Que calamidade maior poderia um neologismo herdar do que uma paternidade tecno-hippie? Tal destino, aparentemente, induz mesmo outros tecno-hippies a contorná-lo (enquanto o repetem quase exatamente). Mas é preciso ser dito, através de dentes cerrados ou não, que ‘extropia’ é uma ótima palavra e uma quase indispensável.

Extropia, ou redução local de entropia, é – bastante simplesmente – o que é necessário para que algo funcione. Toda a tecno-ciência da entropia, em seu lado prático (cibernético), não é nada além de geração de extropia. Não há nenhuma conceituação rigorosa de funcionalidade que realmente a evite. A aproximação mais estreita de valor objetivo que jamais será encontrada já tem um nome, e ‘extropia’ é ele.

A importância deste termo para a investigação do tempo é colocada em foco pela obra de Sean Carroll (embora, claro, ele nunca a use). Se a direcionalidade ou ‘seta’ do tempo é entendida da forma em que Eddington propôs, através da crescente entropia (ou desordem) global, como antecipado pela segunda lei da termodinâmica, a extropia local apresenta uma questão intrigante.

A discussão de Carroll é dirigida ao seu sentido do problema temporal e cosmológico último: o estado de baixa entropia do universo primordial (assumido, mas não explicado, pela cosmo-física predominante). Dado este ímpeto intelectual, o problema da produção de entropia negativa (extropia) é pouco mais do que uma distração ou uma objeção espúria ao andaime conceitual que ele apresenta. Ele comenta:

A Segunda Lei não proíbe decréscimos em sistemas [abertos] – ao inserir trabalho, você é capaz de arrumar seu quarto, diminuindo sua entropia, mas ainda aumentando a entropia do universo como um todo (você faz barulho, queima calorias, etc.). Tampouco ela é incompatível de qualquer forma com a evolução ou com a complexidade, ou com qualquer coisa do tipo.

A questão desconcertante, contudo, é esta: Se a entropia define a direção do tempo, com a desordem crescente determinando a diferença entre o futuro e o passado, a extropia (local) – através da qual todos os seres cibernéticos complexos, tais como formas de vida, existem – não descreve uma temporalidade negativa ou reversão do tempo? Não é, na verdade, mais provável, dada a inevitável inserção da inteligência no tempo “invertido”, que seja a concepção cosmológica ou geral de tempo que esteja invertida (a partir de qualquer perspectiva naturalmente construída possível)?

Qualquer que seja a conclusão, é claro que entropia e extropia têm assinaturas temporais opostas, de modo que a inversão do tempo é um fato cosmológico relativamente banal. ‘Nós’ habitamos uma bolha de tempo reverso (quem quer que sejamos), embora imersos em uma ambiente cósmico que flui irresistivelmente na direção contrária. Se a realidade é severa e estranha, é por isso.

Original.
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