A crítica do Social Matter ao ‘Complexo Industrial da Justiça Social’ (cujo primeiro estágio já foi linkado aqui), isola a “tendência, na natureza humana, a sobreatribuir agência” enquanto uma proeminente fonte de erro. Em outras palavras, as pessoas gostam de colocar uma face nas coisas – mesmo nas nuvens – em tal medida que a própria noção de uma ‘pessoa’ é sempre já fabricada. Etimologicamente (e não apenas etimologicamente), uma ‘pessoa’ é uma máscara.

Conforme os hominídeos arcaicos foram sendo seletivamente adaptados a relações sociais cada vez mais complicadas, eles foram facializados. O olho humano adquiriu sua esclera branca, para acentuar a expressividade, tornando a direção da atenção diretamente comunicativa. Com a chegada da linguagem, gestos e expressão foram aumentados por mensagens articuladas. O ‘gerenciamento da face’ se tornou um sumidouro exigente de funcionalidade cognitiva, em seus aspectos de desempenho e interpretação. Uma nova e instintiva ‘teoria da mente’ começara a acreditar em pessoas e – quase com certeza simultaneamente – a se identificar como uma. Este era um novo tipo de pele, ou superfície sensível. A partir da sociabilidade psicológica, um modelo do eu enquanto ser social, auto-escrutinado como um objeto de atenção de outro de seu tipo – isto é, um ego – nascia.

A ‘pessoa interna’ não corresponde a nada real. A pessoa, ou eu socialmente desempenhado, é essencialmente superficial. É irredutivelmente teatral. Ela existe apenas enquanto modo de inserção dentro de um jogo de múltiplos jogadores.

Como quer que, em última análise, venhamos a fazer sentido da agência e do destino, não será em termos comensuráveis com a pessoa (a face), a não ser por contumaz autoengano. A liberdade pessoal é um ato, uma performance dentro de uma peça. Não têm nenhuma profundidade real. Todas as perguntas dirigidas a ela estão condenadas à confusão. A coisa real – livre ou predestinada – veste uma face, como um papel atribuído no interior do mundo.

A inanidade do Facebook e também sua extrema popularidade se seguem quase imediatamente deste arranjo. O escritor tem que assumir uma face. A estupidez destes retratos, que adornam capas de livros e colunas de notícias, é indistinguível de sua necessidade social. Cada um é já uma pequena teoria da conspiração, uma má atribuição de agência, baseada na absurda tese símia de que as palavras saem da face. Não leve palavras a sério até que você possa ver o branco de seus olhos – avalie a qualidade do sorriso que acompanha o pensamento. Assim, tudo desaparece.

É para além da face – fora dela – que a ocorrência é decidida, as peças, escritas. Se não começarmos ali, não estamos sequer começando.

Original.
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