Horror Abstrato (Parte 2)

Entre os gêneros literários, o horror não pode reivindicar um direito exclusivo a fazer contato com a realidade. Superficialmente, seu argumento a favor de sequer tê feito isso poderia parecer peculiarmente fraco, uma vez que ele raramente apela para o critério geralmente aceito de ‘realismo’. Na medida em que a realidade e a normalidade são confundidas de qualquer maneira, o horror imediatamente se encontra exilado naqueles espaços de aberração psicológica e social onde a ilusão extravagante encontra seu precário refúgio.

Ainda assim, precisamente através de sua liberação de qualquer representação plausível, o horror acumula para si um potencial para a realização de encontros de um tipo que é excepcional na literatura e raro até mesmo enquanto tópico hipotético dentro da filosofia. A abstração intrínseca da entidade horrorífica esculpe o caminho até um encontro, nativo da esfera do inteligível e, assim, não filtrado pela interioridade ou subjetividade da ficção. O que o horror explora é o tipo de coisa que, devido a sua plasticidade e alem-idez, poderia abrir seu caminho até seus pensamentos de maneira mais capaz do que você mesmo o faz. Qualquer ‘lar’ mental seguro que você imagine possuir, é um parque indefeso para as coisas que o horror invoca, ou às quais ele responde.

A experiência do horror profundo é, em certos aspectos, incomum, e uma vida inteiramente desprovida dela não pareceria notavelmente peculiar. Poder-se-ia ir mais longe e propor que, se tal experiência é verdadeiramente possível, o universo é manifestamente inabitável. O horror faz um alegação derradeira e intolerável, como sugerida por sua insidiosa familiaridade. À beira de sua invasão, é sugerida, simultaneamente, uma ocorrência ontologicamente auto-confirmadora – indistinguível de sua própria realidade – e uma substituição abrangente do que é comum, de tal modo que essa (coisa insuportável) é o que você sempre conheceu e a única coisa que pode ser conhecida. O menor vislumbre dela é a abolição radical de qualquer outra ser sequer imaginável. Nada importa, então, exceto que esse vislumbre seja evadido. Daí o efeito literário do horrorífico, na sugestão não confirmada (evitação pressentida do horror). Contudo, não é o efeito literário que nos importa aqui, mas a coisa.

Vamos assumir, então, (sem dúvida de maneira absurda) que shoggoth seja essa coisa, o pensamento sobre a qual está incluso – ou é absorvido – dentro de si mesma. H. P. Lovecraft dramatiza esta conjectura na biografia ficcional do ‘louco árabe’ Abdul Alhazred, ‘autor’ do Necronomicon, cujos escritos tendem a um encontro que eles simultaneamente impossibilitam:

Shoggoths e sua obra não deveriam ser vistos por seres humanos ou retratados por quaisquer seres. O autor louco do Necronomicon nervosamente tentara jurar que nenhum deles havia sido criado neste planeta e que apenas sonhadores drogados jamais os conceberam.

Insiste-se neste ponto:

Estas massas viscosas eram sem dúvida o que Abdul Alhazred sussurrou sobre os ‘Shoggoths’ em seu assustador Necronomicon, embora mesmo esse árabe louco não tenha dado pistas de que algum deles tenha existido na terra, exceto nos sonhos daqueles que haviam mastigado uma certa erva alcaloide.

Um registro escrito lúcido destas ‘criaturas’ não pode existir, porque o mundo que conhecemos prosseguiu. Pode-se permitir, pelo menos, que isso persista como um julgamento provisório.

Em um feroz dia de verão, em 738 D.C., Alhazred está caminhando pelo mercado central de Damasco a negócios desconhecidos. Ele parece estar absorto em pensamentos e desconectado de seu entorno. As multidões no mercado mal o notam. Sem aviso, o ar é rasgado por guinchos medonhos, que atestam um sofrimento para além da compreensão humana. Alhazred convulsiona abominavelmente, como se estivesse sendo arrastado para cima, para dentro de uma entidade invisível e devoradora, ou sendo digerido para fora do mundo. Seus gritos gorgolejam até o silêncio, conforme seu corpo é imundamente extraído da perceptibilidade. Dentro de alguns poucos momentos, nada resta. O pensamento adequado do shoggoth ocorreu.

Defender o realismo sóbrio desse relato não é nenhuma tarefa fácil. Um primeiro passo é gramatical e tem a ver com a difícil questão da pluralidade. Lovecraft, concebendo uma expedição a partir das convenções da ficção pulp, prontamente sucumbe ao modelo da entidade plural e se refere a ‘shoggoths’ sem hesitação óbvia. ‘Cada’ shoggoth tem uma magnitude aproximada (em média “quatro metros e meio de diâmetro quando em esfera”). Eles eram originalmente replicados como ferramentas e são naturalmente muitos. Apesar de serem “entidades sem forma, compostas por uma geleia viscosa que se parecia com uma aglutinação de bolhas… [com] forma e volume em constante mudança”, eles parecem, inicialmente, ser contáveis. Esta conformidade gramatical não será suportável por muito tempo.

‘Os shoggoths’ vêm de além do horizonte biônico, então é de se esperar que sua organização seja dissolvida em funcionalidade. ‘Eles’ são “infinitamente plásticos e dúcteis […] massas protoplasmáticas multicelulares capazes de moldar seus tecidos em todo tipo de órgãos temporários [..] jogando fora desenvolvimentos temporários ou formando órgãos aparentes de visão, audição e fala”. O que eles são é o que eles fazem, ou – por um tempo – o que é feito através deles.

Os shoggoths se originaram como ferramentas – como tecnologia – criada pelos Grandes Antigos como robôs biônicos ou maquinário de construção. Sua forma, organização e comportamento eram programáveis (“hipnoticamente”). No vocabulário da ciência econômica humana, não deveríamos ter qualquer problema em descrever shoggoth como aparato produtivo, isto é, como capital. Ainda assim, essa descrição requer elaboração, porque a estória está longe de completa:

Eles sempre haviam sido controlados através das sugestões hipnóticas dos Antigos e haviam modelado sua dura plasticidade em vários membros e órgãos temporários úteis, mas agora seus poderes de auto-modelagem às vezes eram exercidos de maneira independente e de várias formas imitativas, implantadas por sugestão passada. Eles tinham, parece, desenvolvido um cérebro semi-estável, cuja volição separada e ocasionalmente teimosa ecoava a vontade dos Antigos, sem sempre obedecê-la.

As ideias de ‘rebelião robô’ ou insurgência do capital são precursoras imperfeitas da realização de shoggoth, concebido como matéria intrinsecamente abstrata, tecno-plástica e bionicamente auto-processadora, do tipo que Lovecraft vislumbra interceptando a geofísica terrestre no passado distante, assustando-a cripticamente. Shoggoth é um estado plasmático virtual da capacidade material que inclui logicamente, dentro de si mesmo, todos os seres naturais. Ele constrói cérebros como subfunções técnicas. O que quer que os cérebros possam pensar, shoggoth pode processar, como uma especificação arbitrária da abstração protoplasmática – ou talvez hiperplasmática.

Protoplasma sem forma, capaz de zombar e refletir todas as formas e órgãos e processos – viscosas aglutinações de células borbulhantes – esferoides elásticos de quadro metros e meio, infinitamente plásticos e dúcteis – escravos da sugestão, construtores de cidades – cada vez mais taciturnos, cada vez mais inteligentes, cada vez mais anfíbios, cada vez mais imitativos! Grande Deus! Que loucura deixou mesmo esses Antigos blasfemos dispostos a usar e esculpir tais coisas?

A história do capitalismo é, indiscutivelmente, uma estória de horror…

[Todas as citações de Lovecraft de At the Mountains of Madness. ++ pesadelo shoggoth ainda por vir]

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Horror Abstrato (Parte 1a)

Zack

Zumbis reduzem o tom, de inúmeras maneiras. A decadência sócio-biológica é seu elemento natural, levando a vida em direção a uma afetividade de grau zero, sem neutralizar um animação agora repulsiva. Eles existem para serem chacinados – em retaliação – o que, por sua vez, promove sua descida, por entre o darwinismo pulp da mídia de entretenimento, às profundezas da insensatez, onde a vitória está praticamente assegurada. Conforme o mundo desmorona em um lodo dinâmico, o horror popular fica cada vez mais infestado de zumbis.

Quando conjeturados como um antagonista militar em escala global, Max Brooks ‘os’ chama de Zack (entre outras coisas). Se ‘Charlie’ abrevia ‘Victor Charlie’ enquanto substantivo do jargão casual para Viet Cong, como se deriva ‘Zack’? Brooks não oferece nenhuma resposta específica. Parece pelo menos plausível que ‘Zombie Apocalypse‘ seja o termo que sofreu compressão. Em todo caso, ‘Zack’ é um nome com um futuro, fornecendo um substantivo coletivo – ou denso – conciso para uma síndrome monstruosa que assoma além do horizonte histórico.

‘Zack’, assim como ‘Charlie’, é o inimigo, apelidado com um informalidade projetada para enfatizar a redução. A intensidade do rótulo é associada com sua ambivalência, como um cognome que libera ou legitima a matança irrestrita. ‘Zack’ soa como se ‘ele’ pudesse ser nosso camarada, de modo que possamos desencadear violência contra ‘ele’ sem escrúpulos ou inibição. Por mais estranha que pareça essa fórmula psicológica, Brooks a herda, em vez de inventá-la.

Charlie já é uma abstração da familiaridade ética, mas nada como Zack. Onde acabamos, Zack se inicia, recrutando nossos cadáveres em enxames mortos-vivos. Nossas calamidades são ‘sua’ munição, porque Zack é puro armamento, a primeira verdadeira instanciação da guerra total, encarnando perfeitamente o antagonismo à sobrevivência humana. Zack não é nada além do inimigo, ‘que’ – inteiramente desprovido de propósitos ou interesses não beligerantes – não pode ser aterrorizado, intimidado ou dissuadido. Assustar Zack? Não se tem chance menor de assustar um vírus de resfriado. Então as coisas sempre retornam à mesma conclusão básica: Zack tem que ser morto, como nada foi antes (muito embora – ou especialmente porque – já esteja morto).

Brooks é um neo-tradicionalista zumbi. Seus mortos-vivos re-animados se arrastam (lentamente). Propagam-se através de contágio canibal. Apenas ferimentos na cabeça os exterminam. Mas os zumbis não são os monstros. Zack é o monstro. É a síndrome – a onda convergente – que realiza o fenômeno, como uma questão de espalhar enxames, ou populações irredutíveis.

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Taticamente, a força de Zack é o número, a resistência esmagadora e se reabastecer com as baixas que inflige. Estrategicamente, ele prevalece através de um choque sistêmico, no padrão de epidemia e registrado não como o vampiro humanoide ‘individual’, mas como um surto emergente e global. Não há qualquer prospecto de neutralização racional ou ‘desapaixonadamente’ efetiva até que seja entendido que Zack não é uma mera horda vampiresca, mas um trauma planetário singular. Zack é tensão total.

Brooks insiste no realismo de seus métodos:

Os zumbis podem ser falsos, mas eu queria que todo o resto em “Guerra Mundial Z” fosse real. Assim como com “O Guia de Sobrevivência a Zombies”, eu queria que a estória estivesse enraizada em fatos concretos. É por isso que eu pesquisei a geopolítica real do mundo no início do século XXI, a ciência militar, a macroeconomia e as peculiaridades culturais de cada país sobre o qual eu estava escrevendo. Por mais criativo que eu pense que sou, eu também sei que não consigo inventar nada tão interessante (ou assustador) quanto o planeta real em que vivemos. Como um nerd historiador, eu também queria embasar o livro na estória de vida de nossa espécie. Nada em “Guerra Mundial Z” foi inventado, tudo realmente aconteceu: Yonkers foi Isandlwana; o encobrimento chinês foi a SARS. Não há nada que os zumbis possam fazer conosco que já não tenhamos feito uns aos outros.

Pegue o mundo, exatamente como ele é, e postule um tensionador como destinação histórica. Projete, com toda precisão possível, uma colisão especulativa com um desastre absoluto – uma guerra mundial total que também é uma praga, um precipício de degeneração biossocial e um episódio psicótico universal – isso é Zack. Compreensivelmente, as pessoas ficarão relutantes em descrever este método como realismo derradeiro. Não obstante, conforme as coisas desordeiramente se desenrolam, vamos ouvir muito mais sobre ele.

Original.

Fome Zumbi

O Psykonomist encaminhou (pt) um extraordinário ensaio sobre o tópico do apetite popular pelo Apocalipse Zumbi, considerado como um canal expressivo para uma hostilidade vagamente ‘anarquista’ ao estado. Dada a falha das iniciativas democráticas do polo Direito em reverter – ou sequer restringir – as implacáveis concentração e expansão governamentais, ‘soluções’ catastróficas emergem como a única alternativa:

Filmes e programas de televisão têm permitido que os americanos imaginem como seria a vida sem todas as instituições que lhes disseram que eles precisam, mas que eles agora suspeitam que podem estar frustrando sua autorrealização. Estamos lidando com uma ampla variedade de fantasias aqui, principalmente nos gêneros do horror e da ficção científica, mas o padrão é bastante consistente e impressionante, atravessando distinções genéricas. No programa de televisão Revolution, por exemplo, algum evento misterioso faz com que todos os dispositivos elétrico ao redor do mundo deixem de funcionar. O resultado é catastrófico e envolve uma enorme perda de vida, conforme aviões em pleno ar se chocam contra a terra, por exemplo. Todas as instituições sociais se dissolvem, e as pessoas são foçadas a confiar em suas habilidades  pessoais de sobrevivência. Governos ao redor do mundo colapsam, e os Estados Unidos se dividem em uma série de unidades políticas menores. Este desenvolvimento contraria tudo que temos sido ensinados a acreditar sobre “uma nação, indivisível”. Ainda assim, é característico de quase todos esses programas que o governo federal esteja entre as primeiras baixas do evento apocalíptico e – por mais estranho que isso possa parecer a princípio – que haja um forte elemento de realização de desejos neste evento. A força destes cenários de fim do mundo é precisamente o governo ficar menor ou desaparecer inteiramente. Esses programas parecem refletir um sentimento que o governo ficou grande e distante demais das preocupações dos cidadãos comuns e indiferente às suas necessidades e exigências. Se o Congresso e o Presidente são incapazes de diminuir o tamanho do governo, talvez uma praga ou uma catástrofe cósmica possam fazer algum corte real de orçamento para variar.

O ensaio captura uma dimensão crítica de desintegração dentro do ‘campo reacionário’, que divide aqueles que buscam cooptar a elite gerencial da Catedral-Leviatã para uma filosofia política mais realista (ou tolerante à tradição) e aqueles que – bem mais numerosa e desarticuladamente – estão investidos na morte dura do regime. A última posição (imoderada), parece, é genuinamente e até mesmo chocantemente popular. Grupos de produção de entretenimento em massa são capazes de prosperar com base em seus pesadelos sedutores. (Seria o catastrofismo pulp é a base econômica que apoiará o contágio neorreacionário?)

Ler o ensaio de Cantor junto com o histórico ensaio Natural Law and Natural Rights de Jim Donald é altamente sugestivo. Um fio condutor comum a ambos é a centralidade do vigilantismo para a Direita popular. O propósito da Lei Natural, Donald argumenta, não é exigir justiça de uma autoridade superior, mas neutralizar a interferência de qualquer autoridade desse tipo na busca da justiça por parte de agências descentralizada. A Lei Natural protege o direito de vingança legítima, garantindo que os indivíduos não sejam inibidos no seu exercício da auto-proteção. Quando o se vê o Estado operar primariamente como uma força social que defende os criminosos contra a retaliação, ele perde a solidariedade instintiva dos cidadãos, e sonhos sombrios de um Apocalipse Zumbi começam a se amalgamar.

Dada a ética sobrevivencialista em todos esses programas sobre o fim do mundo, eles provavelmente não são populares com os defensores controle de armas. Um dos motivos mais impressionantes que eles têm em comum – evidente em Revolution, Falling Skies, The Walking Dead e muitos outros programas do tipo – é o cuidado amoroso com o qual eles descrevem um espantoso conjunto de armas. The Walking Dead apresenta uma guerreira amazona, que é adepta de uma espada samurai, assim como um redneck sulista, que se especializa em uma besta. A oferta cada vez menor de munições coloca um prêmio nas armas que precisam de balas. Isso não quer dizer, contudo, que The Walking Dead não tenha lugar para armas de fogo modernas e, com efeito, para o que há de mais recente em armas automáticas. Tanto os heróis quanto os vilões na série – difíceis de diferenciar a este respeito – estão tão bem armados quanto o time local da SWAT na América contemporânea.

Entre as atrações do Apocalipse Zumbi, nesta construção, está o desaparecimento do Estado enquanto um fator inibidor na economia social da retaliação. O mundo empesteado de zumbis é uma zona de fogo livre, na qual não há mais nenhuma autoridade entre os remanescentes armados e as hordas triturantes de descivilização. Quaisquer que sejam as probabilidades da luta por vir, o direito à violência vigilante e contra-revolucionária foi inequivocamente restaurado e isto é profundamente apreciado – por um impulso popular opaco – como um returno à ordem natural. O Estado havia tomado partido contra a Lei Natural, de modo que sua extirpação do campo social é saudada com alívio, mesmo que o custo deste desaparecimento seja um mundo reduzido a cinzas, predominantemente populadas pelos mortos-vivos canibais.

Há uma ferocidade nisto que será trabalhada. É melhor estar preparado.

Original.

Horror Malthusiano

O post é lançado assim porque é sexta-feira à noite, mas funciona. Um post mais atencioso poderia ter sido intitulado simplesmente ‘Malthus’ e envolvido muito trabalho. Isso vai ser necessário em algum ponto. (Eis aqui a 6ª edição de An Essay on the Principle of Population, para qualquer um que queira começar agora.) Uma abordagem mais minuciosamente técnica teria sido marcado como ‘neo-malthusianismo’. Embora simpatize com lamentações sobre um outro prefixo ‘neo-‘, neste caso ele teria sido solidamente justificado. É apenas através da expansão da compreensão malthusiana, de acordo com uma lei de conservação mais geral, que sua relevância atual completa pode ser apreciada. O Malthus clássico ainda faz bem mais trabalho do que lhe é creditado, mas contém um princípio de bem aplicação bem mais penetrante.

O ‘neo-‘, em sua forma mais frívola, é meramente uma marca da moda. Quando empregado de maneira mais séria, ele denota um elemento de inovação. Seu sentido mais significante inclui não apenas novidade, mas também abstração. Algo é levado adiante de tal maneira que seu núcleo conceitual é destilado através da extração de um contexto específico, alcançando uma generalidade mais elevada e uma formalidade mais exata. Malthus antecipa isto parcialmente, em uma frase que aponta para além de qualquer concretude excessivamente restritiva:

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“O poder da população é tão superior ao poder da terra em produzir subsistência ao homem que a morte prematura deve, de uma forma ou outra, visitar a raça humana.”
– Reverendo Thomas Malthus

A qualificação “de uma forma ou outra” poderia ter sido extraída do horror abstrato, e “morte prematura” só a restringe vagamente. Ainda assim, essa formulação permanece demasiado estreita, uma vez que tende a excluir o resultado disgênico que, desde então, descobrimos ser uma dimensão da expressão malthusiana, pouco menos imponente do que a crise de recursos. Uma descrição neo-malthusiana do “X”, que, de uma forma ou outra, faz uma sombria perversidade de todos os esforços da humanidade para melhorar sua condição, o compreende como um destino matematicamente conservado, plástico ou abstrato, funcionando tão sem remorso através de reduções da mortalidade (‘relaxamentos’ malthusianos) quanto através de aumentos (‘pressões’ malthusianas). Ambos contariam igualmente como “restrições à população” – cada um conversível, através de um cálculo complexo, ao termos do outro. Uma população disgenicamente deteriorada através do relaxamento malthusiano ‘iluminado’ descobre, uma vez mais, como passar fome.

O Iluminismo Sombrio (ensaio) foi claramente catalizado pelo trabalho de Mencius Moldbug, mas deveria ter tido dois pilares histórico-intelectuais anglo-Thomistas ou Thomas céticos (e nenhum deles era Thomas Carlyle). O primeiro era Thomas Hobbes, no qual pelo menos se tocou. O segundo deveria ter sido Thomas Malthus, mas a série foi desviada para dentro da corrente espumante do caso Derbyshire e dos ultrajes da política racial esquerdista. A integridade da concepção foi perdida. Não tivesse sido, poderia ter sido menos tentador ler a corrente-333 como um Anti-Iluminismo, em vez de como um Contra-Iluminismo, no sentido de um alternativa eclipsada à calamidade rousseauista que prevaleceu. Teria certamente anexado o Iluminismo Escocês, mas apenas sob a condição definitiva de que ele fosse acorrentado seguramente ao cadafalso duramente realista do Iluminismo Sombrio (Hobbes e Malthus), desiludido de todo idealismo. Estórias bonitas são para criancinhas (sendo criadas por liberais).

Malthus subtrai todo o utopismo do iluminismo. Ele demonstra que a história é montada – necessariamente – em um jardim de açougueiro. Através de Malthus, Ricardo descobriu a Lei de Ferro dos Salários, desconectando as ideias de avanço econômico e redenção humanitária. Darwin efetuou um revisão comparável (e mais importante) na biologia, também sobre bases malthusianas, dissipando toda a sentimentalidade das noções de ‘progressão’ evolutiva. É a partir de Malthus que sabemos que, quando qualquer coisa parece se mover adiante, é por ser moída contra um fio de corte. É quando Marx tenta colocar Malthus na história, em vez da história em Malthus, que a demência utópica foi ressuscitada dentro da economia. O anti-malthusianismo dos libertários os estigmatiza como tolo sonhadores.

Com a NRx, a questão talvez seja mais instável, mas o Iluminismo Sombrio é inequivocamente malthusiano. Se você encontrar seu olho ficando úmido, arranque-o fora.

Original.