Horror Econômico

H. P. Lovecraft e o sistema financeiro global finalmente convergiram.

Da carta da Artemis Capital Management aos investidores (sério): “Volatilidade é sobre medo… mas risco de cauda extremo é sobre horror. O Cisne Negro, enquanto constructo filosófico negativo, é quando o medo acaba e o horror começa. …O medo é algo que vem de dentro do nosso escopo de pensamento. O verdadeiro horror não é o medo humano em um mundo definível, mas o medo que vem de fora do que é definível. O horror é sobre as limitações do nosso pensamento. …Cthulhu é um cisne negro.”

Uma cibernética gótica abundante completa o pesadelo. (“Convexidade curta sombria descreve uma fragilidade imensurável à mudança, introduzida quando os participantes são encorajados a se comportarem de uma maneira que contribui para loops de feedback em um sistema complexo.”)

O Halloween chega mais cedo este ano.

Original.

Doctor Gno

Uma coisa tem que ser concedida ao artigo sub-adolescente de Pein (casualmente descartado aqui) – ele desencadeou uma agústia interessante. Esta interpretação da Neorreação (tecno-comercial) como vilania de Bond é especialmente notável. Ao contrário de Pein, Izabella Kaminska demonstra pelo menos um pouco de perspicácia genuína. De maneira mais importante, ela se agarra ao Secessionismo do Vale do Silício como um (assustador) projeto criptopolítico, de real significância. Suas referência são excelentes (a história é construída em torno de uma série de slides extraídas desta palestra histórica, de Balaji Srinivasan, intitutlada Silicon Valley’s Ultimate Exit (“A Saída Derradeira do Vale do Silício”, em tradução livre).

dr-no

A elegância desse projeto repousa em sua combinação de simplicidade e radicalidade, capturada em elementos essenciais pela fórmula S > V (Saída sobre Voz). Ele avança o prospecto, já em movimento, de uma destruição da política (embasada em voz) através da inovação tecno-comercial de mecanismos de saída. Está começando a deixar os progressistas insanos.

O ponto fundamental não poderia ser mais claro: Não queremos governar vocês. Queremos escapar de vocês.

Claro, toda a agenda da Catedral é levar esta mensagem de volta à ininteligibilidade, ao inundá-la com a tediosa dialética política BDSM esquerdista, como se a questão fosse uma luta por domínio. A este respeito, os memes monarquistas predominantes dentro da NRx desempenham um papel distintivamente amigável aos progs.

Entre os slides de Srinivasan, há um com o cabeçalho Um contínuo de abordagens válidas: De ilhas privadas à colonização de Marte. Ele contém a nota: “E a melhor parte disto: as pessoas que pensam que isso é esquisito, que zombam da fronteira, que odeiam tecnologia – elas não vão te seguir lá para fora”.

Os progressistas sabem como argumenter sobre reis (não importa o quão ineptamente). Aquilo com que eles não têm nenhuma ideia de como argumentar – aquilo com o que não se pode argumentar – é a fuga.

O Secessionismo do Vale do Silício é o melhor campo de batalha que temos.

Original.

Para Além da Face

A crítica do Social Matter ao ‘Complexo Industrial da Justiça Social’ (cujo primeiro estágio já foi linkado aqui), isola a “tendência, na natureza humana, a sobreatribuir agência” enquanto uma proeminente fonte de erro. Em outras palavras, as pessoas gostam de colocar uma face nas coisas – mesmo nas nuvens – em tal medida que a própria noção de uma ‘pessoa’ é sempre já fabricada. Etimologicamente (e não apenas etimologicamente), uma ‘pessoa’ é uma máscara.

Conforme os hominídeos arcaicos foram sendo seletivamente adaptados a relações sociais cada vez mais complicadas, eles foram facializados. O olho humano adquiriu sua esclera branca, para acentuar a expressividade, tornando a direção da atenção diretamente comunicativa. Com a chegada da linguagem, gestos e expressão foram aumentados por mensagens articuladas. O ‘gerenciamento da face’ se tornou um sumidouro exigente de funcionalidade cognitiva, em seus aspectos de desempenho e interpretação. Uma nova e instintiva ‘teoria da mente’ começara a acreditar em pessoas e – quase com certeza simultaneamente – a se identificar como uma. Este era um novo tipo de pele, ou superfície sensível. A partir da sociabilidade psicológica, um modelo do eu enquanto ser social, auto-escrutinado como um objeto de atenção de outro de seu tipo – isto é, um ego – nascia.

A ‘pessoa interna’ não corresponde a nada real. A pessoa, ou eu socialmente desempenhado, é essencialmente superficial. É irredutivelmente teatral. Ela existe apenas enquanto modo de inserção dentro de um jogo de múltiplos jogadores.

Como quer que, em última análise, venhamos a fazer sentido da agência e do destino, não será em termos comensuráveis com a pessoa (a face), a não ser por contumaz autoengano. A liberdade pessoal é um ato, uma performance dentro de uma peça. Não têm nenhuma profundidade real. Todas as perguntas dirigidas a ela estão condenadas à confusão. A coisa real – livre ou predestinada – veste uma face, como um papel atribuído no interior do mundo.

A inanidade do Facebook e também sua extrema popularidade se seguem quase imediatamente deste arranjo. O escritor tem que assumir uma face. A estupidez destes retratos, que adornam capas de livros e colunas de notícias, é indistinguível de sua necessidade social. Cada um é já uma pequena teoria da conspiração, uma má atribuição de agência, baseada na absurda tese símia de que as palavras saem da face. Não leve palavras a sério até que você possa ver o branco de seus olhos – avalie a qualidade do sorriso que acompanha o pensamento. Assim, tudo desaparece.

É para além da face – fora dela – que a ocorrência é decidida, as peças, escritas. Se não começarmos ali, não estamos sequer começando.

Original.

Problemas Neorreacionários

Estou sob a sagrada obrigação de analisar o e-book What is Neoreaction? Ideology, Social-Historical Evolution, and the Phenomena of Civilization de Bryce Laliberte. Felizmente, este solene dever não foi especificamente agendado. Trabalhar para a sua realização é um processo instigante, o que é uma coisa boa.

Por uma questão trivial, sou forçado a perguntar: Deveria ser ‘fenômenos’ mesmo? ‘Fenômeno’ seria mais estilisticamente persuasivo, mesmo que o plural seja defensável por razões conceituais. Esse tipo de questão secundária, contudo, é auto-distração sintomática. Há questões sérias em jogo aqui, e elusivas.

Minha prevaricação é, parcialmente, o resultado de ideias que colidem, que ficaram emaranhadas ao significado desse livro (para mim), mas não são realmente internas às suas próprias preocupações. A primeira entre estas é a conotação da própria palavra ‘neorreação’, que acende uma conversação embriônica (na casa de Laliberte e na minha). Questões terminológicas podem facilmente parecer impertinentes ou fetichistas, mas, neste caso pelo menos, elas se estendem continuamente para dentro de questões de indisputável substância e relevância. Sumariamente: A ‘neorreação’ é primariamente uma doutrina ou um problema? (Talvez o ponto de interrogação injustamente enviese o julgamento.)

Em um post futuro, eu voltarei às especificidades da definição estendida de Laliberte – que é, sem dúvida, coextensiva ao livro. É de amplo interesse e se conecta de maneira importante com a busca de Nick B. Steves por ‘consenso reacionário‘ (note: sem ‘neo-‘). Neste ponto, contudo, minhas observações marcadoras de lugar são, elas mesmas, deliberadamente problemáticas, referindo-se ao papel do paradoxo e da ironia no termo e na ‘coisa’ – elementos que são, para mim, essenciais, mas que eu suspeito que Laliberte veja como incidentais ou mesmo lamentáveis. A neorreação, da perspectiva problemática, é a insistência de uma questão, em vez de uma solução lutando para nascer em uma doutrina estabelecida. É uma palavra inventada para preservar sua própria ilegibilidade dinâmica (ou paradoxo instável), pelo menos tanto quanto o nome de um programa a caminho da aceitação (chegando na significância consensual).

Uma vez que a neorreação parece estar sendo arremessada em algum tipo de reconhecimento, devido, em grande parte, às contribuições de Laliberte, estas considerações são arcanas apenas de um lado de uma conversa não desenvolvida. Mais provavelmente, o ritmo e o contexto desta troca serão estabelecidos em lugares inesperados. Tais iminentes incógnitas inevitavelmente guiam meu caminho para dentro do livro de Laliberte, conforme ele se abre, peça por peça, à frente.

Original.

Uma Perturbação na Força

Alguém mais está começando a ficar um pouco… acho que o termo técnico é ‘estranhado’ pelo que está acontecendo na mídia?

Dado que o ponto de convergência central da neorreação é uma análise do poder da mídia enquanto consumação da tendência mainstream (anglófona) na história política global, é impossível achar esse tipo de coisa simplesmente divertida. A teoria da Catedral prevê um loop fechado semi-estável no qual a auto-organização acadêmica esquerdo-progressista obtém domínio social cada vez mais abrangente através de um sistema de mídia condutor. Quando a mídia se desvia da mensagem, permitindo que sejam notadas coisas que – carecendo completamente de endosso acadêmico – não podem legitimamente existir, algo de significância social profunda está ocorrendo.

Poderia haver qualquer número de oportunidades intrigantes nesses desenvolvimentos (ainda profundamente crípticos). Para Mencius Moldbug, contudo, eu suspeito que a vida poderá em breve se tornar desconfortavelmente interessante. Os cães de ataque da esquerda lhe deixaram em paz, na esperança de que ele permanecesse desconhecido e ignorado. Uma vez que esta esperança morrer, as coleiras certamente serão retiradas.

[Eu não esqueci que devo a Bryce uma análise de What is Neoreaction? – mas eu não havia esperado que estaria em uma corrida para completá-la antes que o New York Times chegue à linha de chegada.]

Original.

Países Não Descobertos

Depois de (re)ler a análise crítica de Adam Gurri da problema central da Neorreação (uma tragédia dos comuns políticos), leia a resposta cirúrgica de Handle. A calma inteligência em exposição de ambos os lados é quase suficiente para lhe deixar insano. Isto não pode estar acontecendo, certo? “De uma maneira, é um pouco triste, porque eu consigo adivinhar que o artigo de Gurri será o zênite e a linha de maré alta da cobertura da neorreação, o que significa que só vai ficar pior daqui em diante.” Aproveite a compreensão enquanto ela dura.

A minha própria resposta a Gurri ainda é embrionária, mas eu já suspeito que ela diverge da de Handle em algum grau. Em vez de defender o elemento ‘tecnocrata’ no modelo Patchwork-Neocameral de Moldbug, eu concordo com Gurri que este é um problema real, embora (claro) eu seja bem mais simpático ao projeto intelectual subjacente. Diferente de Gurri – que, neste aspecto crucial, representa uma posição liberal clássica em sua forma mais pensativa – Moldbug não concebe a democracia como um processo de descoberta, iluminado pela analogia à dinâmica de mercado e à evolução social orgânica. Pelo contrário, ela é um mecanismo de catraca que sucessivamente distancia a esfera política da sensibilidade ao feedback, devido a seu caráter enquanto loop fechado (ou igreja estatal) sensível apenas a uma opinião pública que ela mesmo fabricou. Conforme a Catedral se expande, sua adaptação à realidade se atenua progressivamente. O resultado é que todo processo efetivo de descoberta – que ele seja econômico, científico ou de qualquer outro tipo – está sujeito a uma subversão cada vez mais radical por parte de influência política cujo único ‘princípio de realidade’ é interno: baseado em um circuito fechado de manipulação social.

A democracia é assim, estritamente falando, uma produção de insanidade coletiva, ou dissociação da realidade. A solução de Moldbug, portanto, só pode ser uma tentativa de reincorporar a governança em uma sistema efetivo de feedback. Uma vez que já está evidente que mecanismos democráticos, em vez de fornecer tal feedback, confiavelmente aprofundam a dissociação, o sinal da realidade tem que vir de algum outro lugar. Para retornar a uma condição adaptativa, a governança tem que simultaneamente se desconectar da opinião popular (voz) e se reconectar a um registro de desempenho real – em vez de ideologicamente produzido. O meio de comunicação para o feedback não contaminado requerido por um governo sensato é o tráfego de saída dentro do Patchwork (comparável, em sua operação, a uma preferência revelada de consumo dentro de mercados).

A grande dificuldade que aí emerge – lançando todo o esquema Neocameral em questão – é a exigência de um salto ‘não descoberto’ ou ‘tecnocrata’, a partir de um ambiente de descoberta ou pressão seletiva progressivamente decadente, para um que a descoberta possa novamente ocorrer. A Neorreação confronta um problema bem real de transição, e Gurri está bastante correto em apontar isto. Handle está não menos correto quando insiste que a opção ‘conservadora’ de acomodação ao processo social democrático em movimento é profundamente indefensável, porque a deterioração da descoberta é essencial para a tendência democrática. A mal adaptação à realidade deixa de ser corrigível sob a governança da Catedral, e o reconhecimento desta condição maligna é a compreensão neorreacionária definitiva.

Se ficarmos no trem, seremos esmagados em uma insanidade consumada, mas saltar é erro tecnocrata (não suportado pela descoberta). Quanto à prevaricação: A intensificação deste dilema pode ser confiantemente esperada da mera continuação do processo democrático, dominado pela política degenerativa de um hospício, e que embaralha toda a informação social. É nesta posição precária que a tarefa de uma avaliação rigorosa do esquema Neocameral, junto com seus prospectos de renovação e reposição, tem que ocorrer.

“… só vai ficar pior daqui em diante.”

Original.