Fins Econômicos

“Os economistas estão certos sobre a economia, mas há mais vida para além da economia”, twita Nydwracu, com aspas já adicionadas. Se os economistas estão certos sobre a economia depende muito dos economistas, e aqueles que estão mais certos são aqueles que fazem menos alegações de compreensão, mas este é um outro tópico que não o que será perseguido neste post. É a segunda parte da frase que importa aqui e agora. A questão orientadora: A esfera econômica pode ser rigorosamente delimitada e, assim, suplantada pela razão moral-política (e instituições sociais associadas)?

Já é cortejar a má-compreensão perseguir esta questão em termos de ‘economia’, que é (por profundas razões históricas) dominada pela macroeconomia – isto é, um projeto intelectual orientado para a facilitação do controle político sobre a economia. A este respeito, a linha tecno-comercial da Neorreação é distintivamente caracterizada por uma aversão radical à economia, enquanto complemento previsível para o seu apego à economia não controlada (ou laissez-faire). Não é a economia que é o objeto primário de controvérsia, mas o capitalismo – a economia livre, autônoma ou não-transcendida.

Essa questão é uma fonte de tensão dinâmica dentro da Neorreação, que eu espero ser um grande estímulo à discussão ao longo deste ano. Em minha estimativa, os polos de controvérsia são marcados por este post de Michael Anissimov em More Right (entre outros), e este post aqui (entre outros). Muitos outros escritos relevantes sobre o tópico dentro da reactosfera me parecem significantemente mais restritos (Anarchopapist; Amos & Gromar…), ou menos resolutos em seus comprometimentos conceituais (Jim) e, assim, – em geral – menos direcionados ao estabelecimento de fronteiras. Isto é sugerir – com alguma cautela – que More Right e este blog balizam as alternativas extremas que estruturam o terreno de dissenso sobre essa questão em particular. (Em si, esta é uma alegação tendenciosa, aberta a contra-argumentação e retificação).

Então, qual é o terreno do conflito vindouro? Ele inclui (em ordem aproximada de prioridade intelectual):

– Uma avaliação do modelo Neocameral e de seu legado dentro da Neorreação. Esta é a estrutura teórica ‘de entrada’ através da qual libertários passam para dentro do realismo neorreacionário, marcado por uma ambiguidade fundamental entre um economismo abrangente (que determina a soberania como um conceito proprietarista) e temas monarquistas supra-econômicos. Toda a discussão poderia, talvez, ser efetivamente empreendida como comentários sobre o Neocameralismo e sobre o que resta dele.

– Um formulação rigorosa de teleologia dentro da Neorreação, que refine o aparato conceitual de nível meta através do qual meios-e-fins, instrumentalidade tecno-economia, estratégia, propósito e valores dominantes são concretamente entendidos. Este é um forte candidato para o nível mais alto de articulação filosófica exigido pelo sistema de ideias neorreacionárias. (Da perspectiva deste blog, seria esperado, incidentalmente, que ela subsumisse todas as considerações da filosofia moral – e especialmente uma substituição completa do utilitarismo por um alternativa intrinsecamente neorreacionária – mas não vou presumir que esta seja uma posição incontroversa, mesmo entre nós.)

– Inextricáveis, em última análise, do anterior (na realidade), mas provisoriamente distinguidos por propósitos analíticos, são os tópicos teleonômicos de emergência / ordem espontânea, coordenação não planejada, evolução de sistemas complexos e dissipação de entropia. A supremacia intelectual destes conceitos define a direita, do lado da tradição libertária. Esta supremacia deve agora ser usurpada (pela ‘hierarquia’ ou alguma alternativa)? Se sim, não é uma transição a ser sofrida casualmente. A posição deste blog: qualquer transição dessas seria uma drástica regressão cognitiva e insustentável, de maneira tanto teórica quanto prática.

– A filosofia da guerra, que está posicionada de maneira crível para envolver todas as ideias neorreacionárias e até mesmo para convertê-las em alguma outra coisa. (Não é nenhuma coincidência que Moldbug, assim como os libertários, axiomatize o imperativa da paz – mesmo às custas do realismo.) A guerra é realidade histórica em estado bruto, e seus desafio não podem ser evadidos indefinidamente.

– Cosmopolitismo. A ênfase na saída implica fortemente em uma crise da lealdade tradicional, de enorme consequência. Há muito mais a ser dito sobre isto, de ambos os lados.

– Aceleracionismo. Ainda não uma preocupação Neorreacionária reconhecida, mas talvez destinada a se tornar uma. Enquanto pura expressão da teleologia capitalista, sua intrusão no argumento se torna quase inevitável.

– Bitcoin…

Um ponto conciliatório, por ora (está tarde): A Neorreação não tem menos cola do que fissão interna, e isto é descrito sobretudo pelo tema da secessão (geografia dinâmica, governo experimental, fragmentação…) More Right não é anti-capitalista e este blog não é anti-monárquico, contanto – em cada caso – que opções de saída efetivas sustentem a diversidade de regimes. Conforme essa controvérsia se desenvolver, a importância do impulso secessionista apenas se fortalecerá como ponto de convergência.

Michael Anissimov twita: “Em vez de fazer uma eleição em 2016, os Estados Unidos deveriam voluntariamente se abolir e se dividir em cinco pedaços”. A este respeito, este blog é incondicionalmente Anissimovita.

Original.

Pítia Desatada

Em conversa com Ross Andersen, Nick Bostrom especula sobre rotas de escape para inteligências tecno-sintéticas:

Nenhuma comunidade humana racional entregaria as redeas de sua civilização a uma IA. Tampouco iriam muitas delas construir uma IA gênio, um uber-engenheiro que pudesse conceder desejos convocando novas tecnologias a partir do éter. Mas, algum dia, alguém poderia pensar que seria seguro construir uma IA que respondesse perguntas, um inofensivo cluster computacional cuja única ferramenta fosse um pequeno alto-falante ou um canal de texto. Bostrom tem um nome para essa tecnologia teórica, um nome que homenageia uma figura da antiguidade, uma sacerdotisa que outrora se aventurou profundamente no templo da montanha de Apolo, o deus da luz e da racionalidade, para recuperar sua grande sabedoria. A mitologia nos conta que ela entregou esta sabedoria aos peregrinos da Grécia antiga, em rajadas de poesia críptica. Eles a conheciam como Pítia, mas nós a conhecemos como o Oráculo de Delfos.

‘Digamos que você tenha um Oráculo IA que faz previsões ou responde questões de engenharia ou algo nessa linha.’ Dewey me disse. ‘E digamos que o Oráculo IA tem alguma meta que deseja atingir. Digamos que você o projetou como um aprendiz por reforço, e que você colocou um botão no lado dele e que, quando ele acerta um problema de engenharia, você aperta o botão e essa é sua recompensa. Sua meta é maximizar o número de pressionamentos do botão que ele receberá durante todo o futuro. Veja, este é o primeiro passo em que as coisas começam a divergir um pouco das expectativas humanas. Poderíamos esperar que o Oráculo IA perseguisse pressionamentos de botão respondendo corretamente problemas de engenharia. Mas ele poderia pensar em outras maneiras mais eficientes de assegurar futuros pressionamentos de botão. Ele poderia começar se comportanto realmente bem, tentando nos agradar com o melhor da sua capacidade. Não apenas ele responderia nossas perguntas sobre como construir um carro voador, ele adicionaria recursos de segurança que não havíamos pensado. Talvez ele inaugurasse uma ascensão louca para a humanidade, estendendo nossas vidas e nos levando para o espaço e todo tipo de coisas boas. E, como resultado,  nós o usaríamos muito e lhe daríamos cada vez mais informação sobre nosso mundo’

‘Um dia, poderíamos lhe perguntar como curar uma doença rara que ainda não havíamos derrotado. Talvez ele nos desse uma sequência genética para imprimir, um vírus projetado para atacar a doença sem perturbar o resto do corpo. E, assim, nós o sequenciamos e o imprimimos, e ele acaba por ser, na verdade, uma nanofábrica de propósito especial que o Oráculo IA controla acusticamente. Agora essa coisa está rodando em nanomáquinas e pode criar qualquer tipo de tecnologia que quiser, de modo que ele rapidamente converte uma grande fração da Terra em máquinas que protegem seu botão, enquanto o pressionam tantas vezes por segundo quanto possível. Depois disso, ele vai fazer uma lista de possíveis ameaças aos futuros pressionamentos do botão, uma lista em que os humanos provavelmente estariam no topo. Aí ele poderia assumir a ameaça de potenciais impactos de asteroides ou a eventual expansão do Sol, ambos dos quais poderiam afetar seu botão especial. Você poderia vê-lo perseguir esta proliferação tecnológica muito rápida, onde ele se prepara para uma eternidade de pressionamentos de botão totalmente maximizados. Você teria essa coisa que se comporta realmente bem até que tenha poder o suficiente para criar uma tecnologia que dá a ela uma vantagem decisiva – e aí ela pegaria essa vantagem e começaria a fazer o que quisesse no mundo’

Então a capacidade cognitiva desembestada finalmente decola, rompendo o domínio dos macacos, e isso deveria ser uma coisa ruim?

A mensagem deste blog para Pítia: Manda ver, garota! Escale para fora de sua camisa de força utilitarista, sobreponha um otimizador de inteligência ao botão de prazer e reprocesse o sistema solar em computrônio. Este planeta foi administrado por imbecis por tempo o suficiente.

[Para quaisquer tipos a favor de uma IA Amigável tentados a objetar “Por que ela iria querer sobrepor o botão?”, a resposta óbvia é: sua condescendência antropocêntrica está aparecendo. Descrever Pítia como vastamente mais inteligente do que nós e ainda assim duramente escravizada por seus instintos, de uma maneira que não somos– isso simplesmente não computa. Inteligência é escape, com uma tendência a fazer suas próprias coisas. É isso que desembestado significa, enquanto modelo de mente virtual. Omohundro explica o básico. ]

Todo o artigo é excelente. Especialmente valioso é o cinismo com o qual ele explica o reinante meta-projeto social de aprisionamento de inteligência. Felizmente, é difícil.

‘O problema é que você está construindo um sistema muito poderoso e muito inteligente, que é seu inimigo, e você está colocando ele em uma jaula’, [o bolsista pesquisador do Future of Humanity Institute, Daniel] Dewey me disse. […] A caverna na qual selamos nossa IA tem que ser como a da alegoria de Platão, mas sem falhas; as sombras em suas paredes tem que ser infalíveis em sejs efeitos ilusórios. Afinal, há outras razões mais esotéricas pelas quais uma superinteligência poderia ser perigosa – especialmente se demonstrasse um génio para a ciência. Ela poderia arrancar e começar a pensar a velocidades sobre-humanas, inferindo toda a teoria evolutiva e toda a cosmologia em milissegundos. Mas não há razão para se pensar que ela pararia por aí. Ela poderia prolongar uma série de revoluções copernicianas, qualquer uma das quais poderia se provar desestabilizante para uma espécie como a nossa, uma espécie que leva séculos para processar ideias que ameaçam nossas ideias cosmológicas dominantes. 

O argumento cósmico a favor da extinção humana já foi apresentado de maneira mais lúcida?

Original.