a trajetória evolutiva da inteligência ainda pode levar, e já levou, a coisas muito ruins. Pode um dia ser possível, por exemplo, criar experiência senciente – não sejamos tão audazes de chamá-la de “vida” – não a partir de gametas, mas na medula profunda de estados de quibits [sic] e, se isto vier a ocorrer, não é um salto tão grande imaginar que tais simulações inteligentes – okay, elas estão vivas – serão capazes de sofrer, ou que se fará com que elas sofram, talvez por emoções sádicas, talvez em loops recursivos de intensidade imensurável que se aproximam o suficiente do estado eterno de tortura que se ameaça em toda visão febril do Inferno para tornar a distinção irrelevante.

Utilitaristas não tem nenhum senso de diversão.

(via)

Original.