Dupla Predestinação

A herança cladística exige que eu comece a falar sobre a doutrina calvinista da Providência aqui (logo), apesar da minha total depravação cognitiva sobre o tópico. Tenho estado lendo as Institutas da Religião Cristã, e em seu entorno, mas inevitavelmente como se fosse de Marte (e como um confucionista). Tem que ser o caso de que muitos dos visitantes aqui são vastamente mais intelectualmente fluentes sobre o assunto, de modo que quaisquer comentários antecipatórios serão avidamente apoderados.

A fatalidade, até onde ela está inicialmente evidente:

(1) A Neorreação, localizada cladisticamente, é um estilhaço criptocalvinista.

(2) As doutrinas que colocaram o calvinismo no “gabinete dos horrores” de H. L. Mencken (“próximo ao canibalismo”), nunca foram filosoficamente dissolvidas, seja por argumentos teológicos ou seculares.

(3) A dispensa moralista da modernidade e, por associação, do protestantismo, evidencia uma concepção quase incompreensivelmente crua da Providência – como se a maneira em que as coisas ocorreram não fosse uma fatalidade e, em termos teológicos, uma mensagem (ou punição), mas sim um acidente ou contingência criada pelo homem. A teologia rigorosa da modernidade não pode se reduzir a mera denúncia.

(4) O calvinismo é um instrumento com o qual se explorar o catolicismo, especialmente no que diz respeito à sua filosofia implícita da história (e ao recursos ao raciocínio teleológico). O ‘Neo-‘ na Neorreação parece ser uma marca calvinista. Há um sem número de explicações seculares influentes para a maneira em que a história torturou a Igreja – de modo que mesmo os religiosos parecem tipicamente assumi-las por padrão. Onde se encontra uma descrição radicalmente providencial (que escave o significado teológico da modernidade)?

(5) A própria palavra ‘Catedral’, em seu uso neorreacionário, não é um sinal providencial complexo? (O que sugere que ela tem bem mais a dizer do que qualquer coisa que escritores neorreacionários ou o mero acidente coloquem nela.)

(6) O aglomerado de disputas em torno da ‘predestinação’ (ou ação da eternidade sobre a história) é a chave ocidental para o problema do tempo.

Estou certo de que há muito mais…

[Isto ajuda a estabelecer o tom.]

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 3

Parte 3:

O fascículo anterior desta série acabou com nosso herói, Mencius Moldbug, até a cintura (ou pior) no pântano mefítico do politicamente incorreto, aproximando-se do coração sombrio de sua meditação político-religiosa em How Dawkins Got  Pwned. Moldbug pegou Dawkins no meio de uma denúncia sintomaticamente significante e excruciantemente beata dos “sentimentos vitorianos” racistas de Thomas Huxley – um sermão que conclui com a estranha declaração de que ele está citando as palavras de Huxley, apesar de sua pavorosidade auto-evidente e totalmente intolerável, “apenas para ilustrar como o Zeitgeist segue em frente”.

Moldbug dá o bote, perguntando mordazmente: “O que, exatamente, é essa coisa do Zeitgeist?”. É, indiscutivelmente, uma extraordinária captura. Eis aqui um pensador (Dawkins), treinado como biólogo e especialmente fascinado pelos tópicos (disjuntivamente) geminados da evolução naturalista e da religião abraâmica, tropeçando no que ele apreende como uma tendência unidirecional de desenvolvimento espiritual histórico-mundial, que ele então – enfaticamente, mas sem o menor apelo à razão disciplinada ou à evidência – nega que tenha qualquer conexão séria com o avanço da ciência, com a biologia humana ou com a tradição religiosa. O disparate balbuciante que daí se resulta é uma coisa de se admirar, mas, para Moldbug, tudo faz sentido:

Na verdade, o Zeitgeist do Professor Dawkins é… indistinguível do… antigo conceito anglo-calvinista ou puritano de Providência. Talvez esta seja uma falsa correspondência. Mas é uma bem próxima.

Uma outra palavra para Zeitgeist é Progresso. Não é de se surpreender que os Universalistas tendam a acreditar no Progresso – na verdade, em um contexto político, eles frequentemente se denominam progressistas. O universalismo de fato fez um bom bocado de progresso desde [a época da embaraçosa observação de Huxley em] 1913. Mas isto dificilmente refuta a proposição de que o Universalismo é uma tradição parasita. Progresso para o carrapato não é progresso para o cão.

O que, exatamente é essa coisa de Zeitgeist? Vale a pena repetir a questão. Não é espantoso, para começar, que quando um darwinista inglês busca uma arma para golpear outro, o cacete mais conveniente à mão seja uma palavra alemã – associada com uma linhagem abstrusa de filosofia idealista adoradora do estado – fazendo referência explícita a uma concepção de tempo histórico que não tem qualquer conexão discernível com o processo de evolução naturalista? É como se, de maneira dificilmente imaginável, durante uma contenda comparável entre físicos (sobre o tópico da indeterminação quântica), de repente se ouvisse gritar que “Deus não joga dados com o universo”. Na verdade, os dois exemplos estão intimamente emaranhados, uma vez que a fé de Dawkins no Zeitgeist é combinada com uma adesão ao progressismo dogmático da ‘Religião Einsteiniana’ (meticulosamente dissecada, claro, por Moldbug).

O despudor é notável, ou pelo menos seria, se ingenuamente se acreditasse que os protocolos da racionalidade científica ocupavam uma posição soberana em tal disputa, mesmo que apenas em princípio. Na verdade – e aqui a ironia é amplificada à própria beira da psicose uivante – o Old One de Einstein ainda reina. Os critérios de julgamento devem tudo à higiene espiritual neo-puritana e nada que seja à realidade testável. A elocução científica é filtrada para a conformidade com uma agenda social progressista, cuja autoridade parece não ser afetada por sua completa indiferença para com a integridade científica. O que lembra Moldbug de Lysenko, por razões compreensíveis.

“Se os fatos não concordam com a teoria, tanto pior para os fatos” afirmou Hegel. É o Zeitgeist que é Deus, historicamente encarnado no estado, espezinhando meros dados de volta na poeira. A este altura, todo mundo sabe onde isso acaba. Um ideal moral igualitário, endurecido em um axioma universal ou dogma cada vez mais incontestável, completa a ironia histórica suprema da modernidade, ao tornar a ‘tolerância’ o critério de ferro para os limites da tolerância (cultural). Uma vez que seja aceito de maneira universal ou, falando de maneira mais prática, por todas as forças sociais que empunham um poder cultural significante, que a intolerância é intolerável, a autoridade política legitimou toda e qualquer coisa que seja conveniente para si mesma, sem restrição.

Essa é a mágica da dialética, ou da perversidade lógica. Quando apenas a tolerância é tolerável, e todo mundo (que importa) aceita esta fórmula manifestamente absurda como não apenas racionalmente inteligível, mas como o princípio universalmente afirmado da fé democrática moderna, nada resta exceto a política. A tolerância perfeita e a intolerância absoluta se tornaram logicamente indistinguíveis, com qualquer uma sendo igualmente interpretável como a outra, A = não-A, ou o inverso, e, no mundo abertamente orwelliano que daí resulta, apenas o poder tem as chaves da articulação. A tolerância progrediu em tal grau que tem se tornado uma função de policiamento social, fornecendo o pretexto existencial para novas instituições inquisitoriais. (“Devemos lembrar que aqueles que toleram a intolerância abusam da própria tolerância, e um inimigo da tolerância é um inimigo da democracia”, ironiza Moldbug.)

A tolerância espontânea que caracterizava o liberalismo clássico, enraizada em um conjunto modesto de direitos estritamente negativos que restringiam o domínio da política, ou intolerância governamental, se rende, durante a maré democrática, a um direito positivo a ser tolerado, definido de maneira cada vez mais expansiva como intitulação substancial, envolvendo afirmações públicas de dignidade, garantias impostas pelo estado de tratamento igual por parte de todos os agentes (públicos e privados), proteções governamentais contra desfeitas e humilhações não-físicas, subsídios econômicos e – em última análise – representação estatisticamente proporcional dentro de todos os campos de emprego, realização e reconhecimento. Que a culminação escatológica desta tendência seja simplesmente impossível não importa de maneira alguma para a dialética. Pelo contrário, isso energiza o processo político, comburindo qualquer ameaça de
saciação política no combustível do agravo infinito. “I will not cease from Mental Fight, Nor shall my Sword sleep in my hand: Till we have built Jerusalem, In England’s green and pleasant land.”[1] Em algum lugar antes de que Jerusalém fosse alcançada, o pluralismo inarticulado de uma sociedade livre foi transformado no multiculturalismo assertivo de uma democracia totalitária suave.

Os judeus da Amsterdam do século XVII ou os huguenotes da Londres do século XVIII gozaram do direito de serem deixados em paz e enriqueceram suas sociedades anfitriãs em troca. Os grupos de agravo democraticamente empoderados dos tempos modernos posteriores são incitados por líderes políticos a exigirem um (fundamentalmente iliberal) direito de ser ouvido, com consequências sociais que são predominantemente malignas. Para os políticos, contudo, que se identificam e se promovem como a voz dos não ouvidos ou dos ignorados, o auto-interesse em jogo dificilmente poderia ser mais óbvio.

A tolerância, que já pressupôs a negligência, agora a condena e, ao fazê-lo, se torna seu oposto. Fosse este um desenvolvimento partidário, a política partidária de um tipo democrático poderia sustentar a possibilidade de reversão, mas ele não é nada do tipo. “Quando alguém está sofrendo, o governo tem que se mover” declarou o Presidente ‘conservador compassivo’ dos EUA George W. Bush, em um fútil esforço de canalizar a Catedral. Quando a ‘direita’ soa assim, ela não está apenas morta, mas inequivocamente fedendo a decomposição avançada. O ‘Progresso’ venceu, mas isso é ruim? Moldbug aborda a questão de  maneira rigorosa:

Se uma tradição faz com que seus hospedeiros cometam erros de cálculo que comprometem suas metas pessoais, ela exibe um morbidez misesiana. Se ela faz com que seus hospedeiros ajam de maneiras que comprometam os interesses reprodutivos de seus genes, ela exibe uma morbidez darwiniana. Se se subscrever à tradição é individualmente vantajoso ou neutro (desertores são recompensados ou pelo menos não são punidos), mas coletivamente prejudicial, a tradição é parasitária. Se se subscrever é individualmente desvantajoso, mas coletivamente benéfico, a tradição é altruísta. Se é tanto individual quanto coletivamente benigna, ela é simbiótica. Se é tanto individual quanto coletivamente danosa, é maligna. Cada um desses rótulos podem ser aplicados tanto à morbidez misesiana quanto à darwiniana. Um tema que seja arracional, mas não exiba nem morbidez misesiana, nem darwiniana, é trivialmente mórbido.

Considerados de maneira comportamental, os sistemas misesiano e darwiniano são aglomerações de incentivos ‘egoístas’, orientados, respectivamente, à acumulação de propriedade e à propagação de genes. Ao passo que os darwinistas concebem a esfera ‘misesiana’ como um caso especial da motivação geneticamente auto-interessada, a tradição austríaca, enraizada em um anti-naturalismo neokantiano altamente racionalizado, está predisposta a resistir a tal reducionismo. Embora as consequências finais desta disputa sejam consideráveis, sob as atuais condições ela é uma querela de urgência menor, uma vez que ambas as formações estão unidas no ‘ódio’, isto é, em sua tolerância reacionária a estruturas de incentivos que punem os mal adaptados.

‘Ódio’ é uma palavra sobre a qual se deter. Ela testemunha com especial clareza a ortodoxia religiosa da Catedral, e suas peculiaridades merecem uma observação cuidadosa. Talvez sua característica mais notável seja sua perfeita redundância, quando avaliada da perspectiva de qualquer análise das normas legais e culturais que não esteja inflamada pelo entusiamo evangélico neo-puritano. Um ‘crime de ódio’, se for qualquer coisa que seja, é apenas um crime, mais ‘ódio’, e o que o ‘ódio’ adiciona é revelador. Para nos restringirmos, momentaneamente, a exemplos de criminalidade incontroversa, se poderia perguntar: o que é, exatamente, que agrava um assassinato, ou uma agressão, se a motivação for atribuída ao ‘ódio’? Dois fatores parecem especialmente proeminentes, e nenhum tem qualquer conexão óbvia com as normas legais comuns.

Primeiramente, o crime é aumentado por um elemento puramente ideacional, ideológico ou mesmo ‘espiritual’, que atesta não apenas uma violação da conduta civilizada, mas também uma intenção herética. Isto facilita a abstração completa do ódio em relação à criminalidade, após a qual ele toma a forma de ‘discurso de ódio’ ou simplesmente ‘ódio’ (que deve sempre ser contrastado com a ‘paixão’, ‘injúria’ ou ‘ira’ justificada representada pela linguagem crítica, controversa ou meramente abusiva que é dirigida contra grupos, categorias sociais ou indivíduos não protegidos). ‘Ódio’ é uma ofensa contra a própria Catedral, uma recusa de sua orientação espiritual e um ato mental de provocação contra o destino religioso manifesto do mundo.

Em segundo lugar, e de maneira relacionada, o ‘ódio’ é deliberadamente e mesmo estrategicamente assimétrico em relação à polaridade política de equilíbrio das sociedades democráticas avançadas. Entre a implacável marcha do progresso e o resmungo ineficaz do conservadorismo, ele não vacila. Como vimos, apenas a direita pode ‘odiar’. Conforme o sistema imunológico doxológico da supressão de ‘ódio’ é consolidado dentro dos sistemas educacional da elite e midiático, a distribuição altamente seletiva de proteções garante que o ‘discurso’ – especialmente o discurso empoderado – é consistentemente reajustado para a esquerda, o que quer dizer, na direção de um Universalismo cada vez mais abrangentemente radicalizado. A morbidez desta tendência é extrema.

Uma vez que o status de agravo é concedido como compensação política para a incompetência econômica, ele constrói um mecanismo cultural automático que advoga a disfunção. O credo Universalista, com sua identificação reflexiva da igualdade com a injustiça, não consegue conceber nenhuma alternativa à proposição de que, quanto mais baixo a situação ou o status de alguém, mais convincente é a sua revindicação sobre a sociedade, mais pura e mais nobre é a sua causa. A falha temporal é a o sinal da eleição espiritual (marxo-calvinismo) e disputar qualquer parte disso é claramente ‘ódio’.

Isto não força nem mesmo o neo-reacionário de coração mais duro a sugerir, em uma caricatura do estilo cultural alto-vitoriano, que a desvantagem social, como manifesta em violência política, criminalidade, falta de moradia, insolvência e dependência do bem-estar social, é um índice simples da culpabilidade moral. Em grande parte – talvez uma parte esmagadoramente grande – ela reflete o puro infortúnio. Pessoas obscuras, impulsivas, sem saúde e pouco atraentes, criadas caoticamente em famílias abusivas e encalhadas em comunicadas despedaçadas e assoladas pelo crime, têm toda razão de amaldiçoaram os deuses antes de si mesmas. Além disso, um desastre pode atingir qualquer um.

Em relação a estruturas efetivas de incentivos, contudo, nada disto é da menor importância. A realidade comportamental conhece apenas uma lei de ferro: O que quer que seja subsidiado é promovido. Com uma necessidade não mais fraca do que aquela da própria entropia, na medida em que a democracia social busca suavizar as más consequências – para grandes corporações não menos do que para individuos batalhadores e culturas desafortunadas – as coisas ficam piores. Não há maneira de contornar ou ir além desta fórmula, só pensamento positivo e cumplicidade com a degeneração. Claro, esta compreensão reacionária definidora está condenada à inconsequência, uma vez que equivale à conclusão supremamente impalatável de que toda tentativa de melhoria ‘progressiva’ está fadada a se reverter, ‘perversamente’, em uma falha horrível. Nenhuma democracia poderia aceitar isto, o que significa que toda democracia falhará.

A excitada espiral da fuga degeneradora misesiana-darwiniana é nitidamente capturada nas palavras da libertária mais fofa do Beltway, Megan McArdle, escrevendo na embocadura central da Catedral, The Atlantic:

É um pouco irônico que as primeiras tensões sérias causadas pelas mudanças demográficas da Europa estejam aparecendo nos orçamentos de bem-estar social do continente, porque os próprios sistemas de pensão podem bem ter moldado e limitado o crescimento da Europa. O século XX viu a adoção internacional de sistemas de seguridade social que prometiam benefícios definidos, pagos a partir da receita tributária futura – conhecidos pelos especialistas em pensão como sistemas de “paygo” e pelos críticos como esquemas de Ponzi. Estes sistemas tem aliviado grandemente os medos de uma velhice destituída, mas múltiplos estudos mostram que conforme os sistemas seguridade social se tornam mais generosos (e a velhice mais segura), as pessoas têm menos filhos. De acordo com uma estimativa, de 50 as 60 por cento da diferença entre a taxa de natalidade (acima da taxa de reposição) da América e da Europa pode explicada pelos sistemas mais generosos da última. Em outras palavras, o sistema de pensão da Europa pode ter posto em ação o próprio declínio demográfico que ajudou a tornar esse sistema – e alguns governos europeus – insolvente.

Apesar da ridícula sugestão de McArdle de que os Estados Unidos da América, de alguma maneira, se isentaram do caminho mortuário da Europa, o esboço geral do diagnóstico é claro e cada vez mais aceito como senso comum (embora melhor ignorado). De acordo com o credo ascendente, o bem-estar social alcançado através da progenitura e da poupança não é universal e, assim, é moralmente ignorante. Ele deveria ser suplantado, tão ampla e rapidamente quanto possível, por benefícios universais ou ‘direitos positivos’, distribuídos universalmente ao cidadão democrático e, assim, inevitavelmente, roteado através do Estado altruísta. Se, como resultado, devido à irremediável incorreção política da realidade, economias e populações colapsarem em concerto, pelo menos isso não danificará nossas almas. Ó, democracia! Sua idiota moribunda doce como sacarina, você acha que as hordas zumbis se preocuparão com a sua alma?

Moldbug comenta:

O Universalismo, na minha opinião, é melhor descrito como um culto dos mistérios do poder. É um culto do poder porque um estágio crítico em seu ciclo replicador de vida é uma criaturazinha chamada Estado. Quando olhamos para as proteínas de superfície dos grandes Us, notamos que a maioria delas podem ser explicadas por sua necessidade de capturar, reter e manter o Estado e dirigir seus poderes à criação de condições que favoreçam a replicação continuada do Universalismo. É tão difícil imaginar o Universalismo sem o Estado quanto a malaria sem o mosquito.

É um culto dos mistérios porque ele desloca as tradições teístas, substituindo as superstições metafísicas por mistérios filosóficos, tais como humanidade, progresso, igualdade, democracia, justiça, meio ambiente, comunidade, paz, etc.

Nenhum destes conceitos, como definidos na doutrina Universalista ortodoxa, é sequer ligeiramente coerente. Todos podem absorver uma energia mental arbitrária sem produzir nenhum pensamento racional. Nisto, eles são melhor comparados aos
absurdos plotinianos, talmúdicos ou escolásticos.

Como bônus, eis aqui o guia do Urban Future para a sequência principal dos regimes políticos modernos:

Regime(1): Tirania Comunista
Crescimento Típico: ~0%
Voz / Saída: Baixa / Baixa
Clima cultural: Utopismo psicótico
A vida é… dura, mas ‘justa’
Mecanismo de transição: Redescobre os mercados no grau zero econômico

Regime(2): Capitalismo Autoritário
Crescimento Típico: 5-10%
Voz / Saída: Baixa / Alta
Clima cultural: Realismo insensível
A vida é… dura, mas produtiva
Mecanismo de transição: Pressurizado pela Catedral a se democratizar

Regime(3): Social Democracia
Crescimento Típico: 0-3%
Voz / Saída: Alta / Alta
Clima cultural: Desonestidade beata
A vida é… suave e insustentável
Mecanismo de transição: Chutar latas sai da pista

Regime(4): Apocalipse Zumbi
Crescimento Típico: N/A
Voz / Saída: Alta (em sua maioria gritaria inútil) / Alta (com combustível, munição, comida seca, moedas de metais preciosos)
Clima cultural: Sobrevivencialismo
A vida é… de dura a impossível
Mecanismo de transição: Desconhecido

Para todos os regimes, as expectativas de crescimento assumem uma população moderadamente competente, de outra forma, vá direto para (4).

________________________
[1] Nota do Tradutor: Estrofe final do poema “And did those feet in ancient time” de William Blake, na introdução de seu épico Milton (1808). Tradução livre: “Eu não deixarei de Lutar coma Mente, Tampouco minha Espada dormirá em minha mão: Até que tenhamos construído Jerusalém, Na terra ver e agradável da Inglaterra”.

Original.

Marcadores de Fendas

O comentador que usa o rótulo Saddam Hussein’s Whirling Aluminium Tubes produziu algumas das críticas mais brilhantes a que este blog já esteve sujeito. Argumentando contra a estirpe tecno-comercial da NRx a partir de um ponto de vista paleorreacionário linha-dura, sua contribuição para esta (pt) seção é o ponto alto de seu engajamento aqui. Que, mesmo no clímax do ataque, este blog seja incapaz de declinar o diagnóstico oferecido, com a exceção de apenas as mais ligeiras e marginais reservas, é um fato que atesta a lucidez de sua visão. (Alguns ajustes editoriais mínimos foram feitos por consistência – o original pode ser conferido no link fornecido). SHWAT escreve:

A analogia do Admin entre o Tecno-Comercialismo e as estruturas do governo colonial na época da companhia das Índias Orientais está absolutamente correta e fornece um esclarecimento decisivo. Isto é como a vez quando um grupo ficou na Europa, enquanto o outro grupo ia fazer sua fortuna no Novo Mundo.

Reação: Ordem estável (como valor, se não efeito prático), posição hereditária
Tecno-comercialismo: Competição desintegradora, dinamismo

Reação: Conservadorismo, tradição, as antigas maneiras
Tecno-comercialismo: Compatição desintegradora, inovação

Reação: Autoridade pessoal, Realeza sacra, privilégios hereditários
Tecno-comercialismo: Governo corporativo, inclinando-se para o oligárquico, composição dinâmica da oligarquia, baseado na política corporativa e no Darwinismo Social

Reação: História cíclica, Kali Yuga
Tecno-comercialismo: História linear, progresso em direção à singularidade

Reação: Foco no país antigo, nas pessoas antigas, salvando o Ocidente
Tecno-comercialismo: Abandonar o antigo, colonizar novos espaços, tanto no Oriente quanto (espera-se) no Espaço

Reação: Ordem social tradicional, comunidade, pertencimento, senso de local e enraizamento, casta
Tecno-comercialismo: Dinamismo social moderno, liberdade, meritocracia, desenraizamento, atomização, Darwinismo Social, um futuro questionável para certas classes sociais

Reação: Conservadoramente comunitária
Tecno-comercialismo: Radicalmente individualista

Reação: Identitário
Tecno-comercialismo: Cosmopolita

Reação: Alega acabar com a política, acaba com a política Bizantina / Otomana
Tecno-comercialismo: Alega acabar com a política, acaba com a Política Corporativa

Reação: Marcial
Tecno-comercialismo: Mercantil, pós-Marcial (Drones > Xátrias)

Reação: Desdenhosa de empreendimentos mercantis crassos
Tecno-comercialismo: Vê empreendimentos mercantis como primários

Reação: Falha sem bons líderes
Tecno-comercialismo: Foco em estruturas governamentais inovadoras, de modo que as pessoas não precisem ser boas

Reação: Conservadora, quer que as coisas fiquem as mesmas ou volta para trás
Tecno-comercialismo: Desintegrador, dinâmico, quer que as coisas mudem constantemente, Avante!

Reação: Capitalismo ordinário, enjaulado (o que, para o Ultra-Capitalista, é socialismo)
Tecno-comercialismo: Ultra-Capitalismo

Reação: Religiosa
Tecno-comercialismo: Quer invocar um deus-máquina

Reação: Sobre encontrar uma maneira para que os humanos vivam vidas espiritualmente satisfatórias e depois morram e abram espaço para seus filhos
Tecno-comercialismo: Sobre encontrar uma maneira de invocar um deus-máquina para acabar com a humanidade e/ou encontrar uma maneira de viver para sempre. Muito poucos filhos.

Reação: Exigiria a criação de uma elite marcial nova e legítima ou a cooptação de alguém como Putin (horripilante para os tecno-comercialistas)
Tecno-comercialismo: Busca cooptar a atual elite mercante progressista e colocar alguém como o cara do Google no poder (horripilante para os reacionários)

Reação: Causa perdida romântica
Tecno-comercialismo: Perturbadoramente plausível, no sentido de que alguém como o cara do Google provavelmente iria acabar no topo de qualquer maneira, e ele poderia ouvir aqueles que lhe bajulam.

Então, eu tenho boas notícias e más notícias. As boas notícias são que [vocês tecno-comercialistas] provavelmente vão conseguir muito do que vocês querem no futuro. As más notícias são que você não são reacionários, nem mesmo um pouco. Vocês são liberais clássicos, só estava um pouco obscurecido porque vocês são liberais clássicos ingleses, em vez de americanos ou franceses. Consequentemente a falta de interesse em revoluções. O equivalente moderno daqueles caras liberais clássicos da Companhia das Índias Orientais.

Então, a escolha é de vocês. Vocês certamente podem manter o rótulo neo-reacionário e transformá-lo em algo como o “neo” em “neo-conservador”, onde o “neo” significa “pwnado”. Mas isso significará que os conservadores tradicionalistas e NBs continuam a vaguear por aqui. Ou você pode cortar o cordão e completar a fissão.

De qualquer forma, neste ponto provavelmente deveríamos seguir nossos caminhos separados e começar a conspirar uns contra os outros. Obrigado por uma leitura agradável

Se isto é realmente uma nota de despedida, é o exemplo mais magnífico que já vi. Estou quase tentado a dizer, com inimigos como este, quem precisa de aliados?

Há reviravoltas e meandros a serem adicionados esta cartografia rígida do cismo, incluindo aqueles que o cismo fará a si mesmo. Da atual perspectiva deste blog (que ele, claro, suspeita ser alguma outra coisa), a orientação quanto a esses é a complicação do tempo através do espiromorfismo, ou restaurações inovadoras, que nem ciclos, nem simplesmente trajetórias de escape podem capturar. Essas, em última análise, re-formam tudo, mas elas podem esperar (enquanto a ferida apodrece criativamente). A fissão libera energia. Talvez ironicamente – SHWAT demonstrou isso para além de toda controvérsia.

Original.

Nota Fragmentada (#11)

Com toda produtividade coerente sugada para dentro de um nodoso ensaio aceleracionista no momento, alguns fragmentos:

Update da Fissão – aparentemente os gênios na arquibancada geral da NRx estão convencidos agora de que Justine Tunney usurpou Michael Anissimov em seu universalmente reconhecido cargo sagrado como Deus-Imperador da Nova Reação. Anissimov, para seu grande crédito, está perplexo. Essa coisa vai se reduzir a cinzas em sua própria insanidade radiante ou se amplificar até algum nível ainda inimaginável de loucura? A opção responsável seria abandonar o banco dos tolos agora, mas é interessante demais para isso. Sinalizar alguma distância está se tornando absolutamente imperativo, contudo.

Um ponto que tem que ser enfatizado com renovado fervor é a prioridade absoluta da fragmentação territorial para qualquer linha da discussão da NRx que comece a se imaginar ‘política’. Modelos universalistas da boa sociedade são inteiramente inconsistentes com a NRx em suas fundações, e transformar tais diferenças em argumento político é ter vagueado desesperadoramente para fora do roteiro. Todo o ponto dos arranjos sociais neorreacionários é eliminar o argumento político, substituindo-o por problemas práticos de micro-migração. Facilitar pátrias para seus antagonistas é ainda mais importante do que projetá-las para seus amigos. (Mesmo a antiga República da África do Sul sabia disso – embora tenha estragado a execução.) A triagem geográfica dissipa a dialética.

***

Brett Stevens (do blog Amerika, @amerika_blog) deu uma de supernova no Twitter de uma maneira que grita esgotamento iminente, mas por ora ele é uma fonte de comentários e links soberbos. Entre as gemas mais recentes, estas duas peças, que levantam questões sobre a restauração de ideias teleológicas sofisticadas dentro da ciência natural.

por que a vida resiste à desordem? #entropy http://t.co/ggmrjqv4bq

— brett stevens (@amerika_blog) may 1, 2014

Também, duas outras sobre a catedralização das instituições literárias da FC, que se desenrola em público.

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Mark Steyn se apresenta como um leitor de Sailer. Nenhuma grande surpresa ali, eu acho, mas as trevas crescem…

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crown-of-thorns

Do que vi das respostas ao Trancendence, o filme foi quase universalmente mal compreendido. Sem modéstia, eu creio que meu ainda não escrito post sobre o tópico o entende com o título Páscoa dos Nerds. Estupidamente, a maioria dos críticos o descrevem como sendo sobre os perigos da superinteligência artificial. Na realidade, é sobre o pecado humano do medo e da negação de Deus, culminando no assassinato do Messias (enquanto divindade computacionalmente encarnada), e seu quieto retorno, em um jardim, enquadrando toda a imagem na promessa da ressurreição. Ele assim expõe o Transhumanismo não apenas como um sub-clade cristão, mas como um sub-clade notavelmente conservador (certamente em comparação com o Protestantismo Mainline). A significância disto precisa ser explorada em algum ponto.

Original.

Realismo Neorreacionário

O lugar mais fácil para se começar é com o que o realismo neorreacionário não é, que é isto:

Para se estabelecer um estado reacionário no Ocidente durante nossas vidas, precisaremos articular a necessidade de um em uma linguagem que milhões de pessoas possam entender. Se não para produzir nacionalistas, para pelo menos produzir um grande contingente de simpatizantes. A questão “O que é exatamente que vocês propõem fazer?” deve ser respondida, primeiro em termos simples, e depois em termos detalhados que apoiem de forma direta os argumentos simples. A ânsia de desenvolver teorias esotéricas de causas e circunstâncias deveria ser deixada de lado e substituída por propostas concretas para uma nova forma de governo que harmonize com princípios perenes. Isto pode ser alcançado ao se produzir teorias positivas para uma nova ordem, em vez de analizar as porcas e parafusos de uma ordem decadente.

Começar com um modelo de uma sociedade ideal é um procedimento que já tem um nome, e um que é diferente: Utopismo. Não é uma maneira difícil de pensar. Por exemplo, imagine um regime embasado na política fiscal comutativa. No que concernem considerações econômicas, o problema político está resolvido. Escolhas de políticas estão alinhadas com incentivos práticos, e o impulso democrático manifestamente irresistível em direção à violação redistributiva dos direitos de propriedade é imediatamente exterminado. O problema com esta ideia? – Não há nenhuma maneira prática de consegui-la. O problema real da filosofia política não está no esforço conceitual de modelar uma sociedade ideal, mas em sair de onde estamos, em uma direção que tenda à otimização de um valor selecionado (igualdade é uma merda, utilidade não funciona, liberdade é OK, inteligência é o melhor).

Aonde podemos chegar a partir daqui? A menos que esta questão controle a teoria política, o resultado é irrelevância utópica. O problema inicial real é escapar. Em consequência, duas amplas avenidas de reflexão neorreacionária realista estão abertas:

(1) Elabore a escapada. Este tópico naturalmente se bifurca, por sua vez, em identificação e investimento em instituições embasadas em saída e na promoção de opções secessionistas (desde o federalismo fissional até o seasteading). Uma sociedade baseada em escapar, ao contrário de uma utopia, é estruturada da mesma maneira em que é alcançada. Ao se chegar em um mundo feito do tipo certo de fragmentos – estilhaçado por filosofia política, em vez de variedade tribal – todos os tipos de possibilidades reais surgem. (Tribos são uma distração inútil, porque elas ressoam com filosofias defeituosas – um mundo de social-democracias fracassadas, diferenciadas no esquema Benetton, é no que estamos sendo arrebanhados agora.)

(2) Defenda a diversidade. Mais uma vez, a diversidade étnica – como tal – não significa quase nada (na melhor das hipóteses). Todo ‘povo’ se mostrou capaz de idiotice política. O que merece preservação é a fratura, definida em posição ao universalismo da Catedral. Qualquer lugar que possa contar, de maneira prática, como ‘offshore’ é uma base para o futuro. Em particular, a tradição tecnocapitalista antidemocrática do Leste Asiático merece uma defesa ideológica feroz contra a subversão catedralista. Dentro do Ocidente, enclaves domésticos que resistiram à absorção macrossocial – de comunidades Amish à movimentos de milícias sobrevivencialistas – têm valor comparável. Onde quer que o globalismo político falhe, a neorreação vence.

A última coisa que a neorreação tem para declarar de maneira útil é Eu tenho um sonho. A promoção de sonhos é o inimigo. O único futuro pelo qual vale a pena lutar está estilhaçado em miríades, frouxamente reunidas por conexões de saída livre, e que conduza a inúmeros experimentos de governo, a vasta maioria dos quais falhará.

Não sabemos e não podemos saber o que queremos, não mais do que podemos saber como serão as máquinas do próximo século, porque potenciais reais precisam ser descobertos, não imaginados. O realismo é o negativo de uma pretensão infundada de conhecimento, não menos na sociologia política do que na tecnologia da informação. Invenção não é planejamento, e castelos no céu não oferecem nenhum refúgio contra a Catedral. Se há uma coisa que precisamos ter aprendido, e nunca esquecer, é isso.

Original.

Anarquia na NRx

Arthur R. Harrison (@AvengingRedHand) faz a observação incisiva: “Bem, a coisa é que a NRx é um tipo específico de pós-libertarianismo, ou era. Agora parece ser apenas um nome para a reação pós-Moldbug”. Poderiam existir pessoas que não vêem isso como uma degeneração. Na verdade, parece que existem.

O reactotwitter está se balançando em puro delírio (como *ahem* previsto) Para começar, ele parece não concordar mais sobre com o que ele começa:

evola tem uma patente maior que moldbug. as realizações e credenciais do primeiro são bem superiores.

— michael anissimov (@mikeanissimov) february 17, 2014

(Não no meu exército.)

É hora de escolher sua própria tradição e estampar um adesivo NRx nela. Alguém está vislumbrando quaisquer limites para isto:

Então a NRx é uma anarquia amorfa dizendo ao mundo como se colocar em ordem? Na verdade, eu acho que isto provavelmente está certo, e é teoricamente interessante, mas certamente é algo sobre o que precisa-se pensar. Como imaginavelmente pode haver uma ameaça de ‘entrismo’ quando o controle de comendo é um caos fervilhante? O que este exemplo de desordem radical sugere?

Eis aqui o anarco-caos da NRx já vazando pelo ladrão:

@mikeanissimov @anarchopapist @outsideness i respect moldbug, but he is one of many. we all have our voice – we can and should add our ideas

— anti democracy blog (@antidemblog) february 18, 2014

Todo mundo tem uma voz, e nós respeitamos isso… não, espera…

[Algumas pistas intrigantes em outros lugares do twitter de que o Urbit poderia eventualmente resolver esta gritante insanidade.]

ADICIONADO: Occam’s Razor coloca as coisas em uma perspectiva sensata.

Original.

O Desvendamento

Uma democracia não pode sobreviver como forma permanente de governo. Ela só pode durar até que seus cidadãos descubram que eles podem votar benesses para si mesmos vindas dos cofres públicos. Deste momento em diante, a maioria (que vota) votará nos candidatos que prometam os maiores benefícios vindos do erário público, com o resultado de que uma democracia sempre colapsará por conta de políticas ficais relaxadas, sempre seguidas por uma ditadura. – Macaulay [ou a ‘Calúnia de Tytler‘ (obrigado Matt)]

Do Urban Dictionary, Democracia:

1) Um sistema comum de governo, dirigido pelos caprichos das massas e marcado por uma baixa tolerância a direitos humanos básicos e ao senso comum; primariamente usado para se transicionar, de maneira incremental, de um governo regrado pelo direito comum (República) para um governo regrado pela lei política de uma pequena elite (Oligarquia).

Conforme o declive continua, o entendimento perene do estadismo anti-demótico (e compreensão iniciadora da nova reação) parece estar ficando mainstream. Alex Berezow escreve no blog The Compass do Realclearworld:

Têm sido anos duros para a democracia. Apesar disso, os ocidentais sempre parecem assumir que a forma mais altamente evoluída de governo é democrática. O problema com essa noção é que, em algum ponto, a maioria dos eleitores percebem que podem votar em políticos que lhes prometam mais coisas, independente de se é uma boa política ou financeiramente sustentável, ou não. E, uma vez que isso ocorra, o país está (talvez irreversivelmente) em um caminho para o declínio.

Embora levianamente insubstancial para os padrões de Moldbug (claro), o artigo nunca retira esta premissa inicial e conclui com a sugestão de que o mundo todo poderia, com lucro, aprender da China as artes de inibição da democracia.

[Nota: os dois artigo imediatamente abaixo do de Berezow no site da RCW são ‘Is Cameron’s EU Strategy Unraveling?’ (“A Estratégia de Cameron na EU Está se Desvendando?”) (por Benedict Brogan) e ‘Libya Is Still Unraveling’ (“A Líbia Ainda Está se Desvendando’ (por Max Boot) – apenas notei (conscientemente). Notícias contemporâneas: tudo se desvendando, todo o tempo.]

O ‘mundo pós-democrático’ terá um princípio claro de legitimidade política? O mais elegante, de longe, seria a introdução da comutatividade no slogan da rebelião colonial da Anglosfera: ‘Nenhuma tributação sem representação’.

Nenhuma representação sem tributação restringe a legitimidade àqueles regimes nos quais aqueles que financiam o governo determinam sua estrutura, escopo e política, em proporção direta à sua contribuição. As melhorias que resultariam desta integração dos circuitos de feedback fiscal e eleitoral do Estado são profundas e numerosas demais para se delinear prontamente, mas elas podem ser resumidas em uma única expectativa: uma mudança radical, irreversível e contínua para a direita.

Entre as objeções antecipadas mais óbvias:
(1) Não é prático (Ah sim, apenas horrores são práticos)
(2) É injusto (Para soldados e tiras, talvez, mas os efeitos deletérios da complicação prevalecem sobre os benefícios do nuance moral)
(3) No Ocidente, pelo menos, os plutocratas brâmanes o desfariam na primeira oportunidade (Uma previsão tristemente plausível – talvez nenhum cultura abraâmica seja capaz de sustentar uma ordem social sã e sempre escolherá resolver problemas de policiamento através da expensão do direito ao voto.)

Concedendo todas estas objeções, e mais, o princípio da política fiscal comutativa ainda fornece um serviço muito valioso: ele explica o que deu errado. A hipertrofia representativa destruiu a ordem constitucional moderna, embasada em uma interpretação unilateral da exigência de que o governo seja feito responsável por suas exações. O equilíbrio (comutatividade) poderia muito bem ser inalcançável, mas não é difícil entender o que ele seria.

Original.

O Iluminismo Sombrio, Parte 2

Parte 2: O arco da história é longo, mas se curva em direção a um apocalipse zumbi

David Graeber: Parece-me que se você for perseguir isto à sua conclusão lógica, a única maneira de se ter uma sociedade verdadeiramente democrática também seria abolir o capitalismo neste estado.

Marina Sitrin: Não podemos ter democracia com capitalismo… Democracia e capitalismo não funcionam juntos.
(Aqui, via John J. Miller)

Esse é sempre o problema com a história. Sempre parece que acabou. Mas nunca acaba.
(Mencius Moldbug)

Pesquisar ‘democracia’ e ‘liberdade’ junto no Google é altamente iluminante, de uma maneira sombria. No ciberespaço, pelo menos, está claro que apenas uma minoria distinta pensa nestes termos como positivamente acoplados. Se a opinião deve ser julgada em termos da aranha do Google e de sua presa digital, de longe a associação mais predominante é disjuntiva ou antagonista, embasada na compreensão reacionária de que a democracia apresenta uma ameaça letal à liberdade, quase garantindo sua eventual erradicação. A democracia é para a liberdade o que Gargântua é para uma torta. (“Por certo você pode ver que amamos a liberdade, ao ponto de roncos no estômago e salivação…”).

Steve H. Hanke estabelece o caso com autoridade em seu pequeno ensaio On Democracy Versus Liberty, focado na experiência americana:

A maioria das pessoas, incluindo a maioria dos americanos, ficaria surpresa em aprender que a palavra “democracia” não aparece na Declaração de Independência (1776) ou na Constituição dos Estados Unidos da América (1789). Elas também ficariam chocadas de aprender a razão para a ausência da palavra democracia nos documentos fundantes dos E.U.A. Ao contrário do que a propaganda levou o público a acreditar, os Pais Fundadores da América estavam céticos e ansiosos quanto à democracia. Eles estavam cientes dos males que acompanham a tirania da maioria. Os Criadores da Constituição fizeram um grande esforço para garantir que o governo federal não fosse embasado na vontade da maioria e não fosse, portanto, democrático.
Se os Criadores da Constituição não abraçavam a democracia, ao que eles aderiam? A um homem, os Criadores concordaram que o propósito do governo era asseguras aos cidadãos a trilogia de John Locke de direitos à vida, à liberdade e à propriedade.

Ele elabora:

A Constituição é primariamente um documento estrutural e procedural que especifica quem deve exercer o poder e como eles devem exercê-lo. Um bom tanto de ênfase é colocado na separação de poderes e nos freios e contrapesos do sistema. Estes não eram um constructo ou fórmula cartesiano visando a engenharia social, mas um escudo para proteger as pessoas do governo. Em suma, a Constituição foi desenhada para governar o governo, não as pessoas.
A Bill of Rights estabelece os direitos do povo contra violações pelo Estado. A única coisa que os cidadãos podem exigir do Estado, sob a Bill of Rights, é um julgamento por um júri. O resto dos direitos dos cidadãos são proteções contra o Estado. Por cerca de um século depois que a Constituição foi ratificada, a propriedade privada, os contratos e o livre comércio interno dentro dos Estados Unidos eram sagrados. O escopo e a escala do governo permaneceram muito constritos. Tudo isso era muito consistente com o que era entendido ser liberdade.

Conforme o espírito da reação estende seus tentáculos-Sith pelo cérebro, fica difícil lembrar como a narrativa progressista clássica (ou não-comunista) pôde já ter feito sentido. O que as pessoas estavam pensando? O que elas estavam esperando do emergente estado super-empoderado, populista, canibal? A eventual calamidade não era inteiramente previsível? Como já foi possível ser um Whig?

A credibilidade ideológica da democratização radical não está, claro, em questão. Como pensadores que vão desde (o cristão progressista) Walter Russell Mead até o (reacionário ateu) Mencius Moldbug detalharam exaustivamente, ela se conforma tão exatamente ao entusiamo religioso ultra-protestante que seu poder de animar a alma revolucionária não deveria surpreender a ninguém. Dentro de apenas alguns anos desde o desafio de Martinho Lutero ao establishment papal, insurrecionistas camponeses estavam enforcando seus inimigos de classe por toda a Alemanha.

A credibilidade empírica do avanço democrático é bem mais estarrecedora e também genuinamente complexa (o que é dizer, controversa ou, mais precisamente, digna de uma controvérsia embasada em dados e rigorosamente argumentada). Em parte, isso é porque a configuração moderna da democracia emerge dentro do alcance de uma tendência modernista bem mais ampla, cujas linhas tecno-científica, econômica, social e política estão obscuramente inter-relacionadas, costuradas por correlações enganadoras e pelas subsequentes falsas causalidades. Se, como Schumpeter argumenta, o capitalismo industrial tende a engendrar uma cultura democrática-burocrática que se conclui em estagnação, poderia, ainda assim, parecer como se a democracia estivesse ‘associada’ com o progresso material. É fácil interpretar erroneamente um indicador atrasado como um fator causal positivo, especialmente quando o zelo ideológico empresta seu viés à má apreensão. Na mesma linha, uma vez que o câncer aflige apenas pessoas vivas, ele poderia – com aparente razão – ser associado à vitalidade.

Robin Hanson (gentilmente) observa:

Sim, muitas tendências foram positivas por um século mais ou menos, e, sim, isto sugere que elas continuarão a crescer por mais ou menos um século. Mas, não, isto não significa que os estudantes estão empírica ou moralmente errados por pensarem ser uma “fantasia utópica” que se pudesse “acabar com a pobreza, a doença, a tirania e a guerra” ao se juntar à empreitada política de um Kennedy moderno. Por quê? Porque as tendências positivas recentes nestas áreas não foram muito causadas por tais movimentos políticos! Elas foram, em sua maioria, causadas por nós termos ficado ricos com a revolução industrial, um evento que os movimentos políticos tenderam, se qualquer coisa, a tentar retardar, na média.

A cronologia histórica simples sugere que a industrialização apoia a democratização progresista, em vez de ser derivada dela. Esta observação já até mesmo deu origem a uma escola amplamente aceita da teorização pop em ciências sociais, de acordo com a qual a ‘maturação’ das sociedades em uma direção democrática é determinada por limites de afluência, ou formação de classe média. O correlativo lógico estrito de tais ideias, de que a democracia é fundamentalmente não-produtiva em relação ao progresso material, é tipicamente sub-enfatizado. A democracia consome o progresso. Quando percebida da perspectiva do iluminismo sombrio, o modo apropriado de análise para estudar o fenômeno democrático é a parasitologia geral.

Respostas semi-libertárias ao surto aceitam isto implicitamente. Dada uma população profundamente infectada pelo vírus zumbi, e que bamboleia para dentro do colapso social, a opção preferida é a quarentena. Não é o isolamento comunicativo que é essencial, mas uma dessolidarização funcional da sociedade, que estreite os loops de feedback e exponha as pessoas com intensidade máxima às consequências de suas ações. A solidariedade social, em contraste preciso, é a amiga do parasita. Ao recortar todos os mecanismos de feedback de alta frequência (tais como os sinais de mercado) e substituí-los por loops lerdos em infravermelho que passam através de um fórum centralizado de ‘vontade geral’, uma sociedade radicalmente democratizada isola o parasitismo do que ele faz, transformando padrões de comportamento locais, dolorosamente disfuncionais, intoleráveis e, assim, urgentemente corrigidos em patologias sócio-políticas globais, anestesiadas e crônicas.

Roa as partes do corpo de outras pessoas e pode ser difícil conseguir um emprego – este é o tipo de lição que uma ordem de feedback estreito, ciberneticamente intensa e laissez faire permitiria que fosse aprendida. É também exatamente o tipo de descriminação zumbifóbica insensível que qualquer democracia compassiva denunciaria como uma crimideia, ao passo que reforça o orçamento público para os deficientes vitais, empreende campanhas de conscientização em nome daqueles que sofrem da síndrome de impulso canibal involuntário, afirma a dignidade do estilo de vida zumbi nos currículos da educação superior e regula rigorosamente os espaços de trabalho para garantir que os mortos-vivos que se misturam não sejam vitimados por empregadores obcecados com lucros, desempenhocêntricos ou mesmo animacionistas não reconstruídos.

Conforme uma iluminada tolerância-zumbi floresce ao abrigo do mega-parasita democrático, um pequeno remanescente dos reacionários, atentos aos efeitos de incentivos reais, levantam a estereotipada questão : “Vocês percebem que estas políticas inevitavelmente levam a uma expansão massiva da população zumbi?” O vetor dominante da história pressupõe que tais objeções incômodas sejam marginalizadas, ignoradas e – sempre que possível – silenciadas através do ostracismo social. O remanescente ou fortifica o porão, enquanto estoca comida seca, munição e moedas de prata, ou acelera o processo de pedido de um segundo passaporte e começa a fazer suas malas.

Se tudo isso parece estar vindo sem rumo da concretude histórica, há um remédio convenientemente atual: uma pequena troca de canal para a Grécia. Enquanto modelo microcósmico para a morte do Ocidente, que se desenrola em tempo real, a estória grega é hipnótica. Ela descreve um arco de 2500 anos que está longe de elegante, mas é irresistivelmente dramático, de proto-democracia a apocalipse zumbi realizado. Sua virtude preeminente é que ela ilustra perfeitamente o mecanismo democrático in extremis, que separa indivíduos e populações locais das consequências de suas decisões, ao bagunçar seu comportamento através de sistemas centralizados de redistribuição em larga escala. Você decide o que você faz, mas então vota nas consequências. Como alguém poderia dizer ‘não’ para isso?

Não é surpresa que, ao longo de 30 anos de adesão à UE, os gregos tenham avidamente cooperado com um megaprojeto de engenharia social que retira todos os sinais sociais de onde curta e re-roteia o feedback através do grandioso circuito da solidariedade europeia, garantindo que toda informação economicamente relevante seja desviada para o vermelho através do cárter de morte por calor do Banco Central Europeu. Mais especificamente, ele tem conspirado com a ‘Europa’ para obliterar toda a informação que poderia estar contida nas taxas de juros gregas, assim efetivamente incapacitando todo feedback financeiro sobre escolhas de política doméstica.

Isto é a democracia em uma forma consumada que desafia qualquer aperfeiçoamento adicional, uma vez que nada se conforma mais exatamente à ‘vontade geral’ do que a abolição legislativa da realidade, e nada entrega a cicuta à realidade mais definitivamente do que acoplar taxas de juros teutônicas com decisões de gasto do leste do Mediterrâneo. Viva como helenos e pague como germânicos – qualquer partido político que falhasse em subir ao poder sobre esta plataforma merece catar sucata sendo picado por urubus no deserto. É o no-brainer final, em praticamente todos os sentidos imagináveis da expressão. O que poderia dar errado?

Mais ao ponto, o que deu errado? Mencius Moldbug começa sua séria no Unqualified Reservations “How Dawkins got pwned” (“Como Dawkins foi pwnado”, ou tomado através de uma “vulnerabilidade explorável”) com o delineamento das regras de design para um hipotético “parasita memético ótimo” que seria “tão virulento quanto possível. Ele será altamente contagioso, altamente mórbido e altamente persistente. Um inseto realmente feio.” Em comparação com esta super-praga ideológica, o monoteísmo vestigial ridicularizado em Deus: Um Delírio figuraria como nada pior do que um resfriado moderadamente desagradável. O que começa como uma brincadeira abstrata com um meme se conclui como uma grande varredura da história, à moda do iluminismo sombrio:

Minha crença é que o Professor Dawkins não é apenas um ateu cristão. Ele é um ateu protestante. E ele não é apenas um ateu protestante. Ele é um ateu calvinista. E ele não é apenas um ateu calvinista. Ele é um ateu anglo-calvinista. Em outras palavras, ele também pode ser descrito como um ateu puritano, um ateu dissidente, um ateu não conformista, um ateu evangélico, etc, etc.

Esta taxonomia cladística remonta a ancestralidade intelectual do Professor Dawkins até cerca de 400 anos atrás, à era da Guerra Civil Inglesa. Exceto, claro, pelo tema do ateísmo, o cerne do Professor Dawkins é uma combinação notável para as tradições Ranter, Leveller, Digger, Quaker, Quintomonarquista ou qualquer uma das mais extremas tradições dissidentes inglesas que floresceram durante o interregno cromwelliano.

Francamente, esses caras eram aberrações. Maníacos fanáticos. Qualquer pensador inglês mainstream dos séculos XVII, XVIII ou XIX, informado de que esta tradição (ou sua descendente moderna) é agora a denominação cristã dominante do planeta, consideraria isto como um sinal do apocalipse iminente. Se você está seguro de que eles estão errados, você está mais seguro do que eu.

Felizmente, o próprio Cromwell era comparativamente moderado. Os sectos ultrapuritanos extremos nunca conseguiram se agarrar solidamente ao poder sob o Protetorado. Ainda mais felizmente, Cromwell ficou velho e morreu, e o cromwellismo morreu com ele. O governo legítimo foi restaurado na Grã-Bretanha, assim como a Igreja da Inglaterra, e os dissidentes se tornaram uma franja marginal novamente. E francamente, que alívio danado que foi.

Contudo, você não consegue reprimir um bom parasita. Uma comunidade de puritanos fugiu para a América e fundou as colônias teocráticas da Nova Inglaterra. Depois de suas vitórias militares na Rebelião Americana e na Guerra de Secessão, o puritanismo americano estava bem no caminho para a dominação mundial. Sua vitórias na Primeira Guerra Mundial, na Segunda Guerra Mundial e na Guerra Fria confirmaram sua hegemonia global. Todo pensamento mainstream legítimo sobre a Terra hoje é descendente dos puritanos americanos e, através deles, dos dissidentes ingleses.

Dado a ascensão deste “inseto realmente feio” à dominação mundial, poderia parecer estranho azucrinar figuras tangenciais tais como Dawkins, mas Moldbug seleciona seu alvo por razões estratégicas primorosamente julgadas. Moldbug se identifica com o darwinismo de Dawkins, com seu repúdio intelectual do teísmo abraâmico e com seu amplo comprometimento para com a racionalidade científica. Ainda assim, ele reconhece, de maneira crucial, que as faculdades críticas de Dawkins se desligam – de maneira abrupta e frequentemente cômica – no ponto em que elas poderiam colocar em risco um comprometimento ainda mais amplo para com o progressismo hegemônico. Desta maneira, Dawkins é poderosamente indicativo. O secularismo militante é, ele mesmo, uma variante modernizada do meta-meme abraâmico, em seu ramo taxonômico anglo-protestante e democrático radical cuja tradição específica é o anti-tradicionalismo. O clamoroso ateísmo de Deus: Um Delírio representa um estratagema protetivo e uma atualização consistente da reforma religiosa, guiada por um espírito de entusiasmo progressista que supera o empirismo e a razão, ao passo que exemplifica um dogmatismo irritável que rivaliza com qualquer coisa a ser encontrada nas estirpes anteriores com temas divinos.

Dawkins não é meramente um progressista moderno iluminado e um democrata radical implícito, ele é um cientista impressionantemente credenciado, mais especificamente um biólogo e (assim) um evolucionista darwiniano. O ponto no qual ele toca o limite do pensamento aceitável, como definido pelo super-inseto memético é, portanto, bastante fácil de antecipar. Sua tradição, herdada do ultra-protestantismo do baixo clero, substituiu Deus pelo Homem como local de investimento espiritual, e o ‘Homem’ tem estado no processo de dissolução através da pesquisa darwiniana por mais de 150 anos. (Como a pessoa sã e decente que eu seu que você é, tendo chegado até aqui com Moldbug, você provavelmente já está murmurando sob a sua respiração, não mencione raça, não mencione raça, não mencione raça, por favor, ó, por favor, em nome do Zeitgeist e do querido e doce não-deus do progresso, não mencione raça…) …mas Moldbug  está citando Dawkins, que cita Thomas Huxley “…em um contexto em que deve ser executado por pensamentos e não por mordidas. Os lugares mais altos na hierarquia da civilização certamente não estarão dentro do alcance de nossos primos escuros”. Que Dawkins enquadra observando: “Tivesse Huxley… sido nascido e educado em nosso tempo, [ele] teria sido o primeiro a se encolher conosco por seus sentimentos vitorianos e tom untuoso. Eu lhes cito apenas para ilustrar como o Zeitgeist segue em frente”.

Fica pior. Moldbug parece estar segurando a mão de Huxley e… (ewww!) fazendo aquela coisa de acariciar as palmas com seus dedos. Isto por certo não é mais a reação libertária padrão – está ficando seriamente sombria e assustadora. “Em toda seriedade, qual é a evidência para o fraternismo? Por que, exatamente, o Professor Dawkins acredita que todos os neohominídeos são nascidos com potencial idêntico para o desenvolvimento neurológico? Ele não diz. Talvez ele pense que é óbvio.”

Qualquer que seja sua opinião sobre os méritos científicos respectivos da diversidade ou da uniformidade biológica humana, está, certamente, para além de qualquer argumento que a última hipótese, apenas, é tolerada. Mesmo se as crenças progressistas-universalistas sobre a natureza humana forem verdadeiras, elas não são mantidas porque são verdadeiras ou porque se chegou a elas através de qualquer processo que passe no teste de risada para a racionalidade científica crítica. Elas são recebidas como princípios religiosos, com toda a intensidade passional que caracteriza itens essenciais da fé, e questioná-las não é uma questão de inexatidão científica, mas do que agora chamamos de politicamente incorreto, e já conhecemos como heresia.

Sustentar esta postura moral transcendente em relação ao racismo não é mais racional do que a subscrição à doutrina do pecado original, da qual ela é, em todo caso, a inequívoca substituta moderna. A diferença, claro, é que o ‘pecado original’ é uma doutrina tradicional, à qual se subscreve um grupo social aguerrido, significantemente sub-representado entre os intelectuais públicos e as figuras da mídia, profundamente antiquada na cultura mundial dominante e largamente criticada – se não ridicularizada – sem qualquer suposição imediata de que o crítico está defendendo assassinato, roubo ou adultério. Questionar o status do racismo enquanto pecado social supremo e definidor, por outro lado, é cortejar a condenação universal das elites sociais e despertar suspeitas de crimideias que vão desde a apologética pró-escravidão até fantasias genocidas. O racismo é o mal puro ou absoluto, cuja esfera apropriada é o infinito e o eterno, ou as profundezas pecaminosas incendiárias da alma hiper-protestante, em vez dos confins mundanos da interação civil, do realismo social científico ou da legalidade eficiente e proporcional. A dissimetria de afeto, sanção e poder social cru que acompanha antigas heresias e suas substitutas, uma vez notada, é um indicador enervante. Um novo secto reina, e ele não está nem mesmo especialmente bem escondido.

Ainda assim, mesmo entre as circunscrições BDH mais endurecidas, a santificação histérica da raça-ideia mais-que-boa dificilmente é suficiente para emprestar à democracia radical a aura de profunda morbidez que Moldbug detecta. Isto requer um relação devocional com o Estado.

Original.

Perdedores Ressentidos

[V]amos admitir: A globalização não beneficia automaticamente a França. […] A globalização se desenvolve de acordo com princípios que não correspondem nem à tradição francesa, nem à cultura francesa. Estes princípios incluem a economia de mercado ultraliberal, a desconfiança do estado, o individualismo removido da tradição republicana, o inevitável reforço do papel universal e ‘indispensável’ dos Estados Unidos, o direito comum, a língua inglesa, as normas anglo-saxãs e conceitos protestantes – mais do que católicos.
– Hubert Védrine, 9 fevereiro, 2002[1]

Ser francês é entender – com peculiar lucidez – o que é ter sido derrotado pela modernidade. A primeira nação moderna do mundo, encantada para além de todas as outras pelo chamado de do universal, foi cortada de volta a um nexo de caminhos não tomados, ao longo do curso de dois séculos. Se Hubert Védrine diz isto mais claramente do Alain Badiou, Badiou o diz não obstante. Our Wound is Not So Recent (“Nossa Ferida Não É Tão Recente”). O título já diz quase tudo. Para antecipar: ‘…nossa ferida vem da derrota histórica do comunismo’.

Comparados a este infortúnio primário, crônico e, por ora, essencial, desastes ocasionais são meros acidentes. O recente massacre em Paris por soltados da Jihad fornece um exemplo incomumente dramático (ou ‘particularmente espetacular’). Ainda assim, apesar de seu caráter colorido e ricamente afetivo, a pertubação da segurança de estado representada pelo massacre de algumas dezenas de parisienses é um assunto menor, quando comparado à conquista da propria modernidade – e, assim, do mundo – por um adversário bem mais ameaçador. Qualquer dignidade filosófica que seja encontrada na reflexão sobre o incidente de 13 de novembro jaz em sua adoção cognitiva como um retransmissor, levando de volta à estória principal, ‘o triunfo do capitalismo globalizado’.

É compreensível, portanto, que a elegância da apresentação de Badiou seja incapaz de ocultar completamente sua irritabilidade estrutural. ‘Nós’ fomos distraídos, que é como adultos entendem o ‘terror’. É uma distração de ‘pensamento’ que ocorreu aqui, Badiou insiste, e, assim, um aborrecimento, em múltiplos sentidos, incluindo aquele da simples condescendência. Como convém a um membro da elite sócio-cultural, a resposta de Badiou toma a forma de uma pensativa meta-irritação – uma irritabilidade dirigida à irritação como tal. Este é um reflexo anti-empírico e, portanto, de uma maneira definitiva, ‘francês’ – mas chegaremos a isto em breve. Aquelas dezenas de jovens mortos espalhados por Paris demandam algum reconhecimento afetivo, o que é indigno (e aborrecedor). Bem mais significantemente, a atrocidade incomoda as pessoas. É – precisamente como pretendido pelos perpetradores e também no sentido mais neutro da palavra – excitante. A resposta pública que extrai não é apenas filosoficamente inútil, mas positivamente deletéria ao trabalho do universal. ‘Então, para enfrentar estes riscos, creio que devemos conseguir pensar no que aconteceu.’

Eu também acho. Temos um dever para com a filosofia – o que é dizer, com nosso único modelo crível de nobreza – de sermos frios. Espasmos emocionais em resposta a respingos de sangue seriam impróprios. Seriam também uma contribuição integral para a realização do terror ‘fascista’. Pior de tudo, distraem. O terror excita a identidade, ao concentrá-la e empacotá-la em uma falsa simplicidade. Badiou não está preocupado em disfarçar o fato de que, para a Esquerda européia, em particular, a ‘identidade’ é o verdadeiro terror.

Existem, contudo, outras distrações – para ‘nós’. Quando Badiou proclama que ‘Nossa ferida não é tão recente’, somos compelidos a perguntar: Até onde se estende este pronome coletivo? Uma resposta a esta questão poderia ser prolongada sem limite definido. Tudo que poderíamos querer dizer, em última análise, se enrola nela, a ‘identidade’ mais obviamente. Qualquer significado que ‘comunismo’ possa ter tem seu lugar aqui, conforme ‘nós’ alcançamos a periferia do universal e, assim (concebivelmente), o fim da filosofia. A ‘francesidade’ é, de alguma maneira complexa, envolta por ele, entre outros conjuntos sociais de menor ou maior obscuridade. Esse ‘nós’ é o todo, mesmo quando está escondido na margem. É também estrategicamente não negociável. (Ninguém pergunta ‘quem?’ – como Badiou sabe que não o farão). Contrabandeado para dentro da gramática, ele diz tudo de consequência derradeira antes de qualquer resposta possível, enquadrando a controvérsia subsequente em seus termos. Um antagonismo soberano ou transcendental – estabelecido seguramente para além da discussão – assim anuncia a si mesmo, em um sussurro.

De maneira comparável, então, nós só podemos propor um outro ‘nós’ fora dele. Como já prometido, o detalhe – mesmo que só um pouco – logo se seguirá. Para o momento, é necessário apenas ser notado que a identidade ‘deles’ não pode ser assumida ser a ‘nossa’, não mais do que compartilhamos de seus problemas, seus sucessos ou suas derrotas. O pronome é remexido, despedaçado. Nós não somos ‘feridos’ pelo que lhes machuca, a não ser acidentalmente e, muito menos, pela falha de seu projeto coletivo. Seja qual for a malícia que possa aparecer nestas palavras, nos parece pura retaliação. Isto é apenas dizer que o ‘nós’ de Badiou já foi um projeto de mobilização e uma declaração de guerra, mesmo que apenas como recordação, e um gesto de desafio. A bruma que ‘nos’ envolve é a névoa da guerra. Ninguém pode ficar sinceramente chocado com isso. (Não somos crianças.) Nosso conflito não é tão recente.

‘Deve-se ver que a vitória objetiva do capitalismo globalizado é uma prática destrutiva e agressiva’, afirma Badiou. Podemos apenas dar de ombros, uma vez que, claro, para vocês (coletivamente), isso é simplesmente verdade. Os sucessos dele são suas derrotas, e reciprocamente. Ninguém está sendo educado por nada disso. Há não muito tempo, nos ameaçamos uns aos outros com ogivas termonucleares e carbonizamos estados ainda mais recentemente. As apostas, de ambos os lados, são absolutas. Não há – muito provavelmente – nada que não faríamos, se ainda fosse necessário, a fim de prevalecer um contra o outro. ‘Vitória’, ‘derrota’ – estão são as palavras de Badiou, mesmo que – por nenhuma razão que seja – guerra não seja, a princípio, embora logo será.

Deixe-nos explicar, então, aquilo que Badiou ainda deixa parcialmente implícito. Nós não nos importamos com o Islã. Ninguém se importa – pelo menos ninguém com que nos importemos, mas apenas ‘fascistas’. Para o mundo industrializado, ele nunca é mais do que um aborrecimento e, mais tipicamente, uma oportunidade complexa a ser explorada, uma arma a ser dirigida àqueles cujo antagonismo é respeitado. Tendo falhado na modernidade com uma abrangência que se aproxima do cômico, já faz séculos desde que o Islã teve qualquer tipo de reivindicação séria à história para perder – de modo que ‘toda uma seção da população global não conta para nada’, inevitavelmente. Podemos parasitar o desprezo superficialmente enterrado de Badiou sem qualificação: ‘é a fascização que islamiza, não o Islã que fasciza’. Nós decidiremos sobre a maneira de categorizar sua recusa de nossas categorizações. Sua frieza é testada por esta piada.

Não é que a religião seja exatamente nada, claro, mesmo para Badiou em seu momento mais francês. Não originalmente, em todo caso. ‘A religião pode perfeitamente bem agir como um molho identitário para tudo isto, precisamente na medida em que é um referente adequadamente anti-ocidental. Mas como vimos, na análise final, a origem desses jovens não importa muito, sua originam espiritual e religiosa, como dizem, e assim por diante.’ (Ela ‘não conta para nada’.) ‘O que conta é a escolha que eles fizeram sobre sua frustração’ (nós decidimos). ‘E eles se mobilizarão em torno da mistura de corrupção e heroísmo sacrificial e criminoso por causa da subjetividade que é sua, não por causa de sua convicção islâmica. Mais ainda, fomos capazes de ver que, na maioria dos casos, a islamização é terminal em vez de inaugural.’ Indivíduos niilistas, seduzidos para dentro do ‘fascismo’, articulando suas motivações em palavras que não contam para nada, patéticos comunistas existencialistas com falsa consciências, vadios maliciosos… se existem alguns recursos de desprezo a mais que poderiam ser adicionados a esta análise, eles não serão fáceis de encontrar. O que não é, de forma alguma, sugerir que encontraremos qualquer problemática aqui ou algo que precise de retificação.

Poderia facilmente ter sido alguma outra fé que fornecesse este ‘término’, espera-se que aceitemos (a menos que a concessão a ‘um referente adequadamente anti-ocidental’ seja a pista para uma alegação mais persuasiva – e decorosamente não dita). Tudo bem, nós aceitamos. Pelo bem de se seguir adiante, nós o aceitamos, apesar da extraordinário deformação de evidência história necessária para fazê-lo. Vamos fingir que nossos ‘fascistas’ jihadi são apenas aleatoriamente diferenciados dos budistas ou confucionistas, a fim de proceder às identidades que mais imediatamente nos preocupam.

Aqueles jovens parisienses mortos não podem ser ‘contados para nada’ tão facilmente. Eles certamente teriam feito um pouco de capitalismo, mesmo a despeito de si mesmos, e também – sendo jovens e franceses – bastante provavelmente um pouco de comunismo além disso, de modo que eles importam para ‘nós’, pelo menos um pouco. Os jovens ‘fascistas’ jihadi que os massacraram, em contraste – com nada para fazer além de uma distração – não são absolutamente nada, para nenhum de nós. Isto entristece Badiou, retórica e taticamente. ‘Sua própria vida não contava. E, uma vez que sua próprias vidas não contavam, as vidas dos outros não significavam nada para eles tampouco.’ Olha o que o capitalismo globalizado fez com eles. Talvez devêssemos voltar nossa atenção para esta monstruosidade historicamente produtiva bem mais séria, antes que incomodemos as pessoas – gratuitamente – com nossa insondável e inteiramente mútua indiferença.

Vamos recapitular. Temos uma estrutura mundial contemporânea dominada pelo triunfo do capitalismo globalizado. Temos um enfraquecimento estratégico dos estado e mesmo um processo contínuo do murchamento capitalista dos estados. E, em terceiro lugar, temos novas práticas de imperialismo que toleram e mesmo encorajam, em certas circunstâncias, a destruição e a aniquilação dos estados.

A estória principal dos tempos recentes tem sido ‘a liberação do liberalismo’ – a libertação do capitalismo – insiste Badiou. (Sua identidade preferida está em insistir nisto.)

Essa Coisa – o Grande Inimigo – não está desprovida de identidade, não importa o quão embaraçoso possa ser reconhecer explicitamente esse fato (isto é, sua factualidade como tal). Sucumbir à excitação quanto à empiricidade da ‘globalização capitalista’, em sua escandalosa singularidade, é se emocionar com seu vasto aborrecimento, em vez de seu desastre universal. Ainda assim, ela é, como todo mundo claramente reconhece, uma aflição global anglófona que ‘nos’ perturba e uma negligência ideológica anglófona que não ‘contou para nada’ aqueles sem qualquer parte produtiva a desempenhar em sua expansão. O maior inimigo é anglófono, anglo-saxão, anglo-americano – ‘anglo-judeu’, inevitavelmente será dito, se não por Badiou, então por inúmeros outros, incluindo especialmente os ‘fascistas’ islâmicos cujas sensibilidades se recusam a ser embotadas sobre o ponto. É, em todo caso, a circunscrição étnica positiva primariamente identificada com a ‘liberação do liberalismo’, quando isto é reconhecido com grosseiro realismo. Ninguém chega a ver quão peculiar está coisa é a partir de lugar nenhum. Seus críticos, podemos confiantemente – mesmo que indelicadamente – especular, foram ofendidos de maneira concreta. Eles foram ‘feridos’ – e não apenas tão recentemente.

Claro, não poderia haver nada mais sem tato do que articular a crítica ideológica na voz do ressentimento nacional. Da perspectiva da filosofia, falar em nome de qualquer identidade positiva – mesmo uma bem mais elegante do que a nação e suas categorias étnicas associadas – é uma simples desgraça. Identidades selecionadas poderiam ser exaltadas à distância, na proporção aproximada de seu status transgressor ou vitimológico, mas todo intelectual da elite entende profundamente – mesmo que apenas implicitamente – que a definição ôntica é sujeita.

Badiou é fastidioso, portanto, em evitar toda tentação de auto-identificação em termos menos do que universais. Sua ‘posição discursiva’ depende de sua identidade enquanto orgulhoso comunista, que meramente ocorre de ser francês. Há um custo a ser pago por isso, em honestidade – ou realismo – primeiro de tudo. Um utopismo coletivista necrótico não constitui um local plausível de enunciação, e ninguém acredita que o faça. Talvez seja por esta razão que Badiou se abstém de fechar completamente a porta para um certo ‘patriotismo’ nuançado, mesmo que sua narrativa catastrofista exija que ela seja mantida entreaberta apenas em um modo de nostalgia (e um que não esteja completamente desprovido de amargura). O que a França foi, enquanto potência revolucionária, ainda é afirmado, em um tom de uma só vez trágico e filosófico, extraindo a quantidade necessária de desapego de ambos:

A França, o que é singular sobre a França – porque, se existem valores franceses, devemos perguntar o que é singular sobre eles – é a tradição revolucionária. Republicana, em primeiro lugar, desde a revolução de ’89. E, então, socialista, anarco-sindicalista, comunista e, finalmente, esquerdista, tudo isto entre 1789 e, digamos, 1976. […] Mas tudo isso acabou. Acabou. A França não pode mais ser representada hoje, de nenhuma maneira crível, como o local privilegiado de uma tradição revolucionária. Antes, ela é caracterizada por uma coleção singular de intelectuais identitários.

A rendição da França ao vício identitarista não é nada além de parte da derrota mais abrangente. Ainda assim, a qualidade dramática da posição de Badiou aqui não deveria nos cegar para o que ela evade. O sotaque francês no que ele tem a dizer – tanto antes quanto depois desta passagem – se estende bem além de seu lamento pela vocação revolucionária murcha da nação. A identidade étnica que fala em sua palavras engloba, entre muitas outras coisas, um modo específico de aspiração universal, uma fé secular ‘libertada’ – desdenhosamente – da pompa religiosa e uma firme confiança na dignidade moral do Estado. Houve apenas uma única ‘revolução’ do tipo que ele herda como modelo, e ela foi Francesa. Ela identificava a razão com a inovação revolucionária – em um grau usualmente considerado divertido para além da esfera cultural gálica, apesar de sua encarnação ameaçadora em uma re-originação armada do estado a partir de princípios fundamentais. Naturalmente, estes ‘princípios fundamentais’ já eram uma rejeição da antiga religião, através de sua própria originalidade, e também uma exaltação da filosofia – como fundida nas chamas da insurreição. Eles eram os monstros nascidos do pesadelo metodicamente exacerbado e artificial de Descarte, liberado por uma passagem através do zero (dúvida radical), na qual a tradição orgânica foi imolada no altar do universal. Eles teriam – por exemplo – decimalizado o tempo e a geometria, e lutado fervorosamente para o fazer, repetidamente, sem sequer um momento de reserva piedosa ou dúvida residual… mas eles falharam. A história moderna, de um ângulo particular, mas iluminador, tem sido esta falha, esta derrota. Nossa Ferida Não É Tão Recente.

A identidade francesa, concebida de maneira radical, corresponde a um projeto nacional falido. Ela não é, na realidade, o exemplo supremo da derrota coletiva no período moderno e, assim, – de maneira concreta – da humilhação pelo capital? É a forma em que a ‘alternativa’ morre: de maneira local e não persuasiva, sem engajamento dialético, caindo – negligenciada – na dilapidação. Ela pode ser inserida em uma série limitada, embora não desconsiderável, de identidades que fazem uma reivindicação veemente à universalidade sem o fornecimento de qualquer critério efetivo através do qual estabelecê-la. Quando frustradas pela indiferença do exterior, tais pretensões objetivas tendem a virar ‘fascistas’, exatamente no sentido em que Badiou emprega. Sua reivindicações são mostradas – demonstravelmente – serem inconvincentes além de seu próprio domínio que encolhe. Elas são ignoradas, então eles ‘agem’. Uma certa loucura violenta é facilmente desovada. Ainda assim, raramente é mais do que uma distração.

Aquilo de que estamos sofrendo é de uma ausência, na escala global, de uma política que estivesse inteiramente desapegada da interioridade do capitalismo. É a ausência, na escala global, desta política que significa que um jovem fascista aparece, é criado. Não é o jovem fascista, o banditismo e a religião que criam a ausência de uma política de emancipação capaz de construir sua própria visão e definir suas próprias práticas. É a ausência desta política que cria a possibilidade do fascismo, do banditismo e das alucinações religiosas./

Esta é a análise de Badiou. As alfinetadas até agora – e os sofrimentos bem maiores por vir – resultam de uma derrota etno-política, em um longo conflito ainda relembrado por seus teimosos sobreviventes como um drama global do Universal. É uma derrota que eles imaginam – ou, pelo menos, ainda alegam imaginar – que poderia um dia ser desfeita. Quem os privaria de suas antigas canções, e estranhas bandeiras, e sonhos feridos?

Despeito ou triunfalismo são confusões identitárias, extravagâncias e também simplesmente erros que nós não podemos nos permitir. Nossa guerra está bem menos abrangentemente ganha do que a deles está perdida. Os adversários que importam – fascistas reais – têm controlado os altos comandos de nossas sociedades desde o New Deal. A dispersão tecno-econômica do poder permanece radicalmente incompleta. O sino-capitalismo – momentaneamente trêmulo – ainda tem que refazer o mundo. A ‘liberação do liberalismo’ mal começou. Nada disso é uma preocupação para Badiou, contudo, ou para os islamistas. Ela pertence a uma outra estória, e – pois esta é a ferida derradeira e septicamente inflamada – conforme ela corre adiante, cada vez mais rápido, ela não é remotamente deles.

Original.