Em muito do campo neorreacionário, ‘liberalismo’ é o ponto final da discussão. Sua função argumentativa é exatamente aquela de ‘racismo’ para a esquerda. A única questão, até onde essa postura está preocupada, é se é possível fazer o termo colar. Uma vez que a letra escarlate do ostracismo microcultural seja atribuída, não há mais nada mais para se discutir. É improvável que isto mude, exceto nas margens.

A preliminar óbvia a este tópico é, se não exatamente ‘inglês americano’, algo do tipo. ‘Liberalismo’, na língua americana, chegou a um espaço estranho, exclusivo desse continente. É notável e incontroverso, por exemplo, que a noção de um ‘liberal de direita’ é considerada um oximoro perfeito pelos falantes americanos, onde, na Europa – e, especialmente, na Europa continental – ela está próxima de um pleonasmo. Uma vez que nós ainda, em uma medida bastante considerável, habitamos um mundo americano, o termo expandido ‘liberal clássico’ agora é requerido para transmitir o sentido tradicional. Um bretão de inclinações capitalistas provavelmente favorecerá ‘Liberal de Manchester’ por suas associações históricas com a ideologia explícita da revolução industrial. Em todo caso, a discussão tem sido inquestionavelmente complicada.

A linguagem política tende a se tornar dialética, no sentido mais depravado (hegeliano) deste termo. Ela se balança desvairadamente para dentro de seu oposto, conforme é trocada como uma bandeira contestada entre partes conflitantes. Significâncias políticas estáveis se aplicam apenas ao que quer que a esquerda (a ‘oposição’ ou ‘resistência’) ainda não tenha tocado. Uma outra consideração, então, para aqueles dispostos à fé ingênua em signos ideológicos como marcadores heráldicos. (É uma que ameaça a desviar este post para dentro de uma digressão excessiva e deve, assim, ser deixada – na linguagem da Wikipédia – como um ‘esboço’.)

A proposta deste blog é situar ‘liberal’ na intersecção de três termos, cada um essencial a qualquer significado recuperável e culturalmente tenaz. Ele é irredutivelmente moderno, inglês e contra-político. ‘Liberdades antigas’ são pelo menos imagináveis, mas um liberalismo antigo não é. Pode-se desejar a melhor sorte para liberalismos estrangeiros, porque eles certamente precisarão dela (uma exceção aos holandeses, apenas, é plausível aqui). Liberalismo político é, desde o princípio, um paradoxo prático, embora talvez, em certos casos raros, um que valha a pena perseguir.

Burke é, sem espaço sério para dúvida, um liberal neste sentido. Ele é até mesmo sua epítome.

O conteúdo positivo deste liberalismo é a cultura não-estatal do modernismo inglês (primordial), como representado (com um bocadinho de ironia étnica) pelos pensadores do Iluminismo Escocês, pela tradição da ordem espontânea em sua linhagem anglófona, pela concepção de sociedade comercial como alívio da política e pelas abordagens naturalistas (‘darwinistas’) que posicionam o dinamismo distribuído e competitivo como o princípio explicativo e genético absoluto. Esta é a fundação cultural que tornou o inglês a língua comum da modernidade global (como já foi amplamente observado). Na economia política, seu princípio supremo é a catalaxia (e, apenas muito condicionalmente, a monarquia).

É a partir desta matriz cultural que Peter Thiel fala, quando ele diz (notoriamente):

Eu não acredito mais que liberdade e democracia sejam compatíveis.

A democracia é criticada da perspectiva do (antigo) liberalismo. A compreensão é perfeitamente (mesmo que, sem dúvidas, incompletamente) hoppeana. É uma quebra que preparou muitos (o autor deste blog incluso) para Moldbug e estruturou sua recepção. Ela também estabeleceu limites. A democracia é denunciada, fundamentalmente, por sua traição à liberdade anglo-modernista. A formulação de Hoppe não pode ser melhorada:

A democracia não tem nada a ver com a liberdade. A democracia é uma variante branda do comunismo e raramente na história das ideias ela foi tomada como qualquer outra coisa.

Os comentários explícitos de Moldbug sobre este ponto são notavelmente consistentes, mas não sem ambiguidades. Ele escreve (eu contendo, tipicamente):

A verdade sobre o “libertarianismo” é que, em geral, embora soberania seja soberania, o soberano – quer seja homem, mulher ou comitê – esteja acima da lei por definição e não haja qualquer fórmula ou ciência do governo, as políticas libertárias tendem a ser boas. Tampouco precisávamos de Hayek para nos dizer isso. Era sabido por meu homônimo, mais de dois milênios atrás. […]Wu wei – pois este é seu verdadeiro nome – é uma política pública para um príncipe virtuoso, não um comitê gigantesco. O príncipe virtuoso deveria praticar wu wei e irá; esta é sua natureza. Os homens se reunirão em seu reino e prosperarão ali. O príncipe mau cometerá atrocidades; esta é sua natureza. Os homens fugirão de seu reino e deverão fazê-lo assim que possível, antes que ele coloque os campos minados.

Esta reunião e fuga deve ser conceitualmente subordinada à análise da soberania ou – em contraste (e à maneira de Canuto, o Grande) – colocada acima dela, como o Mandato do Céu acima do Imperador, o que é dizer: como o contexto envolvente das relações externas, fundamentado apenas no Lá Fora? A despeito de acusações antecipadas de má fé, essa é uma questão séria e uma que não pode plausivelmente ser considerada simplesmente exterior à obra e ao pensamento de Moldbug.

Em todo caso, é a linhagem da Liberdade Inglesa (e, para além dela, Wu wei, ou o Mandato do Céu) que comanda nossa lealdade aqui. Na medida em que Moldbug contribui com isso, ele é um aliado, de outra forma, um inimigo, o brilhantismo e a imensa estimulação de seu corpus não obstantes. A NRx, da maneira em que agora existe, similarmente.

“… o Estado não deveria estar administrando as mentes de seus cidadãos” escreve Moldbug. (Isso é, na verdade, um pouco mais moralista – em uma admirável direção liberal – do que aquilo com que eu estou totalmente confortável.)

Original.
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