John Michael Greer medita sobre o tópico do Ebola (em um post tipicamente luxuriante, que se dirige, em última análise, a um outro lugar):

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o número de casos de Ebola na atual epidemia está dobrando a cada vinte dias e poderia atingir 1.4 milhões por volta do começo de 2015. Vamos arredondar para baixo e dizer que existam um milhão de casos em 1º de janeiro de 2015. Vamos assumir também, por bem do experimento, que o tempo de duplicação continue o mesmo. Assumindo que nada interrompa a propagação continuada do vírus e que os casos continuem a dobrar a cada vinte dias, em qual mês de qual ano o número total de casos será igual a população humana deste planeta? […] …os passos que poderiam impedir o Ebola de se espalhar para o resto do Terceiro Mundo não estão sendo tomados. A menos que recursos massivos sejam comprometidos com essa tarefa – como em antes do fim deste ano – existe a possibilidade de que, quando a pandemia finalmente relaxar daqui a alguns anos, dois ou três bilhões de pessoas possam estar mortas. Precisamos considerar a possibilidade de que o pico da população global não é mais uma abstração confortavelmente colocada em algum lugar no futuro. Ela poder estar batendo à porta do futuro agora mesmo, tremendo de febre e pingando sangue de suas gengivas.

A escala eventual do surto de Ebola é uma incognita conhecida. Um número de pessoas, entre alguns milhares e vários bilhões, morrerá e uma distribuição incerta de probabilidade poderia ser atribuída a estas cifras – sabemos, pelo menos aproximadamente, onde estão os pontos de interrogação. Antes do presente surto começar, em dezembro de 2013 (na Guiné), sabia-se, claro, que o Ebola existia, mas, nesse estágio, a ocorrência de um surto – e não meramente seu curso – era uma incógnita. Antes do vírus do Ebola ser cientificamente identificado (em 1976), o patógeno específico era um membro desconhecido de uma classe conhecida. Com cada passo atrás, avançamos em abstração, em direção ao reconhecimento de ameaças de um tipo ‘cisne negro‘. O X-risco do Grande Filtro é um modelo proeminente de tal ameaça abstrata.

O ceticismo, enquanto empreitada positiva ou construtiva, orienta a inteligência em direção a potenciais abstratos. Em vez de insistir que ocorrências inesperadas não precisam ser ameaças, é teoricamente preferível sutilizar a noção de ameaça, de modo que ela englobe mesmo resultados benéficos como potenciais abstratos. O desconhecido é, em si, ameaçador para animais tímidos, cujas condições de florescimento – ou mesmo de mera sobrevivência – são naturalmente tênues sob condições cósmicas em que a extinção é normal (talvez esmagadoramente normal) e para quem uma mudança imprevisível, que rompe procedimentos estabelecidos, apresenta – no mínimo – alguma probabilidade de dano assustadoramente indefinida.

Os humanos não são bons nessas coisas. Considere a discussão (extremamente interessante) de Scott Alexander sobre o Grande Filtro. A observações de abertura são perfeitamente direcionadas, movendo-se do perigo específico para a ameaça ‘geral’:

O Grande Filtro, lembre-se, é a adaptação de horror do Paradoxo de Fermi. Todos os nossos cálculos dizem que, na infinita vastidão do tempo e do espaço, alienígenas inteligentes deveriam ser muito comuns. Mas não vemos nenhum deles. […] Por que não? […] Bem, o Grande Filtro. Ninguém sabe especificamente o que é o Grande Filtro, mas, em geral, é “aquela coisa que impede os planetas de criarem civilizações espaciais”.

Conforme se desenvolve, contudo, o post deliberadamente recua da abstração, para dentro de uma enumeração de ameaças já vislumbradas. Após percorrer várias candidatas, conclui:

Três dessas quatro opções – x-risco, IA Não Amigável e exterminadores alienígenas – são muito muito ruins para a humanidade. Acho que se preocupar com essa ruindade tem sido muito do que tem criado interesse pelo Grande Filtro. Também acho que essas são algumas das explicações possíveis menos prováveis, o que significa que deveríamos ter menos medo do Grande Filtro do que geralmente se acredita.

O que SA realmente demonstrou, se seus argumentos até este ponto forem aceitos, é que a ameaça abstrata do Grande Filtro é significantemente maior do que já foi concebida. Nossos pesadelos lúcidos são mostrados estarem aquém dela. A ameaça não pode ser compreendida como uma incógnita conhecida.

Ao passo que o Grande Filtro destila a concepção da ameaça abstrata, o problema em si é mais amplo e mais cotidiano. É o fato altamente provável de que ainda temos que identificar os maiores perigos e que esse desconhecimento da ameaça é uma condição estrutural, em vez de uma deficiência contingente de atenção. Em termos Popperianos, a ameaça abstrata é a essência da história. É o futuro, entendido de maneira estrita. Para lustrar o argumento Popperiano: O entendimento filosófico da ciência (em geral) é imediatamente o entendimento de que qualquer história preditiva da ciência é uma impossibilidade. A menos que a ciência seja julgada como sendo um fator de insignificância histórica que se anula, as implicações desta tese transcendental são de longo alcance. Ainda assim, o domínio da ameaça abstrata se espalha ainda mais extensivamente do que isto.

“Eu só sei que nada sei” pensa-se que Sócrates pensava. A concepção de ameaça abstrata exige um leve ajuste: Sabemos apenas que não sabemos o que não sabemos. Incógnitas desconhecidas predominam cosmicamente.

Sua segurança está construída sobre areia. Esta é a única conclusão sã.

Original.
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One thought on “Ameaça Abstrata

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