Arbitragem Geopolítica

Stross:

… as coisas vão ficar muito feias em Londres quando a Square Mile e o setor de bancos de investimento levantar acampamento e for para Frankfurt, deixando o setor de serviços e a população urbana multiétnica pobre para trás.

As especificidades desta previsão são amalucadas, se apenas porque a Europa continental está indo pelos canos muito mais rápido do que o Reino Unido, mas a ansiedade abstrata é precisa. A globalização da direita é inteiramente sobre arbitragem geopolítica (ao passo que a da esquerda é sobre homogeneizar a governança global). Todas as tendências críticas apontam em direção à exacerbação do ‘problema’. O século XXI é a época da fragmentação – diferente de qualquer coisa já vista desde o início do período moderno – transferindo poder para os andarilhos e para longe de sistemas mega-políticos de domínio territorial. Ser deixado para trás é a ameaça crescente, e podemos esperar confiantemente vê-la se consolidando como o sub-texto de toda queixa esquerdista. Você não pode simplesmente sair. Assista.

Os obstáculos à arbitragem geopolítica – isto é, pressão espacial de Saída – são restrições de segurança. São necessárias bases além-mar defensáveis (e Frankfurt quase certamente não vai fornecer uma). Os olhos precisam estar firmemente fixados em dinâmicas de secessão (fragmentação), descentralização tecno-comercial de segurança sólida, cripto-anonimização, inteligência artificial e na emergência de postos avançados do capital na região do Pacífico Ocidental. Fatores mais exóticos incluem oportunidades de êxodo radical (submarino, Antártico, e para fora do planeta), facilitadas pela produção territorial (ilhas artificiais). O maquinário de captura precisa manter todas essas rotas de escape firmemente suprimidas a fim de se perpetuar. Isso simplesmente não vai acontecer.

O capital está aprendendo mais rápido que seus adversários e tem feito isso desde que se tornou auto-propulsor, aproximadamente meio milênio atrás. Ele é alérgico ao socialismo (obviamente) e tende a fugir de lugares em que a influência socialista é substancialmente maior do que zero. A menos que enjaulado de maneira definitiva, eventualmente ele escapa. Ao longo das próximas décadas – apesar da criptografia cada vez mais profunda – deve ficar evidente em que direção isso está indo.

Original.

Ameaça Abstrata

John Michael Greer medita sobre o tópico do Ebola (em um post tipicamente luxuriante, que se dirige, em última análise, a um outro lugar):

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o número de casos de Ebola na atual epidemia está dobrando a cada vinte dias e poderia atingir 1.4 milhões por volta do começo de 2015. Vamos arredondar para baixo e dizer que existam um milhão de casos em 1º de janeiro de 2015. Vamos assumir também, por bem do experimento, que o tempo de duplicação continue o mesmo. Assumindo que nada interrompa a propagação continuada do vírus e que os casos continuem a dobrar a cada vinte dias, em qual mês de qual ano o número total de casos será igual a população humana deste planeta? […] …os passos que poderiam impedir o Ebola de se espalhar para o resto do Terceiro Mundo não estão sendo tomados. A menos que recursos massivos sejam comprometidos com essa tarefa – como em antes do fim deste ano – existe a possibilidade de que, quando a pandemia finalmente relaxar daqui a alguns anos, dois ou três bilhões de pessoas possam estar mortas. Precisamos considerar a possibilidade de que o pico da população global não é mais uma abstração confortavelmente colocada em algum lugar no futuro. Ela poder estar batendo à porta do futuro agora mesmo, tremendo de febre e pingando sangue de suas gengivas.

A escala eventual do surto de Ebola é uma incognita conhecida. Um número de pessoas, entre alguns milhares e vários bilhões, morrerá e uma distribuição incerta de probabilidade poderia ser atribuída a estas cifras – sabemos, pelo menos aproximadamente, onde estão os pontos de interrogação. Antes do presente surto começar, em dezembro de 2013 (na Guiné), sabia-se, claro, que o Ebola existia, mas, nesse estágio, a ocorrência de um surto – e não meramente seu curso – era uma incógnita. Antes do vírus do Ebola ser cientificamente identificado (em 1976), o patógeno específico era um membro desconhecido de uma classe conhecida. Com cada passo atrás, avançamos em abstração, em direção ao reconhecimento de ameaças de um tipo ‘cisne negro‘. O X-risco do Grande Filtro é um modelo proeminente de tal ameaça abstrata.

O ceticismo, enquanto empreitada positiva ou construtiva, orienta a inteligência em direção a potenciais abstratos. Em vez de insistir que ocorrências inesperadas não precisam ser ameaças, é teoricamente preferível sutilizar a noção de ameaça, de modo que ela englobe mesmo resultados benéficos como potenciais abstratos. O desconhecido é, em si, ameaçador para animais tímidos, cujas condições de florescimento – ou mesmo de mera sobrevivência – são naturalmente tênues sob condições cósmicas em que a extinção é normal (talvez esmagadoramente normal) e para quem uma mudança imprevisível, que rompe procedimentos estabelecidos, apresenta – no mínimo – alguma probabilidade de dano assustadoramente indefinida.

Os humanos não são bons nessas coisas. Considere a discussão (extremamente interessante) de Scott Alexander sobre o Grande Filtro. A observações de abertura são perfeitamente direcionadas, movendo-se do perigo específico para a ameaça ‘geral’:

O Grande Filtro, lembre-se, é a adaptação de horror do Paradoxo de Fermi. Todos os nossos cálculos dizem que, na infinita vastidão do tempo e do espaço, alienígenas inteligentes deveriam ser muito comuns. Mas não vemos nenhum deles. […] Por que não? […] Bem, o Grande Filtro. Ninguém sabe especificamente o que é o Grande Filtro, mas, em geral, é “aquela coisa que impede os planetas de criarem civilizações espaciais”.

Conforme se desenvolve, contudo, o post deliberadamente recua da abstração, para dentro de uma enumeração de ameaças já vislumbradas. Após percorrer várias candidatas, conclui:

Três dessas quatro opções – x-risco, IA Não Amigável e exterminadores alienígenas – são muito muito ruins para a humanidade. Acho que se preocupar com essa ruindade tem sido muito do que tem criado interesse pelo Grande Filtro. Também acho que essas são algumas das explicações possíveis menos prováveis, o que significa que deveríamos ter menos medo do Grande Filtro do que geralmente se acredita.

O que SA realmente demonstrou, se seus argumentos até este ponto forem aceitos, é que a ameaça abstrata do Grande Filtro é significantemente maior do que já foi concebida. Nossos pesadelos lúcidos são mostrados estarem aquém dela. A ameaça não pode ser compreendida como uma incógnita conhecida.

Ao passo que o Grande Filtro destila a concepção da ameaça abstrata, o problema em si é mais amplo e mais cotidiano. É o fato altamente provável de que ainda temos que identificar os maiores perigos e que esse desconhecimento da ameaça é uma condição estrutural, em vez de uma deficiência contingente de atenção. Em termos Popperianos, a ameaça abstrata é a essência da história. É o futuro, entendido de maneira estrita. Para lustrar o argumento Popperiano: O entendimento filosófico da ciência (em geral) é imediatamente o entendimento de que qualquer história preditiva da ciência é uma impossibilidade. A menos que a ciência seja julgada como sendo um fator de insignificância histórica que se anula, as implicações desta tese transcendental são de longo alcance. Ainda assim, o domínio da ameaça abstrata se espalha ainda mais extensivamente do que isto.

“Eu só sei que nada sei” pensa-se que Sócrates pensava. A concepção de ameaça abstrata exige um leve ajuste: Sabemos apenas que não sabemos o que não sabemos. Incógnitas desconhecidas predominam cosmicamente.

Sua segurança está construída sobre areia. Esta é a única conclusão sã.

Original.

Nosso Futuro

Temo que eu absolutamente tenha que roubar isto. É de ‘anônimo’ (claro), então eu não posso dar os créditos apropriadamente.

Levanto, saio da cama, me preparo para servir meu senhor Schlomo II.
O ano é 17 A.G., recentemente me mudei para o patch de Schlomo II depois de me prometerem um lote maior de pão do que eu recebia sob Chaim II.
Porra, aí sim, é isso que é progresso, opa, digo, restauração. Porra, aí sim.
O ônibus automático do rei me leva ao palácio para trabalhar
O ônibus pega um túnel subterrâneo para que entremos pela a entrada de serviço no porão
No meu caminho de entrada, noto um grupo de novos recrutas no RH fazendo testes de QI em uma fileira de terminais
Uma das telas começa a piscar em vermelho, o alarme eletrônico soa “PLEB DE QI 130 DETECTADO”
Drones pululam para dentro e pegam o gentio, digo, rapaz que fazia o teste, o arrastam pra longe
Graças a Gnon, você conseguem imaginar viver com tamanhos imbecis?
Fico pronto para começar a trabalhar
Todo trabalho real é feito por robôs superiores
Humanos recebem pagamento para entreter o rei
Acabei de receber um grande promoção do departamento de bajulação
Coloco meu traje de caranguejo
Entro na sala do trono real. Schlomo II sentado em seu trono
Passo o resto do dia dançando no traje de caranguejo para o Rei Schlomo, cantando hinos para Gnon
Quase no fim do turno, o mestre do entretenimento entra e diz ao Rei que é hora do entretenimento final
Isso vai ser bom
O pleb de QI 130 de mais cedo é trazido por drones, colocado ante o rei
Mestre do Entretenimento: “Senhor, este homem é culpado de envenenar nosso mundo com seu DNA de QI baixo”
Rei: “Acusado, você tem algo a dizer em sua defesa?”
O Acusado: “Senhor, eu posso ser burro, mas eu sempre fui leal. No ano 15 B.G., eu comecei um feed NRx no twitter com citações de Moldbug e memes reacionários de gatos”
Toda a sala do trono está em silêncio aguardando a resposta do rei
Dançarinos caranguejo, bajuladores, a família real, parasitas, o pato piadista real, todos em silêncio
Rei: “Ha! Nenhum homem de QI 130 poderia verdadeiramente compreender os textos sagrados da NRx. Você é um mero entrista. Dêem-no de comer a Gnon!”
Uma ovação cresce, toda a sala começar a cantar: “Gnon Gnon Gnon Gnon”
Uma tela se acende do lado oposto da sala, com um rosto indiferente e frio
Um poço de fogo se abre diante da tela
Os drones do rei arrastam o pleb que grita para dentro do poço e ele morre uma morte horrível
Os drones do rosto: “Isto apetece Gnon. Agora, mais dança de caranguejos.”
Merda. Tenho que fazer hora-extra
O turno finalmente acaba e o ônibus-robô me leva de volta pra minha tecno-cabana
Como meu lote de pão enquanto assisto The Radish Report
Que grande época para se estar vivo

Original.