Mesmo antes da catástrofe da twiterização e da desintegração terminal do pensamento em nanopartículas, a orquestração sinfônica obviamente não emergia como competência central deste blog. Uma consequência infeliz desta deficiência é que ideias altamente persuasivas para o blog são interminavelmente chutadas como latas, a menos que possam ser facilmente pulverizadas.

“Ideias para o blog” não significa nada grandioso (esse tipo de pensamentos que estilhaçam qualquer coisa em seu caminho e penetram), mas sim pacotes de discussão altamente adaptados ao meio de transmissão, que apresentam as coisas de uma forma que acumulem acessos. O exemplo mais relevante nesse momento é  – ou, melhor, ‘era para ser’ – As X Disputas Fundamentais da Neoreação (‘X’ sendo um número ainda não definido – otimamente, de significância qabalística oculta). Esse filhote teria acumulado visualizações como o Old Faithful, mas a confusão reina, e a paciência acabou. Vai para a máquina de trituração.

As principais provocações a este espasmo de impaciência são dois posts sobre o tópico do monarquismo, no Anomaly UK e no More Right. O grande post no AUK é estruturado como um cenário de ficção científica, modelando um futuro regime monarquista, ao passo que a defesa de Michael Anissimov no MR do “tradicionalismo e monarquismo” é organizada de forma dialética. Ambos servem para consolidar uma afinidade entre a neorreação e os ideais monarquistas que já estava estabelecida pelo Jacobitismo de Moldbug. Não seria desarrazoado propor que esta afinidade é forte o suficiente para se aproximar de uma identidade (o que bem possivelmente é o que ambos esses autores contemplam). Assim, o momento de se enquadrar o argumento monarquista dentro de uma questão, como uma Disputa Fundamental da Neorreação, é agora.

Talvez a primeira coisa a se notar é que, muito embora este blog adote a posição antimonárquica nesta disputa, ele acha a descrição do Anomaly UK de uma futura Grã-Bretanha notavelmente atraente e – sem qualquer hesitação – uma vasta melhoria do atual estado sinistro dos arranjos políticos daquele país. Além disso, não há uma única objeção à ideia monarquista, entre as dez listadas por Anissimov, que achemos sequer ligeiramente convincentes. Se aquelas fossem as razões para se recusar o governo monárquico, qualquer sugestão de sentimento republicano nos impressionaria como uma perversão detestável. Nossa insatisfação com a solução monarquista tem outros fundamentos.

A preocupação primária é abstratamente constitucional, ou seja, ela surge de considerações de engenharia política. Para nossos propósitos aqui, o conceito de ‘governo constitucional’ pode ser especificado de forma bem exata, referindo-se a um desenho do mecanismo de poder que alcança fechamento cibernético. Uma constituição adequada projeta uma fragmentação de autoridade, de modo que cada elemento não seja mais controlado do que controlador, com o resultado de que a soberania emerge a partir de um sistema distribuído, em vez de ser inerente, em forma concentrada, a qualquer nó em particular. O modelo mais simples para um sistema desses é um triângulo dinâmico, comparável ao circuito de papel-tesoura-pedra, em que o poder flui de maneira não linear, ou circula. Assim concebida, uma constituição é um plano para a dissolução de reservatórios de poder, no qual a função administrativa ótima de cada nó é um contrapeso, ou restrição, à autoridade efetiva dos nós seguintes (dentro de um arranjo circular). A realização da autolimitação governamental dinamicamente estável através da fragmentação estratégica (de funções e poderes) é o objetivo constitucional.

Claramente, o monarquismo representa um abandono definitivo desta ambição constitucional. Ele afirma que, uma vez que a soberania não pode ser efetiva ou permanentemente desmantelada, a atenção racional está melhor focada em sua expressão concentrada. O argumento monarquista é capaz de extrair grande sustentação da manifesta degeneração do constitucionalismo republicano – mais obviamente dentro dos Estados Unidos da América – onde sua possibilidade mais radicalmente deteriorada, a democracia de massas, revela uma inferioridade dificilmente contestável em relação ao governo monárquico nas manchetes de notícias de cada dia. É necessário enfatizar, neste ponto, que qualquer republicanismo constitucional que seja menos antidemocrático do que a monarquia absoluta é, neste sentido, desprezível. A neorreação é essencialmente antidemocrática, mas apenas hipoteticamente monarquista.

O republicanismo, assim como a monarquia, tem um arquivo histórico rico e profundo de exemplos em que se basear, que remonta à antiguidade clássica. A confusão entre governo republicano e democracia é uma eventualidade recente e infeliz. As razões históricas desta confusão não são, de forma alguma, triviais, mas tampouco elas apontam inexoravelmente para a conclusão monarquista. É especialmente importante considerar a possibilidade de que a destruição domótica dos regimes monárquicos e das repúblicas funcionais foi um processo paralelo, em vez de uma sucessão (na qual o republicanismo teria servido como uma estágio intermediário de desorganização política). Uma análise histórica detalhada das revoluções de 1848 exibiria um pouco da complexidade que este tópico introduz. Em particular,  isso levanta a questão de por que o modelo da República Holandesa (1581-1795) foi incapaz de oferecer um padrão de governo constitucional de relevância efetiva para além da Anglosfera. Da perspectiva do republicanismo constitucional, a influência limitada do exemplo holandês marca um bifurcação histórica fatal, que expôs os povos europeus à calamitosa luta bipolar entre forças monárquicas e democráticas (a partir da qual nossa presente ruína foi tramada). Também é imediatamente evidente, a partir desta perspectiva, que a emergência da organização econômica avançada é inextricável da propagação do modelo holandês (transplantado para o Reino Unido pela Revolução Gloriosa de 1688 e dali para o Novo Mundo Anglófono). Uma vez que o capitalismo é a epítome do fecho cibernético – um sistema sem nós não controlados – essas conexões não deveriam nos surpreender.

Uma vez que o monarquismo descarta a possibilidade de fechamento cibernético e, assim, nos pede para aceitar a inevitabilidade de nós não controlados, ou a soberania concentrada, ele necessariamente se compromete em relação aos prospectos da seleção meritocrática. Ele argumenta, de maneira sólida o suficiente, que podemos fazer bem pior do que reis e que o fizemos, mas, ao fazer este argumento, ele fica bem aquém do mecanismo selecionador de excelência que o capitalismo rotineiramente demonstra. Quando Moldbug compara um monarca a um CEO, é com o entendimento de que – sob condições de aproximada livre iniciativa – a liderança empresarial foi socialmente peneirada em busca de talentos raros, de uma forma que a sucessão dinástica não conseguiria igualar. O fato de que o resultado da seleção democrática-eleitoral é, de forma confiável, bem pior do que a alternativa monárquica não indica que a ‘realeza’ represente uma solução impressionante para o problema meritocrático – ela simplesmente é menos apavorante que a que atualmente predomina entre nossos sistemas políticos contemporâneos. É o capitalismo que encontrou a solução, da qual qualquer política racional buscaria aprender.

Que a monarquia é superior à democracia é um ponto seguro de consenso neorreacionário, mas esta é uma marca extremamente baixa a se estabelecer. Que há qualquer coisa além disso recomendar o retorno dos reis permanece uma questão não resolvida de disputa.

Original.
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